--Que é isso? que tem?... perguntou-lhes Pedro. Porque olham para mim

assim? Que disse eu, que tanto os espante?

--Nada disse por ora, respondeu André, mas peço-lhe que me explique...

--A explicação será curta, meu rapaz. Encontrei nas minhas viagens um

marinheiro chamado Sauvain... seu pai, ao que parece... Soube depois que

morrera num naufrágio: eis o motivo por que o seu nome me abalou.

Demais... sou propenso à apoplexia... a menor comoção faz-me subir o

sangue à cabeça! Mas não façam caso... já passou.

O provençal falava com dificuldade, procurando as palavras e pensando

noutra coisa. As suas feições expressivas revelavam a maior irresolução.

Apesar do banho que se aplicara, corria-lhe o suor da fronte.

André Sauvain não se contentou com tão sucinto esclarecimento.

--Mancebo, lhe disse Pedro Toucard, venha comigo a três passos daqui,

quero dar-lhe duas palavras.

O pintor seguiu-o, assaz intrigado.

--Escute-me, meu caro: entrei na posse de fundos com que não contava. O

senhor vai pôr casa... Se duas ou três notas de mil francos... ou mesmo

quatro... Sim, se quatro, ou cinco mil francos, lhe podem ser úteis

nesta ocasião, não faça cerimonia... Hei-los!

E Pedro folheava com mão trémula o maço das notas.

André corou muito, e endireitou-se quanto a sua estatura lho permitia.

--A que título me faz esse oferecimento? perguntou ele.

--A título de amigo.

--Vimos-nos apenas duas vezes!...

--A título... de antigo amigo de seu pai.

--Conhecia-o de leve, segundo disse.

--Então... a título de gratidão. Fez-me um favor, quando eu precisava...

É a minha vez agora. Que diabo!...

--Agradeço-lhe a intenção, mas recuso.

--Porquê?

--Por muitos motivos, e eis o principal: Sou demasiado pobre para

aceitar qualquer empréstimo, não sabendo quando poderei pagá-lo.

--Ora? que importa isso?...

--Importa-me muitíssimo!

--Com mil bombas! que esquisitices! e que demónio de casa esta, onde se

recusa aceitar o que tantos outros...

Um relógio da vizinhança vibrou no espaço.

--Uma hora! exclamou Pedro, cujas ventas se dilataram, e cujo olhar

faiscou. A hora da Bolsa! Vamos, Pedro Toucard! em campo, meu velho!

Vais aventurar-te sobre um terreno movediço... Prova a essa súcia de

imbecis que lhe és superior no artigo _inteligência_.

--Um momento, senhor, disse André; rogo-lhe que me explique...

--Coisa nenhuma, neste momento!...

--Aonde vai a correr?

Pedro apanhou do chão o chapéu, amolgado em dez partes, brandiu-o com

gesto majestoso, e partiu exclamando:

--A casa do meu banqueiro!

E desapareceu.

XVI

--É fora de dúvida, disse o pintor, que este aventureiro teve relações

com a minha família. Mas, porque fará mistério disso? É, na verdade, um

homem surpreendente! Que impaciência, que febre de agiotagem! Veja como

corre!... É um furacão!

--Sim... um furacão, murmurou Germinal, passando amigavelmente o braço

pelo de Sauvain, um furacão que derrubou os nossos _castelos no ar_!

Entremos em sua casa: preciso de falar-lhe. André obedeceu, cerrando os

punhos de raiva.

Adivinhava o fim da conferência, que iam ter, e, já ardendo em

indignação, revestia-se de uma tríplice couraça para entrar na luta.

Pela sua parte, o senhor Germinal também não se sentia em leito de

rosas. Assentou-se, tossiu, esfregou as mãos, piscou os seus olhos de

peixe cozido, e antes de tomar a palavra, suspirou cinco ou seis

vezes, com intervalos.

Dava-lhe em cheio a luz no crânio, cor de ferrugem, e essa circunstância

fez notar a André, não sem terror, que aquela caixa ossuda, estreita e

deprimida, tinha bem característica a bossa da teima invencível.

O senhor Germinal começou pela narração do seu triste encontro com

Onésimo Toucard; contou a vida que levara durante onze anos, as suas más

tentações reprimidas, as suas esperanças, os seus receios e os seus

desalentos.

Quando acabou, André disse-lhe friamente:

--Muito bem: o dinheiro foi reembolsado, a sua consciência ficou em

repouso; está tudo o melhor possível. Porém devia ter a certeza de que

nós, mesmo depois de casados e em posse dessa fortuna, a entregaríamos

sem hesitação ao seu legítimo proprietário.

--Não tenho a menor dúvida, retrucou o senhor Germinal; sei que é um

mancebo digno. Quanto melhor o conheço, mais o aprecio... Teria orgulho

em chamar-lhe meu filho...

André tornou-se pálido, mas fingiu não ter ouvido aquele condicional.

--Agora, senhor, disse ele sorrindo, conversêmos um pouco sobre coisas

mais importantes; voltemos ao que esta manhã se combinou...

--Que foi o que se combinou? disse o viúvo, corando.

--Que hoje mesmo se fixaria a época do meu casamento com Rosa.

O senhor Germinal levantou-se bruscamente.

--Não me entendeu, pelo que vejo?

--Peço perdão: entendi perfeitamente que lhe confiaram um depósito, e

que o restituiu. Mas, que tem de comum uma acção tão simples com o

facto, muito mais importante, de que dependerá o nosso futuro?

--Não há surdos piores do que os que não querem ouvir! replicou

asperamente o senhor Germinal. Aquela soma garantia-me a felicidade

material de minha filha...

--Não, senhor, porque bem sabia que, de um momento para o outro, a

podiam reclamar. Para quando prefixa a bênção nupcial?

--Para as calendas gregas! gritou o senhor Germinal, exasperado por

aquela obstinação sistemática. Como ousa o senhor pretender associar à

sua a sorte de Rosa? Onde estão os seus meios de subsistência? Há-de ela

viver neste cacifo? Virão os filhos, e com eles as dificuldades, os

expedientes, as dívidas, os cuidados, a doença... a morte!

--Nego-o energicamente! retorquiu André, não menos furioso. Mas, embora

o senhor tivesse carradas de razão, era tarde para desdizer-se. Se

este consorcio lhe desagradava, para que veio, há quatro meses,

procurar-me ao fundo deste cacifo, como acaba de chamar-lhe?... Porque

incitou um amor, que, entregue a si mesmo, talvez houvesse sido sufocado?

--Rosa assim o exigia... Rosa amava-o...

--E pensa que deixará de amar-me por lho ordenar?

--Ignoro-o, mas não casará consigo.

--Ora, senhor!... se o casamento fosse só permitido às pessoas ricas,

extinguir-se-ia o sol.

--Pois que se extinga. Não casará com minha filha; é escusado pensar

mais nisso.

--Não pensar mais nisso!... Imagina que um sentimento, igual ao meu, se

aniquila à vontade, como a chama de uma vela! Rosa é o sangue das minhas

artérias, a seiva da minha mocidade, o paraíso da minha alma, a

primavera do meu coração!... Peça-me que viva sem respirar, mas não ouse

pedir-me que esqueça Rosa!

--Peço-lho, e, sendo preciso, ordeno-lho!... Nunca consentirei em vê-la

miserável! A imagem de sua mãe... tenho-a sempre diante dos olhos! Não

casará com minha filha!

--Homem teimoso! Quem lhe disse que, mesmo no seio da abundância e do

luxo, sua mulher teria vivido? Quem lhe disse que ela não encerrava no

peito o gérmen de uma doença mortal? E com que direito aquilata

pelo seu passado o meu futuro? Por ventura os recursos de um amanuense,

acorrentado a um trabalho estúpido, e cujo ínfimo salário nunca aumenta,

embora trabalhe noite e dia, podem comparar-se aos de um artista, moço,

corajoso, inteligente e forte?

--Não ponho em dúvida a sua coragem, nem o seu talento: mas presumo que,

quando os resultados forem apreciáveis, já Rosa terá os cabelos brancos.

Não possuirá minha filha, senhor Sauvain.

--Possui-la-hei! gritou o pintor... Juro-o!

--Não gracejemos, peço-lho!... Ouça, senhor André: vim falar-lhe, movido

por verdadeira simpatia. Lamento-o e estimo-o. Dê-me a sua palavra de

honra de que não tentará ver, nem falar a minha filha, ou fazer-lhe

acalentar ilusões inúteis. Com essa condição...

--Nunca!

--Nesse caso, estão quebradas as nossas relações.

--É a sua terminante decisão?

--É.

--Basta. Graças a Deus há leis em França; não se coage ninguém. Rosa e

eu esperaremos...

--A minha morte?

--Não, senhor; a maioridade de sua filha.

--Seja assim, disse o senhor Germinal. Mas, até então, desculpará que eu

lhe feche a minha porta, e terá a bondade de renunciar à

conversação de minha filha.

--Engana-se! vê-la-hei, falar-lhe-hei, ama-la-hei e casarei com ela;

mesmo contra sua vontade!

--Tomarei as medidas necessárias para obstar a essas loucuras.

E o senhor Germinal, erguendo-se com um gesto ameaçador, saiu do _atelier_.

Apenas transpôs o liminar, André correu atrás dele. Arrependia-se da sua

arrogância. Queria lançar-se-lhe aos pés e enternecê-lo à força de

súplicas; mas, quando ia a alcançá-lo, as abas flutuantes de um

enferrujado casaco abriram-se como duas asas, e o senhor Germinal, veloz

como uma seta, encaixou-se em casa e trancou ruidosamente a porta. André

voltou desanimado; ao desânimo seguiu-se o furor; ao furor, o desespero;

depois... os projectos extremos, as resoluções insensatas, e até uns

vagos desejos de lançar fogo ao edifício, precipitar-se através das

ruínas fumegantes, estreitar Rosa nos braços e fugir com ela... fosse

para onde fosse!...

André Sauvain mordia os dedos e andava de um para outro lado, como um

tigre na jaula. Perto da noite, não podendo conter-se, trepou quatro a

quatro a escada do que recusava ser seu sogro; tocou à campainha,

primeiro timidamente, depois com mais força.

Nenhuma resposta.

Tocou outra vez, bateu, suplicou, disse quem era, tornou a tocar, atroou

o patamar com as suas imprecações. Mas ninguém apareceu, a não ser um

vizinho desagradável, que resmungou vagamente as palavras: comissario de

policia.

Depois disto, André desceu ao _atelier_, atirou consigo para cima do

canapé, estorcendo-se e invocando Rosa.

Após muitas horas deste exercício incoerente, um colosso ficaria

prostrado. Havia muito que era noite. O pintor adormeceu num sono

febril, assaltado de sonhos extravagantes, e interrompido de dez em dez

minutos. Vinte vezes acordou em sobressalto para ver se o dia não

surgira ainda.

Pela madrugada julgou ouvir ao longe a voz da sua noiva, que, com

queixumes angustiosos, o chamava por entre soluços. Correu à porta, e,

com os cabelos eriçados e o ouvido à escuta, olhou para fora.

Já nascera o sol; ténue claridade se coava a custo através das nuvens

escuras; a chuva caía vertical e em grossas gotas, marulhando no pátio

pedregoso e nos canteiros do jardim, que exalavam um odor terroso.

Entretanto a casa estava inteiramente tranquila, e as janelas de Rosa,

hermeticamente fechadas, não deixavam filtrar o mínimo raio de luz.

O frio da manhã atenuou a sobre-excitação febril de André; tornou a

deitar-se, vestido como estava, dizendo consigo... que ninguém já

sequestra raparigas; que de certo Rosa tomaria ar de vez em quando; que

ele aproveitaria essas ocasiões, mesmo nas barbas do senhor Germinal, e

finalmente que era tolo em preocupar-se assim. Com estas reflexões,

adormeceu sossegadamente, e tão deveras, que a senhora Poussignol, na

sua habitual visita matutina, não logrou despertá-lo inteiramente.

--E esta!

Tal foi a exclamação, que retumbou aos ouvidos de Sauvain. Semi-abriu os

olhos e contemplou a porteira, que estava de pé, em frente dele, com o

bigode eriçado, com os punhos fincados nas ancas, e firmada nos seus

sapatos de ourelo, como um pato nos seus pés espalmados.

--Então, disse ela, não o tinha eu prevenido!...

--De quê?

--De que fazia muito mal em frequentar aquela gente...

--Que gente?

--A família Germinal.

André sentou-se de súbito no canapé.

--Faça favor de falar mais respeitosamente dos meus vizinhos.

--Não lhes falto ao respeito, mas isso não impede que eu volte à minha

primeira opinião, de que aquele homem é um antigo criminoso.

--Ainda a mesma tolice!

--Tolice!... A prova é que fugiu, e a polícia vai-lhe no encalço.

--Do senhor Germinal?... Você endoideceu!

--Ah, endoideci!... Pois bem! quando souber o que aconteceu...

--O que foi? Vamos, explique-se! bradou André com impaciência.

--Esta manha, às quatro horas, ainda não era dia claro, bateram nos

vidros do meu quarto. Quem é? perguntei eu.--Sou eu, Germinal,

responderam. Era já caso para admirar!... pois não era? Um homem que,

durante doze anos, não deitou o nariz fora da porta, e que hoje, sem

mais nem menos, vai passear antes de luzir o buraco!... Levantei-me,

acendi a candeia, e que vejo?... O senhor Germinal, com a mala debaixo

de um braço e a filha pelo outro, chorando, a pobrezita, que enternecia

um rochedo! Que deseja? perguntei eu. Em resposta, paga-me o mês por

inteiro, pespega-me dez francos na mão (primeiro dinheiro dele, a que

vejo a cor--sempre é bom saber-se!) participa-me que vai viajar, e não

sabe quando voltará; mas que me não inquiete eu pelos móveis, porque

brevemente os mandará buscar. Então, a menina Rosa, que continuava a

chorar, tentou dizer-me duas palavras em voz baixa, porém o pai levou-a

de repelão. Puxei a corda e... boas noites!

André parecia uma estátua.

--Partiu!... partiu!... Rosa partiu!... murmurou ele afinal; é impossível!

--A prova é que tenho aqui a chave da casa.

O pintor arrancou a chave das mãos da senhora Poussignol, que ficou

pasmada. Dez segundos depois, penetrava em casa do seu velho vizinho.

O quarto do senhor Germinal estava limpo e em ordem, como sempre; a cama

não fora desfeita.

André, lívido, gelado, empurrou uma porta, a do quarto de Rosa. Entrou

nele com passo de fantasma; mas, quando percorreu com a vista aquele

mimoso retiro abandonado, quando aspirou o suave perfume de violetas,

que lhe recordava a ausente, encostou-se à parede, inclinou a cabeça

sobre o peito e perdeu os sentidos.

XVII

Durante quinze dias, André Sauvain vagueou pelas ruas de Paris, como um

cão que perdera seu dono.

Quem visse aquele gigantesco moço, com a fisionomia espantada, os

cabelos flutuantes, o bigode arrepiado, e o vestuário em desalinho,

correr como um doido atrás de qualquer transeunte, mirá-lo em face, e

logo voltar-lhe as costas para correr atrás de outro, teria acusado

mentalmente de negligencia os guardas e o porteiro de Bicêtre.

Naquele lapso de tempo, um desconhecido visitou, por duas vezes no mesmo

dia, a casa do senhor Germinal. Da primeira visita, examinou

escrupulosamente os móveis; da segunda, levou-os, depois de exibir um

acto de venda perfeitamente em regra. Pode presumir-se como o pintor se

agarrou, com ambas as mãos a essa suposta tábua de salvação!

Interrogou, suplicou, afagou, ameaçou, e maçou de mil maneiras o

infeliz comprador para extorquir-lhe a nova residência do fugitivo, ou

ao menos algum indício, que o guiasse na busca de Rosa.

Todavia, a vítima não lhe fornecera o menor esclarecimento. Era um

ebanista do _faubourg_ Saint-Antoine; comprara em globo a mobília do

senhor Germinal, que lhe anunciou estar em vésperas de empreender uma

longa viagem.

Podiam cortar o ebanista em mil pedaços, ou oferecer-lhe os tesouros de

Golconda, que ele não saberia dizer mais nada.

Como o senhor Germinal pagara religiosamente o aluguer da casa, ninguém

opôs dificuldades à remoção dos moveis. André seguiu-os com os olhos até

à esquina da rua; levavam-lhe a última esperança.

Depois recomeçou as suas furibundas correrias. O comer, o beber e o

dormir, foram tratados por ele como importunos credores, que se deixam

gritar e a quem se não paga. Mas a natureza tem os seus limites; este

estado de exaltação originou uma febre cerebral, e o pobre André desceu

rapidamente o declive que conduz ao cemitério.

Felizmente, sua mãe moldara-o em bronze: a doença apenas o apalpou de

leve, e, não obstante a senhora Poussignol ter chamado dois médicos, o

pintor escapou. O seu físico restabeleceu-se à custa do moral:

André, sempre profundamente melancólico, atirou-se ao trabalho como quem

se atira a um poço.

Este género de suicídio não era dos menos eficazes: André prosseguia

nele com uma pertinácia de mau agouro, e qualquer outro convalescente,

menos bem construído do que ele, não duraria três semanas com semelhante

afã.

Entretanto, onde ele esperava encontrar a morte, encontrou um paliativo.

A fadiga do corpo adormentou-lhe, pouco a pouco, a dor do espírito. E a

arte ganhou com isso: a pintura de André ressentiu-se das tribulações da

sua vida. Desenvolveu nos seus quadros um vigor de colorido, uma fúria

de concepção, um arrojo de pensamentos, uma originalidade de meios, que

não teriam de certo brotado das plácidas inspirações de um espírito

tranquilo. O homem feliz já não existia: revelou-se o artista.

Enfim, o acaso também entrou em cena. Como André, a tudo indiferente,

não corria atrás do dinheiro nem da fama, aconteceu naturalmente que a

fama e o dinheiro correram atrás dele.

Surgiram no horizonte sinais precursores de gloria. O mercador de

quadros, que até ali o explorara sem vergonha, e lhe comprara muitas

telas por preços fabulosamente baixos, aumentou-os... oh, prodígio!... e

aumentou-os de seu moto próprio.

Fez mais ainda: concordou, sem hesitar, em que o nome de Sauvain ecoava

já na opinião de alguns ricos amadores, e que, se André quisesse, o

oiro, de ora em diante, seria para ele uma realidade.

O pintor encolheu os ombros, pagou as dívidas que contraíra durante a

doença, e voltou à sua lida obstinada.

O verão acabou lentamente. A julgar pelo número de encomendas, os

créditos de André não diminuíam; apenas concluído um dos seus quadros,

era logo vendido. O seu _Faust au sabbat_ tornou-se propriedade de um

capitalista misterioso, que o pagou muito caro e desejou conservar o

anónimo.

Noutro tempo, aquela veia de bom êxito teria enlevado Sauvain; agora

era-lhe mais um motivo de ironia e de amargura. Pensava em Rosa perdida

para ele, em Rosa talvez infiel, em Rosa que o esquecia, pois nem sequer

lhe escrevera, e repetia a si mesmo: «De que me serve isto?»

Contudo, a abastança substituíra a pobreza; nada impedia André de trocar

o seu escuro cubículo da rua dos Mártires por um _atelier_ mais cómodo e

decente; todavia não o quis deixar. Invisíveis cadeias o ligavam ali.

Alugara os dois quartos, habitados anteriormente pela sua Rosa e pelo

pai. Podia acaso afastar-se daquela janela, onde ela lhe aparecera na

flor da sua radiante beleza? Podia afastar-se daquele jardim, onde ela

lhe fizera a primeira confissão do seu amor?... daquele banco, onde

se sentava a par dele?... daquela casa, onde lhe decorreram horas tão

venturosas?...

Ficou, e continuou a torturar a alma na saudade, como torturava o corpo

na fadiga.

Porém, quando veio o outono, quando as árvores, que vira frondosas e

virentes, amareleceram e deixaram cair as folhas... então abandonou-o a

coragem: à sua fictícia actividade seguiu-se uma indolência invencível;

como o trabalho o não matara, amaldiçoou o trabalho e aborreceu-o;

pálido, enervado, emagrecido, com os olhos brilhantes de febre, sem

forças, nem energia, passou os seus dias, inúteis, ruminando a própria dor.

Como as folhas caíam das árvores, uma a uma, assim se desprendiam as

suas quimeras. Crenças de gloria e crenças de amor... todas iam pelo

mesmo caminho. Da sua mocidade florescente, restava apenas o esqueleto.

Era a estação cismadora, em que a terra e o sol confundem num beijo os

seus últimos adeuses, em que o céu se vela num crepe cor de opala, bruma

transparente, que o voo das andorinhas rasga ao partirem. Era a estação

temerosa, em que o enfermo melancólico pressente o seu próximo fim, e

busca um seio amigo, onde reclinar a fronte.

E André, pressentindo também o inverno para a sua alma, buscava ao redor

de si um conforto, uma dedicação, uma simpatia... Mas... debalde:

nada encontrava... nem um ente, a quem amar! No seu passado, no presente

ou no futuro, nenhuma ligação, nenhuma alegria, nenhuma esperança! Em

tudo o deserto, em tudo o vácuo, em tudo o desalento!...

Então, prostrado de corpo e desfalecido de espírito, com o peito

entumecido de lágrimas, exalou instintivamente o queixume habitual da

criança em aflição. Bem como a pérola, lançada nas ondas, volta à

superfície, assim uma palavra de há muito esquecida, subindo do fundo da

sua fraqueza, do abismo do seu isolamento, lhe vibrou nos lábios: «Minha

mãe!»

Oh, maternidade! afeição puríssima e inexcedível, consolação

sobre-humana, único amor desinteressado, único apoio... que resiste

quando todos os outros se nos despedaçaram nas mãos, e ainda quando os

mais indeléveis sentimentos se esvaíram em fumo! Maternidade! santa

encarnação do sacrifício! O homem só te aprecia quando te perde!

Oh! se sua mãe vivesse!... Como iria refugiar-se no seu seio! Como ela

teria derramado naquele coração o bálsamo da sua ternura! Como o

embalaria com aqueles misteriosos acentos, que as mães tiram do

vocabulário dos anjos!...

Ai dele! sua mãe era morta!

Àquela recordação pura, tanto tempo abandonada por amor de uma

ingrata, André corou de remorsos.

Lembrou-se do tempo, em que o seu máximo desejo fora cobrir com uma

campa as cinzas da viúva, e o seu mais acariciado projecto restaurar as

ruínas da casinha onde vivera com ela.

O oiro necessário possuía-o agora.

Que significava, pois, o ficar ali covardemente suspirando? A morta

esperava.

--Coragem! exclamou André. A caminho!...

E, numa linda manhã de Setembro, partiu com a mala aos ombros, levando

sob a blusa de linho os seus modestos haveres, e sentindo amarga

satisfação em pensar que ia morrer no tugúrio em que nascera. Para

cumprir escrupulosamente o seu voto, empreendeu a viagem a pé, como no

tempo em que era tão alegre, quanto pobre. Nesse tempo, sua mãe não

tinha rival no coração do pintor; a sua imagem adorada sorria-lhe de

entre as árvores do caminho. Agora não acontecia o mesmo: a seu pesar,

uma outra imagem substituía a primeira. Queria chorar pela santa guarda

da sua infância, e chorava pela fada da sua juventude, Rosa! Debalde

concentrava o pensamento no termo da sua peregrinação; a cada passo

voltava insensivelmente a cabeça para trás. Em vão evocava o semblante

frio e macilento da morta; a memoria só lhe reproduzia um rosto animado,

com olhos negros e cabelos louros...

Assim caminhou André por muitos dias, descansando nas estalagens dos

almocreves, bebendo na palma da mão, dormindo no meio dos campos

matizados de amarelo e púrpura.

Desses esplendores do outono, nada notou... ele, o artista, o

entusiasta! Nada o comoveu; nem o horizonte, nem a verdura, nem os

efeitos da luz, nem a poesia campestre que a terra emanava por todos os

seus poros, no intervalo abençoado, que vai da ceifa à vindima. Somente,

quando por acaso descobria dois namorados, ocultos entre as ervas, uma

dor atroz lhe apertava a garganta, e fugia blasfemando.

Enfim, uma tarde, à hora do crepúsculo, André atravessou a última

aldeia, que o separava de sua casa: os camponeses sentados à soleira das

suas portas, as velhas fiando na roca, as crianças semi-nuas, as frescas

mocetonas de riso sonoro, acompanharam-no com olhar curioso, perguntando

a si mesmos para onde se dirigiria aquele forasteiro, tão pálido e com

os pés embranquecidos da poeira.

Uma hora depois, André avistava o seu casebre.

XVIII

Lá estava ainda, mudo, negro e meio-derrocado, ao cimo da colina. O

vento da Costa não o derrubara de todo.

Os seus contornos desenhavam-se vigorosamente no acinzentado do céu, com

o seu tecto de verde musgo, e as árvores desfolhadas do velho jardim.

Uma brisa áspera, precursora do inverno, fazia bater as portas das

janelas, arrancadas dos seus gonzos; e aranhas enormes urdiam

tranquilamente as suas teias nos buracos dos vidros quebrados.

Mais adiante estendia-se, a perder de vista, o vasto oceano.

Balouçava-se pacífico, com o seu monótono e solene murmúrio: da

superfície das ondas elevava-se lentamente um intenso nevoeiro, qual

gigantesco sudário.

André parou, possuído de religiosa comoção; abriu a porta carunchosa e

entrou em casa. Um odor indefinível se exalava daquele recinto,

onde ninguém penetrara depois da morte de sua mãe. À luz indecisa do

dia, que acabava, André pôde distinguir o grande leito de colunas, com

os seus cortinados de ramagens e flores fantásticas, a arca de nogueira,

o crucifixo com palmas bentas, os escabelos maciços, e as redes da

pesca, herança de seu pai. Sobre a mesa, via-se ainda uma tapeçaria por

acabar. Parecia que a obreira saíra de casa... momentos antes.

André beijou aquele pedaço de estofo, que as mãos de sua mãe tinham

bordado.

Nas Cinzas · 第 4 / 7 段