I
Eram passados seis mezes depois que frei Antonio dos Anjos tomára a seu
cargo a educação de Alvaro. Este mancebo, vivendo uma vida quasi de
reclusão e de immobilidade corporal, fazia grande violencia ao corpo, se
bem que á alma não fazia nenhuma. É que a materia, posto que sujeita á
vontade do espirito, adquire certos habitos, que não seguem facilmente
as modificações do espirito, principalmente quando estas são bôas e
aquelles máos. É como o relevo aberto no marmore pela mão do homem, cuja
imperiosa vontade não póde desfigurá'-los sem que a mão os destrua.
E a passagem da vida agitada para a meditação sedentaria fôra em Alvaro
rapida, talvez de mais. Fr. Antonio conhecia a inconveniencia d'esta
transição; mas superior a taes receios, o religioso esperava que, na
conversão do seu discípulo, se operasse um continuado milagre.
A Providencia, porém, imprimira no espirito do mancebo o impulso da
graça, e deixára-o sósinho na lucta do bem e do mal, para que as fadigas
do seu triumpho lhe fossem expiações das cobardias em que se deixára
vencer.
Ao cabo de seis mezes, Alvaro da Silveira dera sensiveis mostras de um
abatimento, não de espirito, não de coragem, mas d'essa languidez de
todos os orgãos, que parece o cançasso de uma febre intermitente. A
melancolia fizera-o mais concentrado, mais solitario, e até mais
aborrecido de si e dos outros. O estudo não lhe valia já de distracção,
nem as praticas eloquentes do mestre lhe captivavam o espirito. Quasi
sempre fechado no seu quarto, Alvaro, por fim, repellia os alimentos que
lhe levavam, e carregava o sobrolho ás admoestações que o pae ou o
mestre lhe faziam. Frei Antonio quiz ver n'este estado critico os
elementos ainda não inflammados de uma reacção. Tremeu com a idéa de não
vingarem os fructos da boa semente que elle, com tanto esmero e tanta
esperança, cultivára n'aquelle coração desbravado, ao que parecia, dos
espinhos da impiedade. Orou fervorosamente, pediu com anciedade a
tutella do céo para aquelle orphão de pae, de amigos, e de mestre que
pudessem ampara'-lo na sua recaída no abysmo, d'onde parecia ser salvo.
O santo homem chegára a persuadir-se que os seus trabalhos seriam
inuteis, porque o senhor queria puni'-lo da vaidade que elle tivera em
faze'-los proveitosos.