Foram aconselhados a Maria ares do campo. Saíu de Lisboa para Collares,
acompanhada por seu tio, e dois creados. Alvaro partira para Villa
Franca, e de uma quinta, muito conhecida nos arrabaldes d'aquella villa,
fazia as suas excursões á caça, em que entreteve um mez, distraído de
tudo; e embebido no seu affecto remoçado ao inseparavel conde.
Entretanto, Maria déra largas ao coração abafado. Padre Antonio sabia a
causa do soffrimento, mas affectava extranheza, para não auctorisar
queixumes de mulher casada. Fazia grandes rodeios aconselhando a sua
sobrinha a resignação, porém, simulando, sempre, que não conhecia motivo
para tristeza tão inconsolavel.
Uma vez, Maria, cançou na lucta comsigo mesma, e fixou no tio os seus
grandes olhos arrasados de lagrimas. Era um olhar de soffrimento que
reage, uma accusação ao homem que concorrera para o seu infortunio, e
parecia impor-lhe a violencia da mudez, a morte surda sem a inoffensiva
respiração de uma queixa.
Frei Antonio entendeu-a, e disse:
--Fala, minha querida sobrinha, accusa-me, e depois pediremos ambos ao
Senhor que nos dê melhor vida a ambos.