Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a
libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra.
Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse
morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é
esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que
converte a piedade em estima.
A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as
lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer
ao seu procedimento.
A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do
pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam
lançar á sua liberdade.
O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole
apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos
prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que
lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o
espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas,
outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.
Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro,
que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua
mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a
respeito da felicidade que o marido lhe dava.
Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á
sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas
brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse
atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos
homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a
esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a
tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que
uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.
O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular
estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos
dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação
de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu
caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em
casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não
podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu
proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.
Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual
porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de
Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos
netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse
tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De
volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que
entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.
Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso,
palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da
viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.
É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...