Frei, Antonio mudou a residencia para casa do fidalgo. Alvaro da
Silveira era o educando. São precisas algumas linhas do caracter d'este
mancebo.
Nascera rico: primeira desgraça, quando um pae, herdeiro de opulencia e
libertinagem, sente a precisão de transmittir a seu filho a herança,
qual a recebera. Acalentado em berço de ouro, quando os primeiros annos
lhe deram a convicção da sua individualidade, reclamou a sua emancipação
dos carinhos maternos, que lhe eram pesados, e extremos do pae que o
enojavam por muito repetidos. O elogio acompanhava-o sempre em todas as
suas tentativas de independencia. Quando de seis annos rasgou o _A_,
_B_, _C_, na presença de um professor, que o contrariava, seus paes
riram-se do galhardo heroismo da creança, e exultaram de ve'-lo assim
brioso em tão verdes annos. Quando aos oito annos o viram espancar a
ama, que lhe prohibia apedrejar uns meninos pobres, que lhe pediam pão,
disseram-lhe que era feia aquella acção em menino fidalgo, e deram-se os
parabens, a occultas, de tão corajoso rasgo. Quando aos dez annos o
ouviram pedir dinheiro para gastar em seus caprichos de creança,
preliminares de lastimaveis depravações de mancebo, deram-lhe dinheiro,
com a condicional de não caír do cavallo, nem guiar o carrinho por
passagens mal gradadas. Quando aos quinze annos....
Seus paes atiraram-n'o ao tremedal de todos vicios. Deixaram medrar a
planta da má inclinação no clima proprio, naquella atmosphera de Lisboa,
onde os miasmas da corrupção lavravam desde que alguma classe degenerou
pela ociosidade, e pelos vicios da velha organisação social. A arvore
lavrou raizes até onde seus paes não previram, por mais que amigos e
extranhos lhes abalassem o coração d'aquelle profundo somno de um
affecto criminoso. As immoralidades do filho estamparam um estigma de
opprobrio nas faces dos paes. O jogo, contrariedade unica e pungente,
que na sociedade encontrava o libertino, arruinaria a fortuna d'uma
familia, de muitas familias opulentas se Alvaro da Silveira não
attendesse aos conselhos, ás primeiras admoestações de seu pae. Foram
baldadas. Alvaro ouviu-as com enfado, çom soberania, com desprezo, e
satisfez a irritabilidade de sua má indole, conduzindo á porta de seu
pae novos credores e novas vergonhas.
E, depois, a intelligencia d'este mancebo era um repositorio de todos os
vicios, sem ao menos quinhoarem do ouropel da urbanidade que parece ás
vezes modificar a torpeza com que nos enojam em um licencioso, estupido
e villão. Alvaro era grosseiro no crime. Indignava os muitos que lhe não
eram somenos em dissolução mas menos brutaes que elle. As pustulas
n'aquelle cadaver mostravam-se ao clarão do vicio com todo o asco. O
homem perdido parecia renovar emoções, e satisfazer o instincto,
provocando á nausea uma sociedade cujo abandono lhe accendia um desejo
impotente de vingança.
Fr. Antonio dos Anjos fôra chamado para preparar este homem a conhecer a
honra, levando-o pela vereda da religião.
V
Alvaro da Silveira não fôra prevenido. A presença do sacerdote,
apresentado por seu pae, moveu-lhe uma curiosidade selvagem. Parecia-lhe
um sonho aquella visão extraordinaria, aquelle encontro tão disparatado
com a sua vida, o seu olhar idiota era eloquente ao mesmo tempo.
Revelava uma interrogação natural e desculpavel:--que me quer este
homem?
Fr. Antonio, limitado ao seu ensino de portas a dentro, e alheio á vida
de Lisboa, não conhecia cabalmente a historia do seu discipulo. Os
traços que o pae lhe revelára eram logares communs da mocidade
desenfreada. Não é crivel que o padre bem informado, tentasse a empresa
de conquista'-lo para a virtude. E quem póde avaliar a coragem
religiosa?
Alvaro sorriu, voltou as costas ao mestre, levando em galhofa o que lhe
não parecia cousa de serio alcance. Este grosseiro procedimento magoou
momentaneamente o padre; mas, repreendido pela caridade, aquietou
depressa os irritamentos do amor proprio. Foi então que o pae, tão
culpado como desditoso, desenrolou o sudario das desenvolturas de seu
filho. Chorava, arrependido do mimo com que o perdera, e perguntou
ancioso se seria possivel salva'-lo da sua ruina total.
Fr. Antonio não conhecia limites á sua confiança em Deus. Convicto das
mercês visiveis que recebera da omnipotencia do Senhor, sentiu-se
illuminado de uma fé que lhe affiançava um prodigio. A peleja travada,
em nome da virtude, com o espirito do mal, tinha muitas vezes triumphado
de uma parte da humanidade, revoltada contra um só homem. Exemplos de
maiores maravilhas alentaram o sacerdote. Desde esse momento, afervorou
as suas preces ao Senhor, a cujo aceno a virtude, morta no coração do
impio, surgiria como a lagrima do remorso nos olhos de Magdalena.