A 9, 11 e 12 de Agosto tiveram lugar no Foreign Office novas

conferencias plenarias[15], em que voltou longamente á discussão a

questão do reconhecimento preliminar reclamado pelo Brazil e das

condições preliminares exigidas por Portugal, sem outro effeito mais do

que evidenciar a crescente má vontade da Austria em ajudar as pretenções

do Imperio sul-americano. Nem Metternich, que subordinava todas as

considerações publicas e de familia á da preservação da Alliança

tendente ao «repouso politico» sobre que devia, no seu juizo, assentar o

desenvolvimento industrial e commercial do seculo, acreditava ainda

muito na sinceridade liberal de Canning, ou na sua solicitude pelos

povos emancipados de tutelas anachronicas pelas circumstancias que as

rodeavam. N'uma communicação ao principe Esterhazy, a qual traz antes o

cunho litterario de Gentz, o Chanceller externava nos seguintes termos a

sua impressão do caracter politico do estadista inglez: «Si me não

engano, M^r Canning pertence a essa classe de homens que por vezes

entram em certas associações, sem por isso ligarem ao exito d'ellas os

seus sinceros votos; taes homens especulam sobre as vantagens do momento

e não se esforçam menos por assegurar o seu capital fóra da

empreza»[16].

[Sidenote: Projecto de tratado apresentado por George Canning.]

As conferencias de Agosto teriam porem continuado a dar o mesmo

resultado negativo das de Julho, si na primeira d'ellas o _homem de dous

pesos e de duas medidas_, conforme o qualificava Metternich, não tivesse

cumprido sua promessa de apresentação de um projecto de tratado,

virtualmente analogo ao que fôra previamente offerecido pelos

plenipotenciarios brazileiros[17], mas com um artigo secreto relativo á

successão, estipulando que as Côrtes de Lisboa, ao determinarem a forma

da herança da Corôa Portugueza, poderiam chamar a cingil-a o

primogenito, ou, na falta de successão masculina, a primogenita do

Imperador. Após conversações particulares com Canning, Esterhazy e

Neumann, e discussão com o mesmo Canning de algumas objecções ao

referido artigo secreto, resolveram os plenipotenciarios brazileiros

acceitar o alludido tratado _sub spe rati_. Este procedimento, que lhes

aconselhou o Secretario d'Estado britannico, mereceu a approvação do

Governo Imperial. As cousas estavam todavia longe ainda do seu termo.

[Sidenote: Insistencias de Villa Real e evasivas de Brant e Gameiro.]

Na conferencia seguinte com effeito voltou Villa Real á carga com as

suas trez proposições, insistindo na pouca vontade em annuir a essas

condições que denunciava a resposta do ministro Carvalho e Mello ao

consul Chamberlain, e ameaçando interromper a negociação encetada até

receber novas ordens do seu Governo. Só não levou a cabo a ameaça pela

opposição dos trez medianeiros, que não quizeram que, por motivo de um

emperro considerado pueril, ficassem gorados os seus desejos e esforços

para uma pacificação inevitavel e inadiavel. No tocante ás queixas do

ministro portuguez, só era dado aos nossos enviados replicar com

evasivas, e isto executaram-no com geito. Lembraram que a reclamação

transmittida por Chamberlain e compendiando o preliminar desideratum

portuguez, fôra anterior á abertura das negociações de Londres, e que a

replica do Ministro de Estrangeiros correspondia á phase que precedêra o

exercicio dos bons officios das duas potencias amigas. N'aquelle

instante, porem, as intenções do Governo Brazileiro dirigiam-se no

sentido de concorrer para a cessação das hostilidades, suspensão dos

sequestros e facilidades das relações commerciaes entre o Imperio e o

Reino. Carecia comtudo o Imperador de proceder com toda a deferencia

para com a opinião publica, a qual se manifestava adversa a qualquer

composição com a ex-metropole antes de reconhecida a independencia da

ex-colonia, e no Novo Mundo se sentia capaz de impôr ao throno, ainda

mal firmado, as suas preferencias.

[Sidenote: Espirito de rebellião no Brazil.]

Invocando o espectro da anarchia, que as difficuldades domesticas

poderiam gerar, o Governo Brazileiro era mais sincero do que pareceria á

primeira vista, para quem apenas se lembrasse da oppressão exercida

sobre a America pelas duas metropoles da Peninsula Iberica. O povo já

não era o mesmo dos bons tempos coloniaes, quando o throno de Portugal

exercia de longe para o Brazileiro nato a attracção do fetiche para o

Africano boçal. A Côrte permanecêra treze annos no Rio de Janeiro, não

mais a côrte dos vice-reis, com suas pequenas tyrannias e suas ridiculas

vaidades, mas a verdadeira Côrte dos Braganças, não menos ignára e

moralmente corrupta, no seu conjuncto, do que aquella. O contacto de

todos os dias com a fidalguia do Reino, junto com a franca leitura de

livros estrangeiros e a convivencia com os estrangeiros--e n'estes

pontos o governo de D. João VI foi perfeitamente liberal--tinham

destruido até o respeito pela realeza. A sympathia pelas instituições e

costumes de outros povos surgiu simultaneamente com o desapparecimento

da confiança nas instituições e costumes de casa, ou por outra vingava a

ambição de transformar umas e outros.

Um viajante inglez que esteve no Rio de Janeiro em 1821 conta quão

effervescente estava o sentimento constitucional e nacionalista, isto é,

o sentimento adverso ao absolutismo e á metropole. Um dos dramas

populares do dia no theatro da cidade intitulava-se a _Eschola dos

Principes_, e como o titulo o indica, punha em scena com intuitos

moralizadores os erros a que pode ser conduzido um joven principe mal

aconselhado. A primeira representação teve lugar no anniversario

natalicio de D. Pedro, já principe regente e presente ao espectaculo, e

os assistentes sublinharam, com olhares intencionaes e applausos as

frequentissimas allusões e advertencias, de que se achava recheada essa

peça _sui generis_ e de alcance patriotico. A opinião esclarecêra-se e

adquirira consistencia com a vista do espectaculo politico que lhe fôra

proporcionado pelo monarcha e seu sequito.

[Sidenote: Aspecto moral da capital brazileira.]

O quadro traçado por Mathison[18] da séde da monarchia portugueza é em

muitos sentidos degradante, mas exacto. A emigração do Reino

transportára, com seus thesouros, os seus favoritismos e as suas

intrigas, e a administração publica, salvo esforços individuaes dignos

dos maiores encomios, desgraçadamente moldára-se pela da metropole. O

erario não podia fazer honra aos gastos da corôa, que raramente se

traduziam por beneficios publicos, lucrando antes a camarilha com a

prodigalidade regia e continuando o paiz sem esquadra que defendesse os

seus disseminados e ameaçados dominios, a cidade sem edificios que lhe

dessem fóros de capital, o povo sem instrucção nem bem estar que lhe

grangeassem devoção civica e lealdade dynastica. O peculato assentára

por toda a parte os seus arraiaes; o suborno era um systema consagrado;

a venda de honrarias, dignidades e posições uma cousa admittida; o

contrabando uma funcção creada senão reconhecida, posto que perturbadora

do organismo economico. A moeda andava legalmente falsificada, sendo os

pesos de prata hespanhoes, avaliados ao par em 800^{rs}, refundidos em

peças de trez patacas ou 960^{rs}, e passando o cobre por identica

adaptação. Sobre esta circulação metallica avariada repousava o credito

da circulação fiduciaria, e Estado e Banco auxiliaram-se com uma permuta

de favores equivocos até que, retirando-se de novo para Portugal, a

Côrte arrecadou o dinheiro e fundos nacionaes e deixou o Banco limpo de

numerario e sobrecarregado de notas desvalorisadas. Esta situação era

patente e criticada desde que a critica conquistára sua franquia, e tão

impressiva tornára-se a influencia da opinião que o Imperador,

particularmente quando era ainda principe real, cortejava o mais

afanosamente a popularidade das ruas e mórmente a do exercito,

apparecendo repetidamente em publico, passando continuas revistas ás

tropas, correspondendo pressurosamente ás saudações, protestando em

proclamações o seu devotamento á terra em que crescêra e que chamava

sua.

[Sidenote: Recusa para a transmissão do projecto Canning.]

Essa terra elle só a poderia porem chamar verdadeiramente sua, depois

que lh'o permittissem as potencias do Velho Mundo, e o meado do anno de

1824 já decorrêra sem que as respectivas negociações se approximassem do

seu desfecho. Pelo contrario, ao procurar discutir-se no Foreign Office

o projecto de tratado offerecido por Canning, deu-se uma nova serie de

recusas. Allegou immediatamente o ministro portuguez seu papel unico de

transmissor de propostas brazileiras, que não envolvessem o

desconhecimento dos legitimos e sagrados direitos de S. M. Fidelissima.

Propuzeram então os enviados brazileiros que o Secretario d'Estado

britannico e os representantes da Austria endereçassem o projecto ao

gabinete da Bemposta, para que este auctorisasse Villa Real a

discutil-o. Furtaram-se porem os Austriacos á missão, por julgarem-na

fóra do papel todo consultivo adoptado pela côrte de Vienna, que não

queria propriamente intrometter-se n'um negocio por ella considerado de

familia, e muito preferia que a solução viesse do accordo directo entre

as duas partes, sem recurso a terceiros. A verdade era, além dos ciumes

de Metternich pela posição preponderante que estava cabendo a Canning na

independencia do Novo Mundo, que a Austria chegava-se para Portugal e

desamparava o Brazil á medida que se dissipava a impressão das Côrtes

demagogicas de 1820 e que a politica de reacção vingava em Lisboa sobre

as aspirações liberaes.

[Sidenote: Canning transmitte seu proprio projecto de tratado para

Lisboa.]

Canning, que não tinha razão para professar as mesmas hesitações que

Esterhazy e Neumann, prestou-se a ser o transmissor unico do seu proprio

projecto, protestando acompanhal-o das maiores instancias pela sua

acceitação por parte do Governo Portuguez. Como homem superior que era,

declarou mais e sem rebuço que não fazia questão, nem do fundo nem da

forma, do escorço apresentado e que do melhor grado acceitaria quaesquer

modificações razoaveis, que lhe fossem suggeridas. Ora, na opinião de

Caldeira Brant e Gameiro, não podiam deixar de ser introduzidas

alterações pelo gabinete de Lisboa, ao qual--devia considerar-se

certo--o projecto não agradaria, si bem que parecesse andar em tão

benevolas disposições que, segundo declaração do conde de Villa Real

n'uma das conferencias de Agosto, as auctoridades do Reino haviam

mandado desembargar e restituir a sumaca brazileira _Jervis_, do

Maranhão, arribada á ilha Terceira.

[Sidenote: Solicitude de Canning pelas negociações.]

Não é exaggerado dizer que sem a intervenção de Canning, as negociações

de Londres teriam sido um fiasco. Elle com effeito acompanhou-as de

começo a fim com a maior solicitude, _looking on for England to see fair

play_ (vendo pela Inglaterra que tudo se passasse direito), para usar

das suas palavras. Não era sem razão que elle escrevia a 17 de Agosto ao

seu intimo amigo Granville, a quem escolhêra para ir substituir em Pariz

Sir Charles Stuart: «Portugal sósinho deu-me mais trabalho durante os

ultimos dous mezes, do que se deveria razoavelmente contar em meio anno

da parte de todas as côrtes da Europa[19].» Agora, porem, dava-se

forçosamente uma pequena suspensão de actividade no negocio do Brazil,

que lhe permittiria voltar com mais vagar sua attenção para as outras

nações latino-americanas.

[Sidenote: Affazeres da Legação.]

Após as trez successivas entrevistas do Foreign Office e emquanto

aguardavam a sequencia dos acontecimentos, tampouco ficavam inactivos os

representantes do Imperio em Londres. A Legação accumulava n'aquelle

tempo as funcções de consulado, de repartição fiscal e de casa de

commissões. Comprava encommendas para o Arsenal de Marinha do Rio de

Janeiro, e até adquiria, tanto quanto nos Estados Unidos, navios de

combate, pois a neutralidade affectada pelo Governo Britannico não era

tamanha que impedisse geralmente essas manifestas violações. Nem deve

admirar a liberdade com que na Inglaterra se permittiam o apresto e

partida de expedições armadas, com homens, embarcações e petrechos

bellicos, para servirem no Brazil contra Portugal, quando a França, mau

grado a sua politica ultra-conservadora, não reluctára a admittir os

consules brazileiros nos seus portos sob o titulo de agentes

commerciaes. Era necessario engajar muitos marinheiros para a armada

nacional porque o nosso espirito, capitalmente refractario á disciplina

militar, já n'esse momento obrigava a utilisarem-se no serviço naval os

mercenarios estrangeiros que tão damninhos viriam a tornar-se no

exercito. A Legação fazia igualmente operações financeiras, negociando

emprestimos e emittindo apolices.

[Sidenote: Emprestimo brazileiro prejudicado pela revolução pernambucana

de 1824. Esperanças portuguezas. Fuga de Manoel de Carvalho.]

Reza um dos officios de Caldeira Brant e Gameiro que a emissão parcial

de apolices realisada a 75 no dia 11 de Agosto de 1824, foi prejudicada

pelos noticias da rebellião pernambucana de Manoel de Carvalho e sua

tentativa de fundação da Confederação do Equador. Esta sanguinolenta

revolução, cuja terminação Carvalho e Mello só a 4 de Outubro poderia

annunciar para Londres, tambem foi, combinada com a experiencia de uma

negociação á parte, um poderosissimo incentivo para a encommendada

hesitação de Villa Real em admittir a realidade da Independencia: o

gabinete de Lisboa espreitava ancioso o successo da revolução. É

conhecido que, vencido pelas tropas imperiaes, Manoel de Carvalho Paes

de Andrade seguio para a Inglaterra a bordo da corveta ingleza _Brazen_,

para onde passára da fragata _Tweed_, na qual se refugiára diziam os

legalistas, ou, como argumentavam os Inglezes, fôra negociar a sua

capitulação com o almirante da esquadra de bloqueio, que para aquelle

fim erguêra bandeira de tregoa. Em Londres perseguio-o sem resultado o

odio da Legação, reflexo do rancor imperial. De facto a fuga do

Presidente rebelde desapontou vivamente o Governo Brazileiro, que

descarregou desapiedadamente a sua contrariedade sobre as figuras

secundarias do movimento. O brigadeiro Lima e Silva, chefe das forças

legaes, inutilmente reclamára a entrega de Manoel de Carvalho ao

commandante britannico, e o Ministro dos Negocios Estrangeiros, depois

de ter ensaiado sem exito recorrer a Chamberlain, tentou a reclamação

directa em Londres por intermedio dos nossos dous enviados.

O Governo Imperial não só exigia a entrega do _facinoroso_, como uma

satisfacção pelo occorrido sob a forma de punição do commandante da

_Tweed_ por causa da infracção de neutralidade commettida n'um porto

nacional e bloqueado pela marinha nacional, na forma da participação

previamente expedida aos Consules estrangeiros. O official inglez

recusára-se mais tarde a annuir ás justas representações da primeira

auctoridade de Pernambuco, encaminhadas pelo consul britannico, assim

procedendo em desaccordo com o precedente estabelecido por Sir Thomas

Hardy, o qual fizera desembarcar de um paquete inglez, aportado á Bahia,

e entregára ao governo local, que o reclamava, o pernambucano Gervasio

Pires Ferreira, e em desaccordo não menos flagrante com a declaração

britannica de absoluta neutralidade em todas as luctas intestinas da

America. Carvalho e Mello invocou todas as regras de direito publico

maritimo para provar que um navio, sobretudo de guerra, «não deve servir

em porto estrangeiro de valhacouto a criminosos», constituindo o

contrario uma violação de soberania, e procurou rebater as desculpas do

consul e almirante britannicos quanto á partida de Manoel de Carvalho

antes de recebido o pedido de entrega; ao asylo concedido no mar alto e

não dentro do porto, e outras circumstancias adduzidas para justificação

do seu acto de humanidade, cuja discussão proseguio, mas não embaraçou

no minimo a do reconhecimento politico do Imperio.

[Sidenote: Brant e Gameiro recebem novas instrucções. O armisticio e a

successão ao throno portuguez.]

Não soffreram sequer demora as novas instrucções pedidas por Caldeira

Brant e Gameiro, e que a 20 de Setembro chegaram do Brazil,

auctorisando-os a celebrarem, uma vez que as negociações proseguissem

com segura expectativa de obter-se o almejado reconhecimento, o

armisticio preliminar de facto existente desde o inicio d'aquellas

negociações, mas em cuja formal declaração insistia sem recuar o

ministerio portuguez. Esse armisticio seria de um anno para menos, «com

a clausula de se estipular expressamente um prazo, que poderia ser de

trez mezes pouco mais ou menos, para fazer constar no Brazil a epocha do

rompimento por parte de Portugal», não devendo o Governo Portuguez

recomeçar as hostilidades antes de expirar o prazo estipulado. As ordens

do Rio recommendavam além d'isso que os nossos enviados evadissem quanto

possivel a questão dos direitos hereditarios do Imperador á corôa

portugueza.

D. Pedro persistia em entreter a doce illusão de que lhe seria facil

governar um dia Portugal do Brazil, ser Imperador e Rei como o são hoje

os soberanos da Austria-Hungria, mas como si estes fossem Imperadores da

Hungria e Reis da Austria; ou como o é o Rei Eduardo VII, sem que porem

se lembre de transferir para Calcuttá a capital dos seus dominios. D.

Pedro acceitára ou antes cingira a corôa imperial para não ver o Brazil

tornar-se independente debaixo do systema democratico, mas tanto não

perdia de vista o throno dos seus maiores, que eliminou na Constituição

por elle outorgada a disposição contida no projecto da Assembléa

Constituinte dissolvida pela força em 1823, prohibindo expressamente a

reunião das duas corôas sobre a cabeça do Imperador do Brazil. Agora,

nas instrucções mandadas aos seus plenipotenciarios em Londres,

limitava-se a mencionar muito confusamente que a renuncia á corôa

portugueza era tacita e subentendia-se desde que ficára dividida a

monarchia com a fundação de uma nova dynastia americana; para mais, até

lhe estava constitucionalmente vedado sahir do territorio brazileiro sem

consentimento da Assembléa Geral. Si a consignação d'esta separação

definitiva de dynastias fosse a condição _sine qua non_ do

reconhecimento, D. Pedro concordaria em assignar a renuncia para não

ficar sem o throno imperial. Suspirava porem por que d'este assumpto «se

não faça menção até que para o futuro, no silencio das paixoens, e do

furor dos partidos que tolhem o livre curso á razão, e á boa politica,

possam as partes interessadas tomarem com madureza e liberdade o accordo

que melhor convier á sua commum prosperidade». No caso de forçada opção

entre o Reino e o Imperio, é que o soberano confessava com uma adoravel

franqueza que escolheria ficar no Brazil desde llogo, _pela sua

superioridade em todo o genero ao pequeno e envelhecido Reino de

Portugal_, e tambem porque era isto conforme aos desejos da população

brazileira, assim como aos interesses das duas partes da monarchia, de

que uma teria de ver-se abandonada em proveito da outra, não gosando

infelizmente o monarcha do dom divino da ubiquidade.

Considerações sociologicas, aspirações populares e conveniencias

publicas desappareceriam porem de mistura, si porventura a renuncia não

fosse indeclinavelmente exigida. A porção confidencial das instrucções

mandadas a 16 de Julho de 1824, descobrindo um pouco o pensamento

imperial, dizia que a reciprocidade das renuncias, ao Brazil por parte

do Rei de Portugal e a Portugal por parte do Imperador do Brazil, não

podia em rigor ser invocada, visto não existir paridade nas duas

situações, contando a do Imperador a seu favor, ou para tornal-a muito

mais difficil, com os direitos de nascimento e primogenitura; que o

artigo constitucional prohibindo a ausencia temporaria do Imperador

continha em si mesmo a alternativa ou remedio, e não tornava portanto de

modo algum obrigatoria a renuncia pelo facto de não poder ir D. Pedro

eventualmente recolher a successão portugueza; finalmente que era mister

conservar um regio asylo para D. Pedro no caso, _não provavel mas

possivel_, de ter elle que desertar o Imperio «por effeito de

successivas e horriveis reacçoens».

[Sidenote: Pretenções portuguezas a suzerania. Vantagens commerciaes

offerecidas pelo Brazil.]

Cedendo ou parecendo ceder no ponto do armisticio preliminar e

explicando-se, posto que imperfeitamente, no da successão, o Imperador

do Brazil não convencia no emtanto Portugal a desistir da sua pretenção

á suzerania. Para melhor seduzir o Reino, chegou o Governo Brazileiro a

pensar--do que dá testemunho o Despacho de Carvalho e Mello de 16 de

Julho de 1824--em conceder logo a Portugal umas primicias das vantagens

commerciaes que elle cobiçava, e que Canning achava naturalissimo fossem

arbitradas ás mãis patrias pelas antigas colonias americanas. O

reconhecimento da Independencia implicaria d'essa forma para Portugal o

tratamento da nação mais favorecida, passando suas mercadorias a pagar,

como as inglezas por virtude do tratado de 1810, 15 0/0 _ad valorem_ de

direitos, em vez dos 24 0/0 que eram a pauta geral para as importações

estrangeiras: isto emquanto se não ajustasse com maior vagar um convenio

commercial definitivo. Na correspondencia official de Caldeira Brant e

Gameiro não se encontra comtudo vestigio algum de que elles houvessem

proposto a referida vantagem mercantil, conforme achavam-se auctorisados

e conforme achavam opportuno, com uma reducção ainda maior, no momento

de redigirem o seu projecto de tratado no inicio das negociações.

Certamente mudaram de opinião porque, tendo recebido aquellas

instrucções em Outubro, já as circumstancias eram outras e, mercê do

jogo obstinado da côrte portugueza, a discussão ia entrando n'uma phase

diversa, que pouco depois se accentuaria pela chegada da resposta do

Reino ao projecto de Canning. Accresce que os nossos enviados tinham

tomado inteiramente pé no mundo politico de Londres e tinham razões para

nutrir uma quasi certeza de que a teimosia do gabinete de Lisboa só lhes

acarretaria beneficios, e que mais facil era Canning romper com os

ministros de D. João VI do que deixar por longo tempo sem solução a

questão brazileira.

[Sidenote: Opposição portugueza. Idéas de Palmella. Sympathia de

Canning.]

Historia diplomatica do Brazil: O Reconhecimento do Imperio · 第 5 / 18 段