Posta por Deus na paz a mais completa,
Quando, ao passar-lhe o espirito do vento,
Descanta como a harpa d'um propheta:
E a semente da flôr, qual grão d'areia,
Que, inerte, fria, escura e pequenina,
Contém as pompas da divina ideia:
O lyrio branco ou a rosa purpurina;
O leão, implacavel creatura,
Quando a victima arrasta inda arquejante
Tinto de sangue, offerta-a com ternura
Á leôa parida, sua amante:
E a indefeza timida ovelhinha,
Entre as flôres gentis do verde prado.
Meiga balando á mãe que se avesinha,
Por dar-lhe o leite doce e perfumado;
A aguia quando solta a envergadura
Das largas azas pelo azul do espaço,
E, em marcha triumphal, a enorme altura
Passa nos céus sem lucta, e sem cançaço;
E a crysalida que abre á luz do dia
Do involucro o sedifero thesouro,
E, nos enlevos d'intima alegria,
Expande á luz do Sol as azas d'ouro:
Quanto, emfim, é teu filho a mim me pede,
Que em nome d'elles eu te louve e cante,
Suppondo achar n'esta alma o centro, a séde,
O altar, de quanto o Sol lhe põe diante!...
Oh minha mãe! a magua me entristece
De que Deus, cujas dadivas divide
Por tanta gente, a mim me não cedesse
Para cantar-te a harpa de David!...
Dos proprios paes e estranhos mal tratado,
Fui pôr-me á tua sombra hospitaleira,
E em teu seio de mãe abençoado
Achei d'esta alma a patria verdadeira!
Não sei como surgio o homem na terra!...
Não sei onde os meus sonhos se dirigem...;
Mas quanto bello e bom minha alma encerra,
Em ti encontra a perenal origem!...
Quer sobre os cumes dos altivos montes,
Quer á sombra dos vales verdejantes;
Quer ouça a meiga vóz das claras fontes,
Quer as furias das ondas espumantes:
Por onde quer que eu vá, minha alma sente
Cercal'a tão solicito cuidado,
Que quanto me concebe um dia a mente,
Encontra sempre em ti o objecto amado!...
Por isso, embora eu viva como o paria
Junto ás margens do Ganges crystalino,
Levando vida incerta, rude e varia,
Entre os baldões d'um impobro destino:
Vivo entre flôres, musicas e festas,
Tendo por luz suprema o pensamento;
Por palacios as múrmuras florestas,
E alampadas os soes no firmamento!
Por orchestras as musicas plangentes
Que geme ao longe o mar no captiveiro,
Com os concertos das aves innocentes,
E os murmurios do limpido ribeiro!
De manhã, com os crystaes do fresco orvalho,
Fulgentes scintiliando á luz do dia,
Pisam meus pés, riquissimo trabalho,
Tapetes de preciosa pedraria!
Á tarde, quando o sol deixa as alturas,
Qual Vinci, Miguel Angelo ou Ticiano,
Pões-me nos ceus esplendidas figuras,
Como eguaes as não tem o Vaticano!...
Á hora em que é dado o somno acoite
Em doce paz meu corpo fatigado,
Desdobras-me sobre elle o veu da noite,
De fulgidos brilhantes recamado!...
E quando, emfim, entrar na noite fria
Do tumulo, onde nada se condemna,
Do meu cadaver tirarás um dia
O branco lyrio e a pudica açucena!...
Taes os bens que offertas-te ás almas ternas,
Simples, crentes em Deus, ideal fecundo...!
E dás-lhes n'estas coisas sãs e eternas
Bem mais riquezas do que aos reis do mundo!...
E assim vaes entre os soes deixando o aroma
Dos ineffaveis dons da Providencia,
Como exhala riquissima redoma
Em dourado salão a fina essencia!...
Oh Terra, Virgem mãe da Humanidade,
Pelos fructos que dás eu te bemdigo!
Cheia de graça, e cheia de bondade,
O espirito de Deus seja comtigo!
Carvalhaes, 1870.
IX
AOS ASTROS!
Quando ergo á noite os olhos scismadores
Á cupula do ceu, cheia de mundos,
E perco-me nos páramos profundos
D'um mar sem fim de tremulos fulgores:
O ceu, qual templo levantado á Vida,
Armado de riquissimo thesouro,
De par em par descerra as portas d'ouro,
E attrae a si minha alma embevecida!...
Chovem-me então das cellicas alturas,
Das luminosas, candidas estrellas,
Visões sublimes, ideaes e bellas
Da Causa que deu o ser ás creaturas!...
Amor as fez, Amor no espaço as guia!...
E é sob o influxo d'esta Lei Suprema,
Que cada qual realisa o seu problema,
Preso ao das mais em intima harmonia!...
Sim, cada estrella, vêmol'o sem custo,
Sendo dos ceus bellissimo ornamento,
É um centro de vida e movimento
Posto ao serviço d'um principio justo!...
Por todo o ethereo azul da immensidade,
Dos soes sem fim a fulgida colmeia,
Trabalha em traduzir, na humana ideia,
De Deus a perfeição, toda bondade!...
Oh cupula celeste, no teu seio
Aprendo a ler em paginas de fogo
O espirito das coisas que interrogo
Por toda a parte, e em cuja essencia creio!...
Tu, co'o teu docel azul sem fundo,
Cheio de fogos d'alma claridade,
Em multipla e febril actividade;
Sorris-me como a fabrica do mundo;
O vasto pavilhão onde é servida
Em mesas d'ouro, festivaes e bellas,
N'esses milhões de esplendidas estrellas,
A eterna comunhão dos Bens da Vida!...
Permitte, pois, que em sã fraternidade,
Reunindo os habitantes d'esta esphera
Aos que ha em ti, minha alma, sã e austera,
Saúde a mãe commum==a Humanidade==;
E adore, á luz dos fachos sempre novos,
Do teu santuario, o espirito fecundo
De Deus, Supremo Bem, que ampara o mundo,
Inspira as almas e dirige os Povos!...
E emquanto a vida vae em seu caminho,
Por entre o dia claro e a noite escura,
Conserva intacta esta alma crente e pura,
Porque possa voltar ao patrio ninho!...
Á luz da minha critica profana,
A Lei Suprema, que de Deus deriva,
Eleva aos soes, em marcha progressiva,
De virtude em virtude a alma humana!...
Se duvidas tivesse, a fé e a esperança
Levavam em contrario a vida minha,
E a bussola, que ignora onde caminha,
Segue o seu norte e d'elle emfim descança!...
Astros sem fim, oh soes que estaes por cima,
Longe da Terra, em região mais pura!
Deixae que o corpo desça á sepultura
E a vós se eleve o espirito que o anima!
O irmão da Luz, o amante da Verdade,
Hade ir, deixando o envolucro que veste
Como hospede da abbobada celeste,
Internar-se feliz na immensidade!...
Astros! egual é a lei que nos governa!
Na Terra, o nosso espirito fecundo
Penetra nos reconditos do mundo,
E vive como vós a Vida Eterna!
Beselga, 1872.
NOTAS ELUCIDATIVAS
A DEDICATORIA
No nosso periodo academico, que decorre de 1859 a 1866, e no que se lhe
seguiu de 1867 até ao anno de 1874 em que nos casámos, mantivémos
estreitas relações d'amisade com algumas familias historicas da
provincia e da capital, onde eram ainda vivos os aggravos, e numerosas
as queixas, contra as violencias e as vinganças politicas que, de parte
a parte, precederam, acompanharam e seguiram o triumpho das armas
liberaes, na guerra chamada dos dois irmãos, D. Pedro IV e D. Miguel I.
A nossa substancial e nunca desmentida tolerancia para com as crenças e
as opiniões dos outros, derivada do Ideal de Justiça de 1789, que
seguimos desde os bancos da Universidade com inquebrantavel fé e
ininterrupta dedicação, e o quasi fanatico respeito pela inviolabilidade
do lar, permittiram-nos estudar na vida intima d'aquellas familias
illustres, a transformação profunda que se operou nas crenças, usos e
costumes d'este povo, celebre entre os mais celebres da Historia.
Tivemos a infinita ventura de conhecer deperto, nas suas melhores
origens, as mais bellas joias da alma portugueza, de que o coração da
mulher foi, é, e ha de ser sempre o fiel relicario e transmissor! D'ahi
em grande parte a nossa confiança na missão d'este povo heroico, nos
destinos dos outros povos, quando para todos brilhe e impere um novo
Ideal de Justiça e em nome d'elle sejam banidas as paixões, quer
religiosas quer politicas, das regiões augustas e serenas da Lei e do
Poder.
D'essas familias destacaremos a de Silva Gayo, o glorioso author do
_Mario_, casado com D. Emilia Paredes, filha do Conselheiro Cunha
Paredes, Juiz do Supremo Tribunal de Justiça, aquelle um vibrante e
eloquente protesto contra os excessos de demagogia, ou clerical ou
plebêa, de que o citado livro é um bellissimo documento; seu sogro um
dos homens bons e ponderosos que partilharam e serviram o movimento
liberal.
A familia de Luiz Monteiro Soares d'Albergaria, casado com D. Ludovina
da Silva Carvalho, filha do celebre ministro de D. Pedro IV, senhora de
excepcional illustração, que conhecia a fundo o seu tempo, e sobre elle
descorria com conhecimento de causa.
A familia Osorio, da quinta das Lagrimas, e a da Graciosa, representando
ambas o elemento são da aristocracia portugueza que se pronunciou pelas
liberdades e franquias patrias, e onde me foi dado admirar os requintes
da educação antiga, no que ella tinha de altruista e de bom, segundo o
verdadeiro espirito evangelico.
A familia do bacharel em direito Manoel Rois Salgado, de Carvalhaes,
filho de lavradores remediados da poetica região da Bairrada, liberal
convicto, implacavel inimigo da intollerancia religiosa e das tyrannias
politicas do tempo dos caceteiros de D. Miguel e dos Cabraes.
Era sua esposa uma senhora de origem e tradições legitimistas, D. Anna
de Vasconcellos, que muito soffrera com a guerra dos dois irmãos!... Sua
alma piedosa, delicada e poetica, sobreelevou a todos, e nos fez
conhecer de perto, com quotidianos exemplos de bondade, a excellencia
das doutrinas do Evangelho, quando postas em pratica, com fé e pureza de
coração.
A familia de Manoel Maria da Silva Bruschy, d'esse grande moralista,
philosopho e jurisconsulto que foi um dos luminares da Jurisprudencia
patria e quem nos dirigiu os nossos primeiros passos na carreira
forense.
Era elle um dos mais authorisados e prestigiosos representantes do
legistimismo, e quem nos forneceu informações curiosas sobre
muitos pontos obscuros da guerra civil, e sobre motivos secundarios, que
contribuiram para o triumpho das armas liberaes.
Nas mesmas condições de saber, de coração e de espirito, mas n'uma ordem
de ideias oppostas ás de Silva Bruschy, mencionaremos ainda o general
Luiz Flippe Folque, conselheiro de estado, mestre que tinha sido dos
reis extinctos D. Pedro V e D. Luiz I, e que foi quem acompanhou e
dirigiu o primeiro d'estes dois monarchas na sua viagem d'instrucção e
recreio pela Europa.
Era um perfeito homem d'estado, modesto, erudito e tolerante para com
todas as opiniões. Devemos a seu genro o Conde de Nova Goa, nosso velho
e dilecto amigo, a convivencia com este perfeito homem de sciencia, de
cujas lições colhemos muitos elementos de ponderação para formarmos
juizo imparcial e seguro sobre a historia dos partidos politicos em
Portugal.
Resta-nos mencionar nosso sogro, o general de divisão, Roque Francisco
Furtado de Mello, que foi juiz do Tribunal Superior de Guerra e Marinha,
que se orgulhava de ter feito as novas campanhas da Liberdade, e sua
sancta esposa D. Maria Maxima de Berredo, filha d'um dos regeneradores
do movimento revolucionario de 1820.
Ambos tinham sido victimas das guerras civis desde o cerco do Porto e
ambos soffreram, com suas familias, as mais crueis perseguições dos
sequazes do absolutismo em Portugal.
Para inteiro esclarecimento, ainda diremos que alguns dos nossos
parentes, tanto do lado paterno como do materno, eram legitimistas
convictos, que se achavam destituidos das honras e benesses do antigo
regimen, e que protestavam contra a nova ordem de coisas.
Tal foi o meio social em que nos achámos ao sahirmos do lar paterno.
A nossa posição singularmente favorecida n'este conflicto de interesses
historicos, tendo tido a coragem de evolucionármos em nome da sciencia,
e sob a influencia dos espiritos mais cultos da epocha, para o regimen
da democracia pura, que melhor chamaremos do Direito Humano, inaugurado
com a proclamação dos Direitos do Homem, em 1789; a excepcional ventura
de conquistarmos para a sinceridade das nossas crenças a tolerancia dos
nossos competidores, tudo isto concorreu para nos fortalecer no Ideal
d'um novo Direito, d'uma Nova Justiça, d'uma Nova Moral, de que
este livro é um modesto precursor no campo da poesia patria.
Não podiamos deixar por isso de o consagrar á memoria inolvidavel
d'essas venerandas creaturas, quasi todas hoje extinctas... ás almas
d'eleição que tanto fortaleceram as nossas creanças na bondade e na
virtude humana.
Por outro lado pertencendo pela educação que demos a nós mesmos,
destruindo pela base a que recebemos no berço, aos homens de genio e de
fé, que espalharam pelo mundo os principios revolucionarios de 1789 e
tentaram as primeiras applicações praticas aos problemas pendentes da
humanidade, e genios em que havia poetas como Lamartine e Hugo, musicos
como Beethoven e Ricardo Wagner, economistas como Bastiat, publicistas
como Proudhon, historiadores como L. Blanc, philosophos da grandesa e
originalidade de Quinet e Michelet, cujos ideaes de justiça e d'amor nos
conquistaram e nos acompanharão até á morte: comprehende-se que em nome
d'elles não ponhamos hoje a nossa fé e a nossa esperança sobre a
regeneração do Mundo nas gerações actuaes, incredulas, scepticas, e
devoradas pela febre do ouro e do goso!
N'este actual periodo historico, que é todo de negação, sem ideaes
definidos, e cheio de convenções, de hypocrisias e mentiras, cujo estado
pathologico foi magistralmente descripto por Max Nordau no seu livro
celebre _Les Mensonges conventionelles de notre civilisation_, é natural
que não encontrem echo estes nossos CANTOS, nascidos d'uma grande fe no
futuro da Humanidade!
São quasi todos uns modestos preludios, uns gorgeios ainda incertos,
d'uma nova alvorada, e por isso os consagramos ás gerações que hão de
ter a ventura de ver em plena claridade o dia de que apenas distinguimos
os primeiros pronuncios nos horisontes do futuro e da patria.
O QUE EU VI
Paginas 1 e 2
Esta poesia é uma das quatro ou cinco d'esta collecção que já foram
publicadas. Não podemos verificar n'este momento, por falta de tempo, em
que jornal litterario e em que data o foi.
Pode dizer-se que é o prologo e a synthese de todo este livro de CANTOS.
Pode até mesmo servir d'explicação ao sentimento religioso que se accusa
tão accentuadamente em quasi todos os nossos trabalhos poeticos.
Como d'ella se deprehende o _Deus_ a quem nos referimos está
completamente fóra dos moldes das religiões revelladas, dos ergastulos
da fé dogmatica. É o Pae da Vida, a Fonte do Amor, o Deus da Natureza.
É como que o symbolo que personifica a Perfeição Absoluta; o Ideal do
Universo; A causa primaria de todo o existente; O sol vinificador das
consciencias e dos mundos.
É a Belleza, é o Amor, é a Justiça, a que tudo obedece, levados ao
maximo grau d'intensidade que é dado á razão humana attingir n'um
determinado cyclo historico, e que, como tal, illumina as consciencias,
dirigindo-as!...
Para todo o coração terno, para toda a alma de artista, será sempre
imprescindivel antepôr-se ao espectaculo magnificente e deslumbrador do
Universo, á marcha triumphal da Luz e da Vida por toda a parte
penetrando nos ultimos reconditos do mundo visivel e invisivel, e sem a
interrupção d'um só instante na sequencia incalculavel dos seculos,
tirando de lá as maravilhas da natureza, antepôr-se, dizemos, um mundo
moral com as paginas infinitamente bellas das civilisações já extinctas;
um mundo que synthetise todo o Ideal da Humanidade. E, n'esse Mundo
Moral, Deus é o _Ser por excellencia_, a chave insubstituivel do
multiplo e mysterioso Problema da Vida.
Nas insondaveis e invisiveis regiões da consciencia humana, o
mundo exterior, que é o reflexo, a continuação, o complemento do mundo
interior, encontra n'este, como outros tantos _Ideaes da Perfeição
Suprema_, as Leis da Vida, que actuam imperturbaveis, omnipotentes e
eternas.
Para este Mundo Moral, para este Mundo das Almas, Deus é pois a
personificação d'essas leis e como tal o Ideal Supremo.
Não cremos possivel arrancar-se da natureza humana, deturpando-a,
qualquer das suas forças immanentes, e no numero d'estas forças devemos
suppôr a religiosidade, isto é, o sentimento de respeito por um Poder
superior, causa primaria, ponto de partida, iniciação e justificação de
todo o existente, de tudo quanto vêmos e sentimos.
E para nós uma utopia impraticavel, e nociva á solução dos actuaes
problemas da humanidade, o querer-se substituir o Ideal vivo e amoroso
de Deus pela synthese fria e inanimada da sciencia, assente
exclusivamente em factos demonstraveis!...
Em primeiro logar as sciencias positivas, pondo fóra da sua esphera
d'investigação, e muito bem, a Causa Primaria das cousas, não podem
aspirar a resolver os problemas da consciencia e do coração, e a fazer
calar as imperiosas interrogações da sua voz interior!...
Em segundo logar, todas as sciencias assentam, por ora, em meras
conjecturas, em, aliás engenhosas e bem concebidas, hypotheses, que como
taes em tempo algum poderão satisfazer a ancia infinita de nosso
espirito em tudo devassar e saber, e ninguem nos pode affirmar que
amanhã não sejam substituidas por novas hypotheses, melhor concebidas e
expostas.
Em terceiro e ultimo logar, o povo e a mulher, isto é os obscuros, os
simples, os que trabalham, os que soffrem e os que amam, que são quasi,
por ora, a humanidade inteira, não poderiam suspender as reclamações do
seu coração e do seu espirito, á espera que os sabios lhes desvendassem
os segredos da natureza, e convertessem as suas verdades, chamadas
irreductiveis, n'um Ideal Supremo, que, para todos os effeitos,
substituisse a Idéa de Deus a que o christianismo deu uma feição tão
amorosa na interpretação larga e fecunda d'um Pae Celeste.
Quem lucra com a guerra feita ao sentimento religioso, confundindo-o com
o das religiões positivas, revelladas, são os reaccionarios catholicos
e, para prova, é vêr o alastramento pavoroso que por todo o
paiz se está operando nas classes ricas, e nas ultimas camadas sociaes,
sahindo-se até hoje triumphantes os que, pelas leis vigentes, pelas
tradicções historicas, e pelo futuro d'este paiz, não deveriam ter cá
entrado!...
O que o sentimento religioso reclama é ser derivado para novos
objectivos que mais directamente interessem e sirvam os soffrimentos
humanos, a _moral_, a _arte_, o _direito_ e a _justiça_, abandonando o
sobrenaturalismo com todo o seu cortejo de phantasias, de aberrações e
de absurdos.
No dia em que a Razão se pozer d'accordo com a Fé, o Amor com a Justiça,
será facil á humanidade entrar na normalidade do seu distino, como
factor poderoso que é, nos multiplos e interminaveis problemas do
Universo.
Em harmonia com estas idéas, com o Ideal de Justiça que professamos, e
de que este livro é um vehemente e sincero pregão, consagrando além
d'isso á mulher e ao povo as nossas melhores esperanças na redempção do
mundo: adoptámos para traduzirmos o nosso Ideal Supremo, esta palavra
que tem a consagração dos seculos, as sympathias e a adhesão d'aquelles
a quem principalmente visamos nos nossos CANTOS.
Sirva esta nota de explicação ás poesias congeneres e complementares
d'estas, _Avé Creator_ pag. 37, e o _Sursum Corda_ pag. 41 e outras.
TRISTEZA
Paginas 5 a 7.
Escrevemol'a n'uma manhã de primavera na tapada d'Ajuda, quando esta não
era ainda frequentada pelo publico da capital.
N'aquelle recinto onde não entravam os rumores da grande cidade, na
benefica e imperturbavel quietação dos campos, sob uma tonalidade de
côres e de sombras d'uma variedade e doçura infinitas, havia n'essa
manhã um grande movimento de vida na Natureza, muitos feixes de sol a
distribuir e a combinar seus raios de ouro pelos troncos e a folhagem
das arvores, pela verdura das relvas; muitos passaros cantando em redor
dos ninhos; muitos insectos zumbindo em volta das flôres.
Só nós appareciamos no meio d'aquelle trecho encantador de vida
universal, com a nossa alma envolta em sombras caliginosas e, sob este
influxo, o coração a trasbordar-nos de tristezas!...
Estas derivavam d'erros proprios e alheios e faziamo-nos passar, ali,
aos olhos da propria consciencia, como um desconcerto na Vida, como uma
nodoa na creação!
Da alta comprehensão que temos da _dignidade humana_ e do papel que o
Homem e a Humanidade representam nos destinos do Universo, (V. as
poesias _Ao Homem_ e _Á Mulher_), resultou para nós uma philosophia e
uma moral que são substancialmente imcompativeis com os desalentos e as
tristezas, porque aliás tantas vezes os nossos dias teem sido
assaltados!...
D'ahi o nosso appello para a Natureza onde tudo está no seu logar, não
se desviando um apice da linha que lhe foi traçada, no augusto e sereno
cumprimento das suas leis eternas e divinas.
Pedindo á natureza refugio e amparo para as nossas dôres, lição e
exemplo para os nossos erros, n'aquelle dia memoravel entrou-nos n'alma,
como um cortejo festivo de Deus, tudo quanto em volta de nós celebrava
ali os mysterios da vida e irromperam nos dos labios então estas
estrophes despretenciosas e taes quaes as publicamos hoje.
Pelo habito de as repetirmos longos annos, nos soliloquios com a nossa
consciencia, não nos aventurámos a alterar-lhes uma só palavra, nem uma
só virgula, e assim se explica que seja a unica poesia d'este livro com
versos soltos, rimados apenas nos versos agudos.
PRESENTIMENTOS
Paginas 8 a 18
E como uma photographia instantanea do estado da nossa alma quando,
finda a nossa carreira universitaria, tivemos de assentar arraiaes no
positivismo das coisas para havermos os meios com que se mantem o que ha
de mais imperioso: a existencia, e n'esta o que ha de mais sagrado: a
honra.
Depois d'uma mocidade ruidosa, passada no convivio de livros dos mais
celebres pensadores do seculo, e de talentos dos mais abalisados entre
os lentes da Universidade, como Antonio de Carvalho, Silva Gayo, e
Viegas; de rapazes cheios de ideaes e d'audacia, que mais tarde se
haviam de tornar celebres nas letras, como Anthero do Quental, Theophilo
Braga, Eça de Queiroz e Anselmo de Andrade, estes dois ultimos nossos
condiscipulos; n'um periodo em que todos acreditavam na transformação
completa do existente, para, abandonados de vez os velhos e caducos
moldes do mundo medieval, entrar-se definitivamente na normalidade da
vida que as sciencias dos ultimos seculos, e o direito de Revolução, nos
garantiam: comprehende-se bem qual seria a nossa tristeza ao entestarmos
com uma sociedade, mais que qualquer outra, decrepita, incredula,
egoista e dissoluta!
Tinhamos já então feito a nossa primeira viagem á França, sob o imperio
da mais desenfreada corrupção politica dos ultimos tempos, na
restauração do Imperio por Napoleão _le petit_ e causou-nos indignação o
que abservámos de perto na cidade santa de Direito Moderno, sobre a qual
tinham raiado os inolvidaveis dias de 1789 e que fôra o theatro das
primeiras e gigantescas batalhas do Povo, em nome do _Direito Humano_,
contra os thronos colligados em nome do _Direito Divino_!...
Estavamos nas vesperas da guerra Franco-Allemã que todos previam como
inevitavel e de que resultou este tardio e indeciso movimento
democratico, a cuja sombra a França não conseguio ainda
emancipar-se completamente dos preconceitos e velharias do antigo
direito!...
Regressámos á patria com a alma mais cortada de dôres de que quando
d'ella partiramos!...
A nossa intervenção quotidiana na vida do Povo, pela profissão que
exercemos, o conhecimento das suas multiplas e infinitas miserias, a sua
falta de comprehensão e de energia em reivindicar os seus direitos e a
defeza da sua causa; o egoismo desenfreado da burguezia triumphante com
a sua lastimosa indifferença pelo futuro da Patria; a irremediavel
cegueira da aristocracia portugueza em não se separar das formulas já
hoje varias de sentido e exhaustas de forças, do Direito Divino,
representado no throno e no altar, direito já morto nas consciencias
pela força da razão e da logica, antes de o ser no campo da batalha pela
força das armas: todo este conjuncto de circumstancias adversas,
concorreu para nos entibiar a fé e a esperança na realisação dos nossos
ideaes.