mergulhado nas trevas, que rapidamente aumentavam, com os olhos fitos na
lareira vazia, transportou-se em espírito ao sombrio passado.
O marulhar cadente do oceano acompanhava-o na sua tristeza. Ao menor
estalido do vigamento, André comprazia-se em fantasiar que sua mãe
estava ali; que, terna e risonha, se aproximava com passos ligeiros; e
que ele ia sentir na fronte o doce contacto dos seus lábios...
Entregue completamente às suas recordações, dizia de si para consigo,
que, se Deus recompensa o martírio, a pobre mulher devia ser bem feliz
no outro mundo.
O pintor não confessara tudo a Rosa.
Filha de um rico rendeiro, cortejada pelos melhores proprietários dos
arredores, a mãe de André preferira-lhes Sauvain, um simples pescador da
costa. Ao cabo de um ano de vida conjugal, esse homem enfastiara-se
dela; maltratou-a, desbaratou em deboches e embriaguez, quanto possuíam,
e afinal desapareceu, abandonando à miséria a esposa e o filho
recém-nascido.
Três anos depois, soube ela simultaneamente, do seu alistamento a bordo
da _Ariana_, e da perda daquele navio com toda a tripulação.
Bela e virtuosa, fácil lhe teria sido tornar a casar. Mas... idolatrava
seu filho, e temia impor-lhe um tirano. Além disso, não obstante as
brutalidades de Sauvain, não cessara de ama-lo. Dedicou à sua memoria um
culto, aliás pouco merecido, e conservou-se viúva.
Então começou para ela uma vida heróica, toda de sacrifícios e
abnegação. Privou-se de comer e de dormir, para poder dar a seu filho
uma educação conveniente; desejava-lhe uma carreira modesta, um emprego
que o fixasse em Granville, a dois passos da sua casa natal, perto de si
enfim...
Mas André iludiu aquele plano materno. Atormentava-o uma inquietação
incompreensível, tinha sede de movimento e de espaço; começavam a nascer
as suas asas de artista... Não tinha ainda doze anos, quando um
escultor, passando por ali, o encontrou, e apreciando a sua
inteligência precoce, propôs-lhe levá-lo consigo. André bateu as palmas
de alegria; e a viúva, engolindo as lágrimas, deixou-o ir.
Alguns meses depois, chamou-o ela a toda a pressa: André veio logo, mas
chegou só a tempo de assistir-lhe ao enterro.
Aquela súbita doença, aquela morte inesperada, fulminaram a criança de
surpresa e terror; interrogou os que tinham assistido a sua mãe, mas
apenas puderam responder-lhe que um dia, ouvindo em casa da viúva um
grito estridente, acudiram e encontraram-na pálida e trémula, com o
rosto desfigurado, segurando-se a um móvel para não cair no chão. Por um
prodígio de coragem, conseguiu ainda escrever duas linhas a seu filho;
deitaram-na na cama, pediu um padre, e expirou no dia seguinte. Não
podia duvidar-se de que, mais uma desgraça pousara a sua mão de ferro
sobre aquela humilde existência... Que desgraça fora, nunca o soube André.
Quantas vezes, desde então, torturara ele o espírito para penetrar o
sinistro enigma?
Naquele momento ainda, decorridos tantos anos, sozinho entre aquelas
paredes mudas, ora aglomerava, ora repelia, e logo reconstruía, na sua
imaginação ardente, mil hipóteses contraditórias; e as rajadas
impetuosas do vento, abalando o tecto, sucediam-se, como
gargalhadas de escárnio, mofando de suas loucas conjecturas...
Entretanto adiantava-se a noite, e pelas mil fendas do casebre
filtrava-se glacial humidade. André, transido de frio, ergueu-se enfim
às apalpadelas, acendeu luz, dirigiu-se a uma pequena carvoeira
contígua, e aí ajuntou algumas achas, que dispôs na lareira.
Tentou fazer uma boa fogueira, mas a tarefa não era fácil.
Um montão de cinzas, extintas havia doze anos, obstruía a chaminé. O
pintor quis desvia-las; porém, ao enterrar a pá, tocou num objecto duro,
resistente, metálico, que não pôde logo adivinhar o que fosse. Tirou-o e
limpou-o ao forro da blusa.
Era uma chave ferrugenta, de mui exígua dimensão e de forma particular.
Evidentemente só podia pertencer a um pequeno cofre, ou a um
indispensável de mulher.
André olhou em volta de si, mas não descobriu nenhum utensílio daquele
género. Atirou com a chavinha para cima da mesa e acendeu a lenha, que
começou a crepitar.
O velho recinto iluminou-se de alegre claridade. O pintor tentava reatar
o fio dos seus pensamentos, mas debalde; a seu pesar, a pequena chave
intrigava-o; não sei que vaga intuição lhe segredava ao ouvido que,
entre aquela chave e o mistério que procurava desvendar, havia
talvez íntima relação...
De repente, à força de a virar e revirar nos dedos. Lembrou-se de haver
brincado em criança com uma caixinha, habilmente coberta de conchas
multicolores, como muitas que se vendem em certos portos de mar.
Sua mãe apreciava-a muito: fora um presente do marido, que lha comprou
na feira de Granville... Conservava-a como uma relíquia, e nela guardava
o que tinha de mais precioso. A caixa existiria ainda?
André começou a procurá-la, e, sempre guiado pelas suas recordações,
descobriu-a sobre um resto de roupa branca, que ficara a um canto da
arca de nogueira. Tomou-a nas mãos e, pelo seu pouco peso, julgou que
estava vazia. Contudo meteu a chave na fechadura.
A caixa abriu-se; continha apenas um papel.
Era uma carta aberta. O sobrescrito, matizado pelos selos da posta
inglesa, indicava a procedência de Liverpool.
Durante alguns minutos, o pintor ficou imóvel, perplexo, comovido, em
frente daquele escrito, que sem dúvida encerrava o segredo da morte de
sua mãe.
Contudo sentou-se, aproximou a luz, desdobrou a missiva, e buscou
primeiramente a assinatura. Ao vê-la, escapou-se-lhe dos lábios um
grito de surpresa.
No fim da terceira página de uma caligrafia incorrecta mas de traços
vigorosos, desenhava-se em letras enormes, o nome de Pedro Toucard!
Depois, André leu o que se segue:
«Liverpool, 4 de Maio de 1842.--Minha senhora: O meu nome, embora lhe
seja desconhecido, é o de um homem, que a lamenta e lhe dedica sincero
interesse. Julga poder provar-lho, e cumprir ao mesmo tempo um dever,
informando-a de uma particularidade que, sem isso, ignoraria sempre.
«Há nove anos, que a senhora chora Onésimo Sauvain, seu marido; porém
Onésimo Sauvain não morreu.
«Quando a _Ariana_ naufragou, era eu passageiro a bordo daquele navio,
do qual ele era marinheiro. Só eu e ele, dentre toda a tripulação,
tivemos a boa fortuna de escapar.
«Arrojados a uma praia pouco hospitaleira, igualmente esfaimados,
igualmente desprovidos de recursos, associámos os nossos destinos. Seu
marido é um malandro, mas inteligente e resoluto. Ajudou-me nas minhas
empresas, e, navegando de conserva, levámos a cabo não poucas
especulações lucrativas.
«Desde o princípio, e sem dizer-me a razão, manifestava ele o desejo de
passar por morto; anunciou-se por toda a parte como meu irmão, e de
Onésimo Sauvain, que era, transformou-se em Onésimo Toucard. Ora eu, que
não sou tolo, não tardei em fazê-lo dar à língua. Confessou-me que
deixara por aí... a qualquer canto; uma mulher e um filho, e que não
tinha grande empenho em tornar a vê-los. A coisa pareceu-me ignóbil;
disse-lho claramente, porém ele mandou-me para o diabo. Entretanto
persegui-o com tais instâncias e ameaças de desmentir o boato da sua
morte, que me prometeu, não sem repugnância, escrever-lhe logo que
tivesse adquirido meios suficientes para viverem cómoda e honradamente.
«Hoje, minha senhora, decorridos nove anos de alternativas de boa e má
fortuna, depois de uma viagem feliz, liquidámos as nossas contas. A
parte de Onésimo eleva-se a perto de dez mil francos; a nossa sociedade
dissolveu-se; ele renuncia ao comércio, e quer, segundo diz, gozar em
paz da sua modesta abastança. Quanto a mim, que não me contento com tão
exíguo capital, reembarco para a Índia, daqui a três dias, e vou de novo
tentar fortuna.
«Onésimo volta para França, e jurou-me reintegrar o domicílio conjugal;
mas, como depois me pediu que lhe dirigisse provisoriamente as minhas
cartas para Versailles, posta restante, e sob certas iniciais,
inclino-me a crer que ele roerá a palavra a este seu criado, continuando
a deixar a esposa em viuvez, e que dissipará em orgias o capital,
que pertence legitimamente a seu filho.
«Previno-a pois, minha senhora, para que, pelos meios que julgar
convenientes, impeça seu marido de cometer novas loucuras, imperdoáveis
na sua idade, e também para que procure restituir o pai a seu filho.
«Talvez esta advertência vá demasiado tarde; porventura estará morta, ou
tornaria a casar a mulher de Onésimo... Em todo o caso, obedeço às
ordens que me dita a consciência.
«Onésimo partiu ontem, 3; segundo todas as probabilidades deve chegar a
Paris no dia 6, e a Versailles, de 7 a 10. Ignoro o segundo pseudónimo
que adoptará; mas, indicando-lhe a terra onde tenciona esconder-se, não
me parece difícil que consiga descobri-lo.
«Queira aceitar, minha senhora, as expressões do profundo respeito
de==_Pedro Toucard_.»
Quando André voltou a si do espanto, que lhe causara aquela carta,
estremeceu ao pensar na impressão dolorosíssima, que ela devia ter
produzido em sua mãe.
Saber que seu marido vivia, e a detestava a ponto de preferir a morte
civil à vida de família!... Saber que esse homem era relativamente rico,
e não lhe importava sequer se seu filho tinha pão!...
Sem dúvida, aquelas terríveis decepções, as suas ilusões
violentamente arrancadas, tinham morto a pobre mulher, sem dar-lhe
tempo, nem forças, para comunicar a André a noticia, que tivera.
Depois, o pintor tentou reunir as suas ideias, porém elas dançavam em
vertiginoso galope, e com grande custo conseguiu desembaraçar a meada
dos acontecimentos, que o acaso enredara em tão extraordinárias
complicações.
Então... aquele viajante, vitima da catástrofe de 8 de Maio, era seu pai!
Então... os noventa e dois mil francos, depositados pelo moribundo nas
mãos de um estranho, pertenciam-lhe!
Então... o senhor Germinal, que durante doze anos procurara, e receara
encontrar, o herdeiro de Onésimo, morou defronte dele todo esse tempo!
Então... desposando Rosa, e aceitando o dote que o velho lhe oferecera,
era André quem enriquecia a mulher que amava!
Então... Pedro Toucard, levado ali por essa série de singulares
coincidências, abusou do seu falso parentesco com Onésimo para
apossar-se de uma soma, a qual todavia tentara em tempos fazer reverter
para os seus legítimos donos!
André compreendia agora a extraordinária comoção do provençal ao ouvir o
nome de Sauvain. A consciência do aventureiro era elástica, mas ainda
não estava gangrenada; apesar dos seus escrúpulos, não pudera
vencer o seu frenesim de especulação, nem deixar fugir a ocasião de
traficar mais uma vez.
Entretanto tinha, sem o saber, despedaçado a felicidade futura de Rosa e
de André!
«Pela memoria de minha mãe! exclamou o pintor, juro que lhe farei
restituir o dinheiro!»
E logo um clarão de alegria lhe iluminou e reanimou o espírito.
Reflectiu em que, uma vez na posse daquela soma, disporia de meios
enérgicos para descobrir o senhor Germinal, e que o velho teimoso não
teria então mais nenhum obstáculo, que opor ao seu casamento com Rosa.
Passou grande parte da noite a passear pela casa, como um louco. Depois,
prostrado de fadiga, deitou-se, adormeceu com a cabeça escandecida, e
teve um pesadelo.
Sonhou que Pedro Toucard, trajando um fato recamado de oiro e pedras
preciosas, pendendo-lhe do rosto uma barba em duas pontas, de prata
maciça, galopava, ao longo dos _boulevards_, numa carruagem puxada por
doze cavalos... André perseguia-o, correndo a bom correr... Queria
gritar: «Agarra, que é ladrão!» mas a sua garganta não soltava o menor
som... E Pedro fugia sempre, semeando às mãos cheias, por sobre a
multidão, noventa e duas mil notas do banco, carimbadas com o nome de
Sauvain...
XIX
Quando o pintor acordou, estava transfigurado. Do mesmo modo que, em
face dele, o sol se alevantava majestosamente por cima do mar, rompendo
as névoas pardacentas, enrolando-as como um manto, e descobrindo a
imensidade líquida, sobre a qual espargia milhares de gotas de oiro;
assim, no coração de André, a tristeza, o abatimento, o desanimo, tudo
se evaporara ao sol da esperança.
Uma resolução firme substituíra todas as suas indecisões. O seu programa
era:
1.º--Encontrar Pedro Toucard: o que devia ser fácil, vista a
excentricidade da sua pessoa, e a atenção que não podia deixar de atrair
sobre si.
2.º--Fazer-lhe restituir o dinheiro, que levara.
3.º--Lançar uma matilha inteira, se preciso fosse, na pista do senhor
Germinal; ir ter com ele, ainda que estivesse na Gronelândia,
agarra-lo à viva força, desposar Rosa, e ser feliz.
Nada mais simples!
André saiu, portanto, alegre e despreocupado; aspirou deliciosamente os
perfumes do ar salino da costa, enviou um olhar reconhecido ao céu de
azul-turquesa, e descendo por atalhos desertos, entrou no cemitério da
aldeia, cujas campas, abrigadas pela igreja musgosa, alvejavam ao romper
do sol.
Ali, num canto isolado, parou, mais por instinto do que por fiel
recordação, ante um montículo invadido por ervas parasitas e por
parietárias. Uma cruz de madeira, negra e carunchosa, jazia quebrada
entre as plantas incultas; o nome, outrora gravado nos braços dessa
cruz, já não se distinguia.
André ajoelhou na relva húmida, e ficou assim por muito tempo. Só quando
rumores longínquos lhe anunciaram o despertar da aldeia, afastou-se
tranquilo, mas em profundo recolhimento.
No mesmo dia, encomendou uma lápide tumular, que pagou adiantada, e
entendeu-se com um arquitecto para as reparações do seu pardieiro e do
velho jardim. Empenhava-se tanto em dar-lhes um aspecto risonho, porque
decidira passar ali com Rosa as horas encantadas da lua de mel.
Cumpridos estes deveres, meteu no bolso a carta de Pedro Toucard, tornou
a pôr na arca a caixa de conchinhas, confiou a chave da casa ao
empreiteiro encarregado das obras, e, nessa mesma tarde, partiu para
Paris no último comboio do caminho de ferro, pois que, desta feita, não
tinha tempo a perder.
No dia seguinte, ao meio dia, estava ele de pé no seu _atelier_,
escovando o chapéu para correr em busca do provençal.
--Por onde começarei? perguntava a si próprio; onde poderei mais
facilmente encontra-lo?... Ora... já sei! na Bolsa! Foi para lá, que ele
transportou a sua tenda de campanha, e tenho quase a certeza de o ir
apanhar, entre uma compra e uma venda de fundos.
Quando acabava de proferir estas palavras, abriu-se a porta, e André,
petrificado de espanto, recuou três passos.
Entrou Pedro Toucard... Pedro Toucard, em carne e osso!
--O senhor!... exclamou Sauvain.
--Eu mesmo, respondeu o aventureiro com o seu habitual desembaraço. Bons
dias, caro amigo!...
E, como André lhe não estendesse a mão, agarrou-a ele quase à força,
estreitando-a nas suas.
Depois continuou, escarranchando-se numa cadeira:
--Então, como vai isso?... bem?... Folgo deveras. Acho-o um pouco
mudado... um tanto pálido... mais magro... mas bem disposto e
animado, o que me causa imenso prazer.
--É muita bondade!... lhe tornou André, com voz ironicamente ameaçadora.
--Dá-me prazer, palavra de honra! porque não foi sem uma tal ou qual
inquietação, que embarquei esta manhã para a rua dos Mártires...
--E por que motivo? perguntou o pintor, curioso de ver até que ponto
chegava semelhante impudência.
--Primeiramente, porque há muito que o não vejo... Lembra-se de que a
minha última visita data de há quatro meses?
--Lembra-me muito bem!... resmungou André com os dentes cerrados.
--Em segundo lugar... sim... é porque tenho uma confidência... um pouco
difícil, para fazer-lhe.
--Uma confidência!
--Ou, mais propriamente, uma confissão... Ora, imagine o senhor que tem
suas razões de queixa contra mim... graves razões de queixa!...
--Realmente?
--É exacto... Podia ocultar-lhas sempre, mas a minha consciência tem
andado opressa: hoje transborda e impele-me às confissões...
Perante este arrependimento, real ou fingido, a cólera de André
esvaiu-se quase de súbito.
--Ora vamos!... pensou o pintor, este homem ainda tem bons sentimentos;
e visto que se emenda, não tenho coragem para lhe querer mal. Para todo
o arrependimento, misericórdia!...
--Estou pronto a escutá-lo? disse ele a Pedro em tom mais brando.
O provençal torceu os cabelos grisalhos da barba e coçou a orelha.
--Custa a contar!... murmurou este. Se me dessem a escolher, preferiria
trepar ao cimo do Himalaia... A coisa é dura, que tem diabo!...
--Então, disse-lhe André sorrindo, não diga nada, meu bravo! E inútil,
porque eu sei tudo.
--Ora essa!... exclamou Pedro, erguendo-se aterrado!
--Trata-se dos meus noventa e dois mil francos, não é assim?
--Dos seus... Ai, com mil bombardas! é certo que sabe tudo!... Mas quem
diabo podia instruí-lo de uma coisa, que ninguém neste mundo...
--Foi o senhor mesmo, interrompeu o pintor.
--Eu!...
--Ora leia.
E Sauvain colocou-lhe debaixo dos olhos a carta datada de Liverpool.
Pedro Toucard, atentando na carta aberta, corou ligeiramente.
--Reconheço a letra, disse ele, posto seja mais nova do que eu...
doze anos. Mas juraria que essa carta não tinha chegado ao seu destino!
--Enganava-se.
--Convenço-me porém de que, há quatro meses, quando embolsei este
dinheiro...
--O meu dinheiro, quer dizer?
--Seja... Convenço-me de que o senhor ignorava o conteúdo dela?
--Ignorava-o ainda há quarenta e oito horas.
E André contou como, por acaso, ao remexer as cinzas do lar,
desenterrara a chave da caixa, a qual era ao mesmo tempo a chave de
tantos mistérios!
--É indubitável que existe uma Providência! disse Pedro abanando a
cabeça. Tudo se descobre, mais cedo ou mais tarde! Ora vejam com que
cara ficaria diante de si, se, confiando na impunidade, não fosse eu o
primeiro a confessar a minha culpa, porque... enfim... eu roubei-o!
--Ai! suspirou André, não é do dinheiro que eu mais tenho lamentado a
falta!
--Sim, sim, adivinho!... e é isso o que torna o meu crime imperdoável!
Informei-me, e soube da ruptura do casamento, assim como da desaparição
de Rosa, levada por seu pai, não se sabe para onde. Pobre rapaz!... e
fui eu... eu!...
--Ora!... disse alegremente o pintor, havemos de dar com ela.
Os olhos cintilantes do provençal fixaram-se em André com inquieta
surpresa.
--Com a fortuna! exclamou ele, o senhor é um filosofo às direitas!
--Porquê?
--Pois, um homem rouba-lhe uma soma avultada, destrói as suas esperanças
de amor e de casamento; e o senhor, em vez de sova-lo com um cacete,
conversa tranquilamente com ele!...
--A falar a verdade, meu caro senhor, disse Sauvain rindo, se o tivesse
encontrado de improviso esta manhã, não responderia pelos meus gestos.
Mas o passo, que acaba de dar, desarmou-me, e como concorda em que fez
mal... sim... visto estar pronto a restituir...
--Restituir! interrompeu Pedro. Com mil bombas! já não nos entendemos!...
André deu um pulo, com os lábios a tremer-lhe de raiva.
--Olá! mestre Toucard, dar-se-á acaso que pretenda conservar?...
--Não pretendo nada, com mil raios!... Não olhou para mim? Ora examine o
meu exterior!... É esta porventura a aparência de um capitalista? Terei
ares de um feliz mortal, que lhe trouxesse no bolso noventa e dois mil
francos?
Efectivamente, Pedro Toucard estava a cem léguas de possuir semelhantes
ares.
Envolto em sórdidos farrapos, enlameado até ao pescoço, ter-lhe-iam
oferecido dois soldos à esquina da rua. Luzia-lhe a pele através dos
buracos do fato, e as botas arrebentadas vomitavam jorros de lama.
O artista sentiu um choque violento quando reparou naquela libré da
miséria. Uma ideia horrível lhe descompôs as feições.
--Olá!... que é isso? disse o provençal, assustado com a palidez dele;
agora olha demais para mim!... Sossegue, meu rapaz, e beba um copo de
água. Feridas de dinheiro não são mortais.
--Oh! articulou o pintor angustiado, é então verdade?
--O quê?
--O que eu suponho...
--Não sei o que supõe, mancebo. O facto é que estive na alta, e
depois... veio a baixa.
--Portanto está tudo perdido!
--Fundido, destruído, evaporado!
--Não resta coisa alguma?
--Restam-me... dívidas.
--E a herança de meu pai?
--Foi para casa de seiscentos diabos.
--Infame! rugiu Sauvain, agarrando Pedro pela gola da velha
sobre-casaca, e sacudindo-o rudemente.
O aventureiro deixou-se sacudir. Meteu sossegadamente as mãos nas
algibeiras das calças despedaçadas, e poderia mesmo jurar-se que um
vago sorriso de infernal satisfação lhe assomara aos lábios.
--Vamos, mancebo!... disse ele. Não hesite: bata-me, estropie-me,
mate-me. Sou um tratante, um canalha, um ladrão; nem valho a corda com
que me enforcarem!...
André largou-o; repugnava-lhe maltratar um velho.
Cego pelas lágrimas, sufocado pela indignação, aniquilado pelo
desespero, caiu prostrado numa cadeira e só pôde balbuciar estas palavras:
«Rosa!... Rosa!... minha pobre Rosa!...»
Pedro pareceu sinceramente comovido.
--Ah!... resmoneou ele, procurando em vão no crânio calvo um punhado de
cabelos para arrancar; eu devera-o ter previsto!... O desgraçado contava
com o seu dinheiro para desposar a pequena... e tu, grande bandido,
velho celerado, devoraste tudo, deitaste-lhe abaixo a igrejinha!
E nisto, infligindo a si próprio as maiores injúrias, desenfiava um
rosário de pragas.
Entretanto a dor de André atingia o seu paroxismo. Encostado à mesa, com
o rosto esmagado entre os punhos contraídos, fazia esforços incríveis
para recalcar no peito os gemidos e gritos de raiva... mas debalde.
--Ora vamos!... vamos! continuou Toucard; que não haja, sobre queda,
coice! O enguiço triunfa hoje, de acordo! mas eu sou um
espertalhão, bem o sabe... Dentro em pouco tirarei a desforra, e
reembolsa-lo-hei então do capital e juros. Quer que lhe assine uma
obrigação de cem mil francos, pagável na minha primeira veia de fortuna?
André ergueu-se bruscamente, deixando ver o rosto afogueado e banhado em
pranto.
--Fora daqui, miserável! exclamou ele. Não tente a minha desesperação
com as suas covardes zombarias!... Saia!
--Não estou zombando, disse o provençal; e juro-lhe pela minha honra...
--Pela sua honra!... interrompeu amargamente o pintor.
--Seja pelo que for... Enfim... juro-lhe que o meu desejo mais veemente
seria vê-lo rico e satisfeito.
--E por isso me roubou o meu património, não é assim?
--Que diabo posso eu dizer-lhe? As notas do banco já estavam no meu
bolso, agarravam-se a mim e gritavam-me: «Leva-nos! Foi, graças a ti,
que Onésimo nos ganhou; portanto... pertencemos-te um pouco!...
Leva-nos, Pedro, e quintuplicar-nos-ás... decuplicar-nos-ás! André,
Rosa, toda a família será feliz, e isso devido a ti... Leva-nos!»... Com
a breca, levei-as!... Se esta explicação lhe não basta, pegue numa
pistola, e abra-me a cabeça; até me faz favor!... Ou então... arraste-me
ao banco dos réus, para que me condenem às galés.
André, silencioso, envolveu o aventureiro num longo olhar de tédio.
--Não, replicou por fim. Não me esqueço de que foi amigo de meu pai; não
me esqueço desta carta... a única acção honesta da sua vida! Não me
vingarei, senhor mas, pelo amor de Deus, retire-se!
Apesar da sua casca grossa, Pedro Toucard sentia-se enternecido.
Dirigiu-se lentamente para a porta; depois parou, torceu a barba,
reflectiu, e inclinando-se para André, que lhe voltava as costas, murmurou:
--Senhor Sauvain...
--Ainda aqui! exclamou o pintor.
--Antes de ir-me embora, quero que saiba, se isto pode servir-lhe de
consolação, que o céu se encarregou de castigar-me. Estou mais
miserável, senhor André, do que no dia em que me fez a esmola... que tão
pouco lhe aproveitou! Numa palavra, morro de fome; e como me repugna
mendigar, vou direito daqui lançar-me ao rio. Adeus!
--Espere!... disse Sauvain.
E puxando da bolsa, despejou-a sobre a mesa.
--Leve isso.
--Eu!...
--Arrecade isso, já lho disse, e vá-se embora. É em memoria de minha
mãe, a quem tentou prestar um serviço. Eu... de nada preciso já.
Toucard guardou o dinheiro; porém os dedos tremiam-lhe, e os seus olhos
lampejavam humedecidos.
--De que me serve viver, retorquiu ele, se não me perdoa?... se não
recobro o sono, que me foge?
O pintor encolheu os ombros.