LIVRO III

I

Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu

cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de

reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se

bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á

vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente

as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e

aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja

imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.

E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro

rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta

transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na

conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.

A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da

graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas

do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára

vencer.

Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um

abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de

todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A

melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais

aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção,

nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi

sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que

lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o

mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os

elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não

vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta

esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos

espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a

tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que

pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo.

O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam

inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em

faze'-los proveitosos.

Lagrimas Abençoadas · 第 69 / 115 题