VII

Á primeira visita succederam outras.

Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que

assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do

discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz

tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a

felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde

que visitara a obscura familia de frei Antonio.

Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um

moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de

suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas,

passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão

zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de

seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada

n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de

Maria dos Prazeres.

Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que

frequentaram juntos a casa do coronel.

--Parece-me que és feliz, Alvaro.

--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato

a Deus.

--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a

força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a

virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a

tempestade vier depois da bonança...

--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para

vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me.

Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso

luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.

--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o

mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração,

porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.

--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração

que se morre...

--Se a virtude nos não vale...

--A intenção com que me diz essas palavras...

--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho,

e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te

renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam

vencer por pequenas resistencias...

--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que

me anime a falar-lhe.

--Adivinhei a tua alma?

--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...

--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos

a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que

nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.

--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?

--Que sentes por ella, Alvaro?

--O pae adivinhou-me... _é um anjo que nos tem captivos a ambos_; mas o

meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa

desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a

liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...

--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.

--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti,

vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez

vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga,

adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha

alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos

innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae,

provocar as tempestades do coração?

--É, filho.

--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma

mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar

a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que

nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...

--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o

enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em

que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e

grandes expiações a soffrer na terra.

--Pois bem, meu pae...

Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas

se mostraram.

--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É

sensibilidade ou arrependimento?

--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.

--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa

menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas

palavras, na educação...

--Não é o coração de Maria dos Prazeres.

--Pois qual?

--O de meu pae.

--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?

--Gosta de Maria dos Prazeres?

--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se

das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?

--O pae quereria ter uma assim?

--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...

--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.

O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu

costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio

inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos;

e, depois de alguns segundos, disse:

--Queria.

--Queria assim dar-me um esposa?

--Queria. E serias tu digno d'ella?

--Não ouso responder.

--Pois medita.

Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção,

dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:

--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua

crueldade. Medita, Alvaro.

E deixou-o.

Lagrimas Abençoadas · 第 74 / 115 题