annos armazenámos inconscientemente em companhia do nosso chorado
condiscipulo José Augusto Salgado, no nosso mundo interior a poesia que
annos mais tarde, em 1867, nos irrompeu espontanea da alma, quando as
saudades de Coimbra e da nossa vida academica nos subjugaram a ponto de
abandonarmos interesses já creados e estabelecermo-nos de novo na Luza
Athenas!... Foi então que tomamos o grau de licenciado em Direito na
esperança de fazermos parte do corpo docente da Universidade, mas d'onde
tivemos de sahir, pouco depois do nosso casamento, para n'um meio mais
amplo angariarmos os escassos recursos d'uma vida honesta.
Esta poesia, desejando nós que fosse de todas a mais perfeita, é no
entanto a que hoje aos nossos olhos tem maiores defeitos, sendo um
d'elles a sua extensão.
Preferiamos deixal-a nas proporções das outras, suas congeneres e irmãs,
mas já agora, assim imperfeita, ficará sendo o depoimento mais vehemente
e sincero do muito que quizémos á Terra, nossa mãe, ao Amor, á Luz e á
Vida!
Á falta d'heroes a quem consagrassemos os nossos CANTOS, preferimos as
Forças e as maravilhas da Natureza, que sendo obras de Deus, são por
isso eternamente grandes e bellas para se constituirem na fonte pura e
inexgotavel do Ideal.
Foi Esta a divindade em cujo altar depozemos a alma e a vida, e quem em
troca nos deu a pureza de coração e valentia d'animo para luctarmos
contra a adversidade e salvarmos no meio da nossa pobreza os thesouros
da nossa Fé.
AOS ASTROS
Paginas 140 a 143
Reservámos para o final d'este livro de canticos religiosos a poesia
_Aos Astros_, porque podemos dizer com toda a Justiça, imitando David,
que os _Ceus proclamam a Gloria de Deus_!
A Luz no mundo das coisas visiveis e o Pensamento no mundo invisivel das
almas, são os dois principaes factores do movimento e da Vida no
Universo e na historia.
Ambos concorrem para a solução d'um problema commum.
Dovorciados até hoje pelas religiões positivas, productos da ignorancia
inevitavel dos povos primitivos, tendem a fundir-se n'uma _Unidade
Suprema_, para a qual convergem todas as forças vivas da Natureza, as
revellações da Historia e as descobertas scientificas dos ultimos
tempos!
O que poderão estes dois eternos agentes da Verdade na solução dos
destinos dos povos, já o podemos antever pelas grandes e luminosas
syntheses historicas a que hoje attinge todo o espirito culto ao
contemplar, como nós o fizemos, os despojos das civilisações extinctas
que se archivam nos grandes museus--no British Museum, em Londres; no
Louvre, em Paris; nas gallerias de Pit, em Florença; nas do Vaticano, em
Roma; e ao vermos reunidas as maravilhas da arte e industrias modernas
nos certamens internacionaes das grandes exposições!...
Pelo que já temos até agora conquistado com o poder creador da nossa
Idéa e com o auxilio que nos prestam as forças inexgotaveis da Natureza,
o que é já hoje authentico, real e verdadeiro: o homem não tem motivos
para desesperar do termo da sua jornada no percurso indefinido e
infinito dos tempos, e sentar-se á margem do caminho, e no meio d'este,
a chorar como Jeremias, ou a apostrophar como Job a Justiça Eterna pela
ingratidão dos homens e pela dureza dos fados! O homem nem deve
considerar-se já hoje um revoltado contra Deus e por este punido, ora,
segundo o genio semitico, com a expulsão de Adão e Eva do Paraizo, ora,
segundo o espirito Helenico, com o aguilhoamento de Prometheu nas
montanhas do Caucaso e o despedaçamento das suas carnes pelos bicos e as
garras dos abutres!
Pela mais exacta comprehensão das leis do Universo e da Historia, o
homem tende a tirar da antithese do Mal e do Bem, cujo antagonismo
permanente, em perpetua lucta, constitue todo o Mysterio do Passado, a
Synthese Suprema chamada Verdade e que adoramos sob o nome de Deus.
Perante esta luz, de intensissimo fulgôr e de alcance infinito, as
paginas da historia escripta pelo homem, são apenas por ora uma gloriosa
introducção aos fastos da Humanidade que os seculos futuros completarão,
e cuja sequencia só póde denunciar-se nas visões e nos sonhos dos Poetas
e dos Philosophos!
Na prespectiva da morte, quando para nós se quebram os vinculos da Vida
e se fecham para sempre as paginas da historia, apraz-nos abrir o Livro
que já está escripto, o _Livro da Vida Eterna_--_os Ceus_--e
consagrar-lhes este CANTO, que escripto ha vinte e sete annos atraz, é
ainda hoje a traducção fiel do nosso pensar e do nosso sentir.
Não desdenhariamos de que sobre a nossa sepultura fossem escriptas as
tres ultimas quadras d'este CANTO, porque n'ellas resumimos toda a fé
que trazemos no coração.
Lisboa, 29 de março de 1899.