Padre Antonio, horas depois, enviava um proprio com uma longa carta a
Villa Franca. Era um humilde requerimento ao coração de Alvaro.
Lembrava-lhe, com delicadeza, os seus deveres. Contava-lhe o viver
attribulado de sua sobrinha, pedia-lhe encarecidamente que viesse
vê'-la, ou consentisse que algumas pessoas da familia d'ella a
acompanhassem no ermo em que vivia.
O fidalgo recebera a carta no pospasto de um festim em que se
banqueteavam os caçadores, commemorando as façanhas venatorias do dia. O
conde de ***, chamado por Alvaro a conselho redigiu e escreveu a
resposta á carta, visto que o seu amigo, turbado de vinho, apenas tinha
entendimento para conhecer que o frade o incommodava, como parapeito dos
tiros de sua mulher. A resposta, por tanto, foi simples e peremptoria.
Alvaro agradecia muito os pios conselhos do padre, sentia muito os
incommodos de sua mulher; recusava, porém, acceder á convivencia pedida,
e approveitava a occasião para observar a sua reverendissima que a sua
pertinaz assistencia em casa d'elle Alvaro era pouco delicada,
provando-se que não havia n'essa casa meninos para educar. Terminava,
ordenando que sua mulher se recolhesse a Lisboa quanto antes, visto que
os ares campestres não conseguiam alliviar os seus padecimentos.
Esta carta foi lida a Alvaro, que deu no hombro do seu secretario uma
sonora palmada, como signal de applauso e gratidão.