as informações do panico que se apossára da cidade do Rio ao serem alli
conhecidos os preparativos da expedição portugueza, as gazetas de Lisboa
puzeram-se a insultar desaforadamente o Brazil. Por meio d'essa
expedição, ou do annuncio d'ella, imaginára Palmella, de ordinario tão
sensato, mas talvez um instante desorientado com a volta ao poder depois
da opera buffa da Abrilada, cujo ultimo acto se representára a bordo da
_Windsor Castle_, apoiar o seu plano politico de fraccionar o Brazil em
estados separadamente dependentes da metropole, assim lisonjeando o
sentimento particularista que elle se habituára a ver tão cioso na
Allemanha--a _Allemanha_ de Madame de Staël. O Imperio sómente lucrou
com taes ataques, de imprensa e de imaginação. A sympathia de Canning
pela causa brazileira cresceu em vista d'essa attitude antipathica
tomada pelos periodicos do Governo Portuguez e por este mesmo, que
patenteava n'essa inequivoca maneira sua reluctancia a tratar seriamente
da paz. Por seu lado o principe Esterhazy, o qual nas duas ultimas
conferencias denotára ter _pessoalmente_ sua queda pelo successo
diplomatico da ex-colonia, não entendeu que quebrava o seu orgulho
magyar indo á casa de Caldeira Brant e Gameiro aconselhal-os a
manterem-se na sua postura moderada e conciliadora. Ella acabaria por
conduzil-os ao melhor exito da sua missão, contribuindo a Austria para
tal resultado. Ao mesmo tempo promettia Canning aos delegados imperiaes
que o Brazil seria a primeira das nações americanas que o Governo
Britannico reconheceria e que até, estando a expirar os tratados de
1810, era de toda conveniencia para a Inglaterra regular suas relações
commerciaes com a Imperio. Segundo a declaração contida na Nota de
Carneiro de Campos a Chamberlain de 6 de Agosto de 1823, os tratados de
1810 subsistiam de facto por assim o preferir o Imperador, mas não
subsistiam de direito visto terem sido celebrados com a corôa
portugueza, e haverem caducado com a separação, não sendo compulsoria a
sua observancia por parte do Brazil.
[Sidenote: Contra-projecto portuguez.]
Em presença da cordialidade do embaixador austriaco e do Foreign Office,
revelada por aquella visita e por esta promessa, propuzeram-se Caldeira
Brant e Gameiro outra vez precipitar os acontecimentos e fazer
reconhecer logo o Imperio pela Grã Bretanha, caso o não reconhecesse
Portugal. Pensaram n'isso mais ainda quando, em começos de Novembro,
simultaneamente com a communicação do Governo Brazileiro[20] de que em
troca do reconhecimento faria a restituição das prezas e concederia as
vantagens commerciaes já propostas, «e que poderão ser augmentadas em
Tratado especifico», chegava o contra-projecto portuguez que para todos
foi uma decepção. Bastará dizer que principiava pelo rebaixamento do
Imperador a Regente e restabelecimento da perpetua soberania portugueza
sobre a colonia já completamente emancipada[21]. Canning promptamente
julgou o contra-projecto «desarrazoado e inadmissivel», mas pediu aos
plenipotenciarios brazileiros que o não rejeitassem _in limine_, antes o
acceitassem _ad referendum_ para ganharem tempo.
Caldeira Brant e Gameiro accederam ao alvitre por motivo de uma justa
deferencia pessoal para com o Secretario d'Estado, não escondendo porem
que o projecto portuguez seria formalmente repellido no Rio de Janeiro.
Para evidenciarem quanto estavam d'isso convencidos, fallaram até em
estipular-se na proxima futura conferencia, em que o tratado devia ser
officialmente apresentado por Villa Real, um prazo para a renovação das
hostilidades no caso de rompimento das negociações. Canning offereceu-se
para formular em pessoa a proposição e affirmou aos delegados imperiaes
que, uma vez rotas as negociações com Portugal, elle por sua conta
iniciaria outras para o reconhecimento pelo Governo Britannico da nova
nação americana, que os Estados Unidos acabavam justamente de
reconhecer. Entretanto assegurava-lhes que a Inglaterra permaneceria
neutral, dada a guerra, consentindo em que continuassem a servir na
armada brazileira os officiaes e marinheiros britannicos, excepção feita
dos desertores.
[Sidenote: Esforços dos enviados brazileiros em favor da paz.
Correspondencia entre Brant e Palmella.]
Apezar da manifesta sympathia de Canning ser sufficiente garantia de
destruição dos obstaculos, a Legação brazileira não descuidára outros
meios de attingir o objecto da missão que lhe fôra confiada. Em Julho,
auctorisado pelas relações affectuosas que entre ambos se tinham
estabelecido nos ultimos tempos da residencia da côrte no Rio de
Janeiro, escrevêra Caldeira Brant ao marquez de Palmella pedindo-lhe que
apressasse o inevitavel reconhecimento; ao que o marquez respondeu
collocando toda a questão no terreno da successão do throno, a qual
considerava bem mais importante do que a da independencia, de facto
gosada pelo Brazil desde que tinha sido elevado a reino e cumulado de
favores por El-Rei D. João VI. Atacar a acclamação do Imperador em si
mesma, recusar ao Povo Brazileiro o direito de confiar seus destinos a
um principe da sua livre escolha, seria na verdade, conforme Caldeira
Brant tornava saliente[22], dar um solemne desmentido a toda a historia
portugueza, negar a legitimidade de D. Affonso Henriques, do Mestre de
Aviz D. João I e do Duque de Bragança D. João IV. O essencial parecia a
Palmella saber-se como ficaria estabelecido para o futuro o consorcio ou
divorcio das duas corôas[23]. Para acudir a essa preoccupação magna em
Portugal, onde por tal porta travessa pensava-se volver á reconquista do
Brazil, é que Canning inserira no seu projecto o mencionado artigo
secreto, que não foi todavia do agrado do Imperador.
[Sidenote: Observações da Chancellaria brazileira ao projecto de
Canning.]
Accusando o recebimento d'este documento, respondia o ministro Carvalho
e Mello[25] recommendando aos enviados em Londres que acceitassem a
convenção, «fazendo d'isso quanto ser possa um merecimento para com o
Governo Inglez», mas não sem n'ella incluir varias modificações, aliás
mais de forma que de substancia. No artigo 1.^o por exemplo desejava o
Governo Brazileiro que fosse eliminada a expressão pouco constitucional
de «dominios da Casa de Bragança» (a qual de resto não figura no esboço
que tive presente), e que se tornasse mais claro o reconhecimento da
Independencia, o qual nunca ficaria demasiado explicito para o reino
ultramarino. A redacção de alguns artigos mais seria ligeiramente
alterada em pequenos pontos, afim de tornar suas disposições mais
precisas e directas, tambem retirando-se a expressão _outras colonias_,
empregada com relação ás possessões portuguezas da Asia e Africa, pelo
facto de recordar e por assim dizer commemorar o antigo _status_
colonial do Brazil, melindrando portanto o sentimento publico. Sobre o
assumpto da successão o Governo do Rio de Janeiro apresentava-se mais
arisco, nada querendo adiantar ao consignado nas anteriores instrucções,
appellando para o disposto na Constituição concernente á successão do
Imperio--que o Brazil pretendia conservar em ordem regular na dynastia,
herdando o throno o primogenito ou primogenita do monarcha--e passando
sob silencio a eventualidade da successão á corôa portugueza, a qual nem
renunciava nem reivindicava, deixando a sua regulação ao futuro, ao
destino, ou á logica dos acontecimentos. D. João VI mostrára ser
praticavel reinar em Portugal e Brazil, residindo na America: porque não
continuariam as cousas assim com D. Pedro, com a simples mudança do
titulo de Rei para o de Imperador? O soberano brazileiro não queria
admittir que, tendo-se elle rebellado contra a auctoridade paterna e
proclamado independente o paiz que governava como Regente, mandava a boa
razão que o throno de Portugal fosse para o filho segundo. A
transferencia de direitos não envolvia quebra de legitimidade e não
passava afinal do arranjo dynastico que veio a consummar-se com a
progenie de D. Pedro, e que teria sido mais justo estabelecer logo com a
de D. João VI, rei indisputado de Portugal e seus dominios.
V
[Sidenote: Communicação official do contra-projecto. Preparativos de
guerra.]
O contra-projecto portuguez foi formalmente communicado por Villa Real
na conferencia realizada no Foreign Office a 11 de Novembro[25], ouvindo
os plenipotenciarios brazileiros sua leitura no mais profundo silencio e
abstendo-se de aprecial-o ao findar a communicação. Apenas, a pedido de
Caldeira Brant e Gameiro, consentiu Canning em demorar a reunião da nova
e ameaçadora conferencia, quando o esboço do tratado devia forçosamente
ser submettido á discussão. A Legação queria aproveitar o intervallo
para embarcar o maximo de munições de guerra e fornecer ao Governo do
Rio mais dilatado ensejo para armar-se para a lucta imminente, constando
mesmo que Portugal tencionava atacar o Pará como o ponto mais vulneravel
do Imperio e aquelle por onde mais facilmente se conseguiria quebrar a
União. A tentativa não passaria certamente do que depois veio a
chamar-se um _bluff_, pois baixára a tanto a penuria do thesouro de
Lisboa que o Governo de D. João VI teve por esse tempo que mandar
desmanchar a esquadra, a qual não tinha recursos para manter.
[Sidenote: Relações commerciaes do Brazil com a Inglaterra. Oposição de
Wellington e Eldon ao reconhecimento.]
Em troca do favor do adiamento da conferencia, evidenciou Canning o
desejo de que, não permittindo as circumstancias o ajuste immediato de
novo tratado, fosse prorogado por um anno mais o tratado de commercio em
vigor entre a Inglaterra e o Brazil. Era este de resto o argumento
capital com que o Secretario d'Estado dos Negocios Estrangeiros
intentaria arrastar na senda que deliberára trilhar em opposição á dos
gabinetes continentaes, o gabinete de que fazia parte e onde sua vontade
estava longe de ser omnipotente. Prevaleciam pelo contrario no seio
d'elle as vistas do duque de Wellington e do Lord High Chancellor Eldon,
contrarias ao reconhecimento dos paizes americanos, inclusive do Brazil,
apezar de ter-se este organisado debaixo de uma forma monarchica de
governo, e dos enviados do Imperador, com um leve e habil snobismo,
trabalharem para obter o cumprimento dos desejos de seu Amo fóra de toda
associação com o enxame de Hispano-Americanos, pretendentes ao
reconhecimento politico dos seus governos pela Grã Bretanha, que então
pejavam a ante-camara do Foreign Office. Da sua banda Caldeira Brant e
Gameiro, no mesmissimo intuito de actuarem sobre os politicos, sempre
praticos, que dirigiam a marcha dos negocios publicos na Inglaterra,
aconselharam o gabinete de São Christovão a dar por caduco, ao fim dos
quinze annos legaes, o tratado de 1810, mandando desde logo organisar
uma pauta geral e commum de direitos aduaneiros para ser igualmente
applicada ás importações inglezas no Brazil.
Ninguem ignora quanto a questão commercial devia valer para Canning,
como para qualquer outro estadista britannico. «Os negociantes
brazileiros ou que teem relações mercantis com o Imperio vão representar
perguntando em quanto tempo podem calcular a duração do tratado vigente,
escrevia Canning a Lord Liverpool, e a pergunta, longe de ser
impertinente, é legitima e mais que razoavel.» Não se sabia ao certo o
que estava para acontecer, e os negocios nunca prosperaram em temporadas
dubias. A situação de incerteza mais se complicou com uma inesperada
occorrencia.
[Sidenote: A questão do pau brazil.]
O presidente revoltoso de Pernambuco, Manoel de Carvalho, para fazer
dinheiro embarcára para a Europa cargas de pau brazil, de que os nossos
agentes em Londres reclamavam a restituição em proveito da Junta de
Fazenda legal e local. Por seu lado porem o agente portuguez em
Hamburgo, para onde fôra remettida a consignação e para onde haviam sido
despachadas outras cargas inglezas do mesmo artigo, pretendia ser todo
esse pau brazil legitimamente pertencente a Portugal, visto constituir a
sua posse um monopolio da Corôa. Acontecia que a Inglaterra se negava a
reconhecer analoga pretenção da Hespanha aos productos das minas
americanas, e em semelhante caso como proceder differentemente com
Portugal? Admittir a pretenção portugueza seria o mesmo que classificar
como contrabando o trafico já estabelecido com os portos
hispano-americanos, e provocar o Brazil a privar a Grã Bretanha dos
beneficios do tratado que estava desfructando.
[Sidenote: Opposição da maioria do gabinete e do Rei ás idéas de
Canning.]
N'esta complexa questão do reconhecimento das nações latino-americanas é
que se revelou particularmente a immensa tenacidade de que Canning era
felizmente dotado. Luctando contra todo o gabinete, excepção feita de
Liverpool, e luctando contra o Rei, animado em sua resistencia por
Wellington, Esterhazy e o embaixador russo Lieven, os quaes faziam o
monarcha acreditar que a politica do seu Secretario de Estrangeiros
produziria uma conflagração européa, Canning logrou finalmente cantar
victoria. Peel, de começo adverso, mais tarde converteu-se ao ponto de
vista liberal, e o gabinete teve todo que fazer côro com elle quando
Liverpool e Canning muito resolutamente ameaçaram dar suas demissões,
caso se não chegasse a accordo ministerial. O proprio Wellington viu-se
na contingencia de aconselhar o Rei a que declarasse ceder, porquanto o
gabinete não poderia viver sem Canning, que era a sua alma. Jorge IV
resignou-se e acquiesceu, ainda que de pessima vontade, fazendo
claramente sentir toda a sua reluctancia, ao ponto de Canning novamente
fallar em demittir-se. Nem ficou terminada a tarefa de Canning com o
triumpho alcançado em conselho sobre a repugnancia ao reconhecimento, da
maioria hostil do gabinete Liverpool.
Wellington, Eldon e Westmorland possuiam a intimidade do Rei e á socapa
moveram tão viva campanha contra a idéa a um tempo generosa e utilitaria
de Canning, que em Janeiro de 1825, depois mesmo dos conselhos de
gabinete e da extensa correspondencia de Dezembro, quando o assumpto
devia julgar-se decidido, Jorge IV lembrou-se ainda de formular por
escripto aos seus conselheiros e _servidores confidenciaes_ a seguinte
insidiosa pergunta: si havia sido revogada a politica a que a Grã
Bretanha adherira no Congresso de Vienna, a saber, a politica
conservadora de Castlereagh? A essa pergunta o gabinete, com a maioria
do qual o Rei concordára anteriormente, annuindo a que fossem
officialmente communicadas ás potencias continentaes as resoluções
adoptadas pelo Governo Britannico, respondeu collectivamente que, no seu
entender, «as medidas em andamento com relação á America Hespanhola não
eram por forma alguma inconsistentes com os compromissos tomados por Sua
Magestade com os seus Alliados, já sendo irrevogaveis taes medidas, e
achando-se empenhadas em todas suas necessarias consequencias a fé e
honra da nação».
[Sidenote: Reconciliação do Rei com o seu Secretario d'Estado.]
O reconhecimento da America Latina começou pois a ser uma realidade, mas
o Rei deixou patente na sua resposta de 30 de Janeiro que lhe era
infenso, fazendo todavia votos para que d'elle resultassem beneficas
consequencias. O que Jorge IV sobretudo receava, ou fôra levado a
recear, eram, como vimos, complicações internacionaes e uma colligação
das potencias continentaes contra a Inglaterra. Quando se capacitou de
quão infundados tinham sido seus receios e de que se dera até
perfeitamente com não resistir mais tempo á pertinacia do seu ministro,
procedeu de accordo com o seu cognome de primeiro _gentleman_ da Europa:
confessou a Canning o seu engano e dispensou-lhe por completo, até a
morte prematura do estadista, a sua confiança politica e a sua amizade
privada. Canning por seu lado explicou-lhe com sincera eloquencia que
apenas pretendia, como subdito fiel e dedicado, ver o seu soberano á
testa da Europa, em vez de vel-o occupar o quinto lugar n'uma
confederação odiosa, onde Alexandre da Russia, Metternich, a Prussia e
os ultras francezes desempenhavam seus papeis com coherencia e agiam de
conformidade com seus respectivos destinos historicos, mas onde o Rei da
Grã Bretanha accumularia sobre a sua propria cabeça todos os odios, em
virtude da conhecida dissociação que existia entre a idiosyncrasia
britannica e a physiologia da Santa Alliança. Assim lisonjeado pela
franqueza convincente do ministro, o monarcha, que era imaginoso,
chegou, conta Greville, a persuadir-se que lhe pertencia a iniciativa da
medida, a qual alcançou a meta que o seu auctor se propunha e tão
illustre veio a tornar o nome de Canning. É quasi dispensavel repetir
que a este cabe principal, senão exclusivamente, a gloria da politica
previdente e de largos horizontes esboçada logo em 1822, por occasião da
sua entrada no gabinete Liverpool, quando, em opposição a Villèle, que
pretendia ajudar com as armas francezas a preservar, em proveito da
metropole ou pelo menos de principes da Casa de Bourbon, o imperio
colonial hespanhol, Canning deu mostras evidentes de impugnar o
restabelecimento do systema de exclusivismo peninsular, do qual havia em
contraposição de emergir o deboche de liberdade da America Latina.
[Sidenote: Influencia da Santa Alliança em Lisboa. Mudança benevola para
com o Brazil na attitude da Austria. Intriga de Metternich.]
Recordando-nos que a Santa Alliança tomára por fito e tinha como razão
de ser o suffocar todos os ensaios de liberdade politica, imaginaremos
facilmente que não eram só as preferencias genuinamente _tories_ do
vencedor de Waterloo o que animava na sua resistencia o Governo de
Portugal. As Côrtes continentaes--a Russia mais que todas--favoneavam
particularmente essa attitude intransigente; excepção talvez feita, por
mais extraordinaria que pareça a reviravolta, do primitivo foco europeu
da reacção, da Austria soberba e aristocratica onde, a voz do parentesco
fallando por um lado mais alto do que os dictames da politica
preconizada, e por outro sendo mais fortes os seus ciumes da Russia que
da Grã Bretanha, o Imperador, Metternich e seu porta-voz Gentz de subito
puzeram-se a dar razão ao Brazil em querer resistir pelas armas á
reconquista. Em Londres Esterhazy, simultaneamente e de certo sem muito
custo, convertia o barão de Neumann ás vistas da Chancellaria e do
Palacio Imperial. Sem fallar na voz do parentesco e nos zelos
internacionaes, a verdade tambem estava em que Metternich se convencêra
da inutilidade da sua intriga palaciana, da qual a princeza de Lieven
fôra o orgão junto de Jorge IV, para expellir do ministerio o incommodo
Canning. Esterhazy capacitára-se primeiro de que os esforços da intriga
ficariam frustrados, mas não lográra persuadir d'isto Metternich, que em
todo o caso, para não descobrir o seu jogo, empurrára para a frente a
boliçosa embaixatriz russa. É o proprio Canning quem, informado de tudo,
fornece estes pormenores a Lord Granville em Março de 1825.
[Sidenote: Cordialidade de relações entre Esterhazy e Canning. A Santa
Alliança e o reconhecimento das republicas hespanholas.]
O principe Esterhazy, que parece ter sido um hungaro de excellente
senso, adiantou-se mesmo a Jorge IV na sua reforma de opinião sobre
Canning, e não só se apressou em querer desmanchar as prevenções de
Metternich, como em confessar ao Rei da Inglaterra a sua mudança de
conceito relativa ao Secretario dos Negocios Estrangeiros. A 20 de
Dezembro de 1825, ao ter a sua audiencia de despedida antes de partir
para tomar conta da embaixada de Pariz, que afinal não occupou, voltando
como _persona gratissima_ para Londres, elle nobremente e sem reservas
explicou-se com Canning na presença do monarcha. Já então datava de
bastante mezes o estabelecimento de cordiaes relações entre Jorge IV e
Canning, tendo-se realizado a 27 de Abril a symptomatica visita de Sir
William Knighton, thesoureiro privado do Rei, que, despachado como a
pomba da arca com o ramo d'oliveira no bico, fôra apparentemente buscar
noticias da saude de Canning, o qual andava indisposto com a gotta, na
realidade para approximar do soberano o ministro. Pouco antes, no mez de
Março, ainda Canning recebêra das mãos de Lieven, Esterhazy e Maltzahn,
o enviado prussiano, as respostas dos seus respectivos Governos, muito
dessatisfeitos com o annunciado reconhecimento do Mexico. Replicára-lhes
Canning com exemplos frescos de derogação de legitimidade, como o de
Bernadotte na Suecia, de que a Santa Alliança havia sido cumplice, e
proseguira seu caminho, mas em Abril mesmo mostrava-se receoso da
repetição das intrigas de Metternich. N'uma carta escripta a Granville
insurge-se elle positivamente contra o constante intercurso dos
representantes dos Governos da Santa Alliança com o Rei, achando tal
proceder contrario ao espirito e pratica da Constituição ingleza, e pelo
mesmo tempo escrevendo muito contrariado á mulher, dizia estar
absolutamente disposto a obstar que os embaixadores d'Austria e Russia
conversassem com Jorge IV, a não ser em sua presença.
[Sidenote: A Austria abandona Portugal. Palmella e Subserra mandam ao
Rio um emissario secreto. O Imperador e as negociações clandestinas.]
A defecção da Austria representava para Portugal um duro golpe, mas o
gabinete de Lisboa como que o previra. Palmella pelo menos, habituado
desde a adolescencia ás intrigas de côrte e conhecedor perfeito das
molas que faziam trabalhar as chancellarias européas, não podia deixar
de ter presentido aquella deserção. Conhecel-a, era muito; attenual-a,
era porem tudo, e a Palmella faltavam, na phrase epistolar da sua grande
amiga a princeza de Lieven, _a firm will and a lucky star_ (uma vontade
firme e uma boa estrella). Que a côrte de Lisboa deixou de sentir-se no
mesmo gráo segura da sua inflexibilidade, prova-o (porque não é provavel
que tal acto obedecesse a um ardil diplomatico, como tantos outros
inhabil) o facto de haver sido mandado ao Brazil um agente secreto com
instrucções de Subserra, com o fim de entabolar negociações clandestinas
para a paz, em detrimento das que se proseguiam em Londres sob a
direcção de Canning. Havia reincidencia no caso, porque antes de abertas
as negociações regulares, tinha o Governo Portuguez enviado ao Rio uma
missão secreta no intuito de tentar a reconciliação. A opinião publica
no Brazil oppunha-se porem vigorosamente, como sabemos, a qualquer
negociação que não fosse precedida pelo reconhecimento, e de harmonia
com a inclinação popular, reflectida na attitude da Assembléa
Constituinte, mandou o Imperador deter e sequestrar a corveta _Voador_,
que conduzira a missão, e recambiar para Portugal os commissarios,
depois de igualmente detidos e até sua partida conservados
incommunicaveis com o Governo. D. Pedro foi não obstante accusado de ter
tido entrevistas clandestinas com um dos emissarios, o conde de Rio
Maior, e os que o accusavam eram os chamados patriotas, os quaes temiam
mais que tudo a possivel reunião das duas corôas e censuravam
desabridamente a nascente benevolencia imperial para com os
ultra-realistas ou do partido portuguez. O odio ia crescendo entre um e
outro lado e a politica conciliatoria do Imperador, acobertando os
Portuguezes com a vista no futuro e afagando os Brazileiros por causa do
presente, estava longe de poder aterrar o fosso da desunião e apenas
alheava cada dia mais o monarcha do sentimento nacional, sem ao menos
angariar-lhe a sympathia de Portugal, que sempre lhe havia de faltar,
até que a morte em plena mocidade o cercasse de uma aureola de heroismo
e de poesia.
[Sidenote: Brant e Gameiro exploram o despacho do emissario. Brant
preconiza uma guerra economica.]
Nada pode comtudo arguir-se contra o procedimento do Imperador nas
citadas emergencias. Muito avisadamente declinou pela segunda vez
entreter quaesquer negociações irregulares ou sequer receber o
emissario, um medico por nome José Antonio Soares Leal, que foi da mesma
forma preso e reexpedido para Lisboa. Caldeira Brant e Gameiro não se
desleixaram porem em dar toda a publicidade a semelhante incidente, que
vinha muito a proposito lançar a pecha de perfido sobre o gabinete de
Lisboa, cujas verrinas contra o Brazil figuravam de thermometro das suas
esperanças, recrudescendo á medida que se ia desvanecendo em Portugal a
confiança de recobrar a perdida ascendencia sobre o paiz americano.
Note-se que, como depois os factos amplamente confirmaram, o campo não
ficava absolutamente perdido para a actividade industrial do Reino, pois
que dos portos portuguezes sahiam entretanto navios carregados para o
Brazil, propondo Caldeira Brant o appello á guerra, a qual deveria
compellir Portugal á paz, muito mais como meio de arruinar o seu trafico
mercantil do que como modo de destruir seus recursos militares. Tanto
entendia o futuro marquez de Barbacena que essa guerra fosse economica
que, no plano de hostilidades apresentado á approvação do soberano,
fazia-a acompanhar da prohibição de introducção das mercadorias
portuguezas no Brazil, embora transportadas em navios neutros.
[Sidenote: O Brazil recusa declarar a cessação das hostilidades.]