Frei Antonio continuou:
«Entro pobre em tua casa, meu irmão; porém a desgraça é uma riqueza,
quando com ella suavisamos desgraças alheias. Contando-te as minhas
amarguras não adoçarei as tuas?
--«Deus--respondeu o coronel--suavisou-m'as antes de ti, meu irmão.»
--Bemdito seja Deus!--tornou o padre--era essa a resposta que eu pediria
a Deus que te inspirasse!... pois bem... seja a minha historia um
passatempo... Peregrinareis comigo n'estes infernos da terra que os
homens crearam. Aqui me tendes com a tunica, e com esparto de Dante...
Serei para vós o que foi o poeta para a humanidade... recrear-vos-hei...»
O frade afastára as bandas do capote, e deixára vêr o habito de S.
Francisco. A magestade da sua postura excitára um calefrio respeitoso em
todos, e elle mesmo, tocado pela consciencia do effeito religioso
d'aquelle acto, não susteve a lagrima do enthusiasmo, que é sempre
revelação de espiritos ardentes. Maria, alma tão cedo estreada na poesia
da dôr, cedo principiára a enlevar-se n'aquelles transportes, que a
tragedia excita em pessoas que vêem o theatro pelos olhos da innocencia,
e não podem desmentir o que vêem pelos calculos frios da razão. Maria,
pois, impressionára-se mais que seu pae e sua mãe da attitude pathetica
de seu tio. Mais tarde confessou ella que sentira dobrarem-se-lhe os
joelhos, e de certo ajoelhára, se frei Antonio lhe não tomasse as
mãosinhas que pareciam ajustarem-se em adoração extatica.
Esta scena fôra muda. O silencio é o desafogo das grandes emoções, que
nos abafam o espirito, enturvando-nos a razão. Parece que a consciencia
precisa digerir esses alimentos extraordinarios, que são a vida energica
das almas flexiveis.