A Inglaterra tinha pressa de liquidar o assumpto, porque importantes

interesses commerciaes de subditos britannicos se tinham creado no

Brazil á sombra da amizade portugueza, augmentando de anno para anno o

numero de casas inglezas nos portos e avolumando-se portanto o

intercurso de mercadorias. O seu objectivo diplomatico era fazer seguir

o tratado de reconhecimento do Imperio de outro para obtenção de favores

mercantis e para completa abolição do trafico de escravos, no espirito

das anteriores disposições entre Portugal e a Grã Bretanha e das

conclusões do Congresso de Vienna, onde aquella abolição fôra consagrada

como principio.

[Sidenote: A questão do trafico de escravos desde 1810.]

A Inglaterra que em 1807, certamente por philantropia e espirito

liberal, extinguira o trafico nas proprias colonias, pretendia agora

extirpal-o de vez em todo o mundo por espirito tambem de egoismo ou de

conservação, não lhe convindo alimentar, mercê da barateza do trabalho

servil, concorrentes temiveis aos seus estabelecimentos tropicaes.

Conforme é sabido, a abolição do trafico fôra consignada anteriormente,

como promessa de gradual extincção, no tratado celebrado em 1810 com a

côrte do Rio de Janeiro, e, fundada n'elle, entrou a marinha britannica

a capturar nos mares d'Africa navios portuguezes com carregamentos

d'Africanos, pelo que a Inglaterra, em virtude dos energicos protestos

do conde da Barca, teve de pagar em 1815 trezentas mil libras esterlinas

de indemnização. No mesmo anno de 1815, a 8 de Fevereiro, as oito

potencias signatarias do tratado de Pariz, as quaes prepararam os actos

finaes do Congresso de Vienna e dirigiram os trabalhos d'esta celebre

reunião de soberanos e ministros, assignaram uma declaração reprovando o

trafico e manifestando collectivamente sua intenção de abolil-o[9]:

entre essas potencias contava-se Portugal.

Como certas contemplações eram porem devidas a certos interesses, a

certos habitos, a certas prevenções mesmo, não se estabeleceu um prazo

fixo para a referida abolição: deixou-se em aberto afim de ser

determinado de accordo com as conveniencias de cada potencia. N'esta

questão, como na da annexação da Saxonia á Prussia e da avassallação da

Italia á Austria, Talleyrand soube insinuar-se no espirito dos outros

delegados e manobrar com tão consummada habilidade, que conseguio dar as

cartas mais ou, pelo menos, tanto quanto Metternich. O diplomata francez

ajudou muito o então conde de Palmella nos seus esforços para

neutralizar os da Inglaterra, que queria arrancar á Hespanha e a

Portugal a abolição immediata do trafico de escravos. Em vez d'esta, o

tratado de 22 de Janeiro de 1815, assignado em Vienna por Lord

Castlereagh e pelos plenipotenciarios portuguezes--Palmella, Saldanha da

Gama e Lobo da Silveyra--estipulava que ficaria vedado aos subditos

portuguezes traficarem em escravos em qualquer parte da costa d'Africa

ao norte do equador. Permanecia comtudo de pé a promessa geral de que as

duas partes contractantes fixariam o periodo, em que o commercio de

negros teria de cessar inteiramente para os dominios portuguezes.

Na correspondencia de Talleyrand, quando embaixador em Vienna, para Luiz

XVIII, está escripto que a Hespanha e Portugal obtinham um prazo de oito

annos para abolição (o prazo prescripto para a França no tratado de

Pariz fôra de cinco annos), o que leva a crer que esteve por tal modo

assente esse ponto, ainda que logo ficasse abandonado. Em 1817, voltando

a Grã Bretanha á carga, alcançou pela convenção de 28 de Julho que fosse

adoptado e reconhecido o direito de visita e busca, pelos vasos de

guerra britannicos, nas embarcações portuguezas suspeitas d'aquelle

trafico, e bem assim a creação de commissões mixtas para julgarem os

navios aprezados[10]. Para Canning seria um motivo de verdadeiro jubilo

dar n'esta estimulante questão um passo adiante dos de Castlereagh e,

conseguindo um prazo certo e irrevogavel para a cessação do trafico de

negros entre a Africa e o Brazil, poder exclamar com o poeta seu

compatriota:

Thy chains are broken, Africa, be free

Thus saith the island--empress of the sea.

[Sidenote: O Brazil e a escravidão.]

O empenho de Canning era tão forte que chegára antes a assegurar que

reconheceria sem demora o Imperio e afiançaria sua integridade, si o

trafico fosse completamente abolido. O Brazil constituia o grande

mercado de escravos africanos, tendo-se a America Hespanhola liberado

d'essa peste, e, sem o seu encerramento, inutil seria insistir na

extirpação do trafico. A opportunidade apparecia seguramente unica á

philantropia e á diplomacia do Reino Unido, carecendo o Imperio tanto do

apoio britannico e dando por isso mostras inequivocas de estar disposto

a fazer concessões em tal terreno. Canning acreditou na logica dos

factos e, por esta consideração mais do que por todas as outras, sem

demora desanimára Portugal nas suas primeiras pretenções de angariar o

auxilio inglez para reduzir á obediencia o reino ultramarino, declarando

ao Defensor Perpetuo do Brazil que nada tinha a recear de hostil ou

pouco amigavel da parte do governo de Jorge IV.

[Sidenote: A missão Amherst ao Rio de Janeiro. O trafico e José

Bonifacio.]

Mais do que isso, aproveitando a ida para a India, em Fevereiro de 1823,

do governador geral Lord Amherst, Canning incumbira-o de, no decurso da

escala do seu navio no Rio de Janeiro, tratar com o Imperador e o seu

ministerio do assumpto vital do trafico, fazendo-lhes ver que uma nação

independente não poderia decentemente preservar uma instituição que era

sómente toleravel n'uma colonia, campo de cultivo e commercio, sem a

dignidade de uma potencia soberana, nem as responsabilidades da defeza

da sua integridade territorial. Além d'isso o Brazil permaneceria

isolado, como uma vasta mancha negra, na America Latina livre, unico a

sustentar um commercio odioso e universalmente reprovado. A justiça

britannica ser-lhe-hia facultada, como o soe ser a qualquer paiz, mas a

amizade britannica, essa tinha de ser conquistada mediante aquelle

sacrificio, que era uma depuração. Procedendo com tamanha urgencia

quanto denunciava essa incumbencia, confiada áquelle que ia preencher o

lugar acceito por Canning no momento do inopinado desapparecimento de

Castlereagh, a Inglaterra não tencionava abandonar Portugal á sua sorte;

antes exigia do Brazil que o reconhecimento fosse logo correspondido

«com os ajustes necessarios ácerca do reino»: mas a obsessão da

extincção do trafico imperava por forma tal na sua imaginação que

dissipava os melindres das allianças.

Stapleton, o secretario particular, fiel amigo e historiographo de

Canning, conta que Lord Amherst tratou do objecto da sua missão com José

Bonifacio, cujas inclinações abolicionistas não padecem duvida, mas

foram infelizmente platonicas. O ministro de D. Pedro recuou ante a

perspectiva do descontentamento nacional, o qual podia até ameaçar a

propria existencia do novo regimen, e somente concordou n'uma diminuição

gradual e progressiva do numero de escravos importados, que daria em

resultado a abolição completa do trafico dentro de muito poucos annos.

[Sidenote: Instrucções secretas de Brant e Gameiro sobre o trafico.]

As instrucções secretas mandadas a Caldeira Brant e Gameiro no anno

immediato prescreviam-lhes, porem, que obtivessem o reconhecimento sem

essa condição julgada desairosa, cuja retirada não significava todavia

que o Imperador não estivesse disposto, como firmemente estava, a abolir

no futuro um tão deshumano commercio. A ultima concessão que, segundo as

mencionadas instrucções secretas, o Brazil se inclinava a fazer afim de

obter o almejado reconhecimento, o qual só muito contrariado o Governo

Imperial prestar-se-hia a acceitar conjunctamente com a abolição do

trafico, era a de estabelecer-se o prazo de oito annos, como se

projectára em Vienna, ou mesmo o de quatro, mas com uma indemnização de

800 contos por anno nos quatro restantes, para compensar a falta dos

direitos de importação sobre os negros e outros damnos. A ausencia de

colonização estrangeira que supprisse o trabalho escravo, a necessidade

de prover nos annos proximos uma mais avultada entrada de Africanos para

habilitar a lavoura a fazer face á forçosa escassez ulterior, e os

desarranjos agricolas e commerciaes que a terminação do trafico

acarretaria, eram outras tantas razões ponderosas que aconselhavam a

fixação de um prazo e excluiam por nociva a abolição immediata.

No fundo esta questão do trafico approximava então os dous paizes mais

do que os dividia. A Inglaterra estava ainda justamente persuadida de

que muito melhor lhe iria em obter a extincção pela iniciativa do

Governo Imperial, do que por meio de pressão exterior. O Brazil começava

ligeiramente a convencer-se--e pena foi que não continuasse a pensar

assim--de que o espirito do seculo não permittiria a preservação de

condições sociaes em que fosse elemento o escravo, e que o dia chegaria

no qual, não havendo formulado espontaneamente a concessão, teria de

ceder violentado. Effectivamente, no despacho de 28 de Agosto de 1824,

em vista da correspondencia recebida da Legação em Londres, mandava o

Governo Imperial desistir até da citada indemnização pecuniaria, «no

ultimo caso de se não poder conseguir d'outra maneira o reconhecimento.»

É claro que o Governo Brazileiro mudava de resolução pela força das

circumstancias, pois a auctorização facultada aos plenipotenciarios

brazileiros, para liquidarem finalmente a divergencia de vistas das duas

nações sobre o trafico, havia-lhes sido retirada dias antes, no Despacho

de 18 de Agosto, por ter-se o Governo Imperial capacitado de que a Grã

Bretanha não deixaria de reconhecer a independencia do Brazil pelo facto

de não ajustar-se aquella divergencia. O Imperador sentia-se tambem

desobrigado de quaesquer contemplações para com o gabinete de St-James,

que traduzissem prejuizo para a economia nacional. É mister não esquecer

que até alli a Inglaterra se não decidira inteiramente a pôr Portugal de

lado e negociar directamente o tratado de reconhecimento, nem «quizera

ser abertamente mediadora para com Portugal, tendo-se apenas mostrado

officiosa», verdade é que pela simples razão que Portugal nunca

solicitára formalmente a mediação para celebrar _a paz_ com o Brazil.

[Sidenote: A França e a Grã Bretanha na Peninsula Iberica.]

A Inglaterra no emtanto possuia, além dos commerciaes e humanitarios,

motivos de natureza restrictamente politica para desejar não ser vencida

por qualquer outra potencia do Velho Mundo nas boas graças do Brazil. A

sua rivalidade com a França, rivalidade tradicional e caracteristica na

historia européa, encontrára na Peninsula. Iberica, mercê da localização

do conflicto geral entre absolutismo e constitucionalismo, um campo de

verdadeira cultura intensiva. Depois da guerra d'Hespanha e das faceis

victorias do duque d'Angoulême, a influencia dos Bourbons de França

tornára-se poderosissima na côrte parente de Madrid. Na côrte de Lisboa

Hyde de Neuville estava em alguns casos conseguindo mais do que

Thornton, não só pela ligação pessoal com Subserra, como pelo facto de

representar uma monarchia que, longe de permittir á inundação

democratica fertilizar a administração publica, antepunha um dique de

preconceitos á maré popular.

[Sidenote: Partido tirado pelos politicos brazileiros das rivalidades

internacionaes.]

Os politicos do Rio de Janeiro, para os quaes a amizade britannica, da

nação senhora dos mares, era bem mais importante do que a franceza, com

bastante tino pensaram em explorar essa conhecida rivalidade com o fito

de mais facilmente obterem a classificação politica do Imperio, e

tampouco se descuidaram de jogar outras cartas diplomaticas. Nas

instrucções ostensivas de Caldeira Brant e Gameiro notava-se--um mez

depois de proclamada a doutrina de Monroe, a qual Canning, ao suggeril-a

indirectamente n'um momento de apuro, certamente não antevia quanto

poderia de futuro tornar-se infensa á propria Inglaterra--que o

estabelecimento de uma possante monarchia constitucional no hemispherio

sul da America operaria como uma barreira opposta «á ambiciosa e

democratica politica dos Estados Unidos, afim que para o futuro não

prevaleça a politica americana á européa.» Esta razão não era futil para

que a Inglaterra hesitasse em urgir Portugal. Era pelo contrario uma das

mais convincentes para o estadista que geria as relações externas do

Reino Unido.

Canning antevia e temia a concorrencia mercantil e sobretudo politica

dos Estados Unidos, e o facto mesmo d'elle recear a preponderancia

norte-americana no continente que se jactava de haver chamado á

existencia autonoma, é um motivo para não acreditar-se que, como

pretendem alguns, a declaração do Presidente Monroe tivesse sido o

fructo do concerto do Secretario dos Negocios Estrangeiros de Jorge IV

com John Quincy Adams.

Na verdade, mais do que a suggestão das palavras ao ministro Rush,

aproveitou á Republica a indicação fornecida pela propria attitude de

Canning para com a metropole hespanhola, si bem que não tivesse igualado

a postura aggressiva de Pitt, reflectida na famosa proclamação de Sir

Thomas Picton, convidando o povo venezuelano a «libertar-se do jugo

oppressivo e tyrannico que mantinha o monopolio do commercio».

Formulando a sua doutrina internacional, cuidavam porem os Estados

Unidos de combater a importancia que estava adquirindo sobre o Novo

Mundo a protecção ingleza, e não em auxiliar quaesquer planos do

estadista britannico. Monroe de facto oppoz o protectorado americano ao

inglez quando ambas as potencias visavam o mesmo alvo, que era a

conquista commercial e moral das novas nações fabricadas com os

fragmentos do imperio colonial iberico.

[Sidenote: Acção dos enviados brazileiros junto a Canning.]

Continuando entretanto Villa Real a demorar o seguimento das

negociações, allegando não receber de Canning a formula, que lhe pedira,

do protesto inglez por occasião do tratado de paz com as colonias da

America, e que lhe devia servir de modelo, os enviados brazileiros,

impacientados, foram ter com o Secretario d'Estado, a quem perguntaram

desassombradamente si estava disposto a tratar isoladamente com elles,

não dando Portugal mostras de querer reconciliar-se. Canning, por cuja

individualidade Caldeira Brant e Gameiro professavam a maior admiração e

estima, não se furtando a encarecer-lhe o genio e a sinceridade, e

tratando-o repetidamente nos seus informes para o Rio de _grande homem

d'Estado_, fizera-os socegar e os aconselhára a de novo procurarem o

conde de Villa Real, ajustando-se por fim a futura troca dos plenos

poderes na forma já descripta, e realizando-se no Foreign Office, a 12

de Julho, a primeira conferencia sobre o negocio do Brazil, a que

assistiram os cinco interessados: Caldeira Brant, Gameiro, Villa Real,

Canning e Neumann[11].

[Sidenote: Esboço de tratado formulado por Brant e Gameiro.]

Os plenipotenciarios brazileiros tinham previamente submettido a

Canning, a pedido mesmo d'este, um esboço do tratado pelo qual Portugal

reconheceria a independencia do reino ultramarino. Era o unico accordo

que tinham recebido instrucções para assignar immediata e

definitivamente, devendo celebrar outro tratado _ad referendum_, em que

fossem passadas em revista e assentadas todas as questões oriundas ou

prendendo-se com a Independencia, taes como successão da corôa,

indemnizações e outras.

[Sidenote: Canning e a successão.]

Canning queria, pelo contrario, incluir logo no tratado de

reconhecimento a regulação da herança do throno portuguez, que

visivelmente o preoccupava, presentimento do qual se pode colligir a

agudeza da sua visão politica.

[Sidenote: Exigencias previas de Villa Real na primeira conferencia do

Foreign Office.]

Quanto a Villa Real, assignalou a entrevista pedindo, antes mesmo de

fallar em reconhecimento, explicações sobre trez pontos, que

correspondiam ás condições portuguezas para a entrada em relações

diplomaticas com a ex-colonia: a cessação das hostilidades; o

restabelecimento das relações commerciaes, e a restituição das

propriedades de Portuguezes sequestradas e das embarcações aprezadas, ou

a indemnização equivalente.

[Sidenote: A suspensão das hostilidades.]

O ministro portuguez, como cabia a um bom diplomata, não deixou de fazer

valer--e a referencia produziu impressão nos circumstantes--que D. João

VI, assim que reassumira a plenitude do seu poder, mandára espontanea e

generosamente suspender as hostilidades. Habilmente porem acudiram

Caldeira Brant e Gameiro que D. Pedro de facto havia feito o mesmo: de

direito não ousaria fazel-o mais expressiva ou terminantemente, visto

não ser, como seu Pai, monarcha absoluto. A evocação das limitações

constitucionaes tinha o condão de agradar sempre a um ministro, como

Canning, que luctava contra os restos do poder pessoal na monarchia

britannica.

[Sidenote: Expedição portugueza ao Rio de Janeiro.]

Tendo os enviados brazileiros aproveitado perfeitamente o ensejo

offerecido pelo portuguez para occuparem-se da expedição de 10,000

homens, com 5,000 mercenarios hanoverianos, a qual ameaçava partir de

Lisboa para o Brazil, ficou combinado que tal expedição quedaria em

projecto (Villa Real prometteu-o com tanto menos ambages quanto Portugal

não sentia grande confiança na praticabilidade do plano de ataque), si

por parte do Brazil continuassem effectivamente suspensas as

hostilidades. Por seu lado prometteram Caldeira Brant e Gameiro

encaminhar para o Rio de Janeiro, a Luiz José de Carvalho e Mello[12],

as proposições do plenipotenciario de S. M. Fidelissima.

[Sidenote: Segunda conferencia no Foreign Office. Canning assume a

tarefa de redigir um projecto de tratado.]

A 19 de Julho teve lugar no Foreign Office a segunda conferencia, á qual

tambem assistiu o principe Esterhazy, já de regresso da Austria e

removido para a embaixada de Pariz[13]. Deu-se nova e infructifera

insistencia dos plenipotenciarios brazileiros para arrancarem ao conde

de Villa Real o reconhecimento da Independencia, e como elle se

recusasse, para levarem as côrtes medianeiras a obterem-no. Fazendo

Caldeira Brant e Gameiro depender tudo mais d'aquelle reconhecimento, e

não indo as instrucções do plenipotenciario portuguez, conforme declarou

depois n'uma entrevista confidencial com os brazileiros realizada a 1^o

de Agosto, além da auctorisação para o reconhecimento da autonomia, não

da soberania do Brazil, a negociação teria entrado n'um becco sem sahida

si Canning, com sua habitual presença d'espirito, não houvesse, para

remover a difficuldade, tomado o expediente de avocar ás potencias

medianeiras a tarefa de redigirem e apresentarem o tratado de

reconciliação. E como o principe Esterhazy advertisse que a côrte

austriaca apenas queria conciliar idéas e não suggeril-as, o Inglez

propoz-se assumir sósinho o trabalho e a responsabilidade. Por sua vez

Villa Real observou, que não possuia poderes para mais do que para

discutir as proposições brazileiras, podendo comtudo encaminhar para

Lisboa qualquer projecto de Canning.

IV

[Sidenote: Fraqueza dos recursos militares do Reino. Papel glorioso da

marinha nacional.]

O plenipotenciario portuguez defendia com pertinacia uma causa de

antemão perdida.

O que se tratava de ganhar, era não mais o Brazil, mas a honra. O

governo de D. João VI devia estar, como o proprio Rei, plenamente

convencido de que, pela guerra, Portugal nada alcançaria. Que os

recursos do Reino se viam impotentes para bater o Imperio, provára-o de

sobejo o facto da pobrissima esquadra nacional ás ordens de Lord

Cochrane, com uma unica nau forte, veleira e bem tripolada, a _Pedro

Primeiro_, haver logrado bloquear a Bahia, immobilisar as forças

maritimas contrarias, incomparavelmente superiores em numero e como

unidades, e compellir em terra o general Madeira a capitular. Peor do

que isso--com quatro navios apenas o almirante anglo-brazileiro, em

Julho do anno anterior (1823), dera caça á esquadra portugueza de treze

navios, comboiando sessenta a setenta embarcações com tropa, familias

portuguezas que se retiravam para a metropole, munições e o mais, e

aprezára ou incapacitára uma porção d'essa frota, pondo a mão sobre

metade do exercito inimigo com bandeiras, artilheria e provisões.

Ficou demonstrado, uma vez ainda depois da guerra naval com os

Hollandezes na costa do norte do Brazil, quanto vale no mar a ligeireza:

as naus portuguezas, mais pesadas, não podiam escapar, quando isoladas

ou interceptadas, ás embarcações mais velozes da marinha brazileira, nem

tampouco podiam perseguil-as de combinação. Deixando em paz o resto da

esquadra dos adversarios, Cochrane aproveitou-se d'essa sua maior

facilidade de movimentos para fazer-se de vela para o Maranhão, que, sem

derramar gotta de sangue, audaciosa e astutamente reduziu á auctoridade

imperial antes de chegar o reforço portuguez. No Pará o capitão

Grenfell, para alli despachado pelo almirante, procedeu de modo analogo

e com identico afortunado resultado, podendo a improvisada esquadra

nacional gabar-se no fim da curta campanha de ter, sem sacrificio de uma

nau, subjugado duas enormes provincias e aprezado mais de 120 navios

portuguezes[14].

[Sidenote: As prezas de Lord Cochrane.]

E sabido que, apezar das legitimas reclamações de Lord Cochrane e da sua

soffrega marinhagem, o Imperador não mandou proceder á condemnação e

adjudicação das embarcações capturadas e bens sequestrados, conscio de

que tal acto excitaria extrema animosidade em Portugal e causaria má

impressão na Inglaterra, e desejando conservar toda a propriedade

portugueza em deposito para opportunamente restituil-a, quando fosse

celebrada a reconciliação com a mãi patria. O Governo Imperial, cuja

segurança contra a opinião nativista não era comtudo tanta que o tivesse

permittido abolir por acto publico as hostilidades, quando para este

passo o instigava o Governo Britannico, porta-voz do Portuguez, queria

manifestar por aquella forma ao Reino e á Europa a sua honestidade e

moderação.

[Sidenote: Entrevista confidencial de Villa Real com os enviados

brazileiros.]

Considerando todas estas razões, o exgottamento de Portugal e a

tolerancia do Brazil no assumpto das prezas, Villa Real entendeu, não

obstante a sua sobranceria de gentilhomem-diplomata, dever abrir-se um

poucachinho mais na entrevista confidencial de 1^o de Agosto com

Caldeira Brant e Gameiro, na qual affirmou com segunda intenção

estar-lhe formalmente vedado ouvir e encaminhar proposições de

independencia que não fossem acompanhadas de justas compensações.

Perguntado n'um tom indifferente pelos nossos enviados quaes poderiam

ser essas suppostas compensações, respondeu, na apparencia vagamente,

que julgava serem, pelo menos, a reunião por morte de D. João VI das

duas corôas na cabeça de D. Pedro, ou dos seus successores immediatos ou

collateraes; favores especiaes ao commercio portuguez, e assumpção pelo

Brazil de parte da Divida Publica portugueza. Caldeira Brant e Gameiro

responderam que, por emquanto, lhes falleciam instrucções para tratarem

dos pontos aventados, havendo, quanto ao primeiro, o Imperador

propositalmente querido separar seus interesses pessoaes dos geraes do

Imperio. Não deixaram entretanto os plenipotenciarios brazileiros de ir

logo apontando o perigo, senão a impossibilidade da reunião das duas

monarchias, a qual no dizer de Villa Real o Governo Britannico julgava

factivel «mediante a alternativa da residencia dos soberanos entre os

dous Estados».

[Sidenote: Novas conferencias no Foreign Office. Má vontade da Austria.

Juizo de Metternich sobre Canning.]

Historia diplomatica do Brazil: O Reconhecimento do Imperio · 第 4 / 18 段