A mulher de Alvaro da Silveira balbuciou:
--Não o accuso, meu tio; peço-lhe sómente que me deixe chorar. É bem
pouco pedir; mas eu sinto um grande conforto n'este unico prazer dos
infelizes.
--O da oração é maior, minha sobrinha...--atalhou o padre.
--Pois eu não oro, meu tio? É quando sinto mais dentro do coração a
doçura das lagrimas. Ou peça a Deus paciencia para soffrer até ao fim,
sem que a minha familia o saiba; ou peça que se digne tocar o coração de
meu marido, choro sempre, e fico sempre mais desopprimida.
--Mas os teus dias são sempre eguaes, filha. Estás cada vez mais
abatida, mais magra, e mais febril.
--Que importa o corpo? O que eu recebo de Deus é a força da alma... A
morte não lh'a peço, por que sei que não faria com ella a felicidade de
Alvaro... É impossivel que o remorso o não castigue depois... Isso é que
eu não queria... O Senhor me livre de ser o instrumento das torturas
d'alguem... E, se eu morresse, a nossa pobre familia soffria muito...
minha mãe, seguir-me-ia, e os meus irmãos pequeninos nos braços de meu
pobre pae... matal-o-iam com carinhos... É por isso que eu não peço a
morte...
--Não peças, Maria. Diz-me o coração que terás melhores dias da tua
existencia, e que eu hei de ve'-los ainda.
--Oxalá... e como serão esses dias, meu tio?
--Será quando teu marido voltar ao que era quando te queria tanto.
--Pois esse amor póde por ventura tornar?
--Pois não póde, filha?! Estás passando por uma dolorosa provação; é
impossivel que não recebas n'este mundo o premio da tua constancia.
Assim como Alvaro passou do mal para o bem, e depois recaiu no mal, o
anjo, que o alumiou uma vez, ha de alumia'-lo outra, minha sobrinha.
Quando menos o esperarmos, estará comnosco, para nos restituir o bom
coração que nos roubou. Crê, e ora, minha filha. Oremos ambos. As nossas
supplicas sejam por elle, e deixemos ao senhor apiedar-se de todos,
quando a sua bondade quizer.