XVIII

Proseguiu o frade:

«Quando, ha quatro mezes, os religiosos de *** viram approximar-se a

hora de entregar as suas cellas á revolução, ajuntaram-se para

deliberarem sobre a sua vida, como homens que d'ahi a pouco não tinham

posição alguma no mundo, que lhes valesse um bocado de pão. Alguns eram

de casas remediadas, outros irmãos de fidalgos, sacrificados ao partido

que lhes assegurava os seus privilegios; mas nenhum contava com asilo

seguro no tecto paternal, porque o temor da perseguição fazia-nos pensar

que eramos homens expulsos da familia, e da sociedade. Entregámo-nos a

Deus. E, depois, no meio de nós estavam uns homens cobertos com o nosso

habito, vivendo comnosco ha muitos annos, ajoelhando comnosco ao mesmo

crucifixo, e comendo comnosco no mesmo refeitorio. Eram os nossos

maiores inimigos. Velavam-nos desde matinas a completas; desde a oração

commum do côro até ao ultimo padre nosso rezado no isolamento da cella.

Eram como os pretorianos de Nero syndicando os actos religiosos dos

agapes de Christo. Chamavam-se liberaes, illustrados e amigos dos

homens. De Deus sabia eu que elles o não eram. Dos homens, cruel amizade

era a sua, que precisava enfeitar o seu altar com o sangue dos seus

companheiros!

«Nos ultimos mezes da nossa communidade... deixae-me dizer-vos uma

prophecia amarga: nos ultimos mezes das ordens religiosas em Portugal,

apresentaram-se aquelles padres ao prelado, e pediram a sua liberdade.

Prevenindo alguma ligeira censura, em nome da regra do patriarcha,

lembraram ao guardião que o punhal era a arma do homem livre, quando os

algozes da humanidade não accediam aos augustos preceitos da razão

natural.

«O prelado era um justo, que chegára aos oitenta annos, com os cilicios

nos rins, vergando sob o peso de austeridade, alliviando quanto podia

esse gravame dos hombros menos rijos dos seus subordinados. A morte,

porém, era-lhe menos afflictiva que o pesar de uma tibieza de

disciplina. A sua resposta foi simples:

«Deixemos vir a mão da liberdade bater á porta do mosteiro e seremos

todos livres então. Uns, livres para morrer no desamparo. Outros, livres

para viver de vergonha. Todos seremos livres. Em quanto a vós, meus

irmãos, pedirei aos servos de Deus n'esta casa que peçam ao Senhor para

vós as consolações e a prudencia que não posso dar-vos. Retirae-vos, que

sou chamado ao côro.»

«Retiraram-se; mas, dois dias depois, ao amanhecer, foi aberta por

violencia a portaria. Alguns homens d'alli sahiram vestidos, e armados

como guerrilheiros. O padre porteiro, que subira á cella do prelado a

annunciar-lhe o acontecimento, encontrou um cadaver. Ao passar-lhe a mão

pela face topou um crucifixo inclinado sobre o seio. Ao agita'-lo,

humedeceu as mãos no sangue que borrifára os lençoes. Gritou. Acudiram

os monges. Em volta do seu leito ajoelharam homens que choravam. Não

tinham outra supplica, nem balbuciavam uma palavra. Um justo estava ali

morto: mataram-n'o seus irmãos, em nome de uma liberdade, que não

consentiu ao venerando ancião a liberdade de viver mais alguns dias.

--Era preciso matarem-no para fugirem?--perguntou Maria com os olhos

turvos de lagrimas.

--Não seria preciso, minha filha, mas as chaves do mosteiro são

entregues ao prelado: mataram-n'o, tirando-lh'as.

--Mas o crucifixo,--replicou ella quem lh'o poria sobre a face?

--Foi o moribundo a quem os assassinos deixaram tempo de pedir a Deus o

perdão dos seus matadores.

--Que acontecimento tão triste, minha mãe!--exclamou assombrada a

menina, tomando entre as suas as mãos de sua mãe. E continuou: Eu não

pensei que os homens podiam fazer isso!... Quem me déra o céo para meus

paes e meus irmãos!

--E para o tio padre, não, meu anjinho?

--Meu tio tem certo o céo, porque tem soffrido muito, não é verdade?

--Muito, minha menina; mas não é já bastante o que tenho soffrido?

--Penso que sim... Eu não sei ainda a sua vida, mas lembra-me que meu

tio póde fazer que os homens sejam bons, dizendo-lhes historias que os

façam ter dó dos que soffrem.

Olharam-se todos com admiração. É que Maria contava sete annos de edade;

e alguns mezes de soffrimento. Predestinação!?...

Lagrimas Abençoadas · 第 39 / 115 题