Uma hora de convivencia entre pessoas, que sinceramente se communicam em
francas manifestações do que são, é bastante para a familiaridade, para
a estima, e para isto que o coração ambiciona, este bem-estar, nascido
da confiança, inteira e desprevenida, que depositamos em uma roda de
amigos. Raro, porém, estas rodas se deparam. _Amigo_ é uma palavra
profanada pelo uso, e barateada a cada homem que se nos apresenta, como
a _palavra de honra_, que por ahi anda desvirtuando a honra e a amizade.
As delicias da conversação, expansiva como a confidencia, e
despreoccupada como a ingenuidade, essa não se conhece nos salões, onde
o epigramma recebe os louros da eloquencia, e o espirito acerado e
cortante conquista as ovações do talento. A murmuração, bem salgada de
ironias galhofeiras, é a raínha das conversações, coroada pelo diadema
da hilaridade, que, muitas vezes, não poupa o primeiro da roda, que se
retira, nem o dono da casa, que fica, pela sua parte, cotejando os
vicios dos seus hospedes _espirituosos_.
D'esta feição eram as praticas, em que Alvaro da Silveira, adestrado
pelo conde de *** primára como bom artista de _equivocos_, e
trocadilhos, em que o sarcasmo acre e engenhoso, pegava delicadamente
pelos cabellos da victima, e a empalava nos tractos da zombaria, iguaria
saborosa, a unica, talvez, para os paladares estragados.
Era, pois, uma novidade para o seu espirito aquella franca exposição de
sentimentos, de mais a mais interessantes pelo lado da intelligencia, e
sympathicos para o coração de todos, e especialmente do mancebo, que se
extasiava, na presença de um talento de mulher, flôr aberta em
exhalações de um novo perfume, para elle, que nunca a vira tão bella e
tão fascinadora no dom da palavra.
Maria compartira de sentimento de confiança, que viera dissipar os
temores de Alvaro. Sem a candura, e a innocencia, na franca exposição
das suas idéas ácerca de romances, Maria não diria tanto, nem se lançára
tão seguramente na opinião contraria á de todos. A sincera menina,
ingenua como as suas intenções, viu no mancebo, que tão aceite era aos
seus, um amigo digno de se lhe dizer tudo o que, em cousas litterarias,
se diria a frei Antonio dos Anjos.
Alvaro da Silveira estava sendo digno da sua confiança. E tanto o era,
que uma nobre vaidade lhe alegrava o espirito, ao ver-se, tão depressa,
merecedor da franqueza com que o recebiam, e da irmandade, com que Maria
dos Prazeres lhe respondia aos seus argumentos na questão em que todos
se interessavam.
Frei Antonio era um sabio; mas os sabios de todas as posições sociaes, e
particularmente os sabios creados no claustro, sustentam prejuizos, que
as mediocridades lhes combatem com as debeis armas de uma sciencia
superficial. Frei Antonio pensava mal dos romances, por que lera um ou
dois, ou mil d'esses que por ahi envergonham a arte, e indignam o pudor.
Alvaro da Silveira, que devorára tudo quanto os ultimos annos tinham
creado de mais licencioso na litteratura franceza, odiava então os
romances aos quaes erradamente imputava os seus desvios. O coronel e sua
mulher jurava nas palavras de frei Antonio. Maria, porém, que não lera
romances, nem mostrára o mais leve desejo de os ler, apresentava na
defesa de tal leitura o instincto da adivinhação, a presciencia do
talento, que um relampago, ás vezes, parece alumiar de improviso.
--Eu não sei--dizia ella--como os romances possam perturbar a minha
tranquillidade! Que é o que elles dizem? Contam a vida como ella é;
matam as illusões de quem a suppõe melhor; antecipam o conhecimento da
realidade? Isso que tem? Um bom mestre, encarregado de levar pela mão o
discipulo na estrada do mundo, cheia de precipicios, que é o que faz
senão apontar ao innocente os abysmos, que se escondem debaixo das rosas
seductoras? Que é o que tem feito meu tio a meu respeito? não é
levantar-me a cortina do que são segredos para mim, e mostrar-me a
triste realidade do que por ahi ha, apenas agradavel aos olhos da
innocencia? Eu penso que o romance, espelho fiel das boas e más
situações da vida, não póde fazer-me desejar o que é vicio, nem
aborrecer o que é virtude...
--Mas se o romance--interrompeu Alvaro--descreve o crime com as bellas
tintas da seducção?
--Não importa, o escuro do quadro lá está no crime: as fezes do absyntho
lá estão no fundo do calix--retorquiu Maria--não sei se digo a verdade:
mas imagino que ha nos romances um mau principio, que só deve prejudicar
as pessoas, que os lêem com o coração arruinado, e os olhos fartos já de
ver a realidade de tudo o que ha mau. É natural que o romance, para
fazer bons certos actos do seu heroe, precise de aniquilar a moral
religiosa d'esses actos, e justifica'-los pela moral da falsa
philosophia. Isto me tem dito meu tio muitas vezes, e eu tenho pensado,
outras tantas, na influencia que poderiam exercer sobre o meu espirito
essas más doutrinas, revestidas de seductoras falsidades. Nenhuma, creio
em Deus e em mim, que não. Mal de mim, e da minha fé, se o primeiro
incredulo, com talento de bem escrever, e falsificar a verdade, pudesse
alvoroçar a minha consciencia, a ponto de destruir com a pagina de um
livro o que eu recebi pela educação, pela meditação, e pelo estudo!...
Tomára eu saber tudo o que o mundo tem de bom e de mau... que me
dissessem a flôr em que a aspide se esconde, e o espinho que muitas
vezes, soffrido com resignação, nos póde dar depois momentos de prazer.
O que eu acho triste e perigoso é crescer, tocar a altura em que a
intelligencia raciocina, e o coração se emancipa dos descuidos da
mocidade, ser mulher, entrar no mundo, julga'-lo a continuação do seio
de sua familia, e ter de perguntar a cada instante á cabeça, que não
sabe, até que ponto são razoaveis os preceitos do coração...
Maria foi de improviso tocada pelo receio de se ter excedido. Córou, e
abaixou os olhos, como se sua mãe lhe significasse, em um gesto, o
desgosto de ouvi'-la.
Alvaro, suspenso dos labios d'ella, fascinado pelo som d'aquella voz,
que parecia exercer o imperio do silencio sobre o coração de todos,
sentia-se elevado a um assombro de admiração, onde quasi sempre o
respeito profundo, ou o amor repentino se assenhoreiam do talento e do
espirito.
Era um amor, que nascia, e respirava uma atmosphera embalsamada de
perfumes, amor, que nunca, em suas passadas affeições, lhe coára no
coração a vida suavissima da paixão tranquilla, sem sobresaltos de
remorso, sem temores de culpa, e sem receios de insultar a Deus ou aos
homens. No coração de Maria, o que se passava era uma sensação de
ternura, o desabrochar de uma nova flôr de amizade para offerecer a
Alvaro, como a offertaria a um seu irmão, que viesse de longe, pela
primeira vez, reconhecer a sua irmã. Se, todavia, lhe perguntassem o
segredo mais intimo da sua existencia desde aquelle dia, ella não teria
nenhum a revelar. O mais que poderia accrescentar ao que a sua familia
sabia do seu coração, a respeito de Alvaro, é que desde o dia, em que o
viu, as suas orações por elle foram mais repetidas, mais fervorosas, e
mais tocadas pelo interesse de uma amiga, que quizera gloriar-se de ter
concorrido para a regeneração de um anjo.