--Maria vive triste...--dizia padre Antonio dos Anjos a sua
cunhada.--Não diga isto a seu marido, minha irmã. Poder-me-hei ter
enganado, e não lhe antecipemos um dissabor.
--E porque não vem ella a nossa casa?!--perguntou a mãe afflicta.--Ha um
mez que nos não visita, disse aos irmãos que não tornassem lá sem ella
os chamar... Alvaro já a trata mal? já a não amará?!
--Alvaro vive triste como ella. Encontram-se poucas vezes; ainda se não
deram as mais ligeiras desavenças entre elles; mas o silencio quando nos
reunimos todos á mesa, é profundo entre ambos. Fogem de encontrar-se nos
olhares; e, sem causa proxima, as lagrimas caem ás vezes sobre o prato
de Maria. O pae de Alvaro pergunta-me o que tem seu filho. Interroga-o,
e elle responde-lhe que não tem nada. Eu interrogo Maria, e ella pede-me
que rogue a Deus por ella.
--É pois muito desgraçada a minha filha!--exclamou a lagrimosa
senhora--Fomos nós que fizemos a infelicidade d'ella. Fui eu, fui eu só!
Era eu quem devia destruir-lhe este amor no seu principio. Fiz o
contrario... Dei-lhe azo para que tudo me confessasse, applaudi-lhe o
puro sentimento que a levava ao coração de um homem que eu julgava digno
d'ella; animei-a até a proferir palavras que o pudor lhe não deixava
saír do coração! Minha pobre filha, é tua mãe quem te fez infeliz! Que
direi eu a meu marido, quando elle me pedir conta da felicidade do nosso
anjo, d'aquella santa que tantas lagrimas nos enxugou, e nós não podemos
enxugar as d'ella... Podemos, podemos...--proseguiu ella com
exaltação.--Que venha para a nossa companhia; vá, meu irmão, vá
dizer-lhe que o coração de sua mãe só póde achar allivio ao seu remorso,
sentindo-a chorar no meu seio... Vá, vá, antes que meu marido saiba que
ella vive assim... Traga-m'a, póde ser que meu marido se não queixe na
presença d'ella... Não se lembre que ella é casada... Não ha lei divina
que obrigue uma mulher a ser victima de seu marido...
--Basta, minha irmã!--interrompeu com brandura o padre--Não multiplique
com o seu amor de mãe os soffrimentos de Maria... Ella não se queixa.
Quer que a sua dôr seja um segredo para seu proprio tio, e bem sabe que
minha sobrinha me fez o confidente das suas alegrias e pesares... Póde
ser que esta sombra de melancolia seja uma nuvem. Não vamos nós
precipitadamente desafiar uma tempestade, que nem se quer nos ameaça. O
anjo do Senhor está ao pé de Maria, e um desgosto passageiro é muitas
vezes uma experiencia que Deus manda para a purificação das suas
escolhidas. Confiança na justiça divina, minha irmã. Alvaro tem de
responder hoje ás perguntas de seu pae, e talvez ás minhas. Póde haver
n'esta melancolia de ambos uma causa dada por ambos. O silencio de Maria
faz-me suspeitar que ella não tem bastante confiança na razão da sua
tristeza. Póde ser que a demasiada saudade dos seus, manifestada ao
marido, o tenha desgostado. Se tal fôr, é preciso dizer a minha sobrinha
que o sacramento do matrimonio opera uma suave mudança nas ligações de
familia. O amor de esposa tem uma santidade superior ao de filha:
augmentam as obrigações, e vem com ellas o dever do sacrificio. Eu
conheço pouco do coração humano; mas o de Maria sinto-o pensar, e
sentir, e desejar dentro do meu. Maria deve amar e ama deveras seu
marido; porém esse amor sem fausto, sem bailes, sem theatro, sem
jantares, e sem visitas importunas e ociosas ser-lhe-ia mais grato, mais
em concordancia com o seu natural. Ora, pois, minha irmã, menos
lagrimas, e mais reflexão. Repito que não diga a seu marido que eu vim
aqui fazer-lhe o mal que não imaginava.