--O que está feito, está feito! respondeu-lhe com voz abatida. Toda a

minha raiva, todo o meu ódio, todo o meu desprezo, não ressuscitariam

uma parcela sequer da minha felicidade perdida!... Vá em paz; perdoo-lhe!

O aventureiro ficou imóvel, e como fulminado de espanto, no limiar do

_atelier_. Contemplou Sauvain, o qual se encostara ao canapé, e, com o

semblante meio oculto pelos seus longos cabelos, parecia ter-se tornado

insensível ao mundo exterior.

--Este, sim!... que tem um coração de oiro sem liga! murmurou ele com

singular expressão. Se a sorte lhe não sorri... é uma grande velhaca,

com mil bombardas!

E saiu.

XX

Imaginem um homem caído do alto de uma torre, uma massa de carne

ensanguentada, que ainda respira. Os olhos vêem tudo cor de sangue; os

ouvidos só recebem rugidos confusos; a inteligência flutua ao acaso; e o

corpo inerte, despedaçado, inútil, sofre demasiado para continuar a

viver, mas não o bastante para conseguir morrer.

Assim estava André Sauvain.

Precipitado do alto das suas esperanças, vegetou quinze dias sem pensar,

sem acção, sem ter consciência do tempo, nem das alternativas do sol e

das trevas, que se sucediam regularmente na marcha imutável das horas.

Porém, um dia, despertou de súbito daquela assustadora prostração.

Ergueu-se, frio e resoluto, juntou os quatro retratos de Rosa, que

pintara na época da sua felicidade, e dispo-los nos cavaletes, em volta

de si, nas condições de luz mais favoráveis; depois, fechou à chave a

porta do _atelier_ e desprendeu da parede uma pistola, que

cuidadosamente carregou.

Feito isto, pousou a arma sobre a mesa, ao alcance da mão.

Davam onze horas num relógio próximo.

--Á última pancada do meio dia, disse André falando consigo, farei

saltar os miolos.

Era uma espécie de prazo, que concedia à Providência. E com efeito, não

podia Rosa regressar, nesses sessenta minutos?... O acaso tem tantos

recursos!...

Encostou-se sobre os cotovelos, pensativo e com a vista fixa nos quatro

retratos... Acariciando com o olhar aqueles rostos, risonhos e suaves,

aquelas pupilas límpidas, aquelas frontes resplendentes de inocência,

André recomendava-se às recordações da sua amada, e os seus lábios

murmuravam palavras ininteligíveis.

Deu meio dia.

André pegou na pistola.

--Uma carta para o senhor Sauvain: disse nesse momento uma voz, de fora.

--Uma carta?... repetiu André, uma carta dela!... Era tempo!

Atirou a arma para o fundo de uma gaveta, abriu a porta, pegou na

carta, e levou-a com gesto de avaro para um canto da janela.

Não era de Rosa!

A missiva dimanava prosaicamente do arquitecto de Granville, reclamando

algum dinheiro, à conta, pelas reparações da casa.

André ficou aterrado.

Apagara-se-lhe da memoria aquela dívida sagrada. Recordava-se dela

agora, mas não tinha dinheiro, e só o trabalho podia dar-lho.

Portanto... nem sequer tinha a liberdade de morrer!

O pintor apelou, com desespero, para a sua antiga energia.

--Vamos!... pensou ele, mais uns dias de coragem e de tortura!...

Ganhemos, com o suor do rosto, o direito ao eterno repouso!

E lívido, desfalecido, vacilante, dirigiu-se ao seu comprador de

quadros, e pediu-lhe que lhe adiantasse a soma de que precisava.

O industrial anuiu de bom grado.

--Esperava-o com impaciência, disse-lhe este homem; apresenta-se agora

uma ocasião, magnífica para si, e bastante lucrativa.

--Seja como for, disse Sauvain, aproveito-a.

--Eis o negócio: um dos meus fregueses acaba de comprar, nos arredores

de Paris, uma casa, que deseja ornar o mais elegantemente possível.

Pediu-me que o relacionasse com um pintor de talento, e eu

falei-lhe no senhor. Trata-se de alguns quadros e muitas pinturas a

fresco; convém-lhe?

--Convém.

--Nesse caso, é necessário começar a obra quanto antes. O meu freguês

habita na sua propriedade: vá procurá-lo. É um homem generoso e

inteligente. O senhor entender-se-á perfeitamente com ele.

--Como se chama?

--Aqui está a direcção: «Monsieur Nuavias, em Audily-Seine-et-Oise». É

no vale de Montmorency, a dois passos da floresta. O sítio é delicioso,

e creio que o senhor não terá razão de queixa.

--Irei amanhã, disse André. Com efeito, no dia seguinte, Sauvain

desembarcou em Audily pelas três horas da tarde. Não pôde conseguir que

lhe indicassem a casa do senhor Nuavias, porque ninguém conhecia aquele

nome, o qual decerto era novo no país; mas, após diferentes

investigações, descobriu, a dois tiros de espingarda da vila, um pequeno

castelo, que alvejava no cume de uma pitoresca colina.

--Deve ser ali, disse ele consigo. Uma gradaria de ferro, delicadamente

trabalhado e com portão ao centro, separava da estrada pública os

jardins do castelo, permitindo aos transeuntes admirar a alameda,

tapetada de verde relva, que se estendia em suave declive até à

entrada do edifício, o qual primava pela sua elegante simplicidade. Dois

pavilhões simetricamente dispostos de cada lado da grade, pareciam

destinados, um para cavalariça, e o outro para habitação do porteiro.

Este individuo destacava, no limiar do portão, tomando o fresco e

olhando para as moscas.

Era um homem gordo, de rosto jovial e rubicundo, com o pescoço

descoberto, ermo de pelos e enrugado como o de uma perua. Usava enormes

brincos nas orelhas, e notava-se-lhe numa das faces prodigiosa inchação.

--Mora aqui o senhor Nuavias? perguntou André.

A esta interpelação, o porteiro nada respondeu. Lançou um jacto de

saliva negra, fitando André, a quem mediu de alto a baixo. O volume da

face direita passou para a esquerda: o inchaço era de tabaco.

--Ao que parece, disse ele, o senhor é o tal pintor?

--Ah! exclamou Sauvain admirado, já estão prevenidos da minha chegada?

O homem obeso assumiu ar malicioso, piscou os olhos, deitou a língua de

fora, e entrou num acesso de muda hilaridade, que lhe fazia oscilar o

abdómen e retinir os brincos.

--Os artistas são alegres... murmurou ele. Temos muito que rir, se o

senhor também entra...

--Se entro!... em quê?

--Na farsa.

--Qual farsa?

--A que vai representar-se.

--A quem?

--Ao senhor Nuavias, já se vê!

--Não entendo.

--Ah; bom! faz-se de novas... Basta!... Bico calado! Faça conta de que

eu nada disse... Suponha que me não participaram coisa alguma... que

ignoro tudo...

E os brincos a tinirem, e o abdómen a dançar, e o rosto passando de

vermelhusco a purpúreo, e de purpúreo a roxo.

--Seu amo está cá? lhe tornou Sauvain com impaciência.

--Não, senhor, respondeu o faceto porteiro quase sem fôlego; ainda não

veio. Ora!... o senhor bem o sabe, visto que entra na conspiração.

--Eu!... Está enganado.

--Ele não deve tardar. Vamos divertir-nos muito, esta tarde...

Regozijo-me de antemão, palavra de Jacinto!

--Esses negócios não são da minha conta, disse André. Na ausência do

senhor Nuavias posso ver a casa?

--Certamente! Tenha a bondade de passear um momento no jardim, enquanto

eu enfio um casaco e vou buscar as chaves. Não me demoro cinco minutos.

André fez um sinal de anuência, e dirigiu-se pensativo para uma rua

arborizada. Primeiramente, o ar livre pesou-lhe um pouco no cérebro

fatigado, mas bem depressa o gracioso aspecto do jardim lhe acalmou o

espírito.

Flores em profusão, cascatas e fontes, um pequeno bosque, frondosas

árvores, povoadas de chilreantes passarinhos, rodeavam o castelo num

círculo encantado. O sol do outono, já declinando para o horizonte,

derramava sobre tudo aquilo ondas de luz e matizava-o de vivas cores; o

dia extinguia-se lentamente; nuvens de opala flutuavam na atmosfera,

orlando o céu azul.

Como podia o pintor alimentar ideias de morte em face daquele panorama

tão tranquilo, e ao mesmo tempo tão cheio de vida?... Nenhum rumor se

ouvia; nem um som, além dos agudos assobios dos melros, e dos seus

próprios passos sobre a areia. André sentiu percorrer-lhe as veias

delicioso frescor; a brisa da tarde, morna, pura, embalsamada de mil

perfumes, transformou a sua agitação nervosa numa languidez

fantasiadora. E, enquanto o sol, próximo do seu ocaso, lhe estendia aos

pés as trémulas sombras da folhagem, chegou a invejar a posse daquele

sossegado Éden.

Como seria feliz com Rosa num semelhante retiro! Que delicia lhes

seria vaguearem a sós, silenciosos, com os braços enlaçados, por aquelas

alamedas misteriosas! ele... a rever-se em dois olhos pretos

radiantes... e a beijar uns louros cabelos, que a brisa complacente

traria para junto de seus lábios! E mais tarde... que delicia, ainda,

contemplarem ambos uma linda criança, brincando alegre na relva do

parque!...

A voz do porteiro arrancou bruscamente André àquelas perigosas alucinações.

O honrado Jacinto vinha risonho, gracejador, trajando soberba libré, e

munido de nova dose de tabaco.

--Se o senhor quer ver as salas, estou pronto para lhas mostrar.

André seguiu-o distraidamente. O interior da casa correspondia ao

exterior. Tudo era rico e de bom gosto; somente, na sua disposição,

faltava talvez um certo cunho de elegância íntima, que revela sempre a

presença de uma mulher.

--O sr. Nuavias é casado? perguntou Sauvain.

--Ainda não, mas não tardará, disse Jacinto, soprando como um cachalote.

Deveras... o senhor não está na confidencia?

--Nem pouco, nem muito!

--Pois bem! é precisamente a respeito do seu próximo casamento, que se

prepara uma surpresa ao senhor Nuavias.

--E essa surpresa em que consiste?

--Isso é querer saber muito! Parece-me que vai haver grande risota, e eu

já começo a rir, só com essa ideia!... Demais, a futura será igualmente

mistificada.

--Ela é bonita?

--Encantadora, segundo dizem.

--Nova?

--Muito nova.

--E ele?

--Também é moço.

--Amam-se?

--Apaixonadamente!

André suspirou.

Nesse momento ouviu-se o rápido rodar de uma carruagem.

--É o patrão! exclamou Jacinto. Bravo! a coisa vai principiar. E um rir,

silencioso e desordenado, agitou-o desde o topo até à base, pondo em

movimento as suas bochechas escarlates, que se tornaram roxas.

--Ufa! arrebento de riso, com certeza! balbuciou ele, meio-sufocado. Mas

não se impaciente, que já vou dizer a meu amo que o senhor o procura.

E saiu, apertando as ilhargas.

André encostou a fronte ao caixilho de uma janela. O dia declinava;

espalhava-se pelas avenidas um vapor azulado, e, impelidas pela aragem,

as flores dos canteiros balouçavam-se como turíbulos.

André padecia. Aquele recôndito lugar, aquela pacífica habitação,

aqueles jovens para ele desconhecidos, que a felicidade ia para sempre

reunir, tudo enfim... até a alegria daquele criado burlesco, lhe pesava

no coração, reabrindo-lhe as feridas que vinha ali buscar... ele, o

inconsolável!... àquele retiro festivo? Que figura faria, se o

envolvessem na turba indiferente dos convivas descuidosos?

Ao pensar nisto, assaltaram-no os receios, mas... era demasiado tarde.

Jacinto surgiu, perfilou-se defronte dele, piscou os olhos, abanou a

cabeça, mordeu o lenço para não estoirar de riso, depois conduziu o

pintor através de uma enfiada de quartos, empurrou-o para o meio de uma

vasta sala, já invadida pelas sombras do crepúsculo, e fugiu.

Ao principio, Sauvain julgou-se só.

Por uma grande porta envidraçada, que abria para o jardim, penetravam

livremente os aromas da tarde. Nada se movia; porém André distinguiu,

dentro em pouco, a um canto do fogão, que acabava de apagar-se, os

contornos indecisos de uma mulher sentada.

--Minha senhora... balbuciou ele, inclinando-se.

Um grito vibrou, como uma nota de cristal.

--André... É André!...

E a forma vaga ergueu-se de súbito. Um último raio de sol, que

borboleteava nas vidraças, iluminou um perfil de anjo.

Esse grito, essa voz, essa visão, penetraram no peito de Sauvain, como

uma lâmina de oiro. Oscilou e caiu de joelhos.

--Rosa!... murmurou ele, és tu?... ou é o teu fantasma?...

Um fantasma! Não: foi bem realmente um corpo de donzela, um corpo

flexível e palpitante, que se lhe lançou nos braços! Foram duas mãos

pequeninas, mas bem vivas, que lhe enlaçaram o pescoço! Foi o puro

hálito de Rosa, que lhe deslizou nos lábios!

E André, deslumbrado, louco, fora de si, ébrio de felicidade, embebia-se

na contemplação de um rosto bem real, de um rosto adorado, de um rosto

comovido, radiante de júbilo, envolto numa auréola de cabelos louros...

Entretanto, mais outra forma vaga subia nesse momento as escadas do

terraço. Parou estupefacto. Desta vez, era uma sombra masculina, uma

sombra estreita e alongada, trajando fantásticas vestes, que ondeavam em

volta dela, como um lençol cor de ferrugem dependurado num pau.

A sombra não soltou uma palavra, como convém a uma sombra que se

respeita; porém, um som singular atravessou o espaço; jurar-se-ia que a

sombra estava raspando uma noz moscada. A este ruído prolongado, os dois

jovens despertaram do seu êxtase, e André, chorando e rindo ao

mesmo tempo, André mais ébrio do que se tivesse esvaziado seis garrafas

de Champanhe, atirou-se ao pescoço da sombra, exclamando:

--Adivinho tudo!... adivinho tudo!... Obrigado... obrigado, meu querido

sogro!

A sombra debateu-se violentamente.

--O senhor!... Com a fortuna! Que faz aqui?

--Ora essa!... Abraço-o.

--Quer dizer... que abraçava minha filha?

--Não o nego, meu sogro.

--E eu nego-lhe o direito de chamar-me assim... Proíbo-o!...

--Ora!...

--Não há _ora_, nem _meia ora_... Vamos! largue-me!...

--Meu velho amigo!... meu excelente vizinho!...

--Largue-me, com trezentos demónios!...

--Pois sim, meu caro sogro: o gracejo foi delicioso... mas, de que serve

prolongá-lo? Sejamos felizes... que não é sem tempo!

--O senhor zomba de mim?

--Eu!... zombar! Ah? antes beijaria o rasto dos seus passos! Zombar,

quando a sua presença e a de Rosa, aqui, em casa estranha, sobre este

terreno neutro, onde de certo esperava encontrar-me, me provam que...

--Com a breca! interrompeu o senhor Germinal; é de uma rara

impudência!... Pretende acaso dizer...

--Que o enterneceram a minha dor e as lágrimas de Rosa... enfim, que é o

melhor dos homens? Sim? meu sogro! é o que eu quis dizer: abracemo-nos!...

--Para trás, senhor! bradou o velho exasperado, não junte o escárnio à

sua indigna acção!

--Como!... disse o pintor estupefacto; de que escárnio... de que acção

indigna fala?

--Sim... finja-se surpreendido! se lhe parece, negue que me atraiu aqui

enganado! negue as suas tenebrosas maquinações! Ah!... julgou que

triunfaria por uma cilada?

--Eu!...

--Pois bem!... desengane-se! A minha decisão é irrevogável! Não possuirá

minha filha!

--Uma cilada!... eu, que o supunha longe de França! eu, que teria dado

vinte anos da minha vida para descobrir...

--Jesus! que mentiroso!... exclamou Rosa, sorrindo-se. E as minhas

cartas?... acrescentou ela em voz baixa.

--As suas cartas! Meu Deus!... Rosa, de que cartas fala?

--De muitas, que lhe enviei às escondidas?

--Pois escreveu-me?... a mim...

--Sim, senhor, oito ou dez cartas que todas ficaram sem resposta!

--Foram doze, minha filha, disse gravemente o senhor Germinal; tenho-as

aqui no bolso.

--Tem-nas?... Oh, meu pai!... É bem mal feito!...

--Horrível, minha filha!... Teria sido mais moral não interceptar a

correspondência amorosa, não te parece?

--Confesse ao menos, senhor, disse Sauvain, que uma cilada da minha

parte era impossível!...

--Mas... que outra intenção podia trazê-lo aqui? Faz favor de dizer-me?

--Simplesmente a de pintar tectos e bandeiras de portas!

--E a nós, disse Rosa, a esperança de uma encomenda importante; pois eu

continuo a fazer flores, e o dono desta casa deseja uma porção delas

considerável.

--O senhor Nuavias?

--Sim.

--Quem lho inculcou?

--A modista, para quem trabalho. E André?

--O meu comprador de quadros.

--Os diabos levem o acaso! rosnou o senhor Germinal.

--O acaso!... suspirou André; divino acaso, ou antes Providência,

que me restituis a minha Rosa e o meu velho amigo, sê mil vezes bendita!...

--Senhor, disse Germinal, delira certamente!...

--Creio que sim, meu sogro... e muito!

--Já fez fortuna?

--Oh, muito pouca!

--E ainda ama minha filha?

--Apaixonadamente!

--Contudo renuncia à sua mão?

--Isso de modo nenhum!...

--Então, nada de amizade, nem de relações entre nós!... Vá para o diabo!

--Porém...

--Não lhe dou minha filha!

--Entretanto...

--Não casa com minha filha!... Não casa com minha filha!... Não casa com

minha filha! Já disse.

O senhor Germinal esganiçava-se debalde; André tinha mais sólidos

pulmões, e por isso facilmente cobriu o timbre de cana rachada do seu

adversário, bramindo:

--Casarei, com ela, ou deixarei de ser quem sou!

Enfim, a sua cólera fazia explosão. André estava farto de sofrer; e,

sorrindo em ar de desafio, valeu-se da escuridão da sala para beijar

Rosa, unindo-a docemente ao coração.

Mas, se a voz do senhor Germinal era fraca, em compensação tinha olhos

de lince.

--Ah! Vocês querem brincar comigo?... Rosa! o teu xaile... o teu

chapéu... Partamos imediatamente!

--Ainda não! exclamou, da porta, uma voz de baixo-profundo.

E logo a sala se iluminou de súbita e viva claridade.

No limiar, entre dois lacaios agaloados, empunhando cada um deles uma

serpentina, carregada de velas cor de rosa, apareceu um personagem

baixo, de espessa e forte construção, enluvado de fresco, engravatado de

branco, vestido de preto, e rescendendo a aromas, que perfumavam o

recinto a dez passos de distância. Avançou majestosamente, com os

polegares suspensos nas algibeiras do seu faustoso colete, e fazendo

ouvir no sobrado o ranger de umas botas novas.

O senhor Germinal e André suspenderam os seus clamores, e inclinaram-se

confusos.

--Então!... exclamou o magnífico intruso; há bulhas aqui? Com mil

amarras!...

--Pedro Toucard!... exclamaram os assistentes. Era Pedro, sem dúvida...

Pedro, o aventureiro! Mas, que transformação!...

Abolida a barba de duas pontas; conservava apenas uma estreita suíça,

curta, bem talhada, macia e frisada. O seu crânio resplandecia, como um

espelho: ter-se-iam mirado nele as andorinhas em pleno dia. Uma

cadeia de oiro, da grossura de um dedo, pendia sobre o seu orgulhoso

abdómen as cabeludas falanges estavam meio-estranguladas por enormes

anéis; as algibeiras, prodigiosamente entumecidas, transbordavam de

napoleões.

Fez um sinal, e os criados pousaram os candelabros; a outro sinal,

desapareceram todos eles, mais as suas cabeleiras empoadas e os seus

calções curtos, que punham em relevo postiças barrigas de pernas, de

dimensões enormes. Pedro sentou-se ao pé do fogão, apoderou-se das

tenazes e atiçou o lume.

Uma chama cintilante crepitou no fundo da fornalha; os seus reflexos

dançaram alegremente sobre os móveis esculpidos, sobre o luzidio

sobrado, e sobre as guarnições de seda azul com franjas de prata.

--Chegue-se para o lume, compadre! as noites estão frias. Aproxime-se do

fogão, minha linda menina!... e também o senhor, amigo Sauvain!...

Disse. E era espectáculo digno de admirar-se o sorriso diabólico de

Pedro, o perfil espantado do pintor, os olhos maravilhados de Rosa, e a

boca aberta do senhor Germinal.

Toucard cruzou a perna direita sobre a esquerda, e afagando o queixo

escanhoado, continuou:

--Olá, meus meninos! parece-me que se mostram demasiado frios para com

um homem, que os reuniu... contra vento e maré!

--Pois foi o senhor!... exclamou André. E os dois amantes estreitaram

as, mãos do aventureiro.

--Sim, meu rapaz, fui eu que descobri o ninho desta linda ave do paraíso.

--Senhor, disse Sauvain, o que acaba de praticar absolve-o de todas as

suas culpas!

--Apre!... então passa-me quitação das noventa e duas mil libras?

--De todo o coração! suspirou o pintor; ainda que...

--Ainda que lhe fariam óptimo arranjo, na presente conjuntura; não é

assim? E a menina Rosa não me recompensará também?

--Bem o desejara, disse ela, apresentando a cândida fronte aos lábios

encortiçados do velho; mas, por muito reconhecida que lhe seja, não

posso...

--Não pode oferecer senão o que tem, e eu contento-me!... disse Pedro,

entre dois estrondosos beijos. Obrigado, minha linda fada; heis-me

rejuvenescido!

--Que significa isto? bradou o senhor Germinal. Caçoam comigo!.... Não

sou aqui ninguém?... Com a breca!...

--O compadre, disse Toucard com ironia, é, como nós, hospede do senhor

Nuavias; e, nessa qualidade, seria de mau gosto fazer bulha em sua casa.

Mas... acrescentou, interrompendo-se de súbito, que é aquilo?... que

vejo eu ali?

--Onde?

--Acolá... nas cinzas... Rosa inclinou-se para o fogão.

--É uma chave! exclamou ela.

--Com efeito, disse André apanhando-a, é uma pequena chave, que me faz

recordar...

--Oh!... A que demónio de fechadura pertencerá ela? regougou Pedro.

E inequívoca expressão de benévola malícia transparecia no seu enrugado

rosto.

--Ah! agora penso eu... Não servirá por acaso essa chavinha naquele

cofre, que ali está?... atrás de si... sobre a jardineira...

André voltou-se e viu uma caixa de conchinhas, muito semelhante à que

deixara em Granville, na sua arca de nogueira.

--Recorda-se?... perguntou Pedro, apoiando-se-lhe no ombro. Foi dum

cofrezinho igual que o senhor desenterrou a única acção louvável da

minha vida: estas caixas são de bom agouro!

E dirigindo-se a Rosa:

--Veja o que essa contém, minha linda; uma chave, que desce pelo tubo da

chaminé, merece atenção!... Seria algum génio benfazejo, que a deixou

cair? Reviste sempre, Rosinha!...

--Infeliz! bradou o senhor Germinal; vai cometer um abuso de

confiança!... Que dirá o senhor Nuavias?

--Aprovará, compadre: fico por isso. Procure, minha linda Rosa, procure...

A jovem não se fez rogar; o seu instinto de mulher segredava-lhe que o

génio benfazejo era Pedro, e que ele conduzia rapidamente as coisas para

um desenredo agradável.

Abriu a caixa, e tirou de dentro um maço de papeis cetinosos.

--Notas do banco!... exclamou ela.

--Devem ser noventa e duas, disse o aventureiro, as mesmas que o senhor

Germinal destinava para o dote de Rosa; ora, como não é possível

dar-lhes melhor aplicação, o senhor Nuavias resolveu restituir-lhas.

Tome-as lá, compadre...

--A mim!... Eu!... balbuciou o senhor Germinal. Mas como?... porquê?...

com que direito?... o que significa?...

--Tanta pergunta ao mesmo tempo! Vá sempre guardando... Continue a

buscar, minha filha...

Um adereço de diamantes!... e um colar de pérolas!... murmurou Rosa,

deslumbrada.

--Isso é consigo, minha menina. É o presente de noivado do senhor

Nuavias... Procure mais...

--Mas enfim, disse o senhor Germinal, suando em bagas, esse Nuavias é o

senhor, ou é o diabo?...

--Nem um, nem outro... Querem conhecê-lo?

--Quero... quero... quero... gritaram três vozes ansiosas.

--Pois bem! Esse jovem e belo senhor Nuavias, esse feliz senhor Nuavias,

que dentro em quinze dias vai desposar uma encantadora menina; esse

afortunado senhor Nuavias, de quem somos hospedes, é...

--É... quem?

--André.

--Eu!...

--Sim? sem a menor dúvida! Nuavias é apenas o anagrama de Sauvain.

--Porém, esta casa...

--Ah! tem razão... Esta casa... Ora queira procurar novamente na caixa,

senhora noiva...

Na caixa havia ainda outros papeis; mas esses eram espessos, pesados,

com selo, cobertos de maçuda escrita, e rubricados por dois tabeliães.

Continham um acto legal e autêntico, assegurando a André Sauvain a

propriedade de uma casa, situada em Audily (Seine-et-Oise).

--Senhor!... exclamou o pintor fora de si, é demais!... É demais!... Não

posso aceitar...

Pedro interrompeu-o com gesto suplicante; a sua fisionomia tornara-se

grave e sisuda.

--Meu querido amigo, disse ele com voz comovida, permita-me que resgate,

a meu modo os erros passados... Talvez devesse te-lo feito mais

cedo... Mas, se prolonguei por alguns dias as suas mágoas, se me

apresentei em sua casa sob farrapos mentirosos, foi porque ainda não

tinha encontrado Rosa, e queria entregar-lha juntamente com o seu

património. Dessa experiência, saiu o senhor vitorioso; outro qualquer

ter-me-ia morto, porém o senhor... coração nobilíssimo!... para o homem,

que lhe despedaçara a vida, teve ainda uma última e sublime esmola!...

Pois bem! seja generoso até ao fim... não recuse os meus dons... não me

deixe remorsos...

--Cumpra-se o seu desejo, respondeu Sauvain. Aceito este oásis

encantador... com a condição, porém, de restituir-lho quando a fortuna o

houver atraiçoado.

Nas Cinzas · 第 6 / 7 段