XVII

O velho Silveira chamou seu filho, e disse:

--Que tristeza é a tua, e a da tua mulher, Alvaro?

--Não falemos n'isso, meu pae. O soffrimento calado é o mais nobre, o

soffrimento irremediavel é creancice expo'-lo á piedade dos outros.

--Soffrimento irremediavel!? De que soffres? Estás arrependido de casar

com esta menina que adoravas tanto?! Aborreces... enfastiou-te este

anjo?!

--Não me enfastiou... receio que venha a enfastiar-me... Está bom, meu

pae, mudemos de pratica. Para onde vamos nós a ares este anno?

--Que modos são esses, Alvaro! Entrou outra vez em ti o demonio da

perdição!? Foi, pois, uma mentira, uma impostura, uma infame astucia a

tua emenda?

--Não dou motivo para semelhantes suspeitas, meu pae. O meu proceder é

hoje como era ha quatro mezes. Ouvi'-lo-hei, senhor, mas v. ex.^a não me

accuse sem fundar a sua accusação.

--É possivel que já não ames Maria?!--replicou o pae--Em que desdiz

ella do que tu e eu esperavamos, Alvaro?

--Pois eu não a amo?! O pae que quer que eu faça? Ser-me-ha preciso

trazer ao collo minha mulher para o persuadir de que a amo?! Eu não sei

fazer carinhos piegas... Creio que ella não dirá que a trato mal, nem a

privo dos seus prazeres...

--Que prazeres! Pois a pobre menina raras vezes sae do seu quarto, raras

vezes, ha quinze dias a esta parte, se encontra comtigo... que prazeres

lhe dás, Alvaro? É isto o que tu planizavas quando me pediste que

empenhasse ao coronel a minha palavra de honra como abono do teu

procedimento para que elle te não negasse a filha? Vejo que preparas

para os meus ultimos dias uma grande deshonra, e um grande remorso! Com

que cara me apresentarei ao coronel logo que elle saiba os surdos

padecimentos da nobre menina, que não solta um gemido queixoso!

Explica-te, Alvaro; não te offendo, sequer, pedindo-te, como pae, uma

explicação d'essa frieza para com ella... O que é isto?

--Pois eu obedeço, senhor, respondendo em toda a verdade da minha alma.

Creia que soffro, respondendo assim; mas eu preciso dizer a terrivel

verdade que me esmaga o coração. Maria não é a mulher, que eu devia

procurar. Enganei-me. Foi um desencontro, uma desgraça, uma horrivel

illusão! Eu não sou digno d'ella. Fui atraiçoado pelo amor que Maria me

inspirou; julguei-me capaz de occupar, toda a vida, o coração com a

posse d'ella. O demonio venceu. Sinto-me enfastiado; tenho o gelo da

indifferença na alma, violento este sentimento amargo a confessar as

virtudes de minha mulher: vejo-a formosa, reconheço que é um anjo, mas

não posso, ao pé d'ella, passar um quarto de hora sem fastio. Parece que

o meu arrefecimento lhe passou á alma. Vejo-a triste, responde-me

chorando se lhe pergunto que motivos tem de tristeza, evita-me quando eu

faço sobre mim um grande esforço em mostrar-lhe agrado... Em fim, meu

pae, não era eu o homem que devia fazer a felicidade d'esta mulher...

Sou incapaz de a maltratar, terei com ella todas as attenções de irmão;

mas... é necessario que deixe de sentir o que sinto... A violencia é

inutil... o amor não se crava no coração como quem crava um punhal...

Basta-me o meu infortunio de não poder ama'-la. Os desgraçados como eu

são amaldiçoados pela sociedade, e Deus sabe se elles não são mais

dignos de piedade que de maldição!... Não poder ama'-la como a adorei ha

tres mezes! Isto é angustioso, meu pae! Por quem é, não me aggrave as

minhas dôres com as suas censuras... Não receie nada por ella... Eu

tirarei da delicadeza todos os pretextos para que ella se capacite de

que ainda a amo. É uma piedosa mentira em que meu pae, por meu bem, e

d'ella, e de todos nós, deve consentir, e até empregar a sua influencia

auxiliadora. Consiga v. ex.^a que ella saia do quarto, que vá aos

theatros, que vá aos bailes, que frequente as nossas immensas relações,

que aprenda na sociedade com outras mulheres a esquecer os infortunios

domesticos, que eu farei o mesmo...

--É uma alliança infame, que tu queres que eu proteja?--interrompeu o

velho.

--Como _alliança infame_!--redarguiu o filho.

--Sim! consentes a tua mulher...

--O que? queira dizer, meu pae!

--Tenho vergonha de o proferir!...

--Então não me comprehendeu, ou me julga um homem destituido de honra.

Lembre-se que sou seu filho, senhor! Eu não quero fazer com minha mulher

allianças infames. Quero que ella não faça consistir a sua felicidade

sómente na minha convivencia de todas as horas, e de todos os instantes.

Quero que ella reparta os seus desejos, e as suas idéas por tudo que

possa dar-lhe uma distracção honesta, e concedida ás senhoras da sua

posição. Não quero que o seu amor á solidão me force, me algeme a um

gosto que não tenho. Estamos na sociedade, eu sou um rapaz, e quero

viver para a sociedade. Gosar não é offender a Deus, como lhe incutiram

a ella. Nunca a levei aos theatros, aos bailes, a uma visita, que não

tivesse primeiro que destruir-lhe os preconceitos com que a crearam.

Está sentada ao piano, ou ao bastidor: quer meu pae que eu esteja alli

constantemente ao pé d'ella, repetindo-lhe as phrases cançadas de um

amor de convenção? É hypocrisia com que não posso...

O velho voltára as costas ao filho, e confundira as lagrimas com as de

padre Antonio que se fizera annunciar.

Lagrimas Abençoadas · 第 83 / 115 题