Á primeira visita succederam outras.
Alvaro realisára as esperanças do padre. A sombria tristeza, que
assustára o mestre, cedeu a uma alegria doce que sorria no semblante do
discipulo. O pae d'este, compartindo no contentamento do filho, quiz
tambem conhecer o asylo de paz santa onde Alvaro fôra encontrar a
felicidade, que o mancebo dizia não ser cousa impossivel na terra, desde
que visitara a obscura familia de frei Antonio.
Redobrou o prazer do padre. O velho fidalgo foi acolhido como pae de um
moço que era alli estimado como parente e recebido sem vislumbre de
suspeita má. As noites passavam rapidas para todos. Cousas pequenas,
passatempos quasi pueris, entretinham velhos e moços. Silveira, tão
zeloso da honra do coronel como elle proprio, espionava as intenções de
seu filho, como quem receia que a virtude não esteja ainda tão enraizada
n'aquelle coração juvenil, que o torne frio para os mil encantos de
Maria dos Prazeres.
Eis aqui um dialogo entre o pae e o filho, quinze dias depois que
frequentaram juntos a casa do coronel.
--Parece-me que és feliz, Alvaro.
--Sou, meu pae, sou muito feliz. Se eu dissesse que não sou, era ingrato
a Deus.
--Pois, filho, sê digno das mercês que Deus te faz. Põe da tua parte a
força e a virtude para continuar a Merece'-las. A virtude, Alvaro, a
virtude. Nunca te esqueça esta palavra: seja sempre a tua ancora, se a
tempestade vier depois da bonança...
--Nunca a esquecerei, meu pae. Cada dia se me dobram as forças para
vencer o mal. As reminiscencias do passado affligem-me e envergonham-me.
Em quanto eu olhar assim para o homem que fui, nunca me será preciso
luctar com as tempestades, em que o refugio está na ancora da virtude.
--Pois sim, filho; mas por mais risonho que esteja o céo e calmoso o
mar, não largues nunca a ancora: tem-a sempre apertada ao coração,
porque é lá d'onde rebentam as maiores tempestades.
--No coração? Eu creio, pae meu, creio que é nas tempestades do coração
que se morre...
--Se a virtude nos não vale...
--A intenção com que me diz essas palavras...
--É boa, Alvaro; é a intenção com que um bom pae aconselha um bom filho,
e até um mau filho. Que perda para todos nós se o coração que se te
renova hoje, meu filho, obedecesse a uma impressão das que se não deixam
vencer por pequenas resistencias...
--Fale, fale, meu pae... tenho precisão de ouvi'-lo porque preciso que
me anime a falar-lhe.
--Adivinhei a tua alma?
--Não sei o que vae dizer-me... Quer-me falar da...
--Da filha do coronel... quero falar-te d'esse anjo que nos tem captivos
a ambos, e nem eu sei qual de nós daria mais depressa a vida para que
nunca um desgosto por nossa causa lhe banhe de lagrimas a face.
--Que desgosto podemos dar-lhe, meu pae?
--Que sentes por ella, Alvaro?
--O pae adivinhou-me... _é um anjo que nos tem captivos a ambos_; mas o
meu captiveiro é cheio de consolações, é uma prisão que me não custa
desgostos nem frenesis... Não vê que sou tão feliz assim? Se me dão a
liberdade, fazem-me desgraçado. Amá'-la...
--Amá-la!?...--interrompeu o pae com sobresalto.
--Amá'-la, sim, pois não é isto amá'-la? O que sinto, o que senti,
vendo-a uma só vez, tem alguma semelhança com tudo o que me fez
vertigens do coração n'outro tempo? Amá'-la, sem que eu lh'o diga,
adorá'-la, com a devoção dos justos, recolhe'-la em segredo á minha
alma, e tão em segredo que nunca ella possa temer uma só palavra menos
innocente que todas as nossas conversações... ama'-la, assim, meu pae,
provocar as tempestades do coração?
--É, filho.
--É? então, meu Deus, não ha virtude que resista ao impulso de uma
mulher! O homem, que quizer viver em boa paz com o céo, ha de renunciar
a tudo que está na terra proclamando a grandeza de Deus. A religião, que
nos não veda o amor, está em contradição com a virtude...
--Não está, Alvaro. A religião creou um sacramento para santificar o
enlace dos corações que se inclinam para um fim justo, para uma união em
que a virtude é o vinculo de cuja quebra ha tremendas contas a dar, e
grandes expiações a soffrer na terra.
--Pois bem, meu pae...
Alvaro sustára o pensamento que vinha aos labios, em quanto as lagrimas
se mostraram.
--Diz, Alvaro. Tu ias dizer alguma cousa que te fez chorar. É
sensibilidade ou arrependimento?
--Melhor é que o não diga, meu pae... Eu preciso estudar-lhe o coração.
--De D. Maria dos Prazeres? não é necessario, filho. O coração d'essa
menina não é um livro fechado, é um espelho. Vê-lh'o na face, nas
palavras, na educação...
--Não é o coração de Maria dos Prazeres.
--Pois qual?
--O de meu pae.
--É o coração de um pae... que mais queres que te diga?
--Gosta de Maria dos Prazeres?
--Se gosto!... Não te tenho eu dito que o coronel não deve queixar-se
das injustiças dos homens em quanto lhe deixam o throno d'aquella filha?
--O pae quereria ter uma assim?
--Quizera assim dar-te uma irmã, filho... Oh se queria!...
--E uma esposa?--disse Alvaro balbuciante.
O pae não respondeu. As palpebras cerraram-se-lhe, que era esse o seu
costume na meditação. Com os dedos da mão direita comprimiu o labio
inferior, tirando por elle. Passou a mão esquerda por entre os cabellos;
e, depois de alguns segundos, disse:
--Queria.
--Queria assim dar-me um esposa?
--Queria. E serias tu digno d'ella?
--Não ouso responder.
--Pois medita.
Silveira ergueu-se. Tomou a mão do filho, e apertou-lh'a com commoção,
dizendo-lhe como quem profere um juramento na presença de Deus:
--O homem que maltratar aquella mulher deve dar terriveis contas da sua
crueldade. Medita, Alvaro.
E deixou-o.