VII

Alvaro da Silveira costumava tocar a campainha depois do meio dia,

quando alguma empresa impertinente lhe não assaltava o precioso somno da

manha.

Fr. Antonio, prevenido, foi visitar sua familia, cuja ausencia lhe

parecia longa e incomportavel. Antes de sair trocou algumas palavras com

o dono da casa pedindo-lhe que entregasse a Deus a regeneração de seu

filho.

Quando entrou na sala, sua sobrinha estava ao piano. Pé ante pé

firmou-se onde de longe podia contempla'-la, e surpreende'-la com

palmas. Reparou que o papel de estudo não era musica. Esperou. De

improviso, ao som melancolico das teclas casou-se uma melodia triste,

profundamente triste, como as convulsões de um longo gemido. Aquelle

papel continha a letra do canto. Que versos seriam aquelles?

E o canto parou com a ultima nota do acompanhamento. Maria firmou os

cotovellos nos braços da cadeira, e escondeu o rosto entre as mãos. Ás

vezes corria as mãos pela testa, e deixava-as pender enlaçadas sobre o

regaço. As suas posturas eram todas afflictivas.

--Que tens, minha filha--murmurou o padre caminhando para ella.

Maria ergueu-se arrebatadamente; correu aos braços do tio, e não teve

exclamação que revelasse o alvoroço d'aquella surpresa.

--Cantavas como um anjo--continuou o padre, acariciando-lhe a face

pousada no seu hombro--mas tão melancolico era o canto e a musica!...

Nunca te ouvi ainda esta lamentação! Vejamos que poesia é esta!...

--Não, não, meu tio!,..--atalhou Maria, querendo affavelmente desvia'-lo

do piano.

--Porque não? Mysterios para o teu amigo que t'os adivinha no coração?

Segredos para o teu mestre, Maria!

--Não é segredo... é vergonha...--exclamou a linda menina com a voz

entrecortada--Esses versos fui eu que os fiz..

--E tens reservado para ti esse dom? Quando disseste ao teu velho tio

que fazias versos?--disse o padre sorrindo com meiguice.

--Eu não sabia que o eram... Nem sei se o são...--balbuciou Maria,

córando, e procurando fugir de estar presente á leitura.

Fr. Antonio levou-a pela mão ao piano. Tomou da estante a poesia, e leu:

Lagrimas Abençoadas · 第 51 / 115 题