E a Austria entrava no negocio cheia de benevolencia, porque

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Rita Farinha (Jul. 2009)

O

RECONHECIMENTO

DO IMPERIO

[Figura: GEORGE CANNING

Segundo uma tela de Stewardson, gravada por W^m Brett.]

OLIVEIRA LIMA

_da Academia Brazileira_

Historia Diplomatica do Brazil

O

Reconhecimento

do Imperio

H. GARNIER, LIVREIRO-EDITOR

_71-73, rua do Ouvidor, 71-73_ | _6, rue des Saints-Pères, 6_

RIO DE JANEIRO | PARIS

TRABALHOS DO AUCTOR

Pernambuco, _Seu desenvolvimento historico_.--Leipzig, F. A.

Brockhaus, 1895. 1 vol. de XIII, 327 paginas, com 4 retratos.

Sept Ans de République au Brésil (1889-96), extrait de la «Nouvelle

Revue».--Paris, 1896. 1 folheto de 36 paginas.

Aspectos da Litteratura Colonial Brazileira.--Leipzig, F. A.

Brockhaus, 1896. 1 vol. de XVI, 301 paginas.

Nos Estados Unidos, _Impressões politicas e sociaes_.--Leipzig, F.

A. Brockhaus, 1899. 1 vol. de 524 paginas.

Memoria sobre o descobrimento do Brazil, _Suas primeiras

explorações e negociações diplomaticas a que deu origem_.--Premiada

em concurso pela Associação do Quarto Centenario do Descobrimento

do Brazil e publicada no Livro do Centenario. Rio de Janeiro, 1900.

Á MEMORIA DE UM AMIGO

([+] 3 de Novembro de 1897.)

Dedicando á memoria do barão d'Itajubá este ensaio, o primeiro de uma

serie sobre a nossa historia no exterior, desejo relembrar esse amigo,

que durante trez saudosos annos foi meu chefe na Legação em Berlim, e

cuja morte prematura significou para a diplomacia brazileira, n'aquelle

momento, a perda do seu mais completo representante.

Digo completo, porque elle reunia á finura da intelligencia e á pratica

dos negocios, a distincção das maneiras e a formosura do caracter.

Pode-se de certo ser um grande diplomata sem o ultimo predicado: o já

classico exemplo de Talleyrand ahi está para proval-o. A experiencia dos

negocios pode ser supprida pelos rasgos de genio: Napoleão, aos 28

annos, dirigia as negociações de Campo Formio com a pericia consummada

que Albert Sorel nos descreveu em um bello trabalho. Itajubá era porem o

equilibrio moral em pessoa. N'elle algumas qualidades se não haviam

desenvolvido extraordinariamente á custa d'outras. Methodico em extremo,

a chancellaria era o seu templo, o expediente o seu sacerdocio, sem que

comtudo a rotina o tornasse imbecil, ou sequer a burocracia lhe

desmanchasse a linha fidalga. A certa hora aquelle funccionario modelo

convertia-se muito naturalmente--porque n'elle nada havia de

affectado--no homem de sociedade mais correcto e mais attrahente. Á

banca de trabalho nunca conheci intelligencia mais viva, percepção mais

prompta dos diversos lados de uma questão. Em um salão nunca conheci

pessoa mais á sua vontade, tendo uma resposta finamente espirituosa,

nunca maldosa, para tudo, igualmente amavel para com todos.

Esta amabilidade era tanto mais captivante, quanto derivava não só da

sua educação, como do seu coração. Itajubá era, além de intelligente e

distincto, bom, fundamentalmente bom, de uma bondade simples e tocante.

A sua alma rejubilava discretamente á idéa do bem que n'um dado momento

podia praticar, e atormentava-se com o mal--para outrem--que não podia

evitar. Para outrem note-se, porque, no que lhe dizia respeito, mostrava

uma impassibilidade que dava a medida do seu espirito superior. Não que

fosse indifferente aos ataques ou á má vontade. Sua sensibilidade era em

demasia delicada para permittir-lh'o, mas sabia como genuino mundano

esconder a sua contrariedade, sem, christão verdadeiro, guardar o mais

leve rancor.

Repito, Itajubá era o equilibrio moral em pessoa: igualmente solicito no

desempenho dos seus deveres officiaes e sociaes, polido até o requinte,

generoso de verdadeiras attenções--que é bem mais difficil do que ser

generoso de dinheiro--affectuoso até a ternura para os seus, que o

adoravam, e para os amigos, que o estremeciam.

O nome do barão d'Itajubá não ficou ligado em nossa historia diplomatica

a nenhuma convenção particularmente notavel, mas a um sem numero de

pequenas negociações delicadas e a algumas espinhosas, que elle sabia

guiar com mão segura e resolver com um tacto perfeito. Ministro em

Madrid, em Washington, em Roma, em Pariz e em Berlim, nunca se lhe

deparou occasião para diplomacias de alta escola, nem elle a procurava.

Achava com razão que, no caminhar diario dos negocios, ha farto ensejo

de prestar serviços para quem os não visa como meio de chamar a

attenção. A sua excellente posição social em todas aquellas capitaes

facilitava-lhe, de resto, a solução de qualquer questão, reflectindo-se

toda em lustre do paiz que elle personificava.

Nos ultimos annos o facto que poz mais em evidencia a capacidade

diplomatica do barão d'Itajubá foi o reconhecimento da Republica

Brazileira pelo Governo Francez a 20 de Junho de 1890, obtido

exclusivamente por sua influencia pessoal, trez mezes antes de fazel-o

qualquer outra nação européa, sem aguardar a França o resultado das

eleições para a Constituinte do Rio de Janeiro. Fizeram-lhe d'isso um

crime por ser elle um representante vindo do antigo regimen e um amigo

do Imperador deposto; quando o _crime_, aliás commum a centenares de

outros, significava apenas que, com a sua visão sempre clara dos

acontecimentos e dedicação á nação que servia, Itajubá comprehendêra

perfeitamente que a monarchia americana cahira para sempre, e que o

dever dos brazileiros residia muito mais na defeza do bom nome do paiz,

em promover a continuidade das suas tradições de honra e de civilização,

do que na dedicação platonica e improficua a uma dynastia que mais se

suicidára do que fôra derrubada. Elle serviu a Republica com a lealdade

que foi a regra da sua vida publica e privada, que foi a melhor arma, a

unica mesmo, da qual se serviu victoriosamente contra os seus

detractores e, usemos do termo proprio, os seus invejosos. A sua norma,

a sua justificação, consistiam em antepôr sempre e em tudo ás formulas

que passam, alguma cousa que fica--a Patria.

Oliveira Lima.

Londres, 25 de Janeiro de 1901.

HISTORIA DIPLOMATICA DO BRAZIL

O

RECONHECIMENTO DO IMPERIO

I

[Sidenote: A Europa e o reconhecimento.]

A Independencia consummou-se em 1822; o reconhecimento do Imperio do

Brazil pelo Reino de Portugal apenas teve lugar em 1825, e antes da

ex-metropole nenhuma nação européa, nem mesmo a Inglaterra de Canning,

abalançára-se a receber em seu convivio official a colonia insurgente.

De 1823 a 1827 coube pois á joven diplomacia brazileira pugnar na Europa

pela admissão no areopago politico do mundo civilizado da nova nação

americana, creada pela ousadia e decisão de um Principe, pelo sentimento

latente e crescente da desunião, pela habilidade e patriotismo de alguns

estadistas, pelo enthusiasmo e confiança de numerosos espiritos cultos,

e pela valiosa cooperação de um almirante inglez em ostracismo social.

[Sidenote: Papel da esquadra na Independencia.]

Sem esta ultima contribuição não é exaggerado dizer que os esforços das

demais corriam grave risco de ficarem frustrados. Com effeito, senhores

os Portuguezes do norte do Brazil, estabelecidos em terra e no mar, e

sendo absurdo pensar n'uma expedição terrestre sahida da capital, só

poderiam ter sido expellidos das suas posições por meio de uma esquadra,

a qual se formou ás carreiras e com benemerito vigor local, supprindo

elementos da officialidade estrangeira, especialmente da britannica que

acabava de se distinguir na libertação do Perú e do Chile, o que havia

ainda de escasso e deficiente na marinhagem nacional. Era esta tanto

mais inexperiente quanto, sob o dominio portuguez, o proprio commercio

de cabotagem andava vedado aos Brazileiros. Na Inglaterra acontecia

justamente que a terminação das guerras napoleonicas, depois de

revolucionada a Europa, deixára a meio soldo e sem pasto para sua

actividade muitos officiaes de valor e ambição, que sobremaneira

estimavam encontrar em outros campos de batalha emprego para seus gostos

e habilitações.

A esquadra ás ordens de Lord Cochrane, o grande _condottiere_ naval da

emancipação do Novo Mundo, foi, mau grado a sua composição heterogenea,

o agente principal da nossa União. A ella deve-se que, quando o marechal

Felisberto Caldeira Brant Pontes e o cavalheiro Manoel Rodrigues Gameiro

Pessoa, com razão fiados nas boas disposições do Foreign Office,

apresentaram-se a Canning urgindo o exercicio da influencia ingleza para

effectuar-se o reconhecimento pela mãi patria e conseguintemente pela

Europa do Imperio sul-americano, este merecesse bem o seu titulo pela

enormidade do seu territorio e homogeneidade da sua organisação.

[Sidenote: Aberturas de reconciliação.]

Não fôra sem grande trabalho que chegára a tornar-se possivel esta

solução pacifica da acalorada disputa que, por motivo da separação,

tinha lavrado entre as duas partes da monarchia portugueza. Canning, que

de principio tomára a peito a questão, manifestára porem o parecer que o

Brazil não podia nem devia mais esquivar-se com pretextos de dignidade e

amor proprio á inclinação, muito por ultimo e a muito custo, mostrada

por Portugal, de consentir na abertura de negociações directas de

reconciliação sem exigir a previa e incondicional submissão, na qual

insistira inflexivelmente para satisfazer o espirito publico e quando

julgava que o Reino Unido passaria do papel de _honnête courtier_ para o

de interventor determinado. De accordo com a suggestão do Secretario

d'Estado dos Negocios Estrangeiros de Sua Magestade Britannica e ao

tempo que Portugal, seduzido pelos conselhos das potencias continentaes,

ia regressando á primitiva intransigencia, o Brazil iniciava sua

campanha diplomatica nas côrtes do Velho Mundo.

[Sidenote: Nomeação de Brant e Gameiro.]

Caldeira Brant e Gameiro Pessoa tinham sido encarregados de aplanar as

differenças entre as duas nações sem propriamente solicitarem a mediação

britannica, mas tendo ordem de communicar ao Foreign Office os seus

passos e tentames, e de pedir e receber os conselhos de Canning.

Caldeira Brant anteriormente á sua missão residira na Inglaterra,

officialmente acreditado na qualidade de agente do Governo do Brazil.

Como tal se occupára de variados negocios, entre outros de construcções

navaes e alistamento de marinheiros, até Agosto de 1823, mez em que

partira para o Imperio.

[Sidenote: Expedições armadas na Inglaterra.]

O alistamento de marinheiros realizava-se sem inconveniente nem

embaraço, mesmo depois da Independencia, não tendo na pratica applicação

ás possessões portuguezas o _Foreign Enlistment Bill_, proposto e

approvado em 1819 para privar d'então em diante de justificação as

queixas da Hespanha, a qual via com desgosto e irritação sahirem dos

portos britannicos expedições armadas em favor da emancipação das suas

colonias americanas. Eram semelhantes expedições, tanto a consequencia

do tradicional espirito liberal da nação ingleza, naturalmente

sympathica a qualquer nacionalidade oppressa ou desejosa de ganhar seus

fóros, como a expressão das vantagens mercantis que um commercio que

acabava de soffrer o bloqueio continental e se via a braços com a

accumulação de mercadorias d'elle resultante, encontrava em novos

mercados abertos á sua iniciativa. Custára tanto menos a Canning

defender aquelle projecto ministerial quanto achava-se persuadido, com a

firmeza da intelligencia e a confiança da vontade, que a emancipação da

America Latina consummar-se-hia fossem quaes fossem as circumstancias

que a favorecessem ou a retardassem. O Brazil estava de resto em posição

differente, porque em rigor não podia considerar-se uma colonia

abruptamente despregada do tronco metropolitano. Algum tempo antes de

declarar-se independente e sobretudo com a curta regencia de D. Pedro,

gosára o reino ultramarino de uma larga autonomia que o habilitára a

entabolar relações européas e a fazer-se julgar como um governo de

facto, capaz de desempenhar seus proprios compromissos.

[Sidenote: Encarregatura de negocios de Hyppolito.]

Na ausencia de Caldeira Brant ficou interina e officiosamente

encarregado dos negocios do Imperio o vigoroso jornalista que durante

quinze annos estivéra na estacada, redigindo o _Correio Brasiliense_ e

prestando á causa constitucional e da liberdade americana os mais

assignalados serviços. Em recompensa havia Hyppolito José Pereira da

Costa Furtado de Mendonça merecidamente sido nomeado Consul Geral em

Londres, lugar que exerceria cumulativamente com o de Conselheiro da

Legação quando o Governo Britannico reconhecesse ambas as nomeações,

pois até então estava permittida nos portos da Inglaterra a admissão da

bandeira independente, mas não se concedia o _exequatur_ aos consules,

posto que fossem nomeados e recebidos consules inglezes no Brazil e na

Cisplatina. A etiqueta diplomatica o mais que tolerava n'este ponto eram

os agentes commerciaes, vedando quaesquer formulas externas do

reconhecimento politico a que no fundo annuia.

A encarregatura de Hyppolito foi muito curta e pouco interessante. Em

Novembro de 1823 era o cavalheiro Gameiro, que estava servindo de

encarregado de negocios em Pariz, removido no mesmo caracter para

Londres, só recebendo porem a respectiva communicação em Março de 1824.

O pobre Hyppolito fallecia entretanto, quando via despontar o triumpho

do seu ideal, sem poder desfructar a victoria e deixando tão pobre a

senhora ingleza que desposára, que o Imperador, a pedido do duque de

Sussex, mandou conceder-lhe uma pensão de cem libras annuaes.

[Sidenote: Instrucções a Gameiro.]

Nas instrucções que simultaneamente com a nomeação eram expedidas a

Gameiro, dizia-se que elle e o marechal Caldeira Brant, que estava para

regressar do Rio de Janeiro, seriam os plenipotenciarios escolhidos para

tratar em Londres da questão primordial e magna do reconhecimento do

Imperio, que preoccupava essencialmente os estadistas brazileiros e que

tambem mais ou menos tinha occupado a attenção de Canning desde a sua

volta ao Foreign Office, coincidente com a proclamação do Ipiranga. As

instrucções do Ministerio de Estrangeiros recommendavam entretanto a

Gameiro que se fosse empenhando sósinho pelo alludido negocio,

procurando ser logo admittido publicamente como encarregado de negocios,

depois ou mesmo antes de dar satisfacção, corroborando a que no Rio de

Janeiro fôra dada em Notas ao consul Chamberlain, pelos «actos

inconsiderados do passado ministerio». Diziam estes actos respeito ao

incidente com o brigue de guerra _Beaver_, contra o qual a fortaleza da

Lage disparára dois tiros de polvora secca quando ia sahindo em occasião

que o porto havia sido mandado fechar, e á entrada na armada nacional do

desertor tenente Taylor, que o Governo Imperial a muito custo e com

muito sacrificio se prestava a demittir e, si tanto fosse exigido,

entregar, como prova da sua boa vontade para com a Grã Bretanha.

Lembremos de passagem que Canning teve o espirito e a generosidade de

contentar-se com a demissão do seu distincto compatriota.

[Sidenote: Posição diplomatica do Brazil.]

O recebimento, pelo menos officioso, de Gameiro não padecia duvida,

apezar das intimas ligações de Portugal com a Inglaterra. Nem podia ser

d'outro modo. A França, si bem que não permittindo a reciprocidade,

acabava de despachar como encarregado de negocios para o Rio de Janeiro

o conde de Gestas; a Prussia até manifestára desejos de concluir um

tratado, e o consul britannico Henry Chamberlain exercia no Brazil

funcções diplomaticas que, no rigoroso acatamento dos preceitos do

direito das gentes, só deveriam caber a um agente acreditado perante um

governo legalmente constituido. O reconhecimento formal estava porem

longe ainda de achar-se ultimado, e era essa a chave que para o Brazil

abriria a porta a todas as outras negociações, mesmo a da abolição do

trafico de escravos com que o Imperador acenava á Inglaterra, e cuja

regulação inicial no tratado de 1810 com Portugal e na convenção de

Londres de 1817 andava tão imperfeita ou mal interpretada, que fornecia

azo a seguidos protestos do consul Chamberlain.

[Sidenote: Justificação da Independencia.]

Nas instrucções mandadas a Gameiro, após insinuado que outras potencias

européas poderiam roubar á Inglaterra a prioridade no passo de amizade

internacional que o reconhecimento significava, assim affectando os

interesses commerciaes britannicos, e de reaffirmada a resolução

inabalavel do Imperador e do seu povo em manterem a attitude tomada,

resumiam-se os motivos que tivera o Brazil para desligar-se de Portugal,

avultando entre elles a retirada de D. João VI do Rio de Janeiro e a

tyrannia das Côrtes demagogicas de Lisboa, e salientava-se «que a

Politica, os interesses Nacionaes, o resentimento progressivo do Povo, e

até a propria Natureza tornavam de facto o Brazil Independente[1].»

Relembrava-se que a ex-colonia «conciliando os principios da

Legitimidade com os da Salvação do Estado, e interesses publicos»,

patenteára toda a sua dedicação á Casa de Bragança ao acclamar como seu

soberano o primogenito do monarcha portuguez, ao passo que as nações

hispano-americanas se tinham constituido debaixo da forma republicana de

governo, forma que tambem era a predilecta de uma turbulenta facção no

Brazil, «animada pela effervescencia do seculo», e a qual augmentaria e

ganharia força si se verificasse que ás realezas européas repugnava a

plena admissão como legitimo «de um governo fundado na justiça, e na

vontade de quatro milhões de habitantes». O titulo de Imperador

correspondia aliás a uma idéa de escolha, eleição ou sagração popular

que se coadunava com o espirito democratico do paiz, e, no dizer das

instrucções, fôra adoptado «por certa delicadeza com Portugal; por ser

conforme ás idéas dos Brazileiros; pela extensão territorial; e

finalmente para annexar ao Brazil a cathegoria que lhe deverá competir

no futuro na lista das outras Potencias do Continente Americano».

[Sidenote: A mediação ingleza suggerida.]

Declarando estar prompto para tratar com seu Augusto Pai sobre a base do

reconhecimento da cathegoria politica assumida pelo Brazil, e por este

modo facultar a Portugal «aproveitar do Brazil o que ainda fôr

possivel», o Imperador acabava por mencionar, como podendo originar um

tal resultado, a mediação ingleza, certamente agradavel a Portugal e que

elle de boa mente acceitava, sem que a tivesse solicitado. Assim pois,

antes da chegada de Caldeira Brant, já tivera Gameiro ensejo e tempo

para entender-se com aquelles que deviam ser os mais importantes

personagens na peça que se ia representar no tablado do Foreign Office.

O caminho estava aberto. Quando ambos os enviados receberam do Rio suas

instrucções definitivas e plenos poderes para negociarem com todas as

potencias européas, immediatamente procuraram em virtude da previa

intelligencia tanto o Secretario d'Estado dos Negocios Estrangeiros do

Reino Unido, como o barão de Neumann, encarregado de negocios da Austria

na ausencia do Embaixador, principe Esterhazy.

[Sidenote: A Austria igualmente medianeira.]

Viera a combinar-se que o gabinete de St-James, protector declarado de

Portugal, e o Imperador da Austria, sogro de D. Pedro I, seriam

conjunctamente os medianeiros ou antes assistentes na paz e

reconciliação directamente negociadas em Londres entre a metropole e a

colonia da vespera. Canning, em seu louvavel empenho de preservar a paz

quanto possivel, gostava de proceder de harmonia e até favorecer os

designios das potencias continentaes, sempre que esses não fossem

adversos aos interesses britannicos. Os bons officios da Grã Bretanha

haviam sido primeiro suggeridos por Palmella, ao responder a uma

declaração do novo ministro inglez, Sir Edward Thornton, de que o

gabinete britannico estando persuadido da impossibilidade de

restabelecer-se a sujeição, voluntaria ou forçada, do Brazil, era

conveniente concordar-se logo no modo de resolver a pendencia,

satisfactoriamente para a independencia politica do Brazil e para a

soberania em ambas as partes da monarchia portugueza da Casa de

Bragança.

[Sidenote: Canning resolve a questão da mediação ou bons officios.]

Um pouco depois, por effeito de conselhos contrarios dados em Lisboa ao

gabinete da Bemposta, o conde de Villa Real, ministro portuguez em

Londres, vibrou como uma ameaça a interferencia das potencias

continentaes. Canning porem, que combatia no Velho Mundo os dictames

reaccionarios da Santa Alliança e os desconhecia com relação ao Novo,

declinou para o caso vertente toda e qualquer intervenção de semelhante

natureza. Abria apenas uma excepção para a Austria pela razão do intimo

parentesco entre as côrtes de Vienna e do Rio de Janeiro, ao ponto mesmo

de prometter suspender eventualmente o reconhecimento do Imperio

Brazileiro até dar mostras de consummar-se a mediação austriaca, si

preferida á britannica. Os bons officios da Inglaterra não podiam

todavia ser evitados, dada a sua posição de ascendencia em Lisboa como

no Brazil, e o Governo Portuguez volveu a cortejal-os, no intuito de por

meio d'elles obter do Imperio as condições mais suaves para o orgulho da

mãi patria. Por seu lado Canning, servindo-se do consul Chamberlain,

insinuou a vantagem d'aquelles bons officios no espirito dos governantes

brazileiros, a cujo conhecimento incumbiu-se de levar posteriormente as

disposições mais conciliadoras de Portugal, de entrar em negociações

para regular a futura successão das duas partes da monarchia e

restabelecer as primitivas relações commerciaes existentes entre os dous

reinos.

[Sidenote: Canning como interventor a pedido.]

Não era facil empreza, mesmo para o genio diplomatico de Canning, o

desmanchar as desconfianças e attritos levantados entre Portugal e

Brazil, fazendo ver a este quanto a amizade do Velho Mundo lhe seria

proveitosa e como lhe cabia angarial-a pela sua moderação e

condescendencia, e esforçando-se por annullar n'aquelle a procrastinação

e má vontade estimuladas pelas potencias continentaes, as quaes pintavam

o gabinete britannico como exclusivamente devotado a fomentar os

interesses brazileiros.

Canning logrou todavia realizar o seu intento. A dissolução da

Constituinte do Rio de Janeiro, em Novembro de 1823, animára o Governo

de Lisboa em sua estudada morosidade, alvoroçando-o com a perspectiva do

predominio no Brazil do chamado partido portuguez; quando porem essa

ultima esperança se lhe esvaio, de que o Imperador seria levado ou

compellido a readmittir a soberania paterna, mandou ao conde de Villa

Real instrucções que o fizeram solicitar formalmente, por meio de uma

Nota Verbal com data de 4 de Março de 1824, a intervenção britannica

afim de obter satisfacções por parte do Brazil. Era um meio indirecto ou

antes um circumloquio diplomatico para reabrir a questão, sendo posta de

lado a preliminar submissão do Imperio ao seu _status_ colonial.

Apparentava-se tratar sómente de reparar offensas e prevenir maiores

conflictos, previamente a ventilar-se qualquer outra differença, isto é,

a de soberania ou independencia. Os bons officios da Grã Bretanha e da

Austria entraram por esta forma n'uma phase de effectividade, não

dispensando absolutamente Canning a collaboração da côrte de Vienna,

cuja mediação havia sido solicitada em fins de 1823 pelo Governo

Portuguez.

[Sidenote: Benevolencia da Austria.]

E a Austria entrava no negocio cheia de benevolencia, porque Canning

convencêra tão perfeitamente Metternich que a destruição do throno

brazileiro, fatal no caso de falhar o reconhecimento, seria mais

perniciosa ao principio monarchico, por ambos os estadistas acatado, do

que a acceitação da separação dos dous reinos, que o Chanceller

austriaco, após demorar por alguns mezes sua resposta ao gabinete de

Lisboa, declarára sem ambages que lhe não parecia possivel

restabelecer-se a situação anterior á Independencia e que o mais avisado

seria, na hypothese muito provavel do Brazil não consentir em acceder a

uma autonomia completa e effectiva, debaixo da suzerania portugueza e

sob o governo de um principe portuguez, assegurar a corôa americana para

a Casa de Bragança. O Governo Austriaco dizia-se prompto até a annunciar

ao Imperador do Brazil, uma vez effectuada, a concessão da

independencia, a qual todavia nunca reconheceria senão depois de o fazer

Sua Magestade Fidelissima.

[Sidenote: Hostilidade da Santa Aliança. A Inglaterra e a Austria em

pontos de vista diversos.]

A boa vontade da Austria, inspirada pelas considerações de familia, não

era porem tudo, mesmo que não variasse, segundo veio a acontecer.

Canning perceberia a breve trecho, conforme escrevia a Lord Liverpool

poucos mezes depois, que «Portugal parecia ser o terreno escolhido pela

Alliança continental para combater peito a peito a Inglaterra, pelo que

devemos estar preparados para travar a peleja e destroçar o inimigo,

supportando qualquer forma imaginavel de intriga ou intimidação, sob

pena de sermos expulsos do campo[2]». Começa porque os dous medianeiros

da questão brazileira de certo modo collocavam-se em pontos de vista

diversos. A Austria, ou Metternich por ella, não podia seguramente ver

com muito bons olhos que o Imperio Americano pretendesse trilhar a senda

constitucional, legado da maldicta Revolução.

[Sidenote: Metternich e a Constituição Brazileira.]

Um momento houve mais tarde em que Canning assustou-se devéras com um

boato corrente, de ter Telles da Silva, o agente brazileiro em Vienna,

promettido ao Chanceller desistir o Imperador, em troca do

reconhecimento, da perfilhada orientação liberal, e chegou a perguntar

por escripto a Brant e Gameiro si era verdadeira tal intenção. O boato

era falso, ainda que lhe dessem côr a dissolução forçada da Constituinte

e as subsequentes deportações politicas, mas o certo é que, segundo

lê-se na correspondencia dos nossos enviados, Neumann iria

successivamente esfriando do seu primitivo interesse pela causa

brazileira, acabando por trabalhar de mãos dadas com o plenipotenciario

portuguez, conde de Villa Real.

[Sidenote: A orientação franceza sob os Bourbons.]

Esta mudança só deve ser attribuida á conhecida e fundamental antipathia

da Santa Alliança por tudo quanto tresandava a liberalismo e ao

accrescimo de favor que conseguintemente lhes merecia o Portugal

regressado aos bons tempos do absolutismo. A referida attitude do

Imperador D. Pedro contra a Camara emanada da vontade popular, o seu

acto de violencia seguido da outorga de uma Carta Constitucional,

deviam-lhe no emtanto assegurar pelo menos a sympathia da França, que

para effectuar uma mudança semelhante em proveito de Fernando VII,

emprehendêra a expedição de Hespanha. Á França porem desagradariam

altamente o reconhecimento pacifico e cordial e a reconciliação do

Imperio com o Reino mediante a intervenção amigavel da Inglaterra, que

assim recolheria a gratidão de ambas as partes; isto quando os seus

planos politicos, sobretudo acariciados pela fogosa imaginação romantica

de Chateaubriand, abraçavam uma larga esphera de actividade opposta á

britannica.

[Sidenote: Largos planos de Chateaubriand.]

O Ministro dos Negocios Estrangeiros de Luiz XVIII calculára, não sem

propriedade, que a restauração da monarchia absoluta hespanhola pelo

exercito francez daria á nação invasora o direito consequente e

inseparavel de auxiliar a reconquista da America Hespanhola, ou mesmo

redundaria n'uma procuração para tal fim. Á Inglaterra que, quarenta

annos atraz, sustentára uma custosa guerra para reduzir á obediencia as

suas colonias americanas revoltadas, estava vedado empatar em principio

o exercicio dos incontestaveis direitos hespanhoes, e si tal o fizesse

na pratica, contava a França com a neutralidade benevola das potencias

continentaes para a sua faina de abater, por meio de uma guerra, as

pretenções britannicas e tomar a desforra de Waterloo, ao mesmo tempo

tornando popular pelo reflexo da gloria militar a monarchia dos

Bourbons. Nas _Memorias d'além campa_ Chateaubriand confessa não ter

tido em vista fito mais alto do que esse interesse dynastico, ao servir

a politica bellicosa do momento e levar a cabo as decisões do Congresso

de Verona, parallelamente reduzindo a questão hespanhola, de européa a

franceza, o que traduzia uma decidida vantagem nacional.

[Sidenote: A França no Novo Mundo.]

A reconquista da America Hespanhola em proveito do inepto representante

dos Bourbons d'Hespanha, afóra o immenso beneficio moral, traria com

certeza para a França--assim o devaneavam Chateaubriand e o gabinete

Villèle--uma recompensa territorial avultada no Novo Mundo, a qual seria

o nucleo da reconstituição do poderio colonial francez, perdido no

decorrer do seculo anterior e com que se locupletára a Inglaterra,

empolgando o Canadá e alastrando-se pelo Hindostão. Chateaubriand, que

vagueára pelos campos do Oeste americano, tornados ainda mais extensos

pela solidão immensa em que jaziam, e, contemplando as aguas barrentas

do Mississippi, meditára longamente sobre os problemas politicos e

moraes do universo, sentia mais do que qualquer outro a importancia da

diminuição soffrida pela França com a perda do Canadá e a alienação da

Louisiana, cuja juncção com a possessão do norte, subindo a corrente do

grande rio que parte longitudinalmente em dous os Estados Unidos,

interceptaria a expansão ingleza e fundaria um imperio latino onde hoje

se espraia a magestosa democracia anglo-saxonica. O posto seria, alem de

tudo o mais, excellente para exercer sobre a America Central e

Meridional a hegemonia que os Estados Unidos já estavam avocando e a que

Luiz Napoleão mais tarde quiz insensatamente oppôr a do Imperio Mexicano

estabelecido e protegido pelas aguias francezas

[Sidenote: Inconvenientes para o partido da reacção de uma solução

amigavel do conflicto luso-brazileiro.]

A serena liquidação da questão brazileira seria, para a execução de tão

altos designios, um obstaculo quasi insuperavel, representando uma

victoria para a Grã Bretanha, que assim desfeiteava a Santa Alliança,

reforçava a opinião liberal do mundo em prol da independencia das

colonias hespanholas, e em extremo difficultava o complemento do

projecto de restauração ultramarina da auctoridade da metropole. Não

admira pois que a França se absorvesse na partida, usando de toda a sua

pericia. Mesmo despedido Chateaubriand do ministerio, o que se deu a 5

de Junho de 1824, a politica franceza não variava o seu rumo e Villèle,

senão um ultra, pelo menos governado por elles, ficava para zelar-lhe a

orientação geral, naturalmente antipathica ao Imperio, cujo soberano

trahia em alguns actos a sua educação absolutista, mas cujos estadistas

persistiam, com o seu instinctivo feitio democratico, em desafiar a

legitimidade, o direito divino e outros fetiches do passado.

[Sidenote: Embaraços creados pelo partido da reacção]

«Si l'empereur ne s'accommode pas aux vues des Souverains de l'Europe,

on le fera sauter en trois mois», chegou Neumann a dizer um dia a Brant;

ao que, sem perder o sangue frio, replicou laconicamente o marechal:

«Tant pis pour eux», significando, como Canning, que os soberanos

europeus assim ceifariam ingloriamente a unica monarchia americana, sem

poder mais substituil-a pelo extincto regimen colonial e sómente dando

nascimento a uma outra republica. Brant e Gameiro, bem que não quizessem

dar a conhecer aos estranhos o seu estado de espirito, arreceavam-se

todavia muito das tendencias hostis da Santa Alliança, a cujas intrigas

attribuiam mesmo a opposição e animosidade de Buenos Ayres, que já em

1824 ameaçava declarar-nos a guerra. É preciso não esquecer que batia

justamente então a hora do apogêo da politica reaccionaria de

Metternich, quando em França os ultras, com a elevação imminente de

Carlos X ao throno, preparavam-se para dominar exclusivamente o governo;

a Hespanha soffria em dolorida resignação as prepotencias de Fernando

VII, forro da escravidão constitucional, e Portugal via apparecer em

plena luz, á frente dos regimentos que regressavam empoeirados de Villa

Franca ou postavam-se insolentes no largo da Bemposta, a figura esbelta

e brutal do Infante absolutista.

[Sidenote: Evolução liberal na Inglaterra e papel de Canning na politica

européa.]

Na Inglaterra, pelo contrario, accentuava-se a evolução liberal,

naturalmente combatida pelos _tories_ puros, mas tirando forças do

contacto com a lucta e ganhando incremento com o proprio ardor da

peleja. O papel politico de George Canning na historia britannica e na

do mundo avulta tanto aos olhos da posteridade, porque na verdade foi

decisiva a sua acção e grandiosa a sua obra, que consistiu

particularmente em garantir a autonomia completa de um Continente, para

isto transformando a politica externa da Inglaterra, creando o seu

isolamento, e pondo cobro ás allianças austriacas cultivadas por

Castlereagh em obediencia ás suas inclinações pessoaes e no intuito

diplomatico de fazer frente ás ambições russas. Poucos mezes depois de

recolher a herança de Castlereagh, Canning desvendava sem hesitações as

suas vistas nas seguintes palavras de uma carta ao Rei, de 11 de Julho

de 1823 "...As grandes potencias despoticas do Continente presumiam

estar V. M. indissoluvelmente unido aos seus principios e projectos. Por

minha parte desejo pelo contrario, avisada ou inconscientemente, ver o

peso da auctoridade de V. M. lançado no outro prato da balança. Muito

mais do que isso. Estou intimamente convencido que a verdadeira posição

de V. M. no embate existente de theorias adversas e opiniões extremas, é

uma posição neutra: neutra tanto entre principios hostis como entre

nações hostis; e que é sustentando essa posição, a qual V. M. unico

entre os soberanos da Europa pode assumir, que V. M. conduzirá sem

demora o seu povo ao mais alto gráo de prosperidade, e estará melhor

habilitado para salvar outros paizes dos perigos que, por seu turno,

podem ameaçar quasi todos elles."

[Sidenote: O conservantismo de Lord Castlereagh.]

Não devemos d'ahi entender que o predecessor de Canning no Foreign

Office tivesse sido um reaccionario do estofo de Metternich. Não podia

sel-o, porque forçosamente ainda que inconscientemente, pulsava n'elle o

constitucionalismo organico do Inglez. Era porem um _tory_ da velha

eschola, com os peores prejuizos politicos da classe aristocratica,

contrario por instincto ás mais benignas manifestações revolucionarias,

e disposto por natureza ao mais compromettedor galanteio com a Santa

Alliança. Apenas appellára para a sua sobranceria quando essa Alliança,

tornando-se mais ousada com a acquiescencia do gabinete de Londres,

proclamou doutrinas, no seu dizer incompativeis com as leis fundamentaes

da Grã Bretanha; e ainda assim não falta quem assevere que, em

semelhante emergencia, fôra precaria a sua sinceridade, e que mais

imperára n'elle o respeito pela opinião do Parlamento do que a propria

convicção. Castlereagh em principio repellio com apparente vigor a

theoria da intervenção absolutista, preconisada e firmada no Congresso

de Troppau em 1820, mas assentira praticamente na miseravel e sangrenta

intervenção austriaca em Napoles.

[Sidenote: Castlereagh e a emancipação do Novo Mundo.]

Si assim ousava ir d'encontro á opinião progressiva do seu paiz, não é

de espantar que o interesse mercantil do mesmo, combinado com a

indifferença ou antes antipathia pela Hespanha, não fossem sufficientes

para compellir o seu ingenito conservantismo a favorecer o movimento

autonomista do Novo Mundo. Tão pouco sympathica era comtudo a attitude

de Castlereagh á opinião predominante na Inglaterra, mesmo á de antes da

Reforma de Lord Grey; tão avessas ao caracter politico britannico,

aquella fascinação pelas prerogativas das monarchias absolutas e

qualquer identificação com os planos domesticos continentaes, que um

observador como Greville, movendo-se no meio social mais exclusivo e

aparentado com algumas das primeiras casas da Inglaterra, escrevia no

seu diario que a perda do então marquez de Londonderry fôra grande para

o partido e maior para os amigos, mas nulla para o paiz, e criticava sem

rebuço o proceder do Governo Inglez para com aquellas das nações

européas que se tinham fiado na Grã Bretanha, ao tratarem da applicação

do seu ideal liberal.

[Sidenote: Metternich e o Foreign Office.]

O bisbilhoteiro Greville conta mesmo que Castlereagh andava feito com

Metternich, tendo Canning e Lord George Bentinck, secretario particular

d'este, encontrado no Foreign Office, por occasião da accessão de

Canning ao posto, papeis particulares que evidenceiam, não só que

Castlereagh, ao affectar afastar-se da Santa Alliança, pretendia apenas

deitar poeira nos olhos da Camara dos Communs, como que na realidade

seguia cegamente a politica mystica e retrograda inaugurada por

Alexandre I. O positivo é que lavrava manifesta contradicção entre as

exigencias publicas, do meio e do momento, e as preferencias individuaes

e de casta de Castlereagh, e tambem que Metternich levou tempo a

convencer-se que Canning era sincero na opposição movida á Santa

Alliança: persuadira-se a principio que o seu liberalismo internacional

se cifrava n'uma mera necessidade parlamentar[3].

[Sidenote: Era Canning um democrata?]

Canning estava entretanto longe de ser um democrata. «Desadoro as

revoluções, exclamava elle no famoso discurso de Plymouth, ao ser-lhe

offertada em 1823 a franquia do burgo. Passei quasi trinta annos da

minha vida batalhando por velhas instituições. Não deve comtudo ficar

deslembrado que, ao resistir á Revolução Franceza, em todas as suas

phases, desde a Convenção até Bonaparte, eu certamente advogava a

resistencia ao espirito de innovação, mas não advogava menos a

resistencia ao espirito de dominação estrangeira. Emquanto esses dous

espiritos permanecem ligados, a resistencia a um anima a resistencia ao

outro; uma vez separados todavia, ou, o que é ainda peor, em antagonismo

um ao outro, o mais estrenuo e mais consistente anti-revolucionario pode

bem hesitar no partido a escolher». Si bem que fosse um _tory_

enthusiasticamente anti-reformista, Canning tinha chegado, por um

concurso de circumstancias politicas e da propria idiosyncrasia, a

personificar na politica exterior britannica o elemento mais audaz de

governo, bem como na politica geral européa a defeza das franquias

constitucionaes, ameaçadas de destruição. No mesmo discurso de Plymouth

elle assim definia sua posição: «Julgo muito pouco avisado, como parece

querer a Santa Alliança, forçar a um conflicto os principios abstractos

da Monarchia e da Democracia. O papel da Inglaterra consiste em

preservar, tanto quanto fôr possivel, a paz do mundo e a independencia

das diversas nações que o compõem. Não julgo, como parece julgar a Santa

Alliança, que não existe segurança para a paz entre as nações, a menos

que cada nação esteja em paz comsigo mesma, ou que a Monarchia absoluta

seja o feitiço de que depende tal tranquillidade interna».

Pensando assim, nenhuma tendencia propriamente reaccionaria podia

ser-lhe sympathica. Os povos valiam no seu entender tanto quanto os

reis, ou por outra, um rei só merecia fidelidade quando reinava para o

seu povo. Elle mesmo era um exemplo vivo do quanto já logravam alcançar

em sua patria o prestigio pessoal e o favor da opinião. Não passava do

filho, singularmente dotado de talento, de um homem bem nascido mas

quasi pobre, e de uma mãi honesta mas que tivera de fazer-se actriz

depois de viuva, para manter-se a si e a elle. Este desprotegido do

berço, após uma brilhante ascenção parlamentar, alguns annos de

administração, uma curta embaixada e outros annos de estudado

afastamento, vira-se quasi unanimemente indicado e fôra novamente

collocado por Lord Liverpool no Foreign Office, quando o tornou vago o

suicidio de Lord Castlereagh.

[Sidenote: Canning e Jorge IV.]

É sabido que Jorge IV, que mais tarde viria a estimal-o sinceramente,

oppoz-se com acrimonia á sua segunda elevação aos conselhos da corôa,

sendo o motivo vulgarmente apontado do rancor real, o facto da demissão

de Canning do gabinete por occasião do processo da rainha Carolina, da

qual pretendia o monarcha divorciar-se depois de enxovalhar-lhe a

reputação. Canning, como amigo e conselheiro que havia sido da infeliz

princeza, entendeu conservar-se neutral n'esta questão que tanto agitou

a Inglaterra e quasi conduziu a uma revolução, não tomando parte alguma

no andamento do processo e debates parlamentares. É porem mais natural,

como quer provar o commentador da correspondencia de Canning, que o Rei

se sentisse alheado d'este homem d'Estado, não por um resentimento já

apagado e em todo o caso injustificavel, mas antes por causa das idéas

avançadas de Canning no tocante á emancipação dos Catholicos e á das

colonias latino-americanas. Pela primeira não poude fazer muito, tendo-o

roubado a morte em plena maturidade e poucos mezes depois de haver

galgado a _premiership_, assumindo a direcção geral dos negocios

publicos. Quanto á segunda, os cinco annos de gerencia dos negocios

estrangeiros foram-lhe bastantes para transmudar a politica

ultra-conservadora do seu predecessor e affixar-se deliberadamente como

o adversario europeu da Santa Alliança.

[Sidenote: Influencia de Canning no partido e sua independencia de

opiniões.]

Consentia-lhe esta postura, em desaccordo com a maioria dos _leaders_ e

com o throno, a sua força extraordinaria na Camara dos Communs e no

partido, isto é, a harmonia do seu pensar com o sentimento geral do

paiz, e a fascinação exercida pela superioridade do seu espirito sobre a

massa dos partidarios, os quaes não poderiam tambem olvidar que Pitt lhe

encaminhára os primeiros passos parlamentares, se lhe affeiçoára em

extremo e por fim o designára como seu successor. _Tory_ leal até que a

repugnancia dos elementos mais conservadores do partido fel-o inclinar

para os _Whigs_, com os quaes pode dizer-se que, havendo-o abandonado

Wellington, Eldon e Peel, governou depois da morte de Liverpool, durante

a sua curta _premiership_, nunca podia ter sido um tribuno popular, nem

como tal teria feito carreira no tempo dos burgos podres e do predominio

quasi exclusivo das grandes familias nobres; mas tampouco foi um

satellite da aristocracia, posto que a ella estivesse ligado por laços

de parentesco. Canning porem nascêra para guiar e não para ser guiado. A

sua composição moral era completa, pois que era um delicado no sentir,

um idealista no conceber e um homem de acção no executar.

[Sidenote: Perfil intellectual e politico de Canning.]

As inclinações litterarias de Canning levavam-no para a poesia satyrica,

que traduzia a feição humoristica do seu espirito, no qual casava-se,

n'uma combinação encantadora, uma preoccupação repassada de gravidade

dos problemas politicos do momento com uma certa levesa propria do

tempo, da sociedade e do homem, e que o tornou alheio aos problemas

propriamente sociaes. As suas preferencias mundanas conduziam-no para a

vida elegante e refinada n'um circulo limitado e escolhido de

apreciadores, nunca tendo conseguido a ambição tão vasta quanto legitima

que o impellia, vergar-lhe o animo ao ponto de cortejar a facil

popularidade dos comicios e das plataformas. Até ser membro do gabinete,

Canning escreveu muito mais do que fallou. As suas orações parlamentares

mais notaveis datam quasi todas do tempo em que se sentava no Banco do

Thesouro, quando com o prestigio do cargo passou a expôr na sua forma um

tanto diffusa mas cuidada, animada e persuasiva, as idéas e os conceitos

que lhe acudiam em abundancia, e que até então confiava especialmente á

correspondencia privada com os seus intimos. Os seus ideaes politicos

arrastavam-no, já o sabemos, para a restituição dos direitos politicos

aos Catholicos, a abolição da escravatura e o reconhecimento das

nacionalidades americanas, sem que comtudo o liberalismo n'elle

constituisse o desdobramento de uma natureza apaixonada, philantropica

ou exhuberante de seiva. A localisação d'esse liberalismo na alma

ponderada e equilibrada de Canning não correspondia portanto ao

enthusiasmo de O'Connell, nem ao evangelismo de Wilberforce, nem á

exaltação communicativa de Brougham. O defensor da America Latina era um

estadista reflexivo, um monarchista convicto, um governante por

temperamento; conservador por calculo si não por instincto no que dizia

respeito aos negocios domesticos, patriota intransigente em questões de

politica exterior, não recuando ante a solução extrema da guerra na

aspiração de salvaguardar a grandeza britannica, quando falhassem os

meios suasorios, da paz e da diplomacia.

[Sidenote: Pitt e Canning]

Pitt apparecia-lhe como o typo representativo da epocha, como o

precursor do imperialismo que tinha de ser a caracteristica e a condição

da orientação ingleza. Como Pitt, possuio elle nervo e mostrou audacia,

e não foi sem razão que n'um celebre discurso, alludindo á guerra da

intervenção franceza na Hespanha, lhe foi dado exclamar com toda a

emphase a que, no periodo litterario de Chateaubriand, nem a oratoria

ingleza escapou: «Eu decidi que, a ter a França a Hespanha, tel-a-hia

sem as Indias. Olhei para a America com o fim de corrigir as

desigualdades da Europa. Chamei um novo mundo á existencia para servir

de contrapeso ao antigo.»

[Sidenote: A libertação da America Latina.]

O pronome da primeira pessoa não foi muito do agrado dos collegas de

Canning no gabinete, mas traduzia a realidade. A intervenção da França

nos negocios da Hespanha, combatida até o ultimo momento pelo ministerio

Liverpool--receosa a Inglaterra d'essa renovação anachronica do velho

Pacto de Familia--e apenas tolerada com as trez condições, que a França

respeitaria Portugal, deixaria em paz, entregue ás suas luctas e

facções, a America Hespanhola, e não permaneceria indefinidamente além

dos Pyreneus, determinou Canning, e Canning mais que ninguem na Grã

Bretanha, a procurar, nas colonias emancipadas das metropoles

peninsulares, um contrapeso valioso para a balança internacional, e uma

nova e mais extensa base sobre que apoiar a influencia britannica. O seu

systema politico, inverso do de Castlereagh, tinha, como vimos, por

fundamento que a Inglaterra devia ser o fiel da balança, não só entre

nações inimigas, como entre principios inimigos. Sendo o anti-liberal o

prato que então pendia, por amor do proprio equilibrio Canning lançou o

poder moral e material da sua patria no outro prato, que tinha reunido

contra si o peso da Europa continental.

II

[Sidenote: O commercio britannico favoravel ao reconhecimento.]

Historia diplomatica do Brazil: O Reconhecimento do Imperio · 第 1 / 18 段