XVIII

Alvaro falára pela bocca de todos os maridos maus ou infelizes, quando a

libertinagem os não cura do veneno do desgosto com o veneno da deshonra.

Era de certo o enojo, esse desfallecimento de alma incuravel, esse

morrer do amor que nunca mais resuscita, quando a mulher que o causa é

esposa, e quando o homem que o recebe não tem a força de virtude que

converte a piedade em estima.

A paciencia de Maria azedava ainda mais o desgosto de Alvaro, porque as

lagrimas em silencio eram a mais pungente censura que ella podia fazer

ao seu procedimento.

A melancolia do padre, cuja convivencia elle afastava, e o sobrecenho do

pae, irritavam-n'o até ao frenesi de raiva ás algemas que lhe queriam

lançar á sua liberdade.

O padre aconselhava-lhe os bailes, e os passatempos que a sua indole

apreciava. Pedia á sobrinha que o acompanhasse para compartir dos

prazeres de seu marido; mas a pobre menina, se alguma vez accedia ao que

lhe era imposto como dever de mulher casada, ia levar á sociedade o

espectaculo da sua tristeza, e dar incentivo de arguições, umas justas,

outras exageradas ao procedimento de Alvaro da Silveira.

Menos instada por seu marido, e por seu tio, e por seu extremoso sogro,

que lhe era segundo pae, deixou de saír, e mui raras vezes visitou sua

mãe, porque não podia mentir ás suspeitosas perguntas de seu pae, a

respeito da felicidade que o marido lhe dava.

Alvaro, pouco a pouco, foi-se absolvendo de seus deveres, e respeitos á

sociedade. Estudou o viver e o sentir dos maridos no circulo das suas

brilhantes relações, e viu que entre tantos havia só um que pudesse

atirar-lhe uma pedra. Entendeu que podia ser-se um homem importante aos

homens, e importante ás mulheres, embora casado, embora propenso a

esquecer-se todos os dias que o era. Relaxados os deveres, seguiu-se a

tibieza nas apparencias do decoro, e da delicadeza, ultima ferida que

uma mulher com dignidade póde receber de um mau marido.

O seu antigo amigo conde de *** foi reintegrado na sua particular

estima. Era já recebido no seu quarto, era o seu confidente em segredos

dignos de ambos, era tudo o que póde ser um amigo intimo, menos relação

de sua mulher. Maria regeitára com imperio, pouco natural ao seu

caracter humilde, a apresentação do conde. Ouvira falar d'este homem em

casa de seu pae, ao tio, e ao sogro, de modo que lhe ganhou asco, e não

podia vencer o sobresalto com que ouvia annunciar um tal nome, que seu

proprio marido, tres mezes antes, banira das suas relações.

Na primavera d'esse anno, Alvaro partiu com o conde, e outros de egual

porte para o campo, em busca de touros para as corridas do campo de

Santa Anna. Demoraram-se vinte dias n'essa gloriosa expedição digna dos

netos de Vasco da Gama e de Affonso de Albuquerque... Durante esse

tempo, Maria não teve de seu marido um bilhete, nem uma saudade. De

volta, Alvaro achou sua mulher gravemente enferma d'essa molestia que

entra no coração, e filtra de lá o veneno da morte por todas as fibras.

Disse-lhe palavras consoladoras, instigadas pelo espinho do remorso,

palavras calculadas na frieza do seu desamor; mas a idéa satanica da

viuvez entrou-lhe na alma com a esperança de uma felicidade imprevista.

É horrivel! mas não duvideis... Olhae de redor de vós...

Lagrimas Abençoadas · 第 84 / 115 题