Na «grande roda», falava-se muito da conversão de Alvaro. Infelizmente,
porém, esta conversão tomaram-na irrisoriamente a maior parte d'aquelles
que se occupavam d'ella, por não terem um caso semelhante de que se
occuparem. Os da sua plana, particularmente, pareciam vexados da
religiosidade do seu antigo camarada, que tão bellas esperanças dava de
correr parelhas no cynismo philosophico do conde.
Na incerteza de semelhante boato, muitos vieram procurar Alvaro, e
acharam-no prompto sempre a recebe'-los; se, todavia, os seus hospedes
tentavam chama'-lo ao assumpto, que ali os trouxera, Alvaro contava-lhes
uma historia assim resumida:
«Eu era discipulo do conde ***, assim como vós o sois. Casualmente o meu
mestre de philosophia falsa encontrou-se com outro que me dizia ser o
mestre da verdadeira philosophia. Disputaram por algumas horas: o
primeiro, quando se viu esmagado no seu orgulho, fugiu, cantando um
hymno em seu triumpho, mas um hymno injurioso ao modesto vencedor.
Sabeis o que depois me fez alistar na escola do frade, e fugir á escola
do conde? Foi, talvez, muito pouco: vi que o frade pediu a Deus a
conversão do conde que o insultára, e insultára a Deus.»
Os que o ouviram diziam depois: «Aquelle pobre Alvaro endoudeceu!...
Coitado!... Seria uma paixão infeliz? Seria desorganisação do
cerebro?... Seria alguma grande perda no jogo?»