A apparição de Alvaro em casa do coronel impressionou extranhamente
aquella numerosa familia, cuja maior parte não se recordava de ver na
sua sala um extranho.
Maria foi como sua mãe cumprimenta'-lo, e, pela hesitação em que ia,
pudera julgar-se que a violentavam. O acanhamento das suas maneiras, a
inflexão tremida das suas poucas palavras, denunciariam uma inculta
rapariga d'aldeia, a quem por passatempo aparamentaram de vestidos
senhorís. Na grande roda seria fertil assumpto de risos e gracejos.
Alvaro, por uma d'essas incoherencias da natureza humana, revelava um
acanhamento quasi semelhante ao de Maria. A prevenção em que o vimos a
respeito d'ella, o conceito sublime que a religião lhe ensinára a fazer
das suas virtudes, e, mais que tudo, a belleza d'essa menina, que elle
nunca encontrára nos bailes, nem, semelhante a ella, se recordava ter
visto outra, foi por ventura tudo isto a extranha emoção que o
sobresaltou e collocou, como costuma dizer-se, n'uma falsa posição.
E, demais, quem sabe se assim ficam explicados os embaraços de Alvaro?
Qual de nós não teve na vida uma situação semelhante, d'onde melhor
possa ver a de Alvaro da Silveira?
Quem é o homem forte e senhor de si, quando a virtude e a formosura,
illuminando a mulher de um santo prestigio, lhe fascinam os olhos da
face e os da alma?
E, quando o espirito, purgado das fezes da irreligião, contempla a
mulher virtuosa como a depositaria de sentimentos que mais genuinamente
simulam o amor de Deus, é tão natural esse enlevo, esse culto, essa
idolatria no homem que poude encontrar um anjo, onde não esperava já
encontrar senão estimulos de paixões materiaes!...
Nem se explica de outra maneira a surpresa de Alvaro na presença de
Maria dos Prazeres.
A virtude tem uma fascinação particular sobre o homem, que não desceu,
na escala da depravação, a ponto de negar a existencia de corações
immaculados. Anojado de estudar a mulher, modelada nas fórmas
invariaveis do salão, onde todas são semelhantes a cada uma, Alvaro da
Silveira, abaixou os olhos diante da primeira mulher, que, em outros
tempos, poderia abater-lhe o orgulho.
Foi n'esse respeitoso silencio, n'esse involuntario acanhamento de
maneiras, que o mancebo justificou a regeneração do seu caracter. Mezes
antes, se o tivessem apresentado a Maria, ve'-lo-iam empregar todos os
recursos da eloquencia, adaptada a todas as mulheres do «grande mundo»
intimamente persuadido de que aquella, deslumbrada pelos ouropeis da
phrase, saudaria em sua alma a apparição de uma sympathia ardente pelo
genio, pelo talento palavroso, e pelos arrebiques da lingua estudada.
O coronel, attencioso observador da approximação de Alvaro, gostou do
pejo com que sua filha foi recebida. Frei Antonio a quem competia
encetar uma conversação em que respirassem aquellas duas almas
retraídas, principiou a elogiar modestamente as qualidades do seu amigo.
Alvaro, silencioso, principiava a affligir-se da sua absoluta
esterilidade de idéas, quando, em boa civilidade, lhe convinha agradecer
o acolhimento com que era especialisado n'aquella casa. Não se
acreditaria esta perplexidade, se cada qual não pudesse justifica'-la
com um momento semelhante na sua vida.
Alvaro achou a inspiração na propria fraqueza, que o mortificava.
Voltando-se para frei Antonio, com as faces rosadas, disse com voz
tremula:
--Eu creio que perdi na solidão os habitos do mundo, meu caro mestre.
Nem já sei falar, e era d'antes um falador importuno!... A sua familia
deve fazer de mim uma idéa triste...
--Porque?--interrompeu a mãe de Maria, com insinuante delicadeza.
--Porque, minha senhora?--retorquiu Alvaro--porque me acho aqui coacto,
entrei aqui grosseiramente, como um saloio que vestiram de casaca, e de
um modo que v. ex.^a de certo não esperava receber um hospede que vive
na roda onde as etiquetas chegam a ser enfadonhas pela demasia de
reparos.
--Ora, sr. Alvaro--interveio o coronel--nós sabemos o que são essas
cortezias, e palavreados da tal roda, que v. ex.^a frequentou. Minha
filha Maria, essa não as sabe de certo; mas pouco lucrariam, ella, se as
aprendesse e v. ex.^a se lh'as ensinasse. Aqui, a unica pessoa
exigente--continuou o coronel, sorrindo--exigente das genuinas etiquetas
da côrte é talvez v. ex.^a que de lá vem. Tenha, porém, paciencia, se
nos encontra sem o polimento com que se envernizam os mimosos da
fortuna, alegres sempre e sempre cuidadosos de ensaiar-se, quando a
ociosidade os enfastia, na arte de agradar. Aqui tem v. ex.^a as idéas a
respeito dos galhardos faladores de salão, que, segundo ouvi dizer, por
ahi se chamam _fazedores de espirito_. Sejam lá o que forem, eu aprecio
muito a economia de palavras com que v. ex.^a abriu as relações com esta
familia ignorada. Até por generosidade, nenhum hospede, chegado a esta
casa deve exigir de nós os tratamentos apurados de uma refinada
delicadeza. Não os sabemos, nem poderiamos sustenta'-los. Tudo isto vem
a serenar a impaciencia com que o sr. Alvaro da Silveira parece
queixar-se das idéas, que lhe não abundaram, quando tivemos a honra de o
receber.
V
Em quanto o coronel prendia os olhos attenciosos de Alvaro, Maria,
cobrando novos alentos d'aquella especie de familiaridade adquirida
pelas franquezas de seu pae, levantava os olhos meio timidos para frei
Antonio, que até então não desviára os seus das faces encarnadas de sua
sobrinha. Alvaro continuou com o coronel um dialogo sobre o assumpto das
etiquetas, que ambos julgavam, umas vezes, indispensaveis, e, outras,
fastidiosas, em quanto Maria, convidada por seu tio, foi sentar-se
contrafeita ao piano e suspendeu a travada conversação dos dois, que á
primeira corrida do teclado, levaram instinctivamente os olhos e os
corações para o rosto incendiado da formosa menina.
O que ella tocou não se recordava Alvaro de o ter ouvido. A meia voz
perguntou á mãe de Maria a que opera pertencia aquelle rico trecho de
musica. Em resposta teve um sorriso de modestia, a que o mancebo achou
duvidosa explicação, e, pouco depois compreendeu, quando frei Antonio,
alma franca, e sem reservas de falsa modestia, declarou que a musica era
de sua sobrinha. Maria córou, e apressou-se a declarar que não era
absolutamente original aquella composição modelada por alguns fragmentos
de musica, que ouvira no orgão das Theresinhas. A evasiva não era de
todo inexacta. Maria, affeiçoada á musica do templo, nas suas
composições, procurava sempre como texto as notas que mais lhe afinassem
com o profundo sentimento de terna melancolia, que a dominava, nos
ultimos mezes da sua existencia.
Frei Antonio estava sendo penoso á natural modestia, filha do pudor, que
a cada instante, se manifestava no rosto purpurino de sua sobrinha.
Homem extranho ás mil conversações com que a sociedade consome as horas
em inutil trocadilho de palavras, entendia que o mais judicioso
passatempo, e até o mais commodo ao espirito de sua educanda, devia ser
a litteratura. Por isso chamou a campo sua sobrinha, e obrigou-a pela
obediencia a entremetter-se em questões, que o proprio Alvaro de bom
grado não quizera quinhoar, com receio de não sair-se bem. Maria, quando
os primeiros terrores se desvaneceram, era sublime aos olhos do hospede,
que a não concebera tão elevada a respeito de certas cousas, que se
dizem, quando a auctoridade dos annos, gastos em aprender, lhes dá um
tom de certeza que, quasi sempre, ajusta mal com a natural simplicidade
de uma senhora.
Falava-se em romances. Frei Antonio dos Anjos empenhava os seus vastos
recursos scientificos em condemnar esse genero de leitura. Alvaro
abraçava a opinião de seu mestre, e citava-se a si como victima das
perniciosas leituras da sua infancia. O coronel e sua esposa applaudiam
a rejeição dos romances. Maria, porém, e só ella, cheia de humildade,
sem levantar os olhos dos dedos rosados, que se distraiam correndo a
bainha do lenço, contrariava as opiniões dos inimigos dos romances,
depois que a cada um ouvira as razões, mais ou menos fortes, com que a
leitura do tempo era votada ao exterminio. A sua argumentação era
concisa, e quasi sempre balbuciante d'aquelle temor tão proprio em annos
verdes, em presença de um extranho, de um pae, e de um sabio.