destino historico sem conseguir reatar as tradições perdidas, apesar dos
violentos abalos da natureza e dos homens para levantal'a do atoleiro em
que se deixou cahir--a libertação de Hespanha, o terremoto de Lisboa, as
reformas do marquez de Pombal, de Fernandes Thomaz, de Mousinho da
Silveira, de Passos Manuel e de tantos outros; apesar dos movimentos
revolucionarios de 1820, 1834 e 1846: chegámos a descrer do futuro
d'este povo illustre cujos destinos se acham indissoluvelmente unidos
aos nossos!...
Foi debaixo d'esta ordem de ideias sombrias que concebemos e compozémos
esta poesia.
Ella era então, como ainda o é hoje, a expressão fiel do nosso pensar e
do nosso sentir, e, como a anterior, mantemol'a tal qual nos sahiu
espontaneamente da laboração do nosso espirito contemplativo, e sonhador.
REVELLACÃO
Paginas 25 a 32
Foi escripta esta poesia n'uma sexta-feira de Paixão, na quinta dos
Frades Cruzios, de Coimbra, junto ao grande lago que hoje ainda alli se
vê, cercado d'um espesso e alto muro de verdura entretecido com os ramos
de cedros já hoje seculares.
A cinta feita por elles em volta do lago tranquillo é tão compacta que
junto das suas margens sentimo-nos por completo sequestrados do mundo
exterior, e levados á contemplação do infinito do Ceu no finito da
Terra!...
Tinhamos assistido durante tres dias consecutivos ás ceremonias
commoventes da lithurgia catholica nas festas da Semana Santa,
celebradas com pompa na Capella da Universidade.
Tinhamos ainda a alma combalida com os patheticos cantos do _Miserere_,
de José Mauricio, e com as retumbantes orações dos levitas da Egreja,
lançando do alto da sua cadeira sobre as multidões meio scepticas as
suas palavras de desconforto e de desesperança sobre o destino humano,
quando, fugindo a este meio deleterio e sombrio, appellámos para a
Natureza, por ser esta aos nossos olhos a Biblia da _Verdade_ e do
_Amor_, escripta com palavras vivas e eternas, que não carecem das
explicações dos concilios Ecumenicos, para serem os verdadeiros dogmas
do nosso credo.
Alli, levantando o problema do destino humano na Terra, encontrámos
palavras d'Amor e de Justiça que suppozemos dignas de consignarmos nos
nossos versos, destinados a servir, nos nossos despertenciosos e
apoucados recursos, a causa da Humanidade.
Este CANTO pela sua structura e motivo fazia parte do Livro segundo, mas
transpozemol o para aqui por conter a ideia inicial da philosophia que
presidiu a quasi todos os outros.
AVE CREATOR
Paginas 37 a 40
Esta poesia foi escripta n'um bello dia de sol, no cimo d'uma montanha,
em face d'um largo horisonte, na quinta da Beselga, que é proxima aos
memoraveis campos d'Asseiceira, onde se feriu a ultima batalha a favor
das armas liberaes. Pertence esta quinta a um dos nossos mais dilectos e
dedicados amigos, o Conde de Nova Gôa.
N'esta e na dos Carvalhaes, que fica n'um dos extremos da poetica
Bairrada, e não longe do sagrado e querido Bussaco, e a que nos
referiremos na poesia _Á Terra_, foi onde se passou o periodo da nossa
maior actividade litteraria.
O nosso remanso n'aquella quinta tranquilla e poetica, e a convivencia
com senhoras da mais selecta sociedade de Lisboa, que alli iam passar
parte do anno, muito concorreram para alguma das nossas mais vibrateis e
sentidas composições poeticas.
Esta é uma das que nos sahiram mais espontaneas e que melhor traduzem as
emoções da nossa alma perante o grande espectaculo do mundo, alumiado
pelo Sol e vivificado pelo Amor!
AO HOMEM--Á MULHER
Paginas 57 a 65
O pensamento que inspirou estas duas poesias é como que uma synthese da
philosophia moderna, a base indestructivel d'uma nova Moral, a pedra
angular sobre que deverá levantar se o templo da futura religião da
Humanidade.
É o Homem, da grande altura a que chegou a civilisação, á intensa luz de
factos demonstraveis e irreductiveis, e depois de longos seculos de
desalento e decrepitude, a readquirir a confiança em si, nas leis da
Vida, nas forças da Natureza, de que se vae apossando a pouco e pouco,
na sua missão no mundo, na integração dos seus destinos no Universo.
É o reprobo da Religião semita, o expulso do Paraiso por decreto de
Jehovah, convertido no filho dilecto da Natureza e de Deus, no
prescrutador dos seus segredos e dos seus processos, e que hoje, senhor
do plano geral da creação, armado de recursos infinitos, esclarecido com
os fachos inapagaveis das sciencias e das artes, dispondo de thesouros
infinitos: assenta definitiva e resolutamente os seus arraiaes no
planeta que lhe foi dado para theatro da sua ideia, no paraiso dos seus
primitivos sonhos, no pantheon de sua gloria, no templo da sua nova fé.
É pois o homem que se levanta, do pó da terra, da cinza do seu nada que
lhe fôra imposto como _labaro da vida_, para se constituir no augusto
executor da _obra divina_, n'um dos cooperadores conscientes dos
_Problemas do Universo_.
É o batalhador incansavel, o Hercules da Civilisação que, depois de ter
expurgado a Terra dos seus elementos maus para d'ella tomar posse,
pretende agora, com os fachos da Razão e do Amor, expulsar do seu
espirito os espectros das religiões revelladas, as lendas da sua
meninice, e tornar-se o sabio, o forte, o luctador por excellencia.
Depois de ter conquistado o mundo pela Força e pela Razão, pretende
agora redemil'o pelo Amor e pela Justiça.
Para esta missão incruenta depõe aos pés da mulher não só o seu destino,
como por instincto o fizera até hoje, mas o da propria especie, porque
foi d'ella que Deus confiou a renovação da Vida pelo Amor e a incumbiu
de nos dulcificar a existencia com os actractivos proprios do seu sexo e
os encantos que derivam da sua belleza e da sua graça.
A piedade que de ha seculos trabalha o coração humano, e que d'elle
irrompe como um arroio crystalino, vindo ora da India com as doutrinas
de Boudha, o christo do Oriente, ora da Palestina com os sonhos de
Isaias, e os evangelhos de Jesus; agora da Grecia com o espiritualismo
de Platão e de Socrates; logo apoz de Roma com as maximas e exemplos de
Marco Aurelio; mais tarde sob o Ideal de Christo, da França com
o rei S. Luiz e S. Francisco de Salles; da Hespanha, com Santa Thereza;
de Portugal, com Frei Bartholomeu dos Martyres e tantos outros:
tornou-se por fim a corrente caudal do Direito Moderno que já em 1789
nos sorria sob o lemma da Liberdade, Egualdade e Fraternidade, e que,
pela solidaridade das raças e dos Povos, e pela sua mutua e
indistructivel dependencia, será a chave da todo o Problema Humano, no
novo cyclo para onde as leis historicas nos encaminham.
Como se vê a Religião e a Moral mudam apenas do objectivo e de processo.
O Ideal, isto é o Bem Supremo, desloca-se das bandas do Passado para os
horisontes do Futuro, e deixa dormir sepulto nas sombras o que já foi, e
sob a condemnação d'um decreto divino, para nos apparecer, como a
columna de fogo aos olhos dos Hebreus, á frente dos individuos, das
nações e dos povos e encaminhal'os á Terra da Promissão!
Por este novo objectivo a historia da civilisação, d'harmonia com as
leis do Universo, seguirá n'uma marcha não regressiva para o Passado,
como o pretendiam as religiões revelladas, mas progressiva em demanda do
Ideal sonhado, Ideal que muito ao longe nos fascina como um foco de luz
intensa e impenetravel, que nos cega, e além da qual só ha o
Absoluto--Deus.--
O homem por este novo credo deixa de ser o degredado filho d'Eva para se
constituir no artifice divino, no triumphador por excellencia! Converte
a propria historia, escripta com sangue e com lagrimas, na Biblia unica
authentica e verdadeira; no melhor estimulo da sua fé; na melhor
glorificação do seu Deus.
Para que o _par humano_ se não estonteie, porém, com a propria gloria, e
não se proclame egual ou superior a Deus, como nos tempos do paganismo:
collocamos sobre a sua cabeça uma Entidade que a elle em tudo o
sobreleva, que, intangivel aos seus desvarios e erros, por elle vela e
sobre elle estende a todo instante a sua acção protectora, a Virgem mãe
dos povos--a _Humanidade_!
Não é ella nascida da phantasia dos homens, mas surge real e verdadeira,
em plena luz e cheia de gloria, das emmaranhadas e mysteriosas paginas
da Historia! A seus pés depomos, desprendendo-os das cordas da nossa
lyra, os primeiros trenos d'amor como um timido e passageiro ensaio, na
poesia que lhe consagramos de pag. 74 a 77.
Poderão os defensores das religiões positivas, feridos nos seus
interesses, alcunhar-nos de hereges e cobrir-nos de injurias; mas o que
jámais conseguirão é provar-nos que o homem, que tirar dos seus proprios
triumphos a glorificação do seu Deus, não se engrandeça a si e ao
Creador, e não se torne por isso digno do espectaculo da natureza, onde
surgiu como um dos cooperadores conscientes dos problemas da vida!
A despeito das malidicencias d'uns, das ironias e satyras doutros, temos
fé que estes CANTOS hão de encontrar sympathia e acolhimento nas almas
simples e boas, a quem os consagramos, e é quanto nos basta.
Á HUMANIDADE
Paginas 74 a 77
Este CANTO é como que uma antiphona, embora ainda indecisa e pallida, em
louvor d'aquella Divindade invisivel que, ao cabo d'infindos seculos, e
a despeito dos antogonismos e odios que as religiões e a politica
semeavam, soube conduzir os Povos, por mil meandos e caminhos oppostos,
á conciliação e a Paz universal, que já hoje se desenha como o ideal do
seu futuro viver!
Esta solidariedade em que todos elles se encontram perante _a solução
d'um Problema commum_, é uma das Verdades fundamentaes que já desceram
das regiões da utopia e dos sonhos para o imperio dos factos.
O prestigio da sua causa e a rapidez dos seus triumphos são taes que tem
feito em meia duzia de lustros o que todas as religiões do Passado não
conseguiram n'uma serie interminavel de seculos!
A sua acção avassaladora attinge as culminancias dos mais altos poderes
constituidos! Até incita o proprio auctocrata de todas as Russias a
propor ás mais nações do mundo o desarmamento geral, ou pelo
menos a reducção d'essas forças terriveis, a proporções que não
contrariem os interesses dos Povos, a causa do Direito, e os principios
do Justo!...
Pode até dizer-se que os mais celebres capitães, Alexandre, Julio Cesar
e Napoleão, sem o pensarem e sem o quererem, se tornaram os mais
poderosos semeadores d'este Ideal da Justiça Moderna![1]
Até ás proprias forças da Natureza, no uso que o homem d'ellas está
fazendo abrindo canaes, levantando pontes, estendendo em todas as
direcções dos quatro pontos cardeaes do globo uma rede infinita de
telegraphos e d'estradas, até ellas estão conspirando para o triumpho do
novo direito!...
A sua acção omnipotente, embora indirecta, accusa-se todos os dias na
vida intestina dos povos, nos seus interesses os mais materiaes; na
organisação das poderosas companhias transantlanticas, a vapor; na
celebração dos tratados de commercio entre todos os povos do globo; na
publicação de revistas scientificas; na realisação de conferencias e de
exposições internacionaes, onde em tudo prodomina o espirito cosmopolita
e universal dos tempos modernos!
É um levantamento das almas a que é preciso levar um Ideal
espiritualista, um objectivo religioso, um culto emfim para que se
apposse das multidões e se converta nos preceitos d'uma moral pratica,
no Labaro d'uma religião universal.
Por elle um povo illustre derramou já o mais generoso do seu sangue afim
de conquistar para o mundo dos factos, com o proprio sacrificio, _a
formula juridica d'este novo Direito_; e, a despeito da guerra
desapiedada dos representantes do velho regimen, a sua doutrina penetrou
em breve no espirito de todos os codigos!
Se estas conquistas extraordinarias, chamar-lhes-hemos assombrosas, de
Civilisação Moderna se alcançaram sem o concurso das religiões
positivas, que lhes foram adversas, sem o proposito dos imperantes e dos
politicos, poder-se-ha calcular: que transformação profunda e rapida nos
destinos do universo se não vae operar, quando aquella Mãe que
preside á sorte dos povos, e que tem estado até hoje degredada nas
regiões abstractas do pensamento, tomando uma forma visivel e humana, se
constituir na soberana por excellencia, na protectora dos fracos, na
redemptora dos opprimidos, na consoladora dos que choram, na fé e
esperança dos que sonham, na mensageira em fim do Creador que, tanto
quanto é permittido ás forças humanas, converterá em realidades as
promessas de Jesus no sermão divino da Montanha!
É prevendo o culto que mais tarde as mulheres, os sabios e os justos lhe
hão de prestar, que esboçamos este cantico religioso.
Para que esta aspiração se converta na religião do Futuro basta que a
Mãe de Jesus, esta creação poetica e encantadora do symbolismo
catholico, avocando a si a realidade da historia, e entrando nos usos e
costumes dos povos: synthetise o espirito de novos tempos e se torne a
fiel depositaria do pensamento do Creador na Terra, a mensageira da
Verdade, a distribuidora da Justiça e do Amor, a Virgem Mãe dos Povos.
Então todas as antiphonas e canticos que a Egreja hoje faz entoar em
honra da Mãe de Jesus, serão poucos para a glorificarmos!...
[1]Laurent nos seus estudos sobre a _Historia da Humanidade_
demonstra á saciedade quanto estes e outros heroes foram meros
instrumentos d'uma causa superior, a vontade de Deus, em tudo o
que fizeram.
AO NOVO CYCLO HISTORICO--NOVA LUZ! NOVO IDEAL!
Paginas 78 a 90
Estas duas poesias são o desdobramento, a synthetisação dos CANTOS
consagrados á _Paz dos Povos_, ao _Homem_ e á _Mulher_, vendo n'estes os
principaes factores da civilisação, e á Humanidade, como typo ideal da
Verdade e da Belleza, na realisação progressiva do destino Humano.
Enviamos o leitor para o que expozémos nas respectivas notas,
porque ali lhe será facil descortinar o systema de philosophia que se
converteu para nós nos preceitos de uma moral substancialmente humana,
verdadeira e pratica; a que se reduz no fim de contas toda a religião do
futuro.
APELLO SUPREMO--REFUGIO ULTIMO
Paginas 91 a 97
Estas duas poesias são o complemento da que publicámos a pag. 8 sob a
denominação _Presentimentos_. Foram escriptas no mesmo periodo, quatro
annos antes de constituirmos familia, isto é, de entrarmos na _pratica
obscura e quotidiana do verdadeiro altruismo_, principio moral em que
assenta a familia, a primeira e a mais sagrada das nossas instituições,
e que é a base da religião e da philosophia.
Carecem ambas pelo seu ardente mysticismo, ou melhor diremos pelo seu
exagerado lyrismo, repassado de desalento e dôr, da correcção que o
conhecimento das leis da vida e as licções de historia nos trouxeram com
o andar dos tempos e que, sob o mesmo espirito religioso, traduzimos nos
CANTOS á _Humanidade_, á _Mulher_, ao--_Homem_, aos _Filhos_ e
designadamente nos dois canticos anteriores ao _Novo Cyclo Historico,
Nova Luz! Novo Ideal!_
A confiança nas Grandes Leis da Vida e da Historia, na Natureza e na
Humanidade, deu-nos forças e animo para as luctas em que nos temos visto
assediados toda a vida, resignação e paciencia na adversidade, fé
inabalavel na regeneração do Mundo pela sciencia, pela justiça e pelo
amor, quando se entrar definitivamente, sem peias, sem ficções, e sem
mentiras, no imperio da Verdade, no regimen da liberdade absoluta!...
Este appello Supremo para Deus onde, ao cabo de tantos desenganos e
dissabores, esperamos encontar o nosso refugio ultimo, não significa
outra coisa.
Os sonhos de justiça que, desde Jesus, nos transmittiram as gerações
transactas, para lhes darmos cumprimento, hão-de encontral'o nas
gerações futuras que, por seu turno, legarão aos seus legitimos
herdeiros, novos ideaes e com estes novas esperanças!
Esta é que é a verdadeira glorificação de Deus na Humanidade pela
revellação continua e progressiva da Historia!...
Sob este ponto de vista, poder-se-hia dizer que estas duas ultimas
poesias não são já a expressão verdadeira do nosso actual modo de pensar
e sentir.
AO SOL
Paginas 108 a 111
Escrevemol'a debaixo das impressões dos cantos sagrados da India, no
_Rig Veda_ e sob a alta concepção que Renan fazia de Deus e do Sol
quando affirmava que antes da Humanidade attingir aquella unidade e
synthese suprema das almas, só o Sol tinha tido direito á adoração e
culto dos Povos.
Sentimos a seu respeito, por intuição, o que mais tarde a sciencia nos
revellou em obras memoraveis como o são alguns dos trabalhos de
Flamarion sobre astronomia e designadamente o prodigioso e fascinante
livro de Buchner _La Lumière et Vie_, que nos revellou com uma pujança
de saber e de logica inexcedivel, e uma linguagem colorida e vigorosa
incomparavel, as incalculaveis maravilhas da natureza que anteviamos com
olhos apenas d'um poeta enamorado.
Se escrevessemos este CANTO depois da leitura d'estes livros, a nossa
linguagem teria sido de certo mais vibratil e as imagens de que nos
serviriamos mais vivas e mais bellas.
A idéa fundamental da sua concepção teria ficado, porém, a mesma; a
mesma, a nossa admiração, o nosso culto por esse glorioso vivificador
dos mundos; por esse prodigioso distribuidor da luz, que, a ter de
desapparecer do espectaculo das coisas visiveis, como lh'o
prophetisam os seus admiradores e chronistas, o não faria sem deixar
atraz de si, n'uma serie ininterrupta de seculos, a mais oppulenta das
heranças, a mais genuina glorificação do heroe Bemfeitor por
excellencia!
Aos olhos dos outros astros, seus competidores, sob a cupula infinita
dos ceus, morreria destituido da sua antiga grandeza, para dar vida e
continuação a novos mundos, como Jesus, no Calvario, pregado na cruz,
deu a sua alma aos povos para redimil-os!...
Esta poesia, a instancias de Anthero do Quental, foi publicada por
Guilherme de Azevedo e por isso pouco ou nada alterámos da fórma que
primitivamente lhe démos.
Á ARVORE
Paginas 127 a 131
Foi escripta na epocha em que costumavamos passar parte do verão em
companhia do Dr. Antonio da Silva Gayo, no Bussaco, n'esta montanha a
que nos prendiam tão gratas recordações da nossa vida universitaria!...
Ali fomos como cultores do Bello e do Justo em perigrinação sagrada
muitas e muitas vezes, umas em companhia d'amigos como Anthero do
Quental, José Julio Rodrigues, Philomeno da Camara, e outras vezes, e
estas em maior numero, sosinhos, fazendo a pé todo o longo percurso
desde Coimbra, mas encontrando larga e generosa compensação nas suas
sombras impenetraveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão
propicias á contemplação e ao estudo!
Antes do caminho de ferro do Norte, que o pôz em communicação facil com
o resto do Paiz, o Bussaco viveu longos annos, e para o bem d'elle,
quasi completamente esquecido dos homens.
Só almas d'eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, só um
ou outro amante da Natureza, iam ali de vez em quando procurar na sua
quietação e silencio, tão cheios de mysterios e tradicções de
mysticismo christão, _eloquentes lições_ sobre os problemas da vida,
sobre os multiplos e complicados destinos do coração e da consciencia,
postos no mundo ante esta interminavel e ininterrupta sequencia--de luz
e de sombra--de dias e de noites de prazeres e de dôres, de sonhos e
desenganos!
Talvez mais do que ninguem, n'estes tempos de gosos faceis e interesses
materiaes, nós fomos d'este pequeno numero.
A nossa paixão pela Montanha levou-nos a convencer o santo padre
Mauricio a viver ali comnosco, pouco depois da nossa formatura,
abandonando a sua modesta habitação em Luso, nos mezes de Novembro e
Dezembro.
Ali estivemos entretidos os dois, elle de dia com os trabalhos já então
iniciados, com o nosso protesto, por Moraes Soares, de noite com as suas
candidas e piedosas orações; nós com os nossos livros dilectos, com os
nossos passeios solitarios e lucubrações litterarias. Um viver simples,
sobrio e puro, de que ainda hoje guardamos vivissimas saudades!
Mais tarde pelos melhoramentos e pequenas casas de habitação mandadas
ali construir, o Bussaco attrahiu de Coimbra e seus arredores, de Lisboa
e Porto, e até das Ilhas dos Açores, algumas familias distinctas, no
numoro das quaes quaes sobrelevava a todas a de Silva Gayo.
Foi este pela vivacidade e graça de seu espirito brilhante, pelo encanto
incomparavel da sua palavra facil, d'artista e de sabio, e sua esposa
pela gentileza singular do seu porte, pela bondade e abnegação nunca
desmentidas para com todos, foram elles que mais concorreram a chamar ao
Bussaco uma concorrencia selecta e a tornar inolvidaveis os dias ali
passados.
Foi ali que Silva Gayo escreveu e retocou algumas das paginas mais
commoventes do seu _Mario_, de _Frei Caetano Brandão_ e da _Magdalena_.
Foi ali tambem que compozémos algumas das nossas poesias mais repassadas
do pantheismo espiritualista que em todas mais ou menos se nota.
Foi á sombra d'aquelles arvoredos adoraveis, e sob estas beneficas
influencias de arte, que se crearam, n'uma incansavel e vibrante
alegria, os dois filhos de Gayo e de D. Emilia Paredes, Manuel da Silva
Gayo e Mario Gayo, os quaes mais tarde se haviam de distinguir como dois
talentos comprovados, um na poesia, outro na musica!
Foi ali que mais tarde succumbiu, victima d'uma tysica de larynge,
aquelle formoso espirito que foi gloria das sciencias e lettras patrias,
cercado dos solicitos carinhos de sua incomparavel esposa, das lagrimas
silenciosas e amargas do bom padre Mauricio e das nossas.
Foi d'ali, ai de nós, noite memoravel e terrivel! que tivemos
d'acompanhar sósinhos os seus restos mortaes até ao cemiterio da
Conchada em Coimbra, onde pouco depois do romper da manhã, alguns dos
seus collegas, admiradores e amigos, avisados do seu enterro, vieram
comnosco prestar-lhe as ultimas homenagens dos vivos!...
Voltemos aos dias felizes em que Silva Gayo ainda abrigava a esperança
de debellar o mal que o vinha minando, apesar de pairar ás vezes como
uma sombra sinistra no seu lucido espirito, a idéa d'um desenlace
fatal!! Foi então que escrevemos este CANTO, á _Arvore_.
Estavamos installados na capella de Santa Thereza, a cuja entrada se
levanta um d'aquelles cedros collossaes e magestosos do Bussaco, que são
o privilegio e o orgulho d'esta floresta, a mais opulenta e formosa de
quantas conhecemos dentro e fóra do paiz.
Foi ali, tendo em frente dos nossos olhos aquelle gigante secular dos
bosques, que compozémos esta poesia onde o leitor encontrará a expressão
mais genuina do nosso amor pela estabilidade das forças da Natureza,
representada no que ellas teem de mais bello e nobre, a arvore.
Á TERRA
Paginas 132 a 139
De todos os nossos trabalhos litterarios é este o que nos mereceu maior
solicitude e carinho para deixarmos por nossa morte um testemunho do
muito que amámos a Natureza e dos impagaveis beneficios que d'ella em
toda a nossa vida recebemos.
Sobre a sua influencia na formação dos caracteres escrevemos um poemeto
denominado _Passeio ao Campo_ e que faz parte do quarto livro das
_Irradiações_, _No Lar_.
Concebemos e composémos esta poesia n'aquella aldeia obscura de
Carvalhaes, a que nos referimos na nota primeira.
Quizémos propositadamente que assim fosse, porque depois dos jardins e
da quinta da nossa casa do Arco, na Ilha do Fayal, onde nascemos e
brincámos e das pedras vulcanicas e negras da Aldeia do Guindaste, na
Ilha do Pico, onde, em plena liberdade dos campos, em convivio intimo
com a Natureza, perante o espectaculo do mar e d'um sem numero de
pequenos vulcões extinctos passámos os mais deleitosos dias da meninice,
pedras negras que ainda hoje, pelas recordações que encerram, nos
sorriem mais bellas e fulgentes que os brilhantes, nenhuma terra amámos
tanto como esta aldeia poetica de Carvalhaes.
Foi alli que á sombra de pequenos bosques, de altos e extensos
pinheiraes, balsamicos e sonorosos, de frescos relvados e de alamos e
carvalhos frondosos, no adro da capella da Senhora das Neves, que lhe
fica proxima, foi ali que lendo os nossos poetas mais dilectos,
Virgilio, Camões, João de Deus e Victor Hugo, tomámos verdadeiro amor
pelo rythimo e harmonia do verso, e abandonamos para os assumptos d'arte
a prosa, onde fizemos os nossos primeiros ensaios, sendo ainda creança,
tomando então por modelo a Byron, dos poetas da nossa meninice o mais
festejado e glorioso.