O meio era indubitavelmente favoravel á acção da novel diplomacia

brazileira. O commercio britannico, cujo influxo na Camara dos Communs é

consideravel pelo facto mesmo de achar-se representado n'essa assembléa

n'uma vasta proporção (já assim era antes de 1832), aspirava abertamente

á tranquillidade publica do outro lado do Oceano, e com tal intuito

favoneava quanto podia o reconhecimento do Imperio, cuja grandeza

territorial e fartura de recursos promettiam um campo remunerador á

exploração mercantil européa. Aferindo as cousas pela craveira ingleza e

medindo quanto no seu paiz valia a influencia do commercio sobre a

marcha dos negocios publicos, é que o consul geral Chamberlain

aconselhava no Rio de Janeiro o Ministro de Estrangeiros Carvalho e

Mello a cessar o Governo de fazer apprehender os navios mercantes

portuguezes e, pelo contrario, abrir-lhes os portos brazileiros.

Restabelecido o trafico entre os dous paizes e accumulados os creditos

commerciaes portuguezes no Brazil, os proprios negociantes do Reino

sentiriam o maximo interesse em promover a reconciliação, antepondo as

vantagens praticas ás susceptibilidades patrioticas.

[Sidenote: Differente proceder de Canning para com Portugal e a

Hespanha.]

A Canning não era comtudo licito ferir directa e profundamente as

susceptibilidades de Portugal, onde estava justamente envidando esforços

para moralmente sustentar o regimen constitucional, que parecia ser da

escolha enthusiastica da nação, mas que na verdade era repugnante não só

á côrte, como á idiosyncrasia nacional. Não precisára ter as mesmas

contemplações com a Hespanha, adversaria de sempre em vez de alliada de

seculos, e cujo imperio colonial se esphacelára debaixo das vistas

indulgentes da Inglaterra, sem que esta pensasse um instante em obstar á

desaggregação, antes indirectamente favorecendo-a com a sua sympathia e

até agindo directamente, ao combater os ensaios europeus da intervenção

supplicada por Fernando VII junto dos monarchas da Santa Alliança. Ainda

depois do restabelecimento do poder absoluto em Madrid, teve o rei

d'Hespanha de dar ao gabinete de St-James as duas garantias por este

exigidas para não tornar immediato o reconhecimento da independencia das

possessões rebelladas do Novo Mundo.

As garantias eram as seguintes: 1.^a, que a Santa Alliança não

auxiliaria a Hespanha no reduzir á obediencia as colonias insurgentes;

2.^a, que o trafico mercantil não volveria a ser exclusivo da mãi

patria, ficando aberto a todas as bandeiras. Semelhante promessa por

parte da Inglaterra estava porem longe de ser definitiva, no pensamento

dos que a formulavam. Não passava de uma dilação. As garantias da

Hespanha apenas temporariamente satisfaziam a Canning, para quem o

reconhecimento das nacionalidades da America Latina era resolução

assente, e que formalmente declarou á Hespanha que, no momento

opportuno, o Governo Britannico adoptaria as medidas convenientes para

executar o seu designio sem mais entender-se com ella (_without further

reference to the court of Madrid_).

[Sidenote: Emancipação das colonias hespanholas da America.]

As colonias hespanholas da America já tinham aliás todas dado provas

mais que sufficientes da vitalidade que n'ellas borbulhava.

Buenos-Ayres, a que primeiro, rebellando-se contra o usurpador, por

menos guarnecida e sopitada e mais pobre e descurada logrou separar-se

da mãi patria, não só derrubára o poderio dos seus vice-reis, como

armára expedições libertadoras que com Belgrano tinham chegado sem

proveito ao Paraguay, com Balcarce attingido ousadamente o Alto Perú, e

com San Martin denodadamente corrido ao soccorro do Chile depois do

fracasso da insurreição local. Buenos Ayres tambem por si resistira ás

intrigas francezas e austriacas, soffregas por impôrem-lhe um principe

da Casa de Bourbon ou da de Habsburgo depois de mallograda a candidatura

de D. Carlota Joaquina, e, conservando com amor a sua liberdade, ainda

que esta não passasse de uma mescla de tyrannia e de anarchia, affirmára

em 1826 no Congresso de Tucuman a sua independencia e das provincias que

lhe gravitavam em torno, assim consagrando o movimento de 25 de Maio de

1810, em que fôra deposto o vice-rei Cisneros e acclamada a junta

governativa.

No resto dos vice-reinados a contenda com os elementos fieis ao dominio

da metropole sob não importa que regimen, passára por alternativas, ora

jubilosas, ora cruciantes, e motivára o derramamento de muito sangue

generoso e muito sangue leal em scenas de carnificina que dão á historia

da emancipação da America Hespanhola uma tonalidade rubra que a da

America Portugueza não conheceu. Na primeira a lucta foi

incomparavelmente mais porfiada. Foi antes uma campanha prolongada que

começou logo em 1809, quando chegaram além mar as primeiras noticias da

invasão da Hespanha pelos exercitos de Napoleão, e ainda durava no Perú

quando a Inglaterra, após a entrada em Madrid e em Cadiz das forças do

duque d'Angoulême, entrou a dispôr o reconhecimento das republicas que

haviam alcançado a victoria e ensaiado a pacificação. O espirito de

independencia seguira levando com effeito a melhor, e o gabinete inglez

encontrava, nas decididas vantagens obtidas pelos revolucionarios

americanos, a mais completa justificação da politica momentaneamente

tentada pelos ministros de 1797, de, em opposição á Hespanha, ajudarem

moral e praticamente a libertação das suas possessões no Novo Mundo.

Estas a tinham entretanto grangeado por si mesmas, pelo explodir dos

odios amontoados, e á custa de muitos sacrificios, de muita heroicidade

e de muita barbaridade. A insurreição alli resentira-se da falta de um

centro, como o tivera a do Brazil, que attrahisse e harmonizasse os

disseminados esforços, mas o rastilho revolucionario fôra tão veloz e

preciso que ateára fogo a todo o continente, desde o Orenoco até o

Prata, desde o planalto do Mexico, em que se ergue a antiga cidade de

Montezuma, até a fralda dos Andes, em que se espreguiçam as villas

levantadas pelos conquistadores. A extrema facilidade com que o incendio

se propagou, com que as labaredas revolucionarias apontaram quasi a um

tempo em Caracas, em Quito, em Santa Fé de Bogotá, em Santiago, em

Buenos Ayres, prova á saciedade que a usurpação franceza foi apenas um

pretexto, posto que em muitos casos sincero, para a lealdade colonial, e

que de facto as possessões, si não estavam promptas em educação civica

para desfructarem os beneficios da emancipação, achavam-se no emtanto

maduras para a insurreição pela infiltração das idéas jacobinas--como

tinham vindo a ser denominadas as idéas crescidas e acalentadas no

seculo XVIII. Por mais que calafetassem as construcções coloniaes, o

aroma subtil e violento da liberdade derramava-se por toda a parte e

estonteava todas as cabeças. Frequentemente inconsciente muito embora, a

aspiração era tão geral quanto irresistivel, e acabára por conduzir á

autonomia do continente.

[Sidenote: Emissarios inglezes na America Hespanhola.]

Pelo tempo em que os plenipotenciarios brazileiros, transpunham os

humbraes do Foreign Office, apparelhados para a peleja diplomatica,

emissarios inglezes percorriam as ex-colonias hespanholas afim de

informarem com segurança o gabinete de Londres da situação politica e

social em cada uma e do gráo de estabilidade dos seus governos. A

litteratura britannica sobre a America Latina é devéras copiosa no

primeiro quartel do seculo XIX e a opinião publica na Inglaterra agia

com perfeito conhecimento, não só dos recursos, das bellezas naturaes e

da historia de qualquer das possessões da Peninsula, como dos seus

costumes, qualidade de população e tentativas de independencia. Canning

porem carecia de proceder com todas as precauções e reservas officiaes,

e por isso aguardou os relatorios dos seus emissarios antes de decidir

entrar em relações commerciaes com Buenos Ayres, como aconteceu em Julho

de 1824, e com a Colombia e o Mexico, como succedeu em Dezembro do mesmo

anno. É evidente que taes relações commerciaes equivaliam a relações

politicas, mas em rigor, segundo Canning explicou n'um dos seus

discursos parlamentares, o reconhecimento em condições semelhantes,

podia passar pela consequencia de protegerem-se interesses já legalmente

existentes e não denotar o proposito de crear interesses novos.

[Sidenote: Offerecimento pela Grã Bretanha á Hespanha da sua mediação.]

Immediatamente antes, porem debalde, offerecêra a Grã Bretanha á

Hespanha a sua mediação para tratar com as possessões emancipadas, sobre

a base da sua respectiva independencia. Apenas pretendia que o governo

de Fernando VII entrasse nos ajustes preliminares com inteira disposição

de ceder n'esse ponto em troca de outras condições satisfactorias. A

Hespanha não entendeu acquiescer: appellou para a sua dignidade como um

argumento irrespondivel contra tamanha derogação da sua soberania, e o

ensaio de accordo gorou sem que Canning se preoccupasse

extraordinariamente com isso, porque contava infallivelmente com o

futuro. _Laissez faire et laissez venir_--tinham sido as suas

instrucções de 31 de Dezembro de 1823 a Sir William A'Court,

representante britannico em Madrid. «Mais cedo ou mais tarde, si nos

conservarmos quietos e não dermos pretexto de queixas contra nós, as

cousas correrão muito da forma que desejarmos, ou pelo menos que

permittirmos..... A questão hispano-americana está essencialmente

ajustada.»

[Sidenote: A doutrina de Monroe e a parte que n'ella cabe a Canning]

A doutrina de Monroe acabava de dar, na expressão de Canning, o _coup de

grâce_ ao Congresso de que cogitavam as potencias continentaes para

regular aquella questão. Ora não convinha por modo algum á Inglaterra

deixar tomar-se a dianteira pelo Governo de Washington, o qual, mediante

a famosa declaração presidencial e o connexo reconhecimento das novas

nações latino-americanas, andava grangeando influencia e popularidade no

Novo Mundo. É curioso que Canning tivesse indirectamente sido o maior

causador da doutrina de Monroe. Havendo proposto ao ministro americano

Rush uma acção conjuncta dos Estados Unidos e da Inglaterra na questão

da America Latina, dirigida contra a politica reaccionaria da Europa

continental, obtivera como resposta achar-se o ministro sem poderes

especiaes para acceitar tão imprevisto alvitre, não duvidando comtudo

assumir tamanha responsabilidade si a Grã Bretanha quizesse começar por

proceder ao reconhecimento politico dos novos paizes hispano-americanos.

[Sidenote: Opportunidade do reconhecimento da America Hespanhola.]

Canning julgou não ser ainda chegado o momento indicado e declinou a

suggestão de Rush, a qual levantava forte opposição no seio do gabinete.

Os Estados Unidos aproveitaram-se porem e deram expressão concreta á

insinuação que fôra feita pelo Secretario dos Negocios Estrangeiros de

Jorge IV, d'ella resultando a chamada doutrina de Monroe. O instante

verdadeiramente opportuno para a sua acção, vangloriou-se Canning de

tel-o escolhido um pouco depois, quando Buenos Ayres entrou a soldar as

suas desconjunctadas provincias confederadas, a Colombia a escapar ao

perigo que lhe acarretára o embarque para outro vice-reinado do seu

exercito nacional libertador, e o Mexico a forrar-se das loucas

tentativas dos pretendentes como Iturbide.

[Sidenote: Influxo dos Estados Unidos.]

Canning entretanto não entendia oppôr-se em caso algum ao

estabelecimento de uma monarchia no Mexico, mesmo que fosse em proveito

de uma infanta hespanhola. No seu pensar esse acontecimento, que

extenderia ao continente norte o principio monarchico já estabelecido no

sul, obstaria até a traçar-se a linha de demarcação de que elle mais se

arreceava, a saber, America contra Europa, como davam mostras de

pretender os Estados Unidos e seria fatal n'uma geral democracia

transatlantica. Que assim procedendo, obedecia o illustre estadista á

sua perspicacia e não a moveis egoistas, já o verificámos. O espirito

politico de Canning attingira o gráo de visão e de tolerancia em que a

preoccupação das formas de governo desapparece perante as considerações

mais puras, mais levantadas ou mesmo simplesmente mais patrioticas,

porque elle não occultava, na sua feliz expressão, que em vez de Europa,

gostaria de quando em vez de ler--Inglaterra[4].

[Sidenote: Canning e as monarchias absolutas.]

N'uma carta escripta em 16 de Setembro de 1823 a Sir Henry Wellesley,

então embaixador em Vienna, acha-se mais uma vez affirmada a sua

liberrima theoria das formas de governo. Não tinha, dizia, objecção

alguma a que a monarchia absoluta continuasse a florescer onde era o

producto proprio do solo e onde estivesse contribuindo para a

felicidade, ou para a tranquillidade (que afinal de contas é a

felicidade) do povo. A harmonia do mundo politico não ficaria comtudo

destruida por causa da variedade de instituições civis, em Estados

differentes, assim como a harmonia do mundo physico não é perturbada

pelas grandezas diversas dos corpos que constituem um systema. O

Evangelho proclamou que ha uma gloria do sol, outra gloria das

estrellas, e assim por diante. O principe de Metternich parecia ser de

opinião contraria--que todas as glorias deviam ser iguaes, e estava até

disposto a tentar a experiencia com a Inglaterra, para tornar a gloria

d'ella o mais possivel identica á do sol e da lua do Continente.

Metternich porem que nos deixe socegados em nossa esphera, accrescentava

Canning, ou tocaremos uma musica muito desafinada.

[Sidenote: Condições de neutralidade no reconhecimento da America

Hespanhola.]

Canning era de opinião que uma nação tinha por dever reservar suas

energias para dadas occasiões, e não andar desperdiçando-as em contendas

que se podessem evitar. Por isso labutava por despir o acto que daria

validade internacional ás colonias emancipadas da tutela hespanhola, de

toda e qualquer apparencia de hostilidade. Na occasião em que,

resolvendo agir, resolveu a agirem gabinete e corôa, reconhecendo a

entrada d'aquellas colonias no gremio das nações, já não mais se

tratava, com effeito, de retaliar pelas injurias recebidas ás mãos das

auctoridades da metropole pelos vehiculos do commercio britannico, nem

sequer de n'um impeto de enthusiasmo ajudar os estados embryonarios a

alcançarem sua liberdade. Tratava-se tão sómente de admittir os factos

consummados e entrar em relações officiaes com as unicas auctoridades

constituidas do Novo Mundo. Canning desejava no emtanto fazer sobresahir

a neutralidade de facto guardada pela Inglaterra, chegando a consentir

na justificação eventual da Hespanha no pretender favores mercantis

especiaes das suas possessões emancipadas.

[Sidenote: Canning entre Portugal e Brazil.]

A parcialidade britannica em prol da constituição autonomica da grande

porção do continente que obedecia aos dictames de Madrid, não era

todavia um segredo para ninguem, pelo menos desde que se iniciára a

gerencia por George Canning dos negocios exteriores da Inglaterra, e

sobretudo desde que o Governo Hespanhol recusára os offerecimentos de

mediação ou bons officios que, melhor avisado ou mais sagaz, o Governo

de Lisboa acabaria por adoptar para grande beneficio dos seus

interesses, os quaes de outro modo teriam corrido á revelia e sido por

completo sacrificados ao pundonor do Imperio. Tratando-se de Portugal,

carecia Canning, disposto embora no intimo e inabalavelmente a

igualmente reconhecer a independencia do Brazil, de salvar mais ainda as

apparencias, zelar todas as formas, orientar a sua navegação entre

peores cachopos e mais difficeis correntezas. Tomou não obstante pela

nossa questão tão decidido interesse quanto pela das republicas

hispano-americanas, por amor da qual duas vezes offereceu a Jorge IV sua

demissão, e foi quem realmente promoveu o rapido e feliz resultado

d'esse inicial conflicto diplomatico.

[Sidenote: Interesse de Canning no reconhecimento do Imperio.]

O seu interesse no reconhecimento pacifico da independencia do Imperio

era de resto multiplo e de facil comprehensão. Á Inglaterra convinham

freguezes ricos e alliados fortes, não freguezes arruinados e alliados

desmantelados pela guerra. Demais, a forma monarchica de governo

adoptada pelo novo Brazil estava, em face da poderosa facção demagogica

nacional, para assim dizer dependente da prompta sancção européa. O

exemplo da cordialidade restabelecida entre a mãi patria portugueza e a

sua ex-colonia, com todo um cortejo de vantagens economicas, devia além

d'isso ser efficacissimo para a Hespanha e para a Santa Alliança, que a

sustentava em sua improficua obstinação.

[Sidenote: Delongas de Portugal.]

Portugal é que não estava açodado como o promettido mediador no fazer as

pazes com a sua possessão rebellada, sobretudo depois que a expulsão

_manu militari_ dos deputados da nação brazileira e a prisão e exilio

dos corypheus do partido anti-portuguez lhe haviam dado fagueiras

esperanças de que D. Pedro, um instante desorientado pelos perfidos

conselhos dos patriotas, voltaria á razão e ao lucido exame dos seus

interesses, que eram os de uma monarchia una.

Portugal não contava portanto demover-se da sua postura sem primeiro ter

exgottado os ardis e delongas da diplomacia, e sem bem experimentar a

rigidez da decisão de Canning, para a qual influira, afóra os expostos e

palpaveis motivos, a attitude sympathica e correcta do Brazil official,

contrastando com a hostilidade á Inglaterra, evidenciada pelas Côrtes de

Lisboa. Verdade é que o Governo Constitucional estrebuchava nas ancias

da morte desde a Villafrancada, e que a plena auctoridade restabelecida

do soberano buscaria instinctivamente firmar-se na amizade britannica,

tradicional na sua dynastia, ainda que fossem fortissimas as seducções

empregadas pela Santa Alliança para angariar mais este sequaz.

[Sidenote: Instabilidade politica no Brazil. Os Andradas e o sentimento

liberal.]

Por outro lado a instabilidade politica no Brazil era tão pronunciada

que com orientação definitiva alguma se podia contar. É sabido que os

Andradas, que governavam quando foi proclamada a Independencia e para

esta trabalharam pertinazmente, excitaram pelas suas arbitrariedades a

inimizade de Ledo, José Clemente e outros elementos mais democraticos,

apoiados nas lojas maçonicas, mandadas mais tarde parcialmente fechar, e

para minarem a influencia das quaes organizaram os Andradas o Apostolado

e fundaram o _Regulador_. O Apostolado tomou as feições de um club como

os da Revolução Franceza, sendo para a Constituinte do Rio de Janeiro o

que o club dos Jacobinos foi para a Convenção: alli se discutiam

primeiro as medidas legislativas a propôr á Assembléa deliberante.

Os Andradas eram, no justo dizer de Armitage, facciosos na opposição e

prepotentes no poder. Após uma curta demissão, tinham voltado ao

ministerio com a condição de deportarem os contrarios e buscaram firmar

na perseguição a sua auctoridade, com o resultado que lhes decahiu de

prompto a popularidade, crescendo a onda liberal. Ao iniciar a

Constituinte as suas discussões, encarnavam os Andradas a defeza dos

interesses monarchicos contra as idéas radicaes da maioria da Assembléa.

As posições inverteram-se porem muito depressa. A defeza por Antonio

Carlos de um projecto anti-portuguez de Muniz Tavares levára os

realistas extremes a travarem alliança com os patriotas, sempre

desconfiados dos Andradas, cuja queda assim se tornou inevitavel,

substituindo-os ministros moderadamente realistas (Carneiro de Campos e

Nogueira de Gama). Os Andradas converteram-se logo por isso ás idéas

opposicionistas e tornaram-se façanhudos liberaes. Foi o tempo

inolvidavel do _Tamoyo_ e da accesa lucta parlamentar que terminou com a

demonstração militar levada a cabo pelos Portuguezes, a organização de

outro gabinete mais marcadamente realista, a dissolução da Constituinte

e a deportação de José Bonifacio, Antonio Carlos, Rocha, Montezuma e

outros.

[Sidenote: Portugal invoca em Londres os antigos tratados de alliança.]

O golpe de vista antolhava-se pois favoravel á ex-metropole, para a qual

a desordem no Brazil significava a perspectiva de melhores tempos. D'ahi

uma recrudescencia em Lisboa de esperanças e de impertinencia. Em

Londres o ministro Villa Real exigira na Nota Verbal ao Foreign Office

de 4 de Março de 1824, a mesma aliás em que Portugal entrou a fraquejar,

que, em observancia dos antigos tratados de alliança entre as duas

nações, a Inglaterra não celebrasse convenção alguma com o «Governo do

Rio de Janeiro» sem que fosse contemplado Portugal, e indicára ao mesmo

tempo as condições preliminares de quaesquer negociações suas com o

Brazil. Eram quatro essas condições: cessação de hostilidades;

restituição das prezas maritimas e levantamento dos sequestros; promessa

formal de não serem atacadas as colonias ainda fieis á Corôa portugueza;

despedida dos subditos britannicos ao serviço do Imperio.

Na sua communicação ao ministro Carvalho e Mello, successor de Carneiro

de Campos, o consul Chamberlain especificava como sendo os seguintes os

tratados invocados por Portugal em abono da sua reclamação: Tratado de

Londres de 29 de Janeiro de 1642, artigo 1.^o, Tratado de Westminster de

10 de Julho de 1654, artigos 1.^o e 16.^o, e Tratado de Whitehall de 23

de Junho de 1661, artigo secreto. No proprio mez da proclamação da

Independencia do Brazil e na previsão d'esta occorrencia, o Governo

Portuguez, o qual durante o mesmo predominio das Côrtes pensára em

entrar com a Hespanha n'uma alliança defensiva e offensiva, juntando-se

os seus recursos e armamentos com o fim de subjugarem as respectivas

possessões rebelladas, instára com o Governo Britannico para concluir um

tratado garantindo a Constituição approvada e a integridade do dominio

lusitano. Apezar do governo liberal ameaçar fechar o accordo com o

correlegionario hespanhol e necessariamente prejudicar a influencia

ingleza até então absorvente, Canning excusára-se ao convite, que só

vinha pôr estorvos ao seu plano de organização autonomica do mundo

latino-americano, e não lhe parecia deduzir-se como clausula obrigatoria

das solemnes convenções de amizade pactuadas entre as duas nações.

[Sidenote: A Chancellaria Brazileira discute o appello portuguez.]

No entender da Secretaria de Estrangeiros do Brazil o appello portuguez

áquelles velhos tratados devia ser antes taxado de pueril, visto que,

quando taes convenções haviam sido ajustadas, apenas podiam ter cogitado

da hypothese de uma desavença e eventual reconciliação _com terceira

potencia_, entrando uma das partes contractantes em accordos

prejudiciaes aos interesses da outra parte. Em 1808 por exemplo, no

momento da declaração de guerra de Napoleão, Portugal não teria a

liberdade de ajustar a paz com a França em prejuizo da Inglaterra.

Historia diplomatica do Brazil: O Reconhecimento do Imperio · 第 2 / 18 段