«Minha paz no infortunio,
Minha alegria na dôr,
Quem m'a déra, qual a tive,
Qual m'a déstes, vós, SENHOR!
«Desbotou-se-me nos labios
Meu sorriso tão singelo...
E eu com elle premiava
Tanto amor, tanto desvelo!...
«Tanto amor, que eu vos pedia,
Do que os anjos tem nos céos,
Para amar meus paes, meu tio,
Como vos amo, meu Deus!
«Não scismei outras venturas,
Outros gosos não pedi:
Fui tão rica na pobreza...
Na pobreza empobreci.
«Senti lagrimas no rosto...
Sei que tenho aqui no seio
Escondida uma tristeza
Que de vós, meu Deus, não veio!
«Deu-m'a o mundo?... sim... daria...
Mas que mal ao mundo fiz!?
Serei eu de alguem inveja?
Pois que eu não seja feliz!
«Volva o tempo da penuria,
Quando eu fiz a pobre flor,
Que me dava um pão regado
Com meu pranto e meu suor.
«Dae-me as noites não dormidas
De trabalho e de alegria;
Meu orar na madrugada,
Quando, tão feliz, me erguia.
«Oh meu Deus! se a humilde serva,
Não votaste ao soffrimento,
Abafae lhe a voz, que a punge,
D'um cruel presentimento!»
Fr. Antonio lera commovido essas singelas quadras, cujo toque de
sentimento não póde enternecer-nos, talvez. Nos labios d'elle, tremulos
e nervosos, a poesia soava como um canto funebre. Que tristeza no
declamar! Poderia ter-se como uma elegia á innocencia de Maria? Por Deus
que não. O hymno, que transluzia da nuvem escura da sua tristeza, era
como a luz do relampago que aclara, de repente, um amplo espaço: era a
luz electrica das intelligencias privilegiadas; o abalo do presentimento
que quer saír do circulo do mysterio: a adivinhação do futuro.
--Que é o que entristece a tua vida, Maria?--perguntou Fr. Antonio.
--Já me lembrou se seria a muita felicidade, meu tio.
--Não te compreendo... abre-me o teu coração sem reserva... Serias
culpada se fingisses a teu tio as razões do teu soffrimento...
--Não posso mentir-lhe, meu tio... Não sei ainda o que é fingimento...
nunca na minha vida menti a alguem. Eu não sei porque estou triste. O
meu coração não m'o diz, e a minha tristeza nasce-me do coração,
esconde-se lá como um segredo afflictivo... E eu que mais hei de
dizer-lhe, meu caro amigo? Que peço muito a Deus que me não quebre este
calix de amargura, se a sua divina vontade ordena que eu o exgote.
Maria enxugava as lagrimas copiosas, que pareciam esfriar-lhe o calor
febril das faces. Fr. Antonio, contemplativo, olhava para a sobrinha
silenciosa, como querendo ler-lhe no rosto a ultima palavra d'aquella
revelação confusa.
O coronel entrou na sala, e correu a abraçar seu irmão, e dar a mão a
sua filha, que lh'a não beijara ainda. Maria, surpreendida, quiz, á
custa de um sorriso violento, converter em alegria aquella saudação; mas
a dôr de filha é necessario que seja peccaminosa para esconder-se aos
olhos de pae. O coronel e sua esposa velavam as tristezas de Maria como
lhe velariam perigosa enfermidade. Consultaram mutuamente os seus
temores; e a severa experiencia do mundo alguma vez lhes inspirou bem
tristes receios. Aos quatorze annos ha melancolias no coração de uma
virgem, que apenas tem de mysterioso a tendencia irresistivel, que Deus
lhe imprimiu para o ideal de um amor terreno, que, no altar da
innocencia, recebe uma adoração, senão semelhante, ao menos perfumada
com o mesmo incenso do amor divino. E a mãe de Maria recordava-se da sua
infancia, e perguntava a seu marido se as lagrimas da filha seriam as
precursoras de alguma paixão infeliz. Era indiscreta a pergunta. Não se
dera nunca o incentivo de suspeita. A vida de Maria não tinha um
instante mysterioso a seus paes. Trabalho e oração--não tinha outro
desvelo desde o amanhecer até á ultima benção pedida a seus paes.
Maria, valendo-se da conversação do pae com o tio, retirara-se da sala.
O coronel assim o queria, para consultar o irmão, homem de Deus, que via
o coração dos outros com os olhos puros da probidade. Mas não são esses
olhos os mais penetrantes para devassar segredos, que se escondem no
coração apaixonado pelo mundo. Quem adivinha as luctas intimas do
espirito, escravisado aos caprichos das paixões, é o homem das paixões,
encanecido na amarga experiencia d'ellas. Bem pudera Maria dos Prazeres
agonizar nas tribulações de um amor criminoso, e sua morte ser um
mysterio para o padre que não sentia acordar em sua alma o echo dos
gemidos de sua sobrinha. O amor de Deus preenche todas as necessidades,
responde a todas as aspirações do coração de um justo. Não é o justo de
uma longa vida irreprehensivel quem póde arrancar ao penitente, que se
lhe ajoelha, uma revelação pungente, que o pejo emmudece nos labios. É
necessario profunda'-la com a sonda das proprias agonias. É necessario
adivinha'-la no espirito do penitente, a favor de um symptoma que revela
outro, de uma palavra solta que vae prender-se á explicação de um longo
silencio. E esta dolorosa syndicancia não póde exerce'-la a simples
theoria das paixões.