Como o projecto de tratado de que Soares Leal fôra infeliz portador não

passava de uma copia do contra-projecto offerecido em Londres por

intermedio de Villa Real, decidiram com sobeja razão os dous

plenipotenciarios brazileiros não mais existir motivo para acceitar este

_ad referendum_, segundo ficára accordado com Canning, e sim para

rejeital-o _in limine_, pois sem querer tinham-se tornado previamente

conhecidas as vistas do gabinete do Rio de Janeiro sobre o assumpto. Em

Despacho recebido na Legação pelo mesmo tempo communicava o Ministro dos

Negocios Estrangeiros do Brazil que, não podendo mais confiar na lisura

do Governo Portuguez com o triste exemplo que acabava de dar da sua

tergiversação e má fé, recusava-se o Imperador a mandar publicar a

declaração de cessação das hostilidades. Regressava-se assim, após mezes

de diligencias, á phase primitiva das negociações quando, de harmonia

com as instrucções originariamente expedidas a Caldeira Brant e Gameiro,

o armisticio estava dependente do reconhecimento da independencia do

Imperio pelo Reino.

[Sidenote: Desavença entre Villa Real e os enviados brazileiros.

Subsequente reconciliação.]

Tudo de resto caminhava mal e as cousas appareciam mais atrazadas do que

antes mesmo de iniciadas as trocas de impressões entre as partes

contrarias e os medianeiros. Na occasião em que se effectuára a

conferencia de 11 de Novembro, em cujo decorrer Villa Real participou a

natureza do contra-projecto, o qual motivaria tamanho e tão justificado

alvoroço, as relações entre os plenipotenciarios brazileiros e o

plenipotenciario portuguez achavam-se suspensas por causa de um

incidente, pode dizer-se alheio ás negociações pendentes. Gameiro

dirigira ao conde de Villa Real, a proposito de uma letra cujo montante

devia ser recebido e recolhido pelo Banco do Brazil, uma carta

_official_ a que o ministro portuguez estranhou o caracter, retorquindo

por escripto com uma vivacidade muito peninsular mas quasi indesculpavel

n'um diplomata provecto, e deixando subir sua irritação ao ponto de, no

calor de uma conversação a respeito do negocio, desrespeitosamente

tratar o Imperador D. Pedro de _rebelde_. O marechal Caldeira Brant e o

cavalheiro Gameiro Pessoa retiraram-se cheios de dignidade, tapando os

ouvidos á _blasphemia_, como appellidaram a crúa designação, e

protestando ser-lhes de então em diante impossivel fallar com o

representante de D. João VI, ou com elle entreter qualquer communicação.

Villa Real logo depois cahiu em si e, não contentando-se com despachar

Esterhazy e Neumann como padrinhos da reconciliação, foi em pessoa

nobremente offerecer aos brazileiros as mais inequivocas desculpas pela

sua «proposição irreflectida.» Conforme acontece frequentemente nos

duellos, o apaziguamento fez-se á mesa: terminou por um jantar em casa

do principe Esterhazy e por uma segunda visita de Villa Real a Caldeira

Brant e Gameiro. A injuria ficou afogada no Tokay do magnate hungaro.

[Sidenote: Desunião moral entre Portugal e Brazil. Razões d'este estado

de espirito.]

Infelizmente as boas relações preservadas entre os diplomatas não

significavam boas relações entre os Governos que elles representavam e

cujos interesses defendiam: não passavam de anodinas trocas de

cumprimentos entre pessoas bem educadas. O Brazil e Portugal

conservavam-se arredados, tornando-se mais viva cada dia a antipathia

que os distanciava. Em Portugal os ministros de D. João VI eram, da

mesma forma que em sentido inverso no Brazil os de D. Pedro I, actuados

na sua aversão a legitimarem os factos consummados pelo sentimento

popular profundamente hostil á desunião. Sabemos todos os que temos

estudado esse periodo, o que era a plebe portugueza dos primeiros

decennios d'este seculo--não só ignorante como insubordinada, com certas

qualidades excellentes mas degradada pela degradação das classes altas,

cynicamente irreligiosa porque religião se não podia chamar o seu

fetichismo grosseiro, e porque não encontrava tal sentimento entre

aquelles que tinham por missão zelar o fogo sagrado. O clero regular,

tão numeroso, só merecia o desprezo do populacho, que o sentia mais

perto de si do que de Deus, e esta impiedade latente explica bem que,

com o voltairianismo da epocha constitucional, as crenças se houvessem

apagado tanto e tão depressa n'uma terra onde pareciam mantel-as

abrazadas as fogueiras do Santo Officio.

N'uma sociedade semelhante os vicios fermentavam mais do que floresciam

as virtudes, e as ruins paixões tinham-se certamente exacerbado com a

desgraça e a desordem. O odio á ex-colonia americana, começára porque

para ella haviam emigrado Rei e Côrte, abandonando a metropole á sua

triste sorte de paiz invadido. Os favores dispensados no dourado exilio

por D. João á terra onde se abrigára; a superioridade politica assumida

pelo reino ultramarino, que antes já possuia a superioridade economica;

a alheação que entre ambos os reinos mais e mais se estabelecia por

effeito de uma natural differenciação de idéas e de sentimentos, eram

outros tantos estimulos para aquelle odio, cujo crescendo culminaria com

a separação do Brazil, a qual todo Portugal considerou como uma

ingratidão a castigar e uma offensa a vingar. Nada concorreu mais para a

impopularidade das Côrtes do que a Independencia, immediatamente

attribuida, como era de esperar, á falta de tacto manifestamente

exhibida pelos liberaes em todos os seus actos publicos, e mais

remotamente á ligação das sociedades secretas do Reino com as do

ultramar. Dispersando as Côrtes, D. Miguel tomava a desforra da perda do

Brazil mais do que punia a rebeldia contra o poder absoluto dos reis, o

qual cahira insensivelmente em desprestigio. A ausencia do monarcha

redundaria logicamente na presumpção de ser quasi dispensavel a

instituição, e o respeito pelos symbolos e attributos externos da

realeza desapparecêra por forma tal que, durante a regencia da junta, os

coches de gala da Corôa, cuja coberta de brocado resguardára a vaidosa

cabeça de D. João V e sobre cujos coxins de damasco tinham-se recostado

a provocante princeza de Nemours, a garbosa D. Marianna d'Austria e a

soberba D. Maria Victoria de Bourbon, alugavam-se para baptizados a

troco de alguns cruzados, com que os empregados subalternos do Paço se

subtrahiam ao ingrato fado da bicharia exotica reunida por D. Maria I no

jardim do palacio de Belem e que fôra toda destruida pela fome.

[Sidenote: O papel de D. Miguel. Palmella e Subserra.]

A reacção miguelista não teria sido possivel com uma monarchia unida. D.

Pedro durante a sua contenda em prol do throno da filha, teria muito

mais que luctar contra a recordação do seu feito de 7 de Setembro de

1822 do que contra o apego da nação ás suas formulas e tradições. Por

seu lado D. Miguel, com o seu porte desempenado, o seu enthusiasmo

vibrante, a sua brutalidade attrahente, como apparecia aos

contemporaneos portuguezes; com o seu sorriso meigo, a sua conversação

acanhada, os seus accessos de furiosa gesticulação, o seu todo seductor,

como o viu e nol-o descreve Madame de Lieven, encarnou aos olhos do

vulgo muito mais o velho regimen colonial do que o obsoleto direito

divino. Para dominar a ira nacional portugueza, faziam-se mister um

nervo que não possuia o pobre D. João, _a very cunning as well as a very

weak man_, na phrase do embaixador A' Court; uma tempera de aço que não

era a do intelligente e refinado Palmella, e uma superioridade de vistas

que estava longe de distinguir Subserra, cuja ambição de mando era o

movel unico que o fizera passar de jacobino a liberal, depois a

absolutista e por fim a constitucional. Os dous ministros, um culto e o

outro brusco, um frouxo e o outro virulento, um cortezão e o outro

soldado, não se completavam, annullavam-se. Eram electricidades

contrarias que o pára-raios real impedia de encontrarem-se produzindo

destruição e levava a descarregarem suavemente, perdendo-se na terra o

seu fluido que, combinado, poderia talvez gerar na ruina uma força

fecunda e regenerante. A situação continuava assim neutra, gravida de

perigos, angustiosa.

[Sidenote: Resolução de Canning.]

Canning--o benemerito Canning segundo o tratavam os enviados brazileiros

na sua correspondencia para o Rio--quiz baldadamente serenar a

atmosphera: tenazmente forcejou por fazer modificar pelos proponentes o

mal acolhido e mal fadado contra-projecto de paz, para isto usando de

toda a sua auctoridade junto ao ministerio de Lisboa. Não confiando

porem demasiado em que a côrte portugueza chegasse a adquirir a

percepção das condições do momento historico que atravessava, e como

sempre vendo claro no que estava para acontecer, o Secretario d'Estado

de S. M. Britannica desde logo planeou e poz de reserva um golpe de

mestre. Pelo que consta de uma carta de Caldeira Brant para D. Pedro I a

10 de Dezembro de 1824, com novas e repetidas instancias para o

rompimento das hostilidades no intuito de facultar ao Imperio dictar a

paz ao Reino, o amor proprio de Canning estava extremamente picado com o

proceder dubio de Portugal na questão da intentada negociação

clandestina. Mandando ao Brazil um emissario secreto, o gabinete da

Bemposta accedêra conscientemente ás insinuações da Santa Alliança, da

Russia e França nomeadamente, potencias que tanto queriam frustrar a

obra da Independencia, reflexo da politica de nacionalidades contra a

qual se organisára o concerto dos Reis, como despojar a Grã Bretanha, e

Canning designadamente, da gloria e das vantagens de ter conduzido a bom

termo a ardua negociação. N'uma carta, já citada, a Lord Liverpool em 25

de Outubro de 1824, escrevia Canning que vira o bastante da

correspondencia entre Palmella e Villa Real para comprehender que o

projecto de ambos era em ultima instancia romper as negociações de

Londres e fazer sahir do Tejo a quixotesca expedição. No caso de

realizar-se este designio, a esquadra britannica surta diante de Lisboa

não poderia, segundo Canning, alli permanecer, de facto protegendo uma

tal politica, incompativel com a orientação do Governo Inglez, que, si

respeitava a corôa portugueza, não desejava fazer sossobrar a monarchia

brazileira. Justamente, como a divisão naval, britannica seria

infallivelmente substituida no Tejo por uma esquadra franceza, a

Inglaterra, afim de determinar a compensação, daria em direcção ao

Brazil os passos que dava afastando-se de Portugal.

[Sidenote: Bons conselhos de Canning.]

Canning tinha o direito de mostrar-se impaciente. Os conselhos por elle

dados ao Governo Portuguez quando lhe offerecêra o seu projecto de

tratado, haviam sido os mais acceitaveis e sensatos. Não cabendo nas

forças de Portugal sujeitar o Brazil pelas armas, o mais prudente era

intuitivamente não manifestar azedume nem resentimento, e não alimentar

odios que, facilmente extinguiveis de começo, se tornariam depois de

accesos em extremo difficeis de apagar. Como vingança, o adiar _sine

die_ o reconhecimento e fomentar a desaggregação do Imperio (segundo

ensaiaria a Republica Argentina no momento do conflicto pela Cisplatina)

não passava de uma estupidez perversa, porque em nada aproveitaria ao

Reino, seria indigno de um Monarcha e Pai, e perderia para a dynastia

metade do patrimonio da Casa de Bragança, o qual, após uma curta

separação, podia tornar a congregar-se nas mãos da sua descendencia, si

as Côrtes de Lisboa não arredassem os titulos hereditarios do Imperador

do Brazil, e o Rei de Portugal attrahisse a boa vontade dos Brazileiros

concedendo por livre vontade aquillo que não mais podia recuperar pela

força. A sinceridade de Canning n'esta ultima parte do seu arrazoado é

um tanto discutivel, porque nem elle podia acreditar nem desejar a

reunião das duas partes da monarchia portugueza, mas não se lhe pode

levar a mal o emprego de uma pequena dose da duplicidade diplomatica de

que o faziam diariamente victima, com o fim de obter a «paz com honra»

que marcaria depois o triumpho de um outro prestigioso chefe _tory_.

Canning não escondia aliás que o indefinido retardamento de uma decisão

por parte de Portugal equivaleria á liberdade de acção por parte da

Inglaterra. Dispondo da amizade britannica, nada tinha Portugal a recear

por deixar de seguir os conselhos de intransigencia da Russia, como

tampouco ganharia alguma cousa seguindo-os. O que lucrára a Hespanha com

obedecer ás suggestões de Alexandre I? O seu imperio colonial

escapára-lhe todo sem remissão. Ainda Alexandre I era um soberano de

puras intenções; o proceder da França poderia porem encobrir um duplo

sentido. Traduziria porventura um leal designio de adaptar a sua

politica portugueza á politica geral das côrtes continentaes; poderia no

emtanto significar tambem um estratagema para exigir e obter um preço

mais elevado pelo seu reconhecimento isolado, precedendo o da Inglaterra

e não levando em conta as delongas de Portugal.

[Sidenote: O reconhecimento em França.]

A correspondencia de Domingos Borges de Barros, nosso encarregado de

negocios em Pariz depois da transferencia de Gameiro para Londres, dá

com effeito a impressão que a França não oppunha absolutamente uma

denegação formal á idéa do reconhecimento do Imperio, antes usava com o

agente brazileiro de uma linguagem promissoria. Começa pelas seguintes

palavras a carta de Borges de Barros a Caldeira Brant e Gameiro em 22 de

Abril de 1824: «A França devendo obrar de acordo com as Potencias com

que forma a grande Alliança continental, não pode sem quebrar aquele

laço reconhecer de per si, e abertamente o Imperio do Brazil, comtudo

conhecendo talvés melhor que as outras, ou a justiça da nossa causa, ou

seus particulares interesses que com efeito são taes que mais que dos

outros Aliados convidão a relaçoens com o Imperio do Brazil, alem das

outras se tem prestado ás nossas coizas já convindo em umas com o

primeiro de VV. SS., e já em outras commigo.» O Imperio, quando andava

tratando de arranjar padrinhos europeus para a sua chrisma politica,

tambem insinuára á França que acceitaria para o reconhecimento por

Portugal a sua mediação disfarçada em bons officios. Prevaleceram porem

os bons officios da Inglaterra, e a França ficou esperando, para

resolver sua acção, que as negociações de Londres chegassem a um

resultado, embora, longe de facilital-as, pela força mesmo das

circumstancias viesse a combatel-as.

Pessoalmente Luiz XVIII não estimaria menos, na sua qualidade de chefe

da Casa de Bourbon, ser parte nos ajustes de paz, e si houvesse sido

convidado pela Inglaterra e Austria a associar-se a ellas, e tivessem

reservado á França o seu quinhão de vantagens, é muito provavel que o

Rei deixasse a Russia urdir sósinha a sua teia reaccionaria. N'esta

previsão é que o futuro visconde da Pedra Branca na mesma carta aos seus

collegas de Londres recommendava de principio que se procurasse

«conservar a boa dispozição em que estão os dois Governos, e não dar azo

a que com as franquezas que tem Portugal, seja tratado por mais amigo, e

o Brazil taxado de reserva grangeie o ar equivoco que se tem com aqueles

de quem a lhaneza entra em duvida». Chateaubriand levára sua

benevolencia ao ponto de mandar refutar, em artigo da folha officiosa do

ministerio, as noticias alarmantes do Rio espalhadas e exploradas por

pessoas que eram adversas ao Brazil, e ao emprestimo que os nossos

enviados em Londres estavam n'aquelle instante diligenciando obter. O

conflicto de interesses francezes e inglezes travado na côrte de

Portugal não permittiu comtudo a harmonia das duas nações n'esse

assumpto do reconhecimento em que ambas eram sympathicas ao Brazil, e

fez com que a França frequentemente nos hostilizasse, querendo

hostilizar a Grã Bretanha, com a qual estavamos identificados. As

expressões de cordialidade que acudiam aos labios de Chateaubriand nas

suas entrevistas com Borges de Barros, brigavam com a actividade de Hyde

de Neuville em Lisboa, o qual, no intuito exclusivo de abolir a connexão

entre Portugal e a Inglaterra, açulou a resistencia do Reino que, não

tendo mais o que invocar para explicar sua opposição, se apegára por

ultimo á phrase pomposa de que abandonar um tal imperio sem defender-se

seria deshonroso para a nação, e proclamára fazer questão pelo menos da

suzerania nominal do Rei de Portugal.

[Sidenote: Interesses britannicos na America latina.]

Ao resentir-se da interferencia aggressiva n'este negocio das potencias

que formavam a Santa Alliança, Canning partia do principio que qualquer

intervenção politica devia ser regrada, não pela theorica pretenção de

adaptar modos de administração a formulas abstractas, mas pela defeza de

interesses que corressem o risco de soffrer. Ora, como escrevia o

Secretario d'Estado dos Negocios Estrangeiros, nem a Russia, nem a

Austria, nem a Prussia possuia uma unica colonia transoceanica (com

excepção de Alaska), ou uma unica vela nos mares que banham as costas da

America do Sul, ou um unico fardo de mercadorias nos portos, quer de

Portugal, quer do Brazil. O que queria pois dizer que representantes

d'aquellas nações e da França se reunissem em Pariz para discutir e

emittir opinião sobre a questão de Portugal e Brazil, sem que tivessem

sido solicitados por nenhum dos dous paizes, mas extendendo sua

petulancia até desapprovarem a fallada convocação em Lisboa das

_antigas_ Côrtes e recommendarem a manutenção do estado de guerra entre

metropole e colonia? A usurpação de soberania era ahi tão flagrante que

o proprio Palmella se indignára com o occorrido e o criticára n'um

memorandum dirigido aos representantes acreditados na côrte portugueza

das potencias que haviam participado nas alludidas conferencias de

Pariz.

[Sidenote: Palmella e a Santa Alliança. Replica de Canning ao

contra-projecto.]

Palmella não partilhava de certo da opinião da Santa Alliança «de que

era preferivel destruirem-se mutuamente metropole e colonia a

attentar-se por qualquer forma contra a legitimidade, com a adhesão de

ambas a uma transacção salvadora»--era assim que Canning compendiára os

resultados das conferencias de Pariz. Na pratica porem Palmella, em vez

de persistir no seu ponto de vista liberal, condensára suas idéas n'um

contra-projecto, fazendo condições irrecusaveis das quatro primeiras

clausulas, que eram bastantes para annullar as negociações em andamento

e comprazer á politica da Santa Alliança. Canning analysou esse

documento com toda a sagacidade e brilho da sua formosa intelligencia.

Como, ponderava elle, fazer do Rei de Portugal o Imperador _senior_ do

Brazil, quando a dignidade imperial é essencialmente electiva e nunca

pertencêra a D. João VI, que d'ella nunca poderia revestir-se, tendo-a

D. Pedro recebido por acclamação, assim como Bonaparte a recebêra por

votação? O partido republicano no Brazil sem duvida por tão excellente

razão preferira aquelle titulo ao de Rei. Não cabia mesmo na alçada do

Imperador fazer semelhante concessão, sob pena de abrir um grave

conflicto, sem consultar as assembléas municipaes e propôr-lhes

acclamação igual em favor de seu Augusto Pai. A clausula relativa á

confecção e celebração por Portugal dos tratados de commercio referentes

ao Brazil, essa era tão absurda que nem valia a pena discutil-a

longamente, sendo impossivel que o Imperio abdicasse semelhante condição

indispensavel de autonomia.

Si Canning recommendára aos plenipotenciarios brazileiros em Londres e,

por intermedio de Chamberlain, aos membros do gabinete de São

Christovão, de não rejeitarem incontinente e sem debate o

contra-projecto, não era pois porque o achasse viavel na sua original

redacção, mas para evitar que as negociações se rompessem, fazendo assim

o jogo de Palmella e Villa Real no momento em que tal solução lhes teria

agradado.

[Sidenote: Intrigas francezas em Lisboa. Hyde de Neuville.]

Era o momento em que o papel diplomatico de Hyde de Neuville attingia

sua maior intensidade, tocando o auge os seus esforços para substituir o

protectorado britannico pelo francez, esforços que elle sinceramente

levava mais longe talvez do que convinha e sorria ao gabinete das

Tulherias. Depois da Abrilada as perseverantes intrigas francezas tinham

movido D. João VI a reiterar o pedido do reforço militar britannico, com

o fito occulto da parte dos que o instigavam a isto de, no caso de ser

recusado o favor, demonstrar-se a Portugal o egoismo da sua alliada e

justificar-se a installação de uma força franceza; emparelhando a

Inglaterra, no caso de ser acceita a indicação, com as nações da Santa

Alliança na sua politica commum de intervenção. Canning accedêra á ida

dos soldados hanoverianos de Jorge IV, mas, antes da partida, uma

declaração peremptoria do embaixador de Luiz XVIII em Londres sobre a

abstenção que com relação á questão portugueza qualificaria a attitude

das tropas francezas, então occupando a Hespanha, determinára o gabinete

de St-James a abandonar o projecto, no que concorreram a contra-gosto o

gabinete da Bemposta e, ainda mais contrariado, o fogoso embaixador

francez.

[Sidenote: Linguagem de Canning para o Brazil.]

Na exposição das suas vistas para uso do Governo do Rio de Janeiro,

Canning variára de linguagem, incluindo certos argumentos em favor da

consideração desapaixonada do contra-projecto, que não podem ser taxados

de viciosos ou forçados. D. João VI, lembrava elle, si assumisse o

titulo de Imperador do Brazil, tacitamente renunciava o de Rei do Brazil

que por direito lhe pertencia, e tão sómente lucraria uma honraria vã,

ficando substancialmente confirmada a auctoridade adquirida por D. Pedro

I, o qual conservava além d'isso os seus direitos hereditarios á corôa

portugueza, devendo d'esta maneira chegar no futuro a governar o Reino

como uma dependencia do Imperio, já que lhe era garantida a opção da

residencia. Canning confessava que n'esse ponto o seu proprio projecto

apparecia menos favoravel ás pretenções, suas e da sua prole, que o

Imperador do Brazil não podia deixar de zelar com relação ao throno dos

seus antepassados.

[Sidenote: Circular do Governo Portuguez.]

Emquanto Canning assim cumpria, como muito bem faz resaltar o seu

biographo Stapleton[26], as suas obrigações de mediador, procurando

suavisar a excitação que o contra-projecto certamente havia de despertar

no Rio de Janeiro, o Governo Portuguez, fiel á sua orientação, expedia,

além do emissario Leal ao Brazil, uma circular aos representantes da

Russia, Hespanha, França e Prussia, de facto appellando para a

intervenção continental sob pretexto de explicar mais detalhadamente o

contra-projecto. O enfado de Canning trasbordou n'um documento em que

verbera o acto do gabinete da Bemposta, immolando, para pedir o auxilio

da França e da Hespanha, todas as diligencias empregadas pela Grã

Bretanha havia dous annos em nome e em prol de Portugal, e, com invocar

a Russia e a Prussia, desgostando a Austria que por motivo das ligações

de familia dos Habsburgos com os Braganças adherira e perseverára nas

negociações para a paz, por mais que esse procedimento brigasse com os

seus compromissos internacionaes e os seus deveres moraes para com a

Santa Alliança. A ida de Soares Leal ao Rio de Janeiro--facto de que o

Secretario d'Estado britannico só teve conhecimento quando o emissario

chegou de torna-viagem -- confirmára ponto por ponto as apprehensões de

dolo e ludibrio que em Canning despertára a circular de Palmella, e

collocava a mediação anglo-austriaca n'uma postura quasi ridicula.

Canning desde esse dia assentou inabalavelmente em reconhecer o Imperio

sem mais demora, de parceria com Portugal si possivel, dispensando o

Reino si este persistisse na sua obstinação. Achou no emtanto equitativo

e habil começar pelo reconhecimento de outros paizes americanos que,

emancipados da sua metropole annos antes do Brazil, já offereciam certas

garantias de socego e estabilidade no governo.

[Sidenote: Deliberação de Canning com relação ao reconhecimento das

republicas hespanholas. Despeito de Brant e Gameiro.]

Historia diplomatica do Brazil: O Reconhecimento do Imperio · 第 7 / 18 段