O padre prevenira sua familia da proxima visita que lhe era destinada. A
mãe de Maria, tão innocente como sua filha, e tão confiada na prudencia
de seu cunhado como na de seu proprio marido, recebeu a noticia com
jubiloso assentimento. O coronel fitou em seu irmão um olhar de
interrogação, que devia ser uma pergunta intima, que os labios tinham
medo de balbuciar: «Por ventura nada receias tu, meu irmão? Sabes que ao
pé de minha filha só póde sentar-se um anjo como ella? Tens a certeza de
que esse mancebo entra em minha casa como no sanctuario da honra?» Frei
Antonio lêra estas perguntas nos olhos de seu irmão, e, como se
precisasse de empregar a palavra que o coronel não ousava pedir-lhe, o
padre apertou-lhe a mão com ternura, e murmurou a meia voz: «Não
temas!... tu és honrado, tua mulher é uma santa, tua filha é um anjo...
Eu serei um peccador, mas não sereis vós os que haveis de expiar as
minhas culpas... Não temas, meu irmão.»
Maria, quando a nova lhe foi dada, experimentou uma sensação, d'essas
raras sensações que não hão de ter nunca na terra uma palavra fiel que
as defina. Ao ver que nos labios de sua mãe estava um riso de
beneplacito e contentamento, Maria sorriu tambem machinalmente, e ficou
silenciosa, durante a longa conversação que se travára a este respeito.
Recolhida, comtudo, ao calado abrigo do seu quarto, ao mystico colloquio
das suas tristezas com a imagem de Maria Santissima, a melindrosa menina
consultava-se, com doloroso interesse, no que seria essa nuvem escura de
melancolia, que viera turvar-lhe o espirito, quando ouviu dizer que
Alvaro da Silveira, por cuja conversão tantas vezes ella orára, ia ser
recebido como amigo no seio de sua familia.
Esta interrogação era como as consultas que nós fazemos do nosso proprio
destino; era como a anciedade vã de levantarmos a cortina do nosso
quadro de existencia d'aqui a annos. Maria quando uma vez escrevera uma
poesia intitulada _presentimento_, dissera tudo quanto podia dizer, vira
o futuro quanto podia ve'-lo, caminhára através da vida quanto podia
caminhar; e, como se os passos lhe cançassem, parou, chorando. É que o
seu poema fôra uma prophecia de lagrimas nunca represadas.