Soube-se logo a causa da perturbação de Maria. A prelada quiz saber
porque chorava assim. A docil senhora não podia nem devia esconder o
motivo das suas lagrimas. Pediu uma grade para receber seu marido, e a
prioreza, ensinada pelo coração que adivinhava os desejos de Maria,
pediu-lhe para acompanha'-la á grade. A mulher de Alvaro apertou-a ao
seio com alvoroço de contentamento.
--Venha comigo, minha mãe,--disse ella--Eu preciso que elle ouça as
palavras que Deus manda ao seu coração. Dê-lhe a elle a felicidade no
infortunio como m'a deu a mim. Não espero que elle me dê um amor como eu
o esperava antes de experimentar as angustias do desprezo; mas se for
possivel converte'-lo ao temor de Deus, elle ha-de estimar-me, e com a
minha estima soffrerá os trabalhos da vida, sem a impaciencia que o faz
blasfemar. Oh! meu Deus! elle é tão novo e tão desgraçado! Que longa
vida de desesperação será a d'elle, se não conseguirmos mostrar-lhe que
se póde ser pobre e feliz!
A prelada pediu cinco minutos de espera. Recolheu-se em oração ao seu
oratorio, e voltou com o sorriso de esperança para Maria, e a confiança
em Deus no coração.
Entraram na grade.
X
Alvaro estava em pé, com os olhos fitos na porta por onde Maria devia
entrar. A prioreza, apenas entrou com a secular pela mão, disse mui
affavelmente:
--Eu não esperei que me apresentassem o sr. Alvaro para ter o prazer de
cumprimenta'-lo. Conheci n'esta casa suas tias-avós, conheci sua mãe, e
seu pae e toda a sua familia. Até conheci um anjinho do céo, que me
disseram ser esposa de v. ex.^a Tratei de averiguar se era verdade. O
mundo dizia que sim, o anjinho tambem dizia que sim, e eu disse sempre
que não, porque não acho natural que o possuidor de um thesouro, vindo
do céo, o lançasse de si. Teima a minha Maria em dizer que é sua, e eu
digo que não póde ser senão de quem eu quizer. Agora é minha filha e não
póde ser sua esposa, sem que v. ex.^a m'a venha pedir com todas as
formalidades de noivo.
--E dar-m'a-ha v. ex.^a?--perguntou Alvaro correspondendo com
jovialidade á graça risonha da prelada.
--Dou-lh'a--replicou a prelada--com uma condição. Há de vir viver ao pé
de nós.
--Como, minha senhora?!
--Ha-de vir viver comnosco. Aposto que está lá fazendo seus entes de
razão contra a violação do claustro? Eu lhe digo, meu genro, uma freira,
que tem uma filha como esta, dá um testemunho de que se deixou arrastar
por alguma d'essas paixões feias que são a origem d'estes anjos tão
lindos! V. ex.^a está-se rindo?! Então ouça-me agora seriamente, e esta
Maria, que está chorando e rindo ao mesmo tempo, escute tambem. O sr.
Alvaro vem viver comnosco, não é bem comnosco, porque entre a nossa casa
e a sua ha uma parede. Então já sabe para onde vae?
--Não, minha senhora; espero as ordens de v. ex.^a.
--Vae para casa do nosso capellão, que é um egresso chamado Antonio dos
Anjos, um santo, que foi algum tempo mestre de uma creança traquinas,
que andou por esse mundo de Christo a fazer travessuras, e me dizem que
ainda aqui ha-de vir para ser muito meu amigo, e talvez para me pedir
contas de um coração que eu, sem sua ordem, recolhi ao meu, para ambos
pedirem juntos ao Senhor das misericordias a redempção de um escravo do
mal, tão digno de ser o que eu sei; e Deus quer que elle seja.
Maria rompeu em soluços e lagrimas. A prelada tomou-lhe para o seio a
face, como se afagasse uma creança. Alvaro estava immovel, com os olhos
rasos de lagrimas postos no sympathico grupo da encanecida prioreza e da
ainda formosa Maria.