arganaz desengonçado!
--Obrigadíssimo pelo elogio, disse o pintor.
--E, a final de contas, se não casasses com ele... nem por isso adoecerias!
--Perdão, meu pai, respondeu Rosa resolutamente, morreria!
--Está bom! basta! interrompeu o velho assustado; já mo disseste... E
foi mister essa ameaça, continuou ele entre dentes, para me resolver...
Não disse mais, soltou um suspiro, apalpou as notas do banco através do
usado pano da sobre-casaca, e passados poucos segundos exclamou de súbito:
--Vamos! abracem-se diante de mim!
O pintor não se fez rogar, e as faces de Rosa tingiram-se de vivas cores.
--E trabalhe cada um por sua parte, prosseguiu o senhor Germinal. A
riqueza de minha filha não deve impedi-lo de dar ao pincel, senhor Sauvain.
--Antes duplicará as minhas forças, lhe tornou André; quero ganhar um
dote igual ao de Rosa, e... ganhá-lo-hei!
--Então vá para o seu _atelier_, e volte depois para jantar connosco. À
sobremesa fixaremos... sim, talvez possamos fixar o dia da cerimonia!
Quando acabou de proferir estas palavras, que visivelmente lhe custaram
a soltar dos lábios, ouviu-se no pátio o rumor de uma violenta altercação.
Duas vozes masculinas, uma das quais era a da senhora Poussignol,
discutiam calorosamente:
--Mas aonde vai o senhor?... uivava a barbuda porteira.
--A casa de um dos seus inquilinos, já lho disse, com mil demónios!
respondeu um baixo profundo, de timbre metálico e pronúncia meridional.
--Qual inquilino?
--De certo o menos tolo.
--Isso não basta... Como se chama ele?
--Não sei.
--Ora essa!...
O senhor Germinal, ao ouvir o som de um órgão humano, mudara de semblante.
--Quem está aí? perguntou ele, quem é esse homem?... que quer?...
Vamo-nos embora, não digam que estou em casa!
Os olhos rolavam-lhe assustados nas órbitas; os membros tremiam-lhe, os
queixos batiam um no outro a seu pesar.
--Mas, disse Rosa, não pode ser para nós, meu pai; não conhecemos pessoa
alguma!...
--Vamo-nos... vamo-nos embora! repetia o velho.
--Que tem ele?... perguntou o pintor em voz baixa.
--Sempre esta doença nervosa! respondeu a jovem. A presença de um
desconhecido transtorna-o completamente! Veja quem é, meu amigo... e
sossegue-o.
André subiu a um banco, e olhou por cima da sebe. Viu a senhora
Poussignol, calando baioneta com a vassoura, diante de um individuo de
pequena estatura, largo de ombros, e de pernas arqueadas.
--Vamos! Rua! vociferava a digna mulher; falhou-lhe o plano; para cá vem
_barrado_, freguês! Safe-se quanto antes, quando não grito «ó da guarda!»
--Não faça tanta bulha, tiasinha, cale-se aí!... Com mil amarras!... Por
quem me toma, você?
--Por um velho larápio, que tratava de se encaixar cá em casa! Ah, seu
grande velhaco! julgava que o não viam, quando passou diante da minha loja?
Uma gargalhada sonora acolheu a conjectura da porteira, e o desconhecido
fez uma pirueta, apertando as ilhargas. Resultou deste movimento
achar-se em frente de André, cujo rosto admirado aparecia por cima da
sebe de buxo.
--Ah, ah! exclamou ele; eis o meu homem! E, caminhando direito ao
pintor, estendeu-lhe a mão, gritando:
--Como passa, querido amigo, cujo nome ignoro! Estou encantado pelo
encontrar!
Depois, vendo o senhor Germinal e sua filha, tirou o chapéu e
cumprimentou-os com galantaria.
--Desculpe-me, senhor; peço mil perdões, menina, se os interrompo na sua
conversação... São apenas duas palavras que tenho a dizer ao meu jovem
amigo. Permitam-me que lho roube por um segundo...
--Perdão, senhor, disse André, estupefacto; a quem tenho a honra de falar?
--Que diabo!... pois não me reconhece?
--Confesso que não.
--Ora olhe bem para mim, com a breca!
André olhou. A sua verificação deu em resultado: uma cabeça calva, um
nariz cor de violeta, uma comprida barba de duas pontas, um casaco
sórdido, umas botas acalcanhadas, e um chapéu pardo. Tudo isto,
iluminado por dois olhos buliçosos, brilhantes e cheios de malícia,
despertou-lhe pouco a pouco a memoria...
--Então não se recorda? perguntou o recém-chegado.
--Ora espere!...
--Em 24 de Dezembro, à noite... na véspera de Natal...
--Ah!... sim!...
--Defronte da vidraça...
--De uma casa de pasto, concluiu o pintor. Estou às suas ordens, meu bravo!
Durante este tempo, o senhor Germinal, convencido de que o objecto da
visita lhe não dizia respeito, voltara a si do seu estranho pavor.
Esfregava lentamente as mãos, soprando como uma baleia ferida. Rosa
contemplava Pedro Toucard.
--É um novo conhecimento, disse-lhe baixinho André, sorrindo-se; esta
noite lhe contarei como o adquiri.
E despediu-se do pai e da filha.
--Senhor... Menina... disse Pedro Toucard, saudando os dois, tenho a
honra de apresentar-lhes os meus respeitos... Linda criatura, com mil
amarras! observou ele a André, seguindo-o; e o pai parece bom homem...
X
Às vessas de certo romano, que desejava que os seus compatriotas
tivessem todos uma só cabeça, para lha cortar de um golpe, André Sauvain
desejara, nesse momento, que o género humano tivesse um só peito, para
poder estreita-lo amigavelmente nos braços.
Portanto, fez boa cara e bom acolhimento àquele indigente desconhecido,
cuja companhia teria apreciado mediocremente noutra ocasião.
--Irra!... mancebo, disse-lhe o provençal enquanto atravessavam o pátio,
pode gabar-se de me ter dado que fazer! Há quatro meses que corro Seca e
Meca por sua causa.
--Como assim!... Julgava ter-lhe dito onde morava?
--Nem o nome, nem a morada... No momento em que lhe perguntava uma e
outra coisa, zás! partiu como uma bala!
--Sim, recordo-me... Uma pessoa a quem desejava falar...
--Farsista!... A verdade é que lhe desagradava o papel de meu credor, e
queria tacitamente dar por saldada a minha dívida.
--Ora... uma bagatela!
--Uma bagatela, que me impediu de morrer de fome. Felizmente vi-o ontem
à noite; reconheci-o à luz de um bico de gás, quando atravessava para a
rua dos Mártires; movia-se como uma locomotiva! Corri atrás de si, mas
as minhas pernas já não são setas, e cheguei justamente a tempo de
receber com a sua porta na cara. Não eram horas para visitas. Tomei o
numero da casa, e eis-me aqui!
--Seja bem vindo, disse Sauvain, introduzindo-o no _atelier_.
Pedro Toucard entrou, com o chapéu à banda, bamboleando-se e retorcendo
com afã uma das pontas da sua barba grisalha. Começou reembolsando o
pintor da módica soma que lhe devia; e depois, sentindo-se mais à
vontade. instalou-se como se estivera em sua casa, e tornou-se de uma
familiaridade cada vez maior.
Num volver de olhos, inventariou a mobília e permitiu-se fazer um
trejeito de capitalista extraviado num casebre. Em seguida passou a
examinar vários esboços; fez careta a uns, e sorriu para outros com
ar aprovador. Depois, voltou muitas telas encostadas à parede, e
descobriu sucessivamente uma, duas, três, quatro cabeças de mulher...
sempre a mesma, com olhos negros e cabelos louros.
--Bravo! exclamou ele.
--Que temos? interrogou André descontente.
--A virgem do jardim! Sim, senhor!... Não é digno de dó, meu amigo...
porque naturalmente é correspondido!
--Senhor, disse o pintor, um pouco irritado pela demasiada
sem-cerimónia, estou com pressa; tenho um negócio urgente, e se lhe não
sou já preciso...
--Não vale zangar!... replicou Pedro Toucard. O senhor agrada-me, com
mil bombardas! e é por isso que me interesso no que lhe diz respeito.
Além de que, fui sempre curioso, tagarela e indiscreto... Ninguém se
corrige nesta idade, com todos os diabos!
--Tanto pior! observou-lhe André.
--Pelo contrário, tanto melhor! Tenho apego aos meus defeitos; estou
habituado a eles, há sessenta anos, e ser-me-ia penoso deixa-los.
André sorriu-se; e o velho, vendo isto, foi buscar uma cadeira.
--Quer que lhe conte a minha historia? perguntou ele.
--Para quê?
--Ora essa!... para que me conheça bem. Embora por sorte mofina me veja
reduzido a um ente miserável, velho e pobre, sou com tudo um patusco
aproveitável; posso servir para alguma coisa... principalmente a quem me
prestou serviços. À falta de dinheiro, tenho ideias: a felicidade de um
homem depende, algumas vezes, do maltrapilho que lhe pediu esmola.
--Pelo que toca à minha felicidade, lhe tornou André, outra pessoa se
encarregou dela. É negócio concluído. Porém... não lhe agradeço menos a
boa intenção, meu bravo!
--Vejam lá como são os rapazes! Este julga-se completamente feliz,
porque vai desposar a sua bela das tranças doiradas!
--Como o sabe?
--Que grande mistério! Qualquer caraíba o teria adivinhado, só de os ver
ao lado um do outro. E os quatro retratos dela? Aposto que foram feitos
de memória!... Mas, meu caro... a felicidade não consiste só numa
afeição, aguda ou crónica; a felicidade, não obstante o que têm dito os
trovadores, prefere tectos doirados a barrotes... assim!
E Pedro Toucard designava o tecto, que aranhas centenárias haviam ornado
com bambinelas de seu lavor.
--Dar-se-á acaso que o senhor tenha a veleidade de doirar os meus?
perguntou André, rindo.
--Presentemente não, respondeu o provençal, contemplando
melancolicamente as suas velhas botas esburacadas. Falta-me o metal
necessário... Agora estou muito em baixo!... Mas tenho diante de mim o
futuro; ainda hei de _trepar_, creia! É a minha sina! E, quem sabe?...
talvez que eu algum dia lhe compre quadros.
André contemplou com admiração aquele sexagenário, falando do futuro, na
idade em que geralmente só se pensa no repouso.
--Nada o faz desanimar! disse o pintor.
--E tenho boas razões para isso. Repito a pergunta: Quer que o inicie na
minha historia?
--Venha ela!
O velho exumou da algibeira um cachimbo, curto e enegrecido, e logo em
seguida um cartucho de papel, contendo um resto de tabaco.
--Pode a gente fumar em sua casa?
--De certo!
Pedro Toucard acendeu o seu queima-goelas, po-lo ao canto da boca,
escarranchou-se numa cadeira, torceu em cada mão uma das pontas da sua
longa barba, e contou por miúdo o que nós vamos contar... por grosso.
XI
Pedro viera ao mundo sob a influência de uma estrela buliçosa, e trouxe
a bossa da especulação. Em pequeno, o pensamento de ser rico meteu-lhe o
diabo no corpo; e o sobredito diabo nunca mais de lá saiu. Foi este que
obrigou Pedro, ainda criança, a trocar umas vacas, de que lhe haviam
confiado a guarda, por um pesado fardo de bufarinheiro. Havia ali, na
sua opinião, o gérmen de uma casa de comércio. Mas Pedro foi agarrado;
Pedro levou uma boa surra de pancadas; e Pedro... recomeçou as suas
operações em mais larga escala.
Dentro em pouco, o seu furor pelo negócio, a necessidade de agitação, o
seu carácter irrequieto e extravagante, tornaram-no um ente
insuportável. Seu pai, humilde lavrador, que nada percebia de indústria,
pediu-lhe que escolhesse uma carreira e partisse quanto antes. Pedro
quis ser marujo. Aos doze anos embarcou como grumete, com a cabeça
recheada de projectos, de cálculos e de empresas futuras. Levava consigo
um pacote de peões, de bolas, de fitas e de missangas, que obtivera
barato dos seus camaradas, e que contava impingir muito caro aos
rapazotes negros, ou peles-vermelhas, que encontrasse na viagem.
Com a ajuda das chicotadas, Pedro depressa se fartou da sua profissão.
Na primeira paragem do navio, desertou sem dizer «água vai». Não tinha
as pernas muito compridas, mas a ambição forneceu-lhe botas de sete
léguas, e lançou-se a galope atrás da fortuna.
Desde então, a sua vida não foi mais do que uma carreira desenfreada. Só
à sua parte, viajou mais do que dez Judeus errantes e vinte ingleses
spleenaticos. A terra e o oceano pareceram-lhe pouco; esperava encontrar
maiores extensões. Contudo empregou em percorre-los todos os meios de
locomoção conhecidos, e inventou alguns novos. Vagueou durante cinco
anos a pé, a cavalo, em burro, em dromedário, em piroga, em paquete, a
nado, em diligência, pela posta, em patacho... traficando, vendendo,
comprando, trocando, especulando em trigo, em vinho, em peliças, em
azeite, em peles de castor, em negros e negras, etc. Engraxa-botas em S.
Francisco, mercador de estofos em Esmirna, banqueiro em Génova,
expositor em Londres, mestre de dança em S. Petersburgo, caçador em
Arkansas, vendedor de ópio em Cantão, fotografo em Madrid, livreiro em
Leipziek, e... um tanto corsário por toda a parte, exerceu cem
profissões, pela maior parte honestas, e outras... um pouco menos.
Dez vezes alcançou a cega deusa e a deixou fugir: chegou a possuir cem
mil escudos, que um desastre reduziu a quinhentos francos, os quais
depois se tornaram em duzentas mil libras, para mais tarde recaírem em
zero... E sempre assim, durante meio século!
O acaso, que tomara por bússola, brincava com este homem, como um
colegial com uma pela, lançando-a a grande altura, ou mergulhando-a no
fundo de um poço. Porém ele comprazia-se no meio destas alternativas,
que lhe proporcionavam uma febre perpetua de inteligência. Tão ardente
no prazer, como tenaz no lucro, levava uma existência faustosa nos seus
dias felizes; dava festas gigantescas, semeava oiro às mãos cheias, e
saciava-se de todas as sensualidades. Mudava a sorte, vivia de uma côdea
de pão e de um cachimbo de tabaco, não se importando de servir de criado
àqueles mesmos que recebera à sua mesa.
Desconhecia preconceitos e falsas vergonhas: respirava só pelas comoções
corrosivas da perda e do ganho.
Entretanto fixara um limite à sua futura riqueza, e dissera consigo:
«Não irás além!» Queria dois milhões. Por varias vezes conseguiu o seu
fim; mas... vinha um incêndio, uma falência, uma revolução, um
cataclismo qualquer, que tudo absorvia. Acontecera-lhe um dia seguir uma
caravana, carregada por ele de perfumes, marfim, ébano e pedras
preciosas. Pelo caminho calculou os lucros prováveis dessas mercadorias,
e como achasse o seu ideal muito excedido, jurou que seria aquela a sua
última tentativa. Eis senão quando, uma nuvem de salteadores árabes
ataca a caravana e rouba-a, deixando Pedro quase morto no meio dos seus
servos estrangulados. E Pedro, sempre filósofo, recomeçara pacientemente
a sua teia despedaçada.
Assim rolando, de quedas em triunfos, e de vitórias em derrotas, sentiu
chegar os sessenta anos; e, como aventureiro já saciado de fadigas,
opulento à medida dos seus desejos, singrava enfim para as terras da
pátria. Porém a tempestade arrojara o navio sobre a costa; dispersara os
seus marinheiros e aniquilara a carregação, arruinando Pedro pela décima
ou duodécima vez.
Um brigue estrangeiro recolheu-o das ondas, meio-morto, atado a uma
tábua, louco de sede e de dor, fantasiando ainda no seu delírio uma
sociedade colossal de comercio, que imaginava ter fundado. Apenas pôde
sair do hospital, para onde o tinham transportado, a braços com um
tétano, dirigiu-se para Paris. Foi lá que André Sauvain o encontrou
andrajoso e faminto.
--E, desde esse dia, que mais empreendeu? perguntou o pintor, que
escutara esta narrativa com crescente interesse.
--Um pouco de tudo, respondeu Pedro Toucard. Com o que me restava do seu
dinheiro, comprei fósforos e revendi-os, apanhei pontas de charutos,
serrei madeira, abri as portinholas das carruagens, fui moço de recados,
escritor público, contratador de bilhetes de teatro, professor de
esgrima, dei serventia a pedreiros, etc.; enfim, tal como me vê, possuo
já alguns centos de francos, que me produzirão avultados lucros. Vou
alugar uma tenda; venderei seja o que for... seja a quem for: e, quando
tiver mil francos de meu, visto-me de novo e vou jogar na Bolsa.
--Com que fundos?
--Com os da minha inteligência, respondeu Pedro Toucard, batendo na
testa com gesto inspirado. Que grande habilidade jogar com capitais!...
Com a breca!... se me emprestassem agora cinquenta mil francos, num mês
teria ganho o quádruplo!
--Ou ficaria sem nada...
--Qual história! só os tolos é que se enterram, e eu tenho olho vivo...
Aposto que ainda me verá milionário!
--Irra! disse Sauvain maravilhado daquela rara audácia, já é ter
confiança em si!
--Porque tenho sorte... e ideias, replicou Pedro Toucard. Sou o amante
preferido da fortuna: abandona-me às vezes, mas volta sempre para junto
de mim... As ideias vêm-me, como aos outros o ar que respiram; uma
palavra proferida pelo primeiro transeunte, o latido de um cão, uma
tabuleta, a forma de uma nuvem, a musica de um realejo, tudo me gera uma
ideia... Eis porque eu tenho confiança!...
Assim falando, o provençal enchera o cachimbo; e como o seu cartucho de
tabaco ficara vazio, desenrolou-o maquinalmente, e alisou-o sobre o joelho.
--Olhe! acrescentou ele, mostrando o papel; quando me acho em embaraços,
leio um anuncio, abro um jornal, ou o primeiro impresso que se me
depara... este, por exemplo, e zás! uma ideia me...
Interrompeu-se de súbito, e o seu olhar ficou fixo no pedaço de papel,
que lhe estava servindo para demonstração...
--Com mil amarras! exclamou ele, com voz tonante e erguendo-se de chofre.
--Que foi?... interrogou o pintor, erguendo-se também. O velho fez-se
amarelo, logo carmesim, depois branco como um sudário, e por fim agarrou
no pulso de Sauvain, e apertando-lho com força, balbuciou:
--Que numero é o desta casa?
--Oitenta e sete.
--Rua dos Mártires?
--Sem dúvida.
--Há cá alguém que se chame Germinal?
--Há, sem dúvida!... respondeu André estupefacto.
--Aonde mora?
--Aqui... ao lado... Era com ele que eu conversava há pouco!...
--Com mil raios! bradou Pedro.
E, num salto de jaguar, atravessou o _atelier_, abriu a porta, correu
para o pátio, e chegou ao jardim, seguido do pintor, ofegante e
desnorteado.
Rosa e seu pai conservavam-se ainda sentados no mesmo lugar.
--É o senhor Germinal a quem tenho a honra de falar? perguntou Pedro
Toucard.
O senhor Germinal, sufocado por esta pergunta à queima-roupa, respondeu
apenas com o seu eterno raspadouro.
--Sim senhor, disse Rosa.
--Muito bem!... continuou o provençal, pois eu chamo-me Pedro Toucard e
sou...
Não teve tempo de dizer mais. O pobre senhor Germinal soltou um grito
abafado, a ferrugem da sua pele transformou-se em verdete, agitou o ar
com os braços, e caiu pesadamente sobre o banco.
--Meu pai!... exclamou Rosa assustada.
--Que aconteceu? perguntou Sauvain na maior. ansiedade.
--Aconteceu... que tudo está desfeito, articulou o velho com voz
estrangulada; casamento, amor, futuro... foi tudo um sonho!
Separem-se... pois nunca serão um do outro. Depois, dirigindo-se
bruscamente a Pedro Toucard, que o observava com impaciente curiosidade,
disse-lhe:
--Siga-me, senhor. E afastou-se, mal podendo suster-se nas pernas,
seguido pelo provençal, não menos agitado do que ele.
Rosa e André entreolharam-se com terror: dir-se-ia que caíra um raio ao
pé deles. Por um movimento espontâneo, a jovem refugiou-se nos braços do
seu amado André.
--Separar-nos!... murmurou ela.
--Quem o ousaria!... rugiu, o pintor.
--Mas... que significa isto, meu Deus?! André, no auge da desesperação,
meteu loucamente os dedos pelos cabelos banhados em suor... depois,
abatido, deixou pender a cabeça sobre o peito. Nesse instante, descobriu
por terra o pedaço de papel, que ocasionara esta peripécia. Levantou-o.
Era um pedaço de jornal, em que se distinguiam ainda alguns fragmentos
de anúncios.
O pintor leu o que se segue:
«Aos herdeiros ou parentes do senhor Onésimo Toucard, falecido em 8 de
maio de 1872, roga-se com instância, para seu interesse, que se dirijam
a M. Germinal, rua dos Mártires, n. 87.»
XII
É indispensável agora, para clareza desta narrativa, que volvamos alguns
anos atrás.
Em 1842, num esplêndido domingo de primavera, o senhor Germinal, então
empregado numa repartição publica, dirigiu-se para o caminho de ferro da
margem esquerda, e subiu para o comboio com alegria, difícil de descrever.
Durante toda a semana, o senhor Germinal consultara o barómetro; através
da espessa névoa, que embaciava os vidros das janelas, interrogara cem
vezes o aspecto do firmamento; cem vezes os seus companheiros de
trabalho o haviam surpreendido a olhar fixo para o céu; cem vezes
perpetrara erros nas contas; cem vezes, enfim, esboçara na mesa, com a
ponta da raspadeira, árvores, campanários, carneiros e choupanas. Tantas
distracções num empregado-modelo, atraiçoavam algum projecto,
amorosamente acalentado; e, se bem que o senhor Germinal fosse
taciturno e pouco comunicativo, todos sabiam qual era esse projecto: ia
no próximo domingo a Viroflay.
Nesta época, o senhor Germinal roçava pelos seus quarenta e sete anos, e
havia vinte e cinco que vinha, trezentas vezes por ano, assentar-se à
mesma hora, na mesma cadeira, à mesma secretária, com as mesmas mangas
de lustrina, em frente dos mesmos indivíduos, e recebendo o mesmo
ordenado, cujo quantitativo era de cento e trinta e três francos e
trinta e três cêntimos.
O senhor Germinal passava, e com razão, entre os seus chefes e colegas,
por um homem de medíocre inteligência, mas trabalhador assíduo, de
inteira probidade e inflexível honradez. As suas ideias, somadas,
ofereceriam por certo um diminuto total, mas eram rectas, firmes e
alinhadas, como uma tábua de Pitágoras. Quando à noite se deitava,
exausto de fadiga, com os dedos inteiriçados de segurar a pena, e o
espírito baralhado de algarismos, não pensava sequer em meter-se nas
questões sublimes da politica, religião, moral ou filosofia, que fazem
divagar nas alturas o pensamento dos que nada têm que fazer.
Limitavam-se os seus esforços de imaginação à saudade de sua falecida
mulher, a um impulso de ternura por sua filha, e a um plano de trabalho
no dia seguinte; depois, o sono envolvia-o nas suas pesadas dobras e
levava-o ao mundo do esquecimento. Nunca um fermento de inveja, nem uma
dessas veleidades maldosas, que mancham a consciência, o agitava sequer
por um segundo; adormecia puro e acordava inocente.
Aquela existência de ostra pegada ao rochedo, fará compreender o
extraordinário alvoroço, que sentia o senhor Germinal com a perspectiva
de uma digressão, por mais curta que fosse. Entretanto, era por ele
classificado em segundo lugar o gozo material, que o esperava,
respirando o ar puro do campo e dilatando a vista pelas colinas
vicejantes; o que mais o deleitava era o prazer próximo de beijar sua
filha, que tinha então cinco anos, e de apreciar, por intuição própria,
os progressos que ela fizera em saúde, estatura e vigor, durante os
dezoito meses, em que deixara de a ver.
O senhor Germinal aproveitara dois dias de feriado, na Páscoa, para
desposar uma rapariga... um pouco mais pobre do que ele. Era de natureza
humilde e tímida, como a dele, mas delicada, fraca e demasiado franzina
para resistir ao sopro gelado da miséria. Morreu de parto, deixando-lhe
uma filha, com as suas feições, e a quem o empregado pôs o nome de Rosa,
em memoria dela.
A criança era débil; a sua vida parecia depender de um sopro. O senhor
Germinal procurou e descobriu uma camponesa de Viroflay, moça e robusta,
que levou a pequerrucha banhada das lágrimas de seu pai, e prometeu
restituir-lha, dentro em pouco, esperta, robusta e traquinas. E com
efeito, cumpriu tão bem a sua palavra, que o senhor Germinal, achando-a
de dia para dia mais rechonchuda e chilreadora, resolveu deixá-la mais
tempo em casa da ama, e mesmo vê-la só de longe em longe, porque a
despesa das viagens abria sensível brecha no seu modesto orçamento.
Eis o motivo porque, no dia a que nos referimos, o senhor Germinal se
sentia ligeiro como um pássaro. Entreabria-lhe os lábios, cor de
ferrugem, um franco sorriso (sorria ainda nessa época...) e o ruído de
raspador, produzido pelo esfregar das suas mãos, confundia-se com os
silvos da locomotiva. O vento incomodava os seus companheiros de viagem;
ele porém acolhia-o com delicias, pensando que aquela mesma brisa teria
talvez acariciado os faces de sua filha. Bem que o comboio deslizasse
veloz sobre os seus cordões de ferro, acusava-o de lentidão, e vinte
vezes olhou para fora, desconfiado de que o horizonte, por pirraça, se
afastava dele.
Entretanto ia depressa! e tão depressa, que nenhum dos viajantes se
recordava de semelhante celeridade.