As árvores, os prados, as sebes, as colinas, os postes que ladeavam a

estrada, fugiam arrebatados num turbilhão infernal... Apareciam e

desapareciam antes que se pudesse distinguir-lhes as formas... E a

rapidez aumentava, de minuto para minuto... Pouco a pouco, os objectos

exteriores confundiram os seus perfis indecisos... era uma confusão

extraordinária... um vertiginoso turbilhão... uma miragem louca, análoga

à que reflectiria uma onda violentamente agitada...

Dentro do comboio, os passageiros consultavam-se com terror;

entrechocavam-se os dentes uns nos outros, os seios arfavam, as mãos

uniam-se convulsivas e alagadas de frio suor.

E a velocidade aumentava... aumentava sempre, de segundo para segundo...

Houve um momento solene, um momento longo como um século, um momento

durante o qual cada um orou do intimo de alma ao que perscruta as

consciências, e pensou nos entes queridos que o prendiam à vida...

Depois... um choque espantoso... e um clamor, ainda mais espantoso!...

Eram 8 de maio de 1842.

Como escapou o senhor Germinal àquele desastre? Ele mesmo nunca pôde

recordar-se.

À mingua da rasto, que o abandonara, o instinto, esse guia cego do

animal, conduziu-o intacto a salvamento. Quando deu acordo de si, corria

através dos campos, espavorido, ofegante, meio-louco; mas apenas

recuperou o espírito, o seu primeiro acto foi voltar atrás e auxiliar os

socorros, que de todos os lados acorriam.

Passou-se então um facto, que deixou na sua vida indelével impressão.

Um homem, um moribundo, que ele debalde tentava salvar,

desprendeu-se-lhe dos braços, e entregou-lhe uma carteira, murmurando

estas palavras:

--Guarde: é um depósito... que lhe confio... Entregue-o pela sua própria

mão a... Eu chamo-me...

Fez um esforço supremo para concluir, mas não pôde; caiu morto no

_wagon_, que começava a ser invadido pelo fogo.

XIII

No dia seguinte, regressou o senhor Germinal a Paris. Inútil é

acrescentar que foi de carruagem.

Quando se reinstalou na sua habitação, a senhora Possignol recusava-se a

reconhecê-lo; em vinte e quatro horas envelhecera vinte e quatro anos. O

seu semblante parecia uma planície devastada por um ciclone; para o

corpo fez à involuntária aquisição de um tremor nervoso; e para o

espírito, a de dois cuidados graves: o depósito, que lhe fora confiado;

e sua filha, que trouxera consigo, não querendo estar por mais tempo

separado dela, depois de ter visto a morte tão de perto.

A pequena Rosa dormia a sono solto. Ele improvisou-lhe um leito, correu

as cortinas, aferrolhou-se solidamente, e foi sentar-se imóvel ante um

objecto, que exumara das profundezas do seu sobretudo.

Era uma carteira assaz volumosa, denegrida pelo uso, e tendo gravado no

couro, em letras outrora douradas, o nome de Onésimo Toucard.

Continha noventa e dois mil francos.

Perante aquele maço de papeis, que representavam mais de sessenta anos

do seu ordenado, o digno burocrata por pouco não perdeu os sentidos;

eriçaram-se-lhe os raros cabelos, ergueu-se, e arrastou um móvel, com o

qual barricou a porta.

Depois, prosseguiu nas suas investigações com ardor febril.

Não levaram essas muito tempo: a carteira não continha papel algum, que

pudesse servir de esclarecimento; as folhas, pela maior parte em branco,

só forneceram ao senhor Germinal algumas notas de compras e várias

despesas, escritas com má caligrafia, umas a lápis, outras a tinta.

O viúvo ficou imerso em profunda perplexidade; reflectiu tanto tempo que

os objectos se lhe baralharam diante dos olhos, multiplicando-se

confusamente; a final, exausto por tão diversas comoções, arrecadou a

carteira no fundo de uma gaveta, cuja chave meteu debaixo do

travesseiro, e deitou-se.

Se o sono não chegou, veio em seu lugar o pesadelo; pelas fendas da

janela, pelo buraco da fechadura, ou pela chaminé, insinuavam-se

ladrões, que esquadrinhavam na gaveta com deplorável afinco.

O senhor Germinal, inundado de suores frios, saltou fora da cama, e em

pé, descalço, imóvel no seu traje alvejante, passou o resto da noite a

perguntar a si próprio onde poderia ocultar melhor o seu importuno tesouro.

Ao romper do dia, surgiu-lhe uma ideia. Desarrumou a cama, ergueu uma

tábua do soalho, e por debaixo dela escavou um esconderijo, assaz

engenhoso.

Feito isto, vestiu-se e foi de corrida dar a sua demissão da secretaria,

e fazer valer os seus direitos à aposentação.

À secretaria!... Bem lhe importava agora a secretaria! Só cuidava em

desencantar a família Toucard, e desembaraçar-se de uma aterradora

responsabilidade, em proveito dela.

Outro qualquer julgaria ter feito muito, indo depositar a soma no mais

próximo comissariado de polícia, mas o senhor Germinal não era do feitio

de outro qualquer; na sua escrupulosa delicadeza, considerava-se como

ligado ao morto por um compromisso; tinha sempre presente na memoria

aquele rosto contraído, sentia aquela mão fria apertando a sua, ouvia

aquela voz agonizante a dizer-lhe:

--Entregue-o pela sua própria mão a...

Mas... a quem? A alma, fugindo, levara a chave do enigma. Fosse a quem

fosse: Onésimo dissera «Pela sua própria mão»... e isso era o

bastante para o senhor Germinal não se arredar um passo da vontade

expressa do moribundo.

Pôs mãos à obra sem tardança. Durante muitos meses, viram-no sair

quotidianamente ao romper de alva, para só voltar depois de noite,

estafado, moído e de mau humor. Interrogou o _Almanaque do comercio_,

gastou dez pares de botas nas ruas de Paris, fatigou os ecos da

prefeitura de polícia, por pouco não pegou de estaca em cada uma das

legações estrangeiras, percorreu os arrabaldes, esquadrinhou Versailles

e seus subúrbios, revolveu céu e terra, e contudo não descobriu em parte

alguma vestígios da passagem ou da morada de Onésimo Toucard.

Ora, enquanto as suas pernas funcionavam ao longe, as notas de banco

aboloreciam no buraco, à mercê dos ladrões ou do incêndio; e a

pequerrucha, confiada a uma ou outra vizinha obsequiosa, desaprendia de

sorrir à máscara ferrugenta de seu pai. Um tal estado de coisas não

podia prolongar-se, e o senhor Germinal desistiu enfim das suas

correrias infrutíferas; quebrou o mealheiro, no qual, desde que

enviuvara, ia juntando, soldo por soldo, os elementos de um dote para

sua filha; e com esse dinheiro, deduzido do seu passadio, fez publicar

um anuncio nos jornais... depois dois... depois três... depois vinte...

À medida que o tempo decorria, o senhor Germinal tornava-se mais

frenético, mais nervoso, mais pusilânime. Os noventa e dois mil

francos invadiram-lhe o cérebro, submergindo todos os seus pensamentos.

Tiraram-lhe o sono e o apetite absurdos terrores; paralisaram-se-lhe as

faculdades morais a ponto de não ousar mais afastar-se de casa, e dispôs

as coisas de modo que nada interrompesse o seu cativeiro voluntário.

Primeiramente, matriculou Rosa em um colégio próximo, com a condição

expressa de a virem buscar todas as manhãs, e trazê-la de tarde. Depois,

contratou com uma agência de anúncios para que, até nova ordem, o seu

reclame fosse publicado duas vezes por mês. E feito isto, aferrolhou-se

dentro de casa e entrou de sentinela.

Ninguém o rendeu do seu posto; e aí adquiriu, pouco a pouco, uma doença

singular. Ou fosse porque aquela perpétua expectativa, sempre alerta e

sempre frustrada, tivesse enfraquecido as suas faculdades mentais, ou

porque o contacto incessante do dinheiro desenvolvesse nele

predisposições latentes, começou a manifestar sintomas de avareza.

Achou-se muitas vezes, sem saber como, a mergulhar as mãos, trémulas de

voluptuosidade, no maço das noventa e duas notas de banco, a

amarrotá-las, rindo de prazer ao escutar deliciosamente o seu macio

_fru-fru_... E então, envergonhado de si mesmo, afastava-se de súbito,

fazendo votos sinceros pela aparição de um Toucard qualquer.

Sete anos se passaram assim. Rosa tinha doze, e o colégio já a

enfastiava. Logo que se instalou definitivamente no domicílio paterno, a

sua fisionomia, fresca e louçã, iluminou-se como uma aurora boreal...

Foi uma felicidade para o pobre homem; algum tempo mais de solidão, e a

loucura não tardaria. Contudo, a influência daquela criança adorada não

tranquilizara o senhor Germinal; apenas imprimiu outra direcção às suas

inquietações. Rosa prometia ser extremamente bela, e, de todas as

promessas que as mulheres fazem, é essa a única que geralmente costumam

cumprir. O viúvo admirava nela as feições queridas da sua defunta; tinha

a mesma graça, a mesma afectuosa alegria, a mesma expressão no olhar,

mas também a mesma débil constituição. O pobre pai suspirava, vendo-a

estragar, em grosseiras ocupações, as suas mãos pequeninas e brancas;

empalidecia, observando que o menor trabalho a fatigava.

À força de temer para ela a miséria, acostumou-se gradualmente a

desejar-lhe o impossível... isto é, _dinheiro_. Os seus vagos, instintos

de cobiça pelo que diariamente remexia, aumentaram de consistência desde

que tiveram um fim nobre e elevado. Chegou um momento em que,

contemplando a carteira de Onésimo Toucard, o senhor Germinal dissera

consigo:

--Se o não reclamassem!...

Esta ideia, uma vez encaixada no cérebro do senhor Germinal, alastrou-se

como uma nódoa de azeite. Tudo poderia obter para Rosa com noventa e

dois mil francos: ar, sol, espaço, prazeres e saúde... tudo

simultaneamente lhe passou pela imaginação fascinada. Em vão se

desculpava para com a sua consciência, murmurando:

--É uma simples hipótese!... A hipótese era já uma esperança, que fizera

mudar de causa a sua impaciência e agitação; tanto estremecera de

júbilo, quanto estremecia agora de receio, à vista de um estranho;

cessara de publicar anúncios, e cada dia, que passava, era riscado no

almanaque, como um perigo de menos a evitar.

Três anos decorreram ainda, e foram terríveis! A pensão do senhor

Germinal, até então suficiente para um velho e uma criança, não o era já

para duas pessoas; as suas economias tinham desaparecido na educação de

Rosa e nos gastos da publicidade. Mais de uma vez, deitado na sua

enxerga, a braços com a febre ou com a fome, sentindo através do tabique

sua filha a chorar, tivera horripilantes tentações, relativas a esse

dinheiro, que dormia inútil ao alcance da sua mão. Contudo não tirou

dele a mínima parcela, nem sequer trocou uma nota.

Decorridos dez anos, aquele homem probo, escrupuloso, austero até ao

superlativo, chegou, de concessão em concessão, a formar o seguinte

raciocínio:

«Fiz tudo quanto era humanamente possível para descobrir os herdeiros de

Onésimo: o meu dever está cumprido. Restituir esta soma ao estado, que

não carece dela, seria um absurdo. Acaso não quereria a Providencia

compensar-me dos meus sofrimentos, proporcionando-me os meios de me

utilizar destes valores? Portanto, sou livre de dispor deles.»

Conspirava consigo mesmo para fazer uma surpresa a sua filha: seria uma

casinha branca, no campo, um retiro florente, onde Rosa gozasse enfim

dos ócios e distracções, de que até então fora privada a sua mocidade.

Mas, logo que pegou nas notas com a intenção formal de se apossar delas,

empalideceu e deixou-as cair no fundo do esconderijo. Parecia-lhe que ia

cometer um roubo.

«Não é de urgência, pensou o velho. Rosa tem apenas quinze anos... É uma

criança nobre e corajosa, que soube criar-nos recursos e trouxe um pouco

de bem-estar à nossa pobre casa. A verdade é que não nos falta o pão!

Esperemos mais dois anos... Doze anos é um prazo razoável...»

Todavia, é provável que o fosse adiando, de ano para ano, detido sempre

pelos mesmos escrúpulos, se Rosa lhe não houvesse confessado o seu amor

por André Sauvain.

Aquela noticia afligiu o senhor Germinal, mas acabou com as suas

hesitações. Convenceu-se de que existia uma séria paixão, de parte a

parte; estudou o pintor, afeiçoou-se-lhe, e, meio desesperado, meio

satisfeito, resolveu conceder-lhe a mão de Rosa, com os noventa e dois

mil francos, no dia em que expirasse o décimo segundo ano do depósito.

Foi desse modo que, entre perpetuas angustias, com a consciência

oprimida e o espírito torturado, o senhor Germinal dotou e chamou noivos

aos dois jovens.

Vimos já como surgira nesse momento Pedro Toucard, qual outro

Desmancha-prazeres.

XIV

Ao centro do quarto, que escondera um tesouro sob o seu pavimento,

estavam sentados Pedro Toucard e o senhor Germinal, um em frente do

outro, na atitude de duas esfinges que tentassem adivinhar-se.

Ambos estavam pálidos, comovidos e agitados.

Os olhos do provençal luziam como carbúnculos; torcia a barba a ponto de

quase lhe arrancar os cabelos.

--Como íamos dizendo, começou ele, os parentes ou herdeiros de Onésimo

Toucard foram rogados, com instância, para, a bem de seus interesses, se

dirigirem ao senhor... O que, segundo creio, significa que em sua mão

existem alguns fundos, os quais devem pertencer àqueles, não é assim?»

O senhor Germinal hesitou. Pensava na sua querida Rosa, na felicidade

que lhe prometera e que ia roubar-lhe. Verdade era que podia ainda

negar o depósito, e desembaraçar-se de Toucard, mentindo; mas... não se

é honrado impunemente!

--Sim, senhor, respondeu com voz sumida.

Pedro Toucard reteve um grito de alegria. Respirou estrepitosamente e

aproximou a cadeira.

--Queira continuar, disse ele; sou todo ouvidos.

--É ao senhor que compete falar, replicou o pai de Rosa, analisando

tacitamente os andrajos de Pedro, que lhe inspiravam pouca confiança.

--Em que grau era parente de Onésimo Toucard?

Uma vermelhidão, cor de tijolo, invadiu as faces crestadas do provençal;

abaixou os olhos: dir-se-ia que se travava nele uma luta interior.

Contudo, após alguns segundos de reflexão, recobrou o seu habitual

desembaraço e respondeu:

--Em grau muito próximo; sou seu irmão, e o único representante da

família, hoje extinta.

--Então... porque não deu sinal de existência durante doze anos?

--A razão é simples. Há doze anos que vagueio do outro lado dos mares, e

apenas quatro meses que habito em Paris, aonde nunca tinha vindo; enfim,

ignorava a morte do meu pobre Onésimo, e só esta manhã a soube.

--De que modo?

--Por um dos seus anúncios.

--Há cinco anos que os não publico!...

--É possível que o pedaço de jornal, em que o encontrei, datasse dessa

época... Mas não percamos tempo com bagatelas. A quanto monta a herança?

--Não calcula o seu valor? perguntou o senhor Germinal.

--Aproximadamente... talvez. Meu irmão era sócio da minha casa

comercial; em 30 de Abril de 1842, liquidámos, partilhando os lucros,

que se elevavam a... cerca de duzentos mil francos. Se Onésimo morreu em

8 de maio, devia ter em caixa de oitenta a noventa mil libras...

--Foi em Paris que se efectuou a partilha?

--Não, em Liverpool.

--Nesse caso, quando seu irmão faleceu estava em França, havia quatro ou

cinco dias apenas?

--Um ou dois, se tanto.

--E o senhor?

--Eu, a 8 de Maio, embarcava em Liverpool e fazia-me de vela para

Calcutá, sem pressentir que nesse mesmo dia Onésimo esticava a canela em

Versailles.

--Como sabe que foi em Versailles que ele morreu?

--Presumo-o; ele tinha tenção de lá fixar a sua residência...

O senhor Germinal ergueu-se? passeando no quarto com agitação.

--Senhor, disse ele, todas as suas respostas combinam com os documentos

que possuo, mas desculpar-me-á se exijo provas mais palpáveis da sua

identidade...

--Ora essa! disse o provençal; é muito justo. Felizmente trago sempre

comigo os meus papeis, visto não ter domicilio certo, nem fechadura

segura...

E dizendo isto, a mão do aventureiro mergulhou no andrajoso casaco e

reapareceu à superfície, carregada com uma carteira grande e sebenta.

Logo que para ela lançou os olhos, o senhor Germinal ficou inteiramente

convencido. Aquela carteira era irmã gémea de outra, que por tanto tempo

namorara! o mesmo feitio, as mesmas dimensões, e os mesmos caracteres,

outrora dourados, indicando o nome do seu proprietário: Pedro Toucard.

--Aqui tem, em primeiro lugar, a minha certidão de baptismo, disse o

provençal; eis aqui, também, diferentes passaportes; e enfim, duas

cartas de Onésimo... Conhece-lhe a letra?

--Conheço, respondeu o senhor Germinal, examinando as duas missivas.

Eram curtas; tratavam unicamente de negócios e tinham a assinatura de

Onésimo Toucard. Ambas as cartas começavam por estas palavras: «Meu

querido irmão...»

O pai de Rosa abriu uma gaveta, tirou de dentro a carteira do morto, e

comparou a letra dos apontamentos com a das cartas. Não podia

conservar a sombra de uma dúvida.

--Senhor, disse ele ao provençal, cujos olhares impacientes revistavam

todo o quarto, como procurando descobrir onde se escondia a herança,

reconheço-o por irmão e herdeiro de Onésimo Toucard. Só me resta...

--Entregar-me a herança, interrompeu Pedro, ofegante. Desencante-a

pois... meu bravo!

--Permita-me que, primeiro, lhe conte de que morte desgraçada seu irmão

pereceu.

Ora!... ora!... ora!... é inútil. Não percamos tempo precioso!

--Entretanto...

--Que morresse de bexigas, ou tísico, pouco importa. O positivo é que

morreu; agora vamos às contas...

--Mas, disse Germinal admirado, preciso de fazer-lhe saber como, e

porquê, ele me confiou as suas últimas vontades.

--Pois sim, diga lá! Mas seja conciso, com mil bombardas!

O senhor Germinal foi tão conciso, quanto parecia desejá-lo o seu

interlocutor.

--Pobre Onésimo! disse Pedro. Acabou mal; lamento-o, mas... era um

grande traste!

Porém, notando o espanto e estranheza, que produzira no velho uma oração

fúnebre tão pouco fraternal, apressou-se a acrescentar:

--Que quer! Nas famílias numerosas, é raro deixar de haver... há sempre

algum tratante... Mas tratemos agora...

--Agora, disse o velho suspirando, vou entregar-lhe os valores do defunto.

E, proferindo estas palavras, tirou do bolso as notas do banco e

depô-las sobre a mesa, uma por uma.

A cada macete de dez mil francos, o rosto de Pedro coloria-se um pouco

mais.

--Noventa e dois mil francos! exclamou ele afinal, ébrio de alegria.

Viva a França! e vamos à Bolsa! Com a breca! farão bem em ter cuidado

comigo, lá na Bolsa!... Se, daqui a seis meses, não possuir dois

milhões, consinto em que me enforquem!

O senhor Germinal ficou impassível e pensativo ante aquela exuberância

de júbilo. Para ele estava consumado o sacrifício...

Pedro bateu-lhe no ombro.

--Não lhe farei a injuria, disse ele maliciosamente, de oferecer-lhe uma

recompensa...

O senhor Germinal abanou a cabeça.

--Tanto mais, continuou o manhoso velho, que os interesses deste capital

devem ter produzido uma continha menos má...

--Os interesses!... observou o pai de Rosa; que quer dizer com isso?

Estes valores são os próprios que recebi em depósito; não saíram de

minha casa!

--Farsista! Então não os empregou em acções, em rendas, em obrigações,

em terras, ou em inscrições sobre hipoteca?... em suma, não os fez

render de alguma forma?

--Não, senhor.

--E guardou-os doze anos, assim... num buraco?

--Certamente!...

--Ignorava então, meu camarada, que um capital se duplica ao fim de

catorze anos?

--Não o ignorava. Mas acaso tinha eu o direito de dispor do dinheiro de

outrem?

--Maganão!... disse Pedro, sorrindo com ar incrédulo.

--Senhor! exclamou Germinal, rubro de indignação, esquece que, se acaso

eu fosse um tratante, nada me impedia de apropriar-me da soma toda.

--Isso é verdade... respondeu Toucard.

E, olhando em torno de si, acrescentou:

--E com efeito, este quarto não é dos mais luxuosos... Decididamente, a

virtude é uma bela coisa!

E, enrolando as notas com evidente voluptuosidade, continuou:

--Visto isso, considero-me seu devedor, e quero pagar...

O senhor Germinal desdobrou um papel e apresentou-o a Pedro.

--O que é? perguntou este último.

--É a conta circunstanciada do que desembolsei: despesas de anúncios,

aluguer de carruagens, etc. Total: mil quarenta e dois francos e

cinquenta cêntimos.

--Com mil amarras!... Ora vá passear, mais as suas contas de boticário!

exclamou Pedro; atirando fora o papel. Toma-me por algum sovina?... Aqui

tem o maço, tire o que quiser.

O senhor Germinal endireitou-se com altivez.

--Não aceitarei um soldo, sequer, a mais do que se me deve! disse ele.

Pedro Toucard insistiu vivamente. O senhor Germinal resistiu com

firmeza. Cansado de lutar, o provençal cedeu, porque estava ardendo por

ver-se dali para fora, e esboçar nova especulação. Reembolsou-o dos mil

quarenta e dois francos e meio, e tomando nas suas as mãos do velho,

disse-lhe:

--Meu bom amigo, eu sou espertalhão, e conhecedor de fisionomias. Gosto

de ler na sua, posto não seja das mais belas... O senhor é teimoso como

um burro, mas é o homem mais honrado que tenho conhecido. Isto não

ficará assim, palavra de Pedro! Havemos de tornar a ver-nos! Adeus.

Recitado este discurso, enterrou com um murro o chapéu na cabeça, enfiou

as notas nos bolsos das suas calças esfarrapadas, e, radiante, com os

olhos a cintilar, e a boca entreaberta por um franco sorriso, desceu

a escada cantarolando.

O senhor Germinal seguiu-o, um pouco pálido ainda, mas desta vez

tranquilo... e quase alegre também!

Havia exactamente doze anos, que o desastre se dera.

XV

À ténue sombra do microscópico jardim, através das moitas de liláses,

distinguiam-se dois rostos juvenis, que não tinham vontade de rir.

Rosa e André, conchegavam-se um ao outro, como duas aves ao aproximar da

tempestade. Lendo o anúncio, tinham quase atinado com a verdade, e as

últimas palavras do velho retumbavam ainda aos seus ouvidos.

Entretanto, não bastavam palavras para desarreigar as firmes raízes da

esperança, e Rosa encostando a loura cabeça no ombro do seu prometido,

tranquilizava-se ouvindo-lhe a voz altiva é varonil repetir:--Amemo-nos,

apesar de tudo!

Quando o senhor Germinal passou, precedido do triunfante provençal,

envolveu o lindo par num olhar terno e contristado.

--Olhe, disse Pedro parando; ali está o que nos rejuvenesce trinta anos,

meu amigo!...

O senhor Germinal carregou o sobrolho e, esforçando-se por mostrar-se

severo, bradou:

--Rosa!

--Meu pai? respondeu a jovem, estremecendo.

--Vá já para casa.

Ela ergueu-se com tímida lentidão e, oferecendo a fronte aos lábios de

seu pai; fitou-o com os seus grandes olhos negros, cheios de súplicas e

de amargura.

--Vai para casa, minha filha, emendou mais meigamente o velho. Preciso

de falar com André.

Rosa afastou-se sem voltar a cabeça. Não queria que lhe vissem as lágrimas.

--E o senhor, balbuciou Germinal, meu querido senhor Sauvain...

Pedro Toucard, que torcia a barba sorrindo, recuou de um salto, como se

tivesse pisado uma serpente; decompôs-se-lhe a fisionomia e, segurando o

senhor Germinal pela gola do casaco:

--Que nome foi o que acaba de pronunciar? articulou ele, passado um

momento.

--O do senhor Sauvain.

--E quem é que se chama assim?

--Este mancebo.

O provençal saltou por cima da sebe de murta, e achou-se em face de

André, que mediu com olhar inflamado.

--Sauvain!... Pois o senhor chama-se Sauvain?

--Certamente!...

--Nasceu perto de Granville?

--É exacto.

--E seu pai era marinheiro?

--Era.

--A bordo da _Ariana_, que se perdeu com a carga e tripulação... há

vinte anos?

--Sim, mas porque acaso?...

--Com mil amarras! com mil bombas! com mil raios! gritou Toucard,

tornando-se carmesim.

E como sufocasse, arrancou a gravata, rasgou o colete e atirou fora o

chapéu.

--E sua mãe? continuou ele ofegante.

--Minha mãe...

--Não receberia ela?...

--O quê?

--Quero dizer... sua mãe... Onde está sua mãe, senhor?

--Minha mãe morreu. Conheceu-a, porventura?

--Eu! exclamou o provençal, nunca a vi.

--Entretanto...

--Não, já lho disse; nunca a vi na minha vida!

--Então teve relações com meu pai?

Toucard não respondeu. A sua agitação atingiu proporções assustadoras.

--Não! não! mil vezes não! balbuciou ele, tropeçando no chapéu sem

reparar; tenho de fazer fortuna... c'os diabos! Mais tarde não digo

que... mas presentemente...

Interrompeu-se, e vendo ali perto um balde com água, destinada

provavelmente à rega do jardim, mergulhou dentro dele, por muitas vezes,

o seu crânio calvo, que ficou vermelho e fumegante.

Depois de refrescado pela imersão, sacudiu-se como um cão molhado, e

sentou-se num banco para tomar alento.

O senhor Germinal e André observavam-no com crescente estupefacção.

Nas Cinzas · 第 3 / 7 段