Esse dia de estreia para a missão do padre, foi mais um decorrido nas
immoralidades do discipulo.
Não viera a casa, durante o dia, e metade da noite. Parece que tudo
dormia no palacio; quando Fr. Antonio sentiu o rumor de um cavallo no
pateo. Orava ainda, fóra do leito, ajoelhado, com o lenço ensopado em
lagrimas de dorida saudade. A imagem de sua sobrinha não lhe consentia o
repouso, de noite; obrigava-o ás tribulações de um amante desprezado. E,
então, o ministro de Deus recolhia-se em oração, com a vehemencia de uma
esperança infallivel no refrigerio do céo.
A essa hora, pois, chegava a casa Alvaro da Silveira. O seu quarto era
immediato ao do sacerdote. Entrou assobiando as reminiscencias das
cavatinas theatraes, e reclamou em brados imperiosos a ceia. Os servos
pontuaes como escravos aos caprichos rapidos dos patricios da Roma dos
imperadores, affluiam a servir o amo, que ordinariamente punia uma certa
demora com a ameaça formal de quatro chicotadas. Conduzida a ceia,
repellira os creados com desabrimento e ficára sósinho trauteando e
comendo promiscuamente.
Alvaro acabava de cear, esquecido da apresentação do padre, quando ouviu
na porta um toque.
--Entre quem é!--bradou elle.
Quem quer que era cumpriu. A presença veneranda de Fr. Antonio, um passo
dentro do quarto, era uma impressão nova para o mancebo!
Involuntariamente sentiu curvar-se-lhe o pescoço á cortezia grave com
que o sacerdote o saudára.
--Então ainda a pé?!--perguntou Alvaro.
--Ainda a pé, e Deus sabe se me deitarei... As horas da noite são as
horas da oração. Parece que o ermo e o silencio excitam a conversação do
espirito com Deus... E v. ex.^a recolheu-se agora, não é verdade?
--É verdade...--respondeu o mancebo com um embaraço, que revelava a sua
extranheza n'estes dialogos.
--Precisa repousar--tornou o padre--Eu, como estava a pé, quiz dar-lhe
as boas noites. Agora recolho-me pedindo a Deus o seu descanço, como
condição da vida, para amanhã abrir os olhos á luz que bem póde não
alvorecer para nós. Fique v. ex.^a com Deus.
E retirou-se. As ultimas palavras de Alvaro pareciam syllabas
desarticuladas. O frade ferira-lhe um orgão ainda virgem d'aquellas
impressões. Aquelle _memento_, áquella hora, por aquelle homem,
acordára-lhe o mais nobre dos pensamentos, que o materialismo lhe
adormecera nos gelos do coração: DEUS. Os confusos projectos do dia
seguinte aturdiam-se-lhe na cabeça, como alvoroçados pelo pregão da
morte, que mandava calar os designios humanos na presença do destino
eterno.
O abalo fôra vehemente, mas pouco duradouro. Alvaro da Silveira
adormeceu. É que o som vibrado na corda da religião, devia esvaecer-se
entre o estrondo das paixões ruidosas, como o vagido da creança no
alarido das turbas amotinadas.