Frei Antonio fôra assistir ao trespasse de um moribundo, e não estava em
casa quando chegou o conductor da resposta. Foi Maria que recebeu a
carta, e vendo a letra inesperada de seu marido, sobresaltou-a tanto o
prazer, que nem sequer reflectiu para abri'-la.
Leu... E mal viu as ultimas linhas. Entrou em tremuras, escondeu a carta
no seio deixando uma parte visivel; luctou como querendo segurar o
alento que lhe fugia; mas debalde. Padre Antonio ergueu-a desmaiada de
um canapé, quando voltou. Tirou-lhe do seio a carta; leu-a, e tornou a
insinua'-la sem a sobrinha dar fé. Esta, recuperando os sentidos, viu ao
pé de si o tio, com ar risonho, trahindo-se em algumas palavras
confortadoras; mas a pobre senhora, de momento a momento, levava a mão
ao seio para certificar-se de que a carta lhe não fôra tirada.
--Então o que foi isso, minha filha?--perguntou o padre.
--Um desmaio, resultado da grande fraqueza que tenho, de um passeio que
dei longo de mais para as minhas forças...
--Pois tu saíste, Maria? Não enganes o teu tio.
Aqui, Maria córava, e o frade vinha logo com o remedio, fugindo para
outra idéa.
Depois de uma hora em que dois corações angustiados estiveram a
enganar-se mutuamente, padre Antonio abraçou sua sobrinha; e disse:
--Olha, menina, o extremo do soffrimento não se póde dizer qual é, nem
quando chega; por isso não direi ao certo que as nossas penas estão a
passar por serem culminantes. Mas é de fé para mim, filha, que isto
assim não póde demorar-se muito. A piedade do Altissimo está por
instantes a amercear-se de nós. Maria, fica no teu quarto; pensa n'essa
carta que tens no seio, eu vou pensar tambem; e, passada uma hora
estaremos juntos. Antes, porém, de decidir, Maria, pede ao senhor a luz
da graça.
Maria ficára como engolfada em profundo pasmo com a mão no seio. O frade
saíra.