mais explicitos que nenhum dos dous paizes consentiria em que fosse
perpetrada injuria por guerra ou por tratado contra o outro paiz; que
não seria concedido asylo nos territorios de um aos insurgentes contra o
poderio do outro, e que ficariam fóra da lei os transgressores das
disposições contidas nos referidos tratados. Mais do que isso--o tratado
de 1661, celebrado por occasião do casamento de Carlos II com a Infanta
de Portugal, rezava muito cathegoricamente que a Grã Bretanha protegeria
a integridade do dominio colonial portuguez. O Governo de Lisboa
sustentava que a tomada pelas forças do Governo independente do Rio de
Janeiro das provincias brazileiras fieis á auctoridade portugueza; a
persistencia nas hostilidades a despeito da attitude pacifica
voluntariamente assumida por Portugal, e sobretudo o engajamento na
marinha e exercito imperiaes de subditos britannicos, constituiam
flagrantes violações dos tratados em vigor. Estes tratados não podiam
porem, contestava nossa Chancellaria, prever o conflicto entre porções
da mesma monarchia, da qual uma reclamasse «o goso privativo de seus
direitos naturaes e politicos». A admittirem-se semelhantes fundamentos,
a Inglaterra deveria igualmente pôr-se contra as colonias ao lado da
Hespanha, nação com que andava ligada por tratados tão antigos quanto o
de 18 de Agosto de 1604. Este facto não impedira comtudo a Hespanha de,
alliada á França, combater a Grã Bretanha quando foi da revolta das
Colonias Inglezas da America, com as quaes o proprio Portugal pretendêra
entrar em relações, propondo a Benjamin Franklin, então enviado em
Pariz, a negociação de um convenio, antes de reconhecida pela mãi patria
a independencia dos Estados Unidos.
Levando a 5 de Maio de 1824, por ordem de Canning, ao conhecimento do
nosso Ministerio de Estrangeiros o conteudo da Nota Verbal do ministro
Villa Real, o consul Chamberlain ajuntára achar-se S. M. Britannica
disposto a não abandonar o seu velho alliado Rei de Portugal, e
reiterára as representações do Governo Inglez contra «a continuação
inutil de hostilidades não provocadas nem sequer retaliadas, as
confiscações injustas e sem motivo plausivel de propriedades
portuguezas, e o emprego indesculpavel de subditos britannicos nas
operações de guerra contra uma potencia com a qual estava S. M.
Britannica em relações de amizade e alliança». O Governo Britannico
«esperava que o Governo Brazileiro, guiado por um espirito de sabedoria
e humanidade, prestar-se-hia de bom grado a acceder a essas
representações, baseadas tanto sobre seus proprios interesses quanto
sobre os usos reconhecidos».
[Sidenote: Concessões do Imperio.]
Respondendo, avançava o Brazil que a Portugal não era dado valer-se de
obsoletos, ou melhor, inapplicaveis tratados de alliança com a
Inglaterra no intuito de embaraçar a obra do reconhecimento da sua
cathegoria politica. Afim de por seu lado aplainar a execução da dita
obra, convinha porem o Governo Imperial no levantamento dos sequestros;
na attribuição das prezas ao julgamento de uma commissão _ad hoc_ para
fixação dos prejuizos soffridos e de justa e reciproca compensação; e
por ultimo na facil promessa de não mandar atacar as colonias
portuguezas d'Asia e Africa, persistindo em cerrar os ouvidos ás
requisições chegadas d'Angola e Benguella, na costa occidental africana,
para se lhes prestarem auxilio com que se reunissem ao Imperio. Uma
expedição longinqua d'essa natureza mudaria aliás logo o caracter civil
da contenda entre Brazil e Portugal, tornando-a quasi analoga a uma
aggressão estrangeira contra as possessões de S. M. Fidelissima. Na
materia da demissão dos officiaes britannicos, que livre e
espontaneamente, no goso das suas prerogativas de cidadãos do Reino
Unido, haviam posto suas espadas ao serviço da libertação de um paiz
escravisado, é que o Governo Imperial escolhia não acceder; assim como
continuava a fazer a cessação legal (porque virtual já o era) das
hostilidades dependente do reconhecimento da independencia pela
ex-metropole.
[Sidenote: A opinião publica e a suspensão das hostilidades.]
O Governo Imperial explicava que não só seria desairoso e offenderia o
espirito publico, naturalmente susceptivel n'uma crise semelhante, o
ordenar publicamente o Imperio a suspensão das hostilidades quando a paz
se não achava ainda firmada, como daria ensejo a propagar-se a calumnia
assacada pelos demagogos ao Imperador, de estar em connivencia secreta
com seu Pai. Isto quando a separação era um facto consummado e
absolutamente ao abrigo de qualquer reconsideração. O gabinete do Rio
devia já estar farto de repetir o que representava a pura verdade
historica--que a independencia do Brazil não fôra o simples resultado de
um movimento brusco e repentino de despeito ou de revolta: fôra a
coroação calculada e consciente de uma serie de actos praticados pelo
paiz em defeza propria, desde que a politica franca e inequivocamente
anti-brazileira das Côrtes de Lisboa obrigou o monarcha a regressar para
Portugal, e pretendeu compellir o reino ultramarino a deixar-se
novamente impôr a tutela do outro reino.
[Sidenote: Solidez da Independencia.]
D. Pedro não podia ter interesse pessoal na separação, que lhe diminuia
o patrimonio: si accedeu em pôr-se á frente do movimento de desunião, é
que o amor proprio offendido, a conveniencia do momento historico e
mesmo a justiça da causa brazileira dictavam-lhe este procedimento,
desejado e applaudido tanto pelos que ambicionavam obter depressa a
emancipação do Brazil, como pelos que receavam ver cahir o paiz nas mãos
da facção extrema ou fragmentar-se a immensa colonia. A independencia
não corrêra no emtanto tão facil e rapida quanto poderia deduzir-se do
aspecto quasi incruento do conflicto. O partido portuguez era poderoso,
tinha soldados aguerridos, armas e mais dinheiro. O partido nacional
possuia massas indisciplinadas, as armas de carregação que ia importando
por intermedio dos seus agentes na Europa, e os montes de papel moeda
que, a guisa de destroços de um naufragio, annunciavam o sossobrar do
Banco do Brazil, creado pelo governo paternal de D. João VI para
desenvolver a economia brazileira, e que passára a ser, com seus cofres
vasios de numerario e seus livros de caixa prenhes de passivo, o emblema
do descalabro financeiro da colonia que no seculo anterior fizera a
opulencia de Portugal. O impeto do movimento separatista foi comtudo tão
indomavel, que as forças militares da metropole cederam ante as ameaças
palavrosas mais ainda do que diante das demonstrações bellicosas, que o
sentimento de antagonismo ao Reino foi gradualmente tomando
consistencia, linhas e feições com as provocações reaes e imaginadas, e
que o divorcio dos espiritos attingiu o seu auge no momento mais azado
para vingar e para forçar a deferencia das outras nações.
[Sidenote: Conveniencia de transferir para Londres a séde das
negociações.]
As pretenções de Portugal tinham sido, com os argumentos expostos,
habilmente discutidas no Rio de Janeiro entre o Ministerio de Negocios
Estrangeiros do Imperio e o Consulado de S. M. Britannica, mas, para
serem efficientes, as negociações tinham que transportar a sua séde para
Londres, pelo menos emquanto se não chegasse a uma primeira
intelligencia, que fizesse apparecer a perspectiva da reconciliação. A
Nota do conde de Villa Real offerecia, no dizer da communicação ingleza
a Carvalho e Mello, «uma animação evidente á abertura de uma negociação
directa com Portugal», a qual o gabinete britannico entendia que não era
licito ao Brazil rejeitar, consultando quer a justiça, quer a prudencia.
Portugal, já o sabemos, abstivera-se de insistir mais na sujeição
incondicional preliminar, e apenas reservára a discussão da soberania e
independencia para depois de suspensas as hostilidades e restabelecidas
as relações de paz e commercio. A Grã Bretanha, recommendando á
acceitação do Imperio a abertura de paz feita pelo Reino, assumia uma
responsabilidade de que Canning tinha plena consciencia.
O livro do Foreign Office na Legação de Londres, correspondente aos
annos de 1824 e 1825, poucos documentos encerra além de um avultado
numero de chamados, muitos d'elles urgentes, para conferencias dos
enviados brazileiros já com Canning, já com Mr. Planta, o Sub-Secretario
permanente. As negociações foram pois quasi exclusivamente verbaes,
consignando-se porem o seu andamento nos protocollos das conferencias, e
não se relaxando por assim dizer uma semana o interesse de Canning no
seu progredir. Com a firmeza de Canning por um lado, e o temperamento
irrequieto e obstinado de D. Pedro I pelo outro, estavam condemnadas,
_doomed to a failure_ como antecipava Canning, a inercia de D. João VI e
a procrastinação de Palmella.
[Sidenote: A personalidade do Imperador.]
A personalidade resoluta do Imperador era sem duvida um elemento muito
consideravel para a certeza do resultado a attingir. Em face de um
soberano de vontade fraca e de estudada contemporisação erguia-se agora
outro de vontade energica e todo de impulsos, cujos sentimentos de
veneração filial não tinham sido amorosamente cuidados nem pela Mãi, de
quem elle herdára a vivacidade, a bravura, a generosidade e até o
erotismo (_very frisky with the ladies_, escreveria de D. Pedro alguns
annos depois Lady Granville), mas que lhe preferia o outro filho, mais
docil á sua tutela, nem pelo Pai, que pela prole inteira distribuia
igualmente a sua affeição, tibia como a sua indole, e guardára a sua
mais pronunciada estima para um sobrinho e genro mais respeitoso que os
filhos. Os escriptores estrangeiros do tempo são, para o estudo dos
personagens e factos d'esta epocha, preferiveis aos de lingua portugueza
porque os não prendia a cortezania nem o receio de exprimir a verdade, e
ao mesmo tempo os illuminava o clarão de uma percepção intellectual
tornada muito mais desannuviada e penetrante pela educação e estranheza
ao meio que observavam. Todos esses escriptores são tão concordes em
elogiar a bonhomia de D. João VI, a sua clemencia, que não era
absolutamente um effeito da fraqueza pois ao contrario são os tyrannos
mais fracos os mais crueis, a sua accessibilidade, a sua sagacidade
mesmo, como em derramar louvores sobre o donaire e a magestade do porte,
a indefatigavel actividade, a coragem e sangue frio, e a preoccupação de
agradar, ser justo e fazer bem, que distinguiam D. Pedro I. Não
alcançára illustração nem possuia a qualidade de ouvir conselhos outros
que os da propria experiencia, como de passagem no Rio observou o
general Miller, inglez que desempenhou papel conspicuo nas campanhas da
independencia sul-americana. Queria não só agir como pensar por si.
Semelhante orientação era certamente contraproducente n'uma terra que,
na essencia democratica, se vangloriava de constitucional, e entre
homens d'Estado que andavam intimamente, e em muitos casos
inconscientemente mesmo, solicitados por predilecções republicanas:
valia porem um thesouro quando se tratava de questões, como a do
reconhecimento, envolvendo a dignidade da nação.
[Sidenote: A fibra militar.]
N'outro ponto ainda a dissociação do Imperador com o meio tornar-se-hia
mais para diante distincta. D. Pedro de Bragança, soldado até a medulla,
era antes o monarcha talhado para um paiz enthusiasta do exercito do que
para um paiz fundamentalmente paizano, a custo fascinado pelas glorias
das batalhas. Esse mesmo antagonismo não se dava entretanto no momento
da emancipação como se daria por occasião da guerra da Cisplatina,
porque então todas as energias convergiam para a manutenção da liberdade
politica alfim alcançada, e a animosidade contra as ambições de
recolonização por parte da metropole despertava na alma nacional a
somnolenta fibra militar.
[Sidenote: Os plenipotenciarios brazileiros.]
Da parte dos plenipotenciarios brazileiros escolhidos para a missão de
Londres, devia evidentemente manifestar-se o maior fervor no cumprimento
das ordens recebidas. Antes de tudo, tratava-se do baptisado politico da
nova patria, fundada com o alvoroço natural á nação que adquire a
consciencia de haver attingido a sua virilidade. Pessoalmente, Gameiro
Pessoa, o futuro visconde de Itabayana, gosava em alto gráo da confiança
e estima do Imperador, e era apenas legitimo que se sentisse ancioso por
honrar a elevada distincção de que fôra recipiente, com prestar os
melhores serviços ao seu paiz e ao soberano em plena popularidade.
Felisberto Caldeira Brant, o futuro marquez de Barbacena, era um militar
de calma energia e um politico de commedida ambição, o qual devia nutrir
pelo Reino um odio hereditario, como neto do faustuoso contractador de
diamantes que maravilhára a colonia com suas audacias, riquezas e
liberalidades, antes de ir expirar em Lisboa sob o peso de graves
accusações de fraude, livrando-o o terremoto de 1755 da clausura no
Limoeiro desabado, mas não lhe restituindo a opulencia, nem a honra, nem
a paz d'alma[5].
Homem de variadas aptidões, o marechal Caldeira Brant tornou-se
conhecido como guerreiro, como negociante, como diplomata e como
administrador. Pelejou nos mares d'Angola e nos campos da Cisplatina.
Commerciou na praça da Bahia, e com igual desembaraço representou depois
o Imperio em Côrtes européas e privou com os personagens mais
importantes da epocha. Foi estadista benemerito, tendo atravessado um
largo aprendizado para a vida publica e havendo-se salientado, antes
mesmo de entrar na politica, pelas suas idéas intelligentes e
progressistas: assim introduziu o primeiro a vaccina no Brazil, abriu
estradas, importou machinismos bellicos, agricolas e de navegação,
inclusive a primeira machina a vapor, e interessou-se por
estabelecimentos de credito, pelo desenvolvimento da lavoura e pela
colonização das terras[6].
[Sidenote: A questão do reconhecimento.]
Para os dous enviados de D. Pedro I, a Legação do Brazil não foi
certamente uma sinecura. O proprio reconhecimento appareceu-lhes bem
mais difficil do que á primeira vista se imaginava. Varias questões,
conforme é sabido, andavam-lhe connexas, e não era facil achar-lhes
solução que agradasse a ambas as partes.
[Sidenote: A successão da corôa portugueza.]
Primeiramente, havia a questão de dignidade, pretendendo Portugal que a
admissão da independencia do Brazil fosse materia da negociação
diplomatica e não preliminar d'ella, e pensando o Brazil do modo
justamente opposto. Depois, havia a questão da successão, motivada pela
coincidencia de ser o Imperador o filho primogenito e legitimo herdeiro
do Rei. A Inglaterra, certamente para evitar o pouco auspicioso dominio
de D. Miguel, mostrava desejar que as duas corôas se reunissem, após o
fallecimento de D. João VI, na cabeça de D. Pedro: subentendia-se ou não
no espirito dos estadistas inglezes que o Imperador opportunamente as
repartiria, como veio a succeder, formando com a sua progenie duas
dynastias. Opinava Metternich, com melhor senso e previdencia e contra o
juizo dos representantes d'Austria no Rio de Janeiro e em Londres, que a
reconciliação na familia e dominios de Bragança se não poderia operar de
uma maneira permanente ou pelo menos duravel sem uma separação inicial,
absoluta e perpetua das duas corôas, tanto mais razoavel quanto Portugal
nunca se sujeitaria a ser, por um instante sequer, colonia do Brazil. D.
Miguel por esse tempo chegava exilado á côrte de Vienna e o Chanceller,
que decerto se mirava n'esse espelho reaccionario, não levaria á
paciencia deixar sem destino tão formosa vocação auctoritaria.
Sobre o assumpto capital da successão, Caldeira Brant e Gameiro nenhumas
instrucções tinham recebido e viram-se na necessidade de mandar pedil-as
de Londres. O Imperador visivelmente abordava o negocio da regulação dos
seus direitos de successão com muita reserva mental, preferindo aliás
não comprometter-se de antemão a respeitar uma composição que os
menoscabasse. O agente austriaco no Rio de Janeiro não passaria n'este
ponto de receptaculo da opinião imperial, que facilmente haveria sido
suggerida por transmissão ao encarregado de negocios em Londres da côrte
de Vienna. Os ideaes politicos do barão de Neumann não abrangiam por
certo as emancipações coloniaes, e tudo quanto fosse de molde a
favorecer a legitimidade attrahia-o por instincto. Faltava-lhe a visão
limpida ou cynica do homem d'Estado, que em Metternich se sobrepunha aos
preconceitos cortezãos.
III
[Sidenote: Primeiros passos de Brant e Gameiro.]
O primeiro passo dado em commum por Caldeira Brant et Gameiro, no
desempenho da sua ardua missão diplomatica, foi procurarem o barão de
Neumann, a pedir-lhe que encaminhasse para Lisboa a communicação da
chegada a Londres dos plenipotenciarios brazileiros e solicitasse a
nomeação de plenipotenciarios portuguezes, que com aquelles se
entendessem para firmar a paz. A Austria estava a começo--como por fim
estaria de novo--em tão boas disposições para com o Imperio, que o seu
encarregado de negocios na Inglaterra dissera ao banqueiro Rothschild
que podia sem risco de desagradar á Santa Alliança contractar o
emprestimo brazileiro de tres milhões esterlinos, que os nossos enviados
tinham instrucções para negociar sob hypotheca das rendas aduaneiras.
[Sidenote: Carta ao marquez de Palmella.]
O mesmo Neumann questionou porem longamente a redacção da participação
de Caldeira Brant e Gameiro ao marquez de Palmella, apenas recebendo-a,
para endereçal-a ao destinatario, quando approvada por George Canning a
terceira e ultima minuta, e com o protesto de que esse seu acto não
envolvia o reconhecimento do Imperio e do Imperador[7]. Para pouparem-se
uma qualquer _fin de non-recevoir_, Caldeira Brant e Gameiro
acquiesceram em não redigir a carta nos termos que lhes tinham
primeiramente acudido, de que estavam auctorisados a chegar a qualquer
arranjo que julgassem compativel com a independencia do Brazil; mas não
deixaram de referir-se ao seu soberano como tal, achando o contrario em
desaccordo com o theor mesmo das instrucções vindas do Rio. A este
proposito escreveu Canning ao marquez de Palmella, aconselhando o
Governo Portuguez a que não compromettesse a boa vontade manifestada
pelo Brazil em semelhante pormenor com meras questões de forma, pelas
quaes não era atilado sacrificar-se a substancia. Na diplomacia é
entretanto conhecido que as questões de forma não raro primam as de
fundo: n'este caso porem a forma traduzia essencialmente o fundo.
[Sidenote: Resposta do Governo Portuguez.]
O ministro portuguez, conde de Villa Real, abstivera-se de entrar em
relações formaes com os enviados do Governo Brazileiro até receber
ordens positivas de Lisboa, para onde empurrára o negocio da abertura
das proposições de paz e para onde Canning, o qual por occasião da
subida de Palmella ao poder sustára a discussão directa com o Brazil do
seu reconhecimento, preferindo sondar a tal respeito o novo gabinete,
escreveu tambem ao ministro inglez Thornton, que influisse no sentido de
uma prompta solução no despacho da auctorisação. A 26 de Maio já Villa
Real recebia os plenos poderes para negociar, tendo aliás sido feita a
sua nomeação antes de chegada ás mãos de Palmella a communicação de
Caldeira Brant e Gameiro, a qual obteve a polida resposta que podia
antecipar-se da penna do culto diplomata e perfeito homem do mundo[8].
[Sidenote: Palmella no ministerio.]
O regimen monarchico-democratico uma vez varrido pela Villafrancada, o
marquez de Palmella fôra chamado por D. João VI para o ministerio de
Estrangeiros afim de deslindar a embrulhada situação externa legada
pelas Côrtes, cujas relações com os outros Governos estavam geralmente
rotas. Como notorio, era Palmella um liberal moderado, que sinceramente
pensava na outorga de uma Carta Constitucional pelo soberano, ainda que
a lembrança despertasse uma grande opposição por parte dos gabinetes da
Santa Alliança. Como acontece a todos os moderados em circumstancias
apuradas e momentos criticos, foi negativo e impopular: accusavam-no a
um tempo, os reaccionarios de pedreiro livre, e os liberaes de corcunda,
e, hesitante entre os dous fogos, elle nada ousava de decisivo ou sequer
de decidido. O regimen liberal carecia de ser implantado pelas armas
para tornar-se fecunda a acção de Palmella.
[Sidenote: Inclinações francezas de Subserra.]
Em 1824 a sua influencia, mais propensa á amizade ingleza, posto que sem
a minima disposição de sacrificar os interesses do Reino com relação á
separação da sua colonia americana, andava fortemente contrabalançada no
seio do ministerio pela do seu collega Pamplona (conde de Subserra), o
valido do monarcha, cuja demissão Canning acabaria por exigir _quasi com
ameaças_, por consideral-o com justa razão partidario estrenuo e fautor
principal do predominio francez. A dupla corrente tradicional na
politica portugueza, a da alliança britannica contra a da amizade
gauleza, recrudescêra no seu embate, depois da Villafrancada, com a
accessão simultanea de Palmella e Subserra ao poder, concretisando-se
não só n'uma emulação de interesses politicos e dynasticos, como até
n'um desafio de honrarias reaes.
[Sidenote: Desafio de honrarias: o Santo Espirito e a Jarreteira.]
Com effeito, ao tempo que desembarcava em Lisboa o embaixador
extraordinario de Luiz XVIII que trazia ao rei de Portugal a ordem do
Santo Espirito, singrava da Inglaterra n'um vaso de guerra o portador da
ordem da Jarreteira, e contam as cartas de uma senhora ingleza, por esse
tempo residente em Lisboa, que D. João VI só fazia ralhar com os
physicos da real camara para que lhe puzessem logo garbosa a perna
engrossada pelas erysipelas, permittindo-a receber condignamente a liga
symbolica com que Jorge IV queria mimosear o seu fiel alliado. Aquella
rivalidade de estadistas e de vistas, estimulada pelos motivos
d'occasião, revelar-se-hia fatalmente no andamento da nossa questão
diplomatica, si bem que Palmella haja deixado escripto nos seus
_Apontamentos_ que as relações particulares e officiaes que entreteve
com o conde de Subserra foram sempre excellentes, e que procurou o mais
possivel defender o seu collega de gabinete contra o Infante e contra a
Inglaterra.
[Sidenote: Tergiversação da Côrte de Lisboa.]
A côrte de Lisboa apparentemente manifestava a melhor vontade de encetar
as negociações com os representantes de D. Pedro, e a isso movia-a o
interesse de pôr inabalavel cobro ás hostilidades que Canning não
cessava de pedir ao Imperio para sobrestar de vez, por seu turno
reclamando os enviados brazileiros o exercicio da influencia britannica
afim de pôr obstaculo ás apregoadas expedições portuguezas. Afóra porem
estarem Subserra e suas affeições continentaes em plena voga e achar-se
D. João VI na lua de mel semi-absolutista que se seguio ao grosseiro
regimen dos Pétions das Côrtes, Palmella planeava reforçar sua
popularidade á custa do reino ultramarino, e andava pessoalmente muito
despeitado com Canning, pela recusa do gabinete de St-James de mandar
tropas inglezas a defenderem o rei de Portugal contra as facções
extremas que o empuxavam em direcções oppostas, e garantirem o partido
do _juste milieu_ que Palmella encarnava.
[Sidenote: Attitude do ministro Villa Real na troca dos plenos poderes.]
Reflectindo esses cumulativos estados d'alma, o ministro portuguez em
Londres logo á primeira entrevista com os brazileiros levantou uma
difficuldade, negando-se á troca dos plenos poderes por poder ser este
acto erroneamente interpretado como um reconhecimento, posto que
indirecto, do Imperador que delegára os seus. Caldeira Brant e Gameiro
recorreram á auctoridade de Canning, citando o precedente de Mr Oswald,
o plenipotenciario britannico que nos ajustes de paz com os Estados
Unidos não tivera duvida em proceder, sobre a base da reciprocidade, ás
negociações com os representantes das colonias rebelladas, e o
Secretario dos Negocios Estrangeiros, em resposta, lembrou com o seu
costumado espirito que os reis da Grã Bretanha usaram por seculos do
titulo de reis de França, sem que se entendesse, pelo facto da troca
repetida de plenos poderes, que os Francezes reconheciam semelhante
titulo. Villa Real acabaria por acceder á troca, mas acompanhando-a de
um protesto seu ou declaração de resalva dos direitos do seu soberano,
identico ao de Jorge III por occasião da emancipação politica dos
Estados Unidos.
[Sidenote: A Abrilada.]
Os acontecimentos sobrevindos em Lisboa, onde entretanto o Infante
commettêra a peor das suas travessuras, deviam naturalmente acirrar o
desejo de Canning de ver logo ultimada a transacção entre Brazil e
Portugal, antes que se complicasse mais a penosa situação do Reino,
tornando impossivel qualquer accordo immediato. A insubordinação de seu
filho, contagiando parte das tropas da guarnição da capital, obrigou D.
João VI, por conselho e de combinação com Palmella, o embaixador de
França e o ministro d'Inglaterra, a refugiar-se a bordo da nau
britannica _Windsor Castle_ e d'ahi fomentar a reacção contra a reacção,
sendo preso D. Miguel e restabelecida a regia auctoridade.
[Sidenote: Pressa da Inglaterra com relação ao reconhecimento.]