Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o

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Notas de transcrição:

Este texto é uma transcrição do original de 1875, tendo-se

actualizado a grafia para a variante europeia da língua

portuguesa (pré-acordo ortográfico de 1990).

Foram corrigidos alguns erros tipográficos evidentes.

NAS CINZAS

POR

GONTRAN BORYS

TRADUÇÃO DE

L. C. M.

C & C

LISBOA

EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª

RUA LARGA DE S. ROQUE, 100

NAS CINZAS

POR

GONTRAN BORYS

Imprensa nacional--1875

NAS CINZAS

POR

GONTRAN BORYS

TRADUÇÃO DE

L. C. M.

LISBOA

EMPRESA EDITORA, CARVALHO & C.ª

RUA LARGA DE S. ROQUE, 100

I

Se perguntásseis hoje diante de dez pessoas quem é André Sauvain, nove

delas achariam ridícula a vossa ignorância, e a décima não hesitaria em

soltar uma gargalhada. A ninguém é permitido desconhecer uma gloria

nacional: entretanto ninguém conhecia há sete anos aquele nome, tão

celebre agora.

Nessa época, ainda André Sauvain não era um pintor ilustre. Ocupava, ao

cimo da rua dos Mártires, um _rez-de-chaussée_, tão próprio pela

humidade a criar cogumelos, como pela escuridão a inspirar tragédias. A

habitação do jovem pintor limitava-se a uma só casa, que acumulava as

funções de sala, quarto de cama, _atelier_ e refeitório. E nem por isso

ele passava pior do que se residisse em sumptuoso palácio.

André era um rapaz vigoroso, com músculos de aço, esbelto como um

vime e magro como um gato em Abril. O seu porte altivo, bigode castanho

e retorcido, pêra aguçada, cabelo alourado e abundantíssimo,

assemelhavam-no a alguns retratos de Van-Dyck por forma, que não

causaria estranheza ver pender-lhe ao lado uma espada. E com efeito a

blusa rafada, que trajava, ia tão bem à sua figura nobre e elegante,

como um gibão do melhor veludo.

Numa bela e clara manhã de Dezembro André Sauvain acabava de retocar um

_Faust au sabbat_: recuando um pouco para melhor avaliar o efeito do seu

quadro, e erguendo por acaso os olhos, foi testemunha de um prodígio.

Através das vidraças do seu quarto descobria-se parte de uma casa

esplendidamente iluminada pelos raios do sol. Aquele prédio era o

constante pesadelo do pintor. Segundo os caprichos da atmosfera, ora

reflectia execrável claridade no _atelier_, ora lhe interceptava

completamente a luz. André lançava-lhe pela milésima vez a sua maldição,

quando de repente viu abrir-se uma janela, e aos ouvidos do mancebo

chegaram as últimas notas de uma cançoneta entoada por voz fresca e

harmoniosa: não tardou que a essa janela se mostrasse uma cabeça de

mulher, inclinando-se para fora. Aquela cabeça arrancou ao pintor um

grito de admiração e, bem que nunca a tivesse visto, reconheceu-a

imediatamente.

Há no Louvre uma miniatura de Fragonard, do tamanho de uma peça de 40

francos, que é a imagem de uma menina de quinze anos, rosada, loura, com

a risonha expansão da inocência a iluminar-lhe o rosto. A boca é uma

cereja: deseja-se colhe-la com os lábios. A brisa de maio brinca

travessa com os bastos anéis dos seus cabelos doirados. Nos seus olhos

negros, de extraordinária viveza, crepita a jovialidade. É a primavera,

é a alegria, é a mocidade em flor. Pois, embora o não creiam, esse rosto

encantador, emoldurado pela janela que se abrira fronteira ao _atelier_

de Sauvain, era o original daquela miniatura, feita havia mais de cem anos.

A jovem vizinha do pintor tinha na mão um grande ramo de violetas, e

voltando-se para falar a alguém, sorriu-se. Mas que sorriso! Um minuto

antes eram bem lúgubres os pensamentos de André Sauvain. Na confusão de

monstros, de demónios, lobisomens e bruxas, de que povoara o seu quadro,

entrevia amargamente no espírito o símbolo da sua existência atribulada.

Estava triste como a morte. Porém a gentil visão dispersara os

fantasmas, como um facho luminoso dissipa as trevas. André sentiu o

coração bater-lhe com força desusada. Era de júbilo. Teve uma vertigem e

baixou os olhos, enquanto o ardente sangue dos seus vinte e cinco anos

fazia retumbar-lhe aos ouvidos, em grande orquestra, a arrebatadora

sinfonia da esperança.

Foi apenas um relâmpago. A visão desaparecera; a janela fechou-se. E

André, querendo continuar o seu trabalho, não pôde, porque lhe tremiam

os dedos; abandonou a palheta, e foi sentar-se a um dos cantos da casa

com os cotovelos fincados nos joelhos e a cabeça entre as mãos. A noite

veio surpreende-lo assim. Então cada objecto assumiu para ele um aspecto

fantástico; parecia-lhe que, em volta de si, aromatizava o ar um suave

perfume de violetas; aplicou o ouvido, e julgou perceber o eco longínquo

de uma cançoneta; olhou para o seu quadro, e só viu nele um turbilhão de

cabeças louras, iluminadas por grandes olhos pretos.

E por toda a parte, no centro da casa, por detrás dos modelos de gesso e

dos cavaletes, nas paredes nuas, entre as vigas do tecto, no meio das

telas esboçadas, afigurava-se-lhe sempre ver um sorriso de anjo, um ramo

de violetas, uns olhos negros e uns cabelos louros.

--Será assim que nasce o amor? perguntou André a si próprio, tomando-se

o pulso. Depois, levantou-se aterrado:

--Se amo, estou perdido! exclamou ele. Vamos jantar!

II

Nesse tempo (refiro-me ao ano da graça de 1853) André Sauvain, bem que

fosse proprietário, não jantava todos os dias. Verdade é que a _sua

propriedade_ não valia sessenta escudos, e não lhe rendia sequer um

franco! Consistia numa casa velha e pequena, num recanto da Normandia;

uma ruína musgosa e enegrecida, sempre abalada pelos ventos da costa.

Mesmo assim, André podia te-la vendido a algum pescador, mas nem a mais

horrível miséria o determinaria a tal: apegara-se-lhe o coração àquele

pardieiro pelas raízes profundas, a que chamam recordações; tinha lá

nascido e lá morrera sua mãe.

Além da humilde casinha de seus pais, André Sauvain só possuía... a sua

pessoa: nem um parente, nem uma amante, nem um amigo, nem um cão! Devera

ter começado por dizer: nem um soldo! O resto depreendia-se por

simples ilação. Vivia de esperanças e de privações; frugal alimento, que

o conservava sadio e alegre. Tanto de verão como de inverno,

levantava-se com a aurora, pintava até à tardinha, e aproveitava-se da

escuridão para percorrer Paris em todas as direcções; depois recolhia

extenuado de fadiga, deitava-se às apalpadelas, para economizar azeite,

e dormia a sono solto. Estas caminhadas pelas trevas restabeleciam-lhe a

circulação do sangue e entretinham-lhe a actividade do cérebro. De

noite, as ruas inspiram os cismadores. Parece que aquelas grandes

artérias, onde circulam sem cessar correntes humanas, estão saturadas de

fluidos intelectuais, e que as ideias se exalam do solo em vapores

invisíveis...

Aqueles prodigiosos passeios eram as únicas extravagâncias de André.

Habitava Paris havia doze anos, e nunca quisera saber de outros

divertimentos, que não fossem os museus e as bibliotecas. Do teatro

abstinha-se ele com extremo cuidado, reflectindo em que um bilhete de

plateia lhe cerceava dois dias de subsistência.

Além de que, alimentava na mente uma quimera, como dantes se mantinha um

_terno_[1] à loteria; consistia ela em reunir alguns centos

de francos, não só para reparar o famoso pardieiro natal, mas ainda

para cobrir com modesta lousa a pobre viúva, que repousava a um canto do

pequeno cemitério da aldeia.

Eis porque, nessa tarde, fugindo do seu _atelier_, onde perigosas

imagens lhe perturbavam o espírito, exclamou: «Se amo, estou perdido! O

amor e o trabalho são dois inimigos mortais. Não amemos!»

Ora, prometer não amar equivale a jurar que não nos cairá uma telha

sobre a cabeça. André reconheceu-o um pouco tarde: a sua imaginação

corria à desfilada, e ele já não era senhor de a fazer parar! Jantou em

três garfadas e com três suspiros, segundo o uso imemorial dos

namorados; depois saiu e caminhou ao acaso, com o olhar desvairado e o

aspecto carrancudo. Mas, por mais que fizesse, sentia sempre aquela boca

rosada, os olhos negros, os cabelos louros e a canção alegre a

prenderem-se-lhe ao coração com as suas garras de diamante.

Era véspera de Natal. Em toda a linha dos _boulevards_ humildes barracas

de madeira branca irradiavam o pálido clarão das suas lanternas sobre as

suas vizinhas fronteiras, magníficas lojas, cintilantes de gás e de

doirados. Por entre esses dois cordões de luz cruzavam-se torrentes de

ociosos passeantes. Aquele ruído, aquela claridade, o perpassar da

multidão buliçosa e festiva, forçaram André Sauvain a baixar à terra.

Voltou a si, como um dormente que desperta em sobressalto, e, poucos

minutos depois de poder reconhecer o lugar em que estava,

surpreendia-lhe o olhar ainda distraído, e vivamente lhe excitava a

atenção, uma fisionomia na verdade singular.

III

Defronte da vidraça de uma casa de pasto agrupava-se, como sempre, uma

multidão curiosa e vítima do suplício de Tântalo.

No centro desse grupo via-se um homem de quase sessenta anos, de baixa

estatura, mas grosso e exibindo um busto de atleta.

A longa barba, espessa e grisalha, caía-lhe sobre o peito, onde se

bifurcava em duas pontas; tinha o nariz tuberculoso e avermelhado, ao

passo que a pele macilenta, tisnada e enrugada das suas faces, estava

coberta de manchas lívidas. Não obstante o termómetro marcar dez graus

abaixo de zero, cobria-lhe a cabeça um chapéu pardo, cujas abas moles e

cansadas já não tinham cor apreciável; uma sobre-casaca no fio, quase

erma de botões, mal lhe protegia o tronco contra os rigores da

temperatura, e os braços mergulhavam até aos cotovelos nas

algibeiras de umas velhas calças de ganga.

Estava ali; boquiaberto e imóvel. Os seus olhos, brilhando ávidos sob

grossas pálpebras vermelhas e lacrimosas, pareciam querer saltar das

órbitas para devorar os tesouros gastronómicos perante eles expostos:

perdigotos recheados de trufas, terrinas misteriosas, salsichões

enormes, lagostas escarlates sobre ramos de verde salsa, carpas do Reno,

cujos lombos prateados vergavam sob pedaços de gelo... tudo o tentava, e

as suas ventas dilatadas aspiravam com força as emanações culinárias que

saíam pelos ventiladores.

De repente André viu-o empalidecer e vacilar; mas não tardou que o

desconhecido cobrasse animo e mil impressões rápidas transpareceram

sucessivamente no seu rosto extraordinário. Foram elas: a raiva

concentrada, um sofrimento agudo, o cinismo descarado, e um embaraço

tímido. Passou a mão curta e cabeluda sobre os seus olhos, deslumbrados,

mais ainda pela atracção dos comestíveis do que pelas luzes. Depois

estudou, uma a uma, com angustiosa atenção as figuras que o rodeavam

inclinadas para a vidraça. Por fim franziram-se-lhe os lábios num amargo

sorriso, e o seu olhar tornou-se carregado. Tirou lentamente o chapéu, e

soltando um suspiro, enxugou o crânio calvo, onde brilhavam grossas

bagas de suor. Foi então que descobriu André Sauvain, o qual, parado

a pouca distância, o observava com crescente interesse. Vendo-se

espiado, o velho franziu as negras sobrancelhas, e fugitivo rubor lhe

coloriu o pergaminho das faces; com um gesto indiferente e irónico,

tornou a pôr o chapéu no alto da cabeça, e balanceando-se à moda dos

marinheiros, disse-lhe num tom em que transparecia a contrariedade:

--Então, mancebo, que temos? Serei porventura um fenómeno? Julga-me

empalhado?

Sauvain estremeceu ao som daquela voz concentrada, metálica, e mais

notável ainda pela sua acentuação provençal muito pronunciada.

--Desculpe-me, senhor, balbuciou André um pouco atrapalhado. Não tive

intenção de o ofender.

--Com mil bombardas! assim o creio. Então julgou conhecer-me, heim?

--É a primeira vez que o vejo!

--Outro tanto não digo eu, murmurou o velho, cujos olhares penetrantes

examinavam André dos pés à cabeça; parece-me tê-lo encontrado algures...

ou ao senhor ou a alguém muito parecido consigo!... Em Roterdão, suponho

eu... ou em Calcutá... talvez na Filadélfia?...

--Nunca me afastei tanto de Paris, disse André.

--E eu venho cá pela primeira vez. E portanto evidente que me enganei.

Mas então que fazia aí, em êxtase diante da minha pessoa?

--Vou confessar-lho francamente, respondeu Sauvain; sou artista, e a sua

fisionomia interessou-me.

--Artista! Percebo agora. Na verdade eu devo ter uma cabeça de

Sócrates... ou de sátiro, disse o desconhecido rindo. Mas o riso

extinguiu-se-lhe logo numa contracção nervosa; tornou-se mais pálido, e

segurou-se, para não cair, ao ombro do moço pintor.

--Mau! continuou ele com voz fraca, as minhas endiabradas pernas querem

deixar-me... Ajude-me a sentar em qualquer parte... pois sinto que vou

para o fundo.

André, muito inquieto, amparou-o até ao mais próximo banco e sentou-se

ao pé dele.

--Não é nada, disse o velho... uma vertigem... isto vai a passar...

Com efeito, pouco a pouco pareceu recuperar as forças. Depois de alguns

minutos de silêncio, fincou os cotovelos nos joelhos, tomou em cada mão

uma das pontas da sua longa barba, e fitando André Sauvain, com o seu

olhar manhoso e ousado, disse-lhe bruscamente:

--Não receia comprometer-se, senhor?

--Como?...

--Mostrando-se na companhia de um miserável maltrapilho como eu.

André encolheu os ombros.

--Não tenho preconceitos, respondeu ele, nem tão pouco amigos, ou mesmo

conhecidos: os meus meios não me permitem esse luxo. Além disso não

estou muito mais bem vestido do que o senhor...

--Belamente! retrucou o velho. Jovem, altivo, pobre e artista... é o que

me convém!

--O que lhe convém!... Que quer dizer?

--Ora imagine, continuou o singular personagem, que, desde o pôr do sol,

procuro na turba um homem de coração!... Não vi senão homens gordos e

irrepreensivelmente trajados, raça de que desconfio, e por isso

ficaram-me as palavras na garganta. O que eu tenho a confessar é...

nauseabundo. Nem todos o entenderiam.

--Então o que é? perguntou o pintor. Pode dizer...

--Duas palavras somente, mas que me afogam! Tenho fome.

André sentiu um calafrio no coração.

--Ufa! exclamou o desconhecido, até que enfim soltou-se o segredo! Sim,

mancebo, há três dias que estou em Paris, e há quarenta e oito horas que

não como! Eis a razão por que me encontrou estupidamente pasmado

defronte dessa exposição culinária. Com mil bombardas! é cruel mostrar

assim aos esfaimados tantas coisas que fariam crescer água na boca até a

um homem farto! Contemplando-as, imaginava-me numa noite de festim, uma

noite em que o tinido dos garfos e o _glu-glu_ das garrafas se fazia

ouvir através das janelas... E as cãibras do meu estômago sugeriram-me o

pensamento de que, no meio de um milhão de indivíduos que vão sentar-se

à mesa; seria estúpido deixar-me morrer à fome por não querer dar-me ao

incomodo de articular duas sílabas. Enfim chegou o senhor... a sua

fisionomia inspirou-me confiança... parece-se com... com quem diabo se

parece das pessoas que tenho conhecido?... Não importa, falei... o pior

está passado!

André remexia já nas algibeiras.

--Espere! disse o velho segurando-lhe o braço. Vai oferecer-me

dinheiro... e partirá com a convicção de que o roubaram. Obrigado.

Chamo-me Pedro Toucard; é um nome, que não rima com mendigo, nem com

tratante. Preste-me um serviço.

--Qual?

--Indique-me o meio de ganhar imediatamente alguns soldos. Sou esperto,

aqui onde me vê; e, se não morrer esta noite, tirar-me-hei de embaraços...

--Um meio... imediato? disse André. Não conheço nenhum. Mas aqui está a

minha bolsa, partilhemos.

E tirou de dentro dela duas peças de cinco francos, que era toda a sua

fortuna.

As pupilas do velho iluminaram-se; contemplou aquele metal, como um

amante traído contemplaria ainda a mulher infiel e adorada.

--Dinheiro! murmurou ele. Tinha-me esquecido da cor e do feitio dele!...

eu que o possuí aos montes!... Como é belo o dinheiro!... Mas... não...

não... exclamou ele recuando um passo, não recebo esmolas!

--Não é esmola, é apenas um empréstimo! lhe tornou André.

E, quer ele quisesse quer não, foi metendo uma das peças de cinco

francos na mão calosa do desconhecido.

Àquele contacto, Pedro Toucard, fez-se rubro; as fontes e a testa

inundaram-se-lhe de ardentes gotas de suor, vapor condensado da terrível

luta que nele se travava entre a vergonha e a fome. Os olhos, de um

pardo esverdeado, tornaram-se-lhe húmidos e brilhantes.

--É então a pobreza emprestando à miséria? disse ele com voz rouca,

retendo a mão de André nas suas e apertando-a com energia.

Depois, enxugando as pálpebras com as costas dos seus felpudos dedos,

exclamou:

--Ora adeus! sou um espertalhão, e por mais depressa que a fortuna

corra, apanha-la-hei ainda uma vez. O seu nome e morada, mancebo? André

respondeu apenas com um grito abafado.

Pálido, com o coração palpitante, seguia com os olhos uma mulher,

cujo vestido roçara por ele ao passar.

Aquela mulher, que se afastava, graciosa e ligeira, tinha cabelos louros

sob um chapéu de veludo preto, e olhos negros sob os cabelos louros.

--Não ouve? repetiu Pedro Toucard, desejo saber o seu nome e morada.

Porém o pintor já ia longe; desprendendo a mão das do velho, lançara-se

desesperadamente atrás da sua visão.

Pedro interpretou mal aquela brusca partida; retorceu por muito tempo a

sua barba grisalha, e resmoneou com ar pensativo:

--Uma esmola disfarçada... É pena! Agradava-me este rapaz!... Mas com

quem diabo se parece ele?...

IV

André Sauvain, empurrando vinte pessoas, alcançou e passou adiante do

chapéu de veludo preto, voltou-se timidamente, encomendou a sua alma a

Deus, e ousou enfim encarar... uma decepção!

Não era ela!

--Venho a dar em doido!... disse consigo ao voltar para casa.

Apaixonar-me antes de haver cimentado o meu futuro... é o mesmo que

fazer círculos na água com luíses de oiro. Sou porventura um homem, ou

não o sou? Sou. Pois bem! esquecerei essa criança loura.

Passou a noite jurando não pensar mais nela, e estorcendo-se sobre as

brasas da insónia. Eis a razão por que, na manhã seguinte, quando a

senhora Poussignol, porteira de bigode e com os pés da largura de pratos

sopeiros, invadiu o _atelier_ no desempenho do seu oficio de servente,

achou André empoleirado sobre três cadeiras, espreitando, através do

seu postigo envidraçado, uma janela fronteira, que tinha ainda as portas

cerradas.

--E esta! exclamou ela com voz masculina.

--Quem mora ali? perguntou o pintor.

A senhora Poussignol arregalou os olhos na direcção que lhe indicava o

dedo do seu cliente, aspirou uma pitada de rapé, e brandiu a vassoura

com gesto feroz.

--Aquilo?... disse ela, não é coisa que preste!

André sentiu-se assomado de violenta indignação.

Conteve-se todavia, e montando a cavalo sobre a sua caranguejola de

cadeiras, pediu à porteira que continuasse.

--Dois quartos para a traseira, prosseguiu a senhora Poussignol... uma

mobília de cinco soldos... e duzentos francos de aluguer, compreendendo

a luz... Eis-aí está!

--E ela? interrogou André.

--Ela!... O locatário chama-se Germinal. É um empregado reformado, um

velho avarento, um pelintra, um unhas de fome, que se enforcaria por um

soldo, e que nem é capaz de largar seis liards pelas festas do ano!

--E ela? repetiu André.

--Ela... quem? Ah! sim, a rapariguinha que leva a vida à janela...

Felizmente perde o seu tempo; o senhor André é o rei dos trabalhadores,

e não levantaria o nariz de cima das suas telas para ver a própria

Vénus!

André empalideceu.

--Como!... pois pensa que é por minha causa? Nunca dei por tal.

--Pudera!... Todo entregue às suas pinturas, não repara em mais nada.

Pois há bastantes dias que ela deita o lúzio para cá. Vê-se muito bem lá

de cima o interior deste quarto, e parece que isso diverte a rapariga!...

--Mas quem é ela? exclamou André impaciente.

--Ora! é a menina, Rosa Germinal, filha daquele velho sovina... a figura

de um lacrau, tal e qual! Não pode deixar de ser algum antigo criminoso,

que tenha a consciência carregada de assassínios.

--Que ideia!

--É o que lhe digo. Em primeiro lugar, há onze anos que não põe os pés

na rua! não se mexe de casa, mais do que um caracol da concha... Onze

anos! Que pensa daquilo?

--Será.

--Qual historia! Tem tanta saúde, como o senhor ou como eu, mas tem medo

de ser filado, ora aí está! Só apanha ar num jardim de bonecas, do

tamanho do _Constitucional_ desdobrado... e isso porque o proprietário

lho permite de graça... Até causa dó!...

--E ela? insistiu André.

--A menina Rosa? essa... vai e vem, corre ao mercado, cuida da panela e

remenda os trapos do pai, que, salvo seja! nunca mais comprou coisa

alguma desde o atentado de Ficschi. O vestuário preocupa muito pouco

esse velho papa-moscas. Quando sente passos no pátio, foge para casa a

sete pés; se batem à porta, treme como varas verdes, bate o queixo, e só

se decide a abrir ao cabo de um quarto de hora. Se lhe entregam uma

carta, fica verde como um afogado. Ora diga-me se é possível que um

cristão honrado tenha semelhantes sustos?

--E ela?

--Ela?... Deve confessar-se que é uma criatura bem ageitadinha,

desembaraçada e habilidosa; asseada como um soldo novo, alegre como um

pintassilgo, chilreando desde pela manhã até à noite!... Mas, apesar

disso, ainda ganha os seus quarenta soldos por dia, a fazer flores: o

pai Germinal apenas tem seiscentos francos da pensão de reforma, e, se

não fosse a filha, havia de custar-lhe a passar a vida.

--Mas, disse André, linda como ela é... sim, pareceu-me bonita!...

--Isso lá!... é linda como os amores, o diabrete da rapariga! afirmou a

porteira.

--É verdade, disse André tentando sorrir, e... deve ter muitos

namorados?...

--Ora, pois não! Aquilo tem um juízo... uma seriedade! Quando sai à rua

podia... vadiar o seu bocado, requebrar-se, dar ouvidos a lerias,

mas... não senhor! compradas as provisões e entregue o seu trabalho,

volta para casa de corrida, e só trata de divertir o velho maroto do

pai, que então fica todo contente. Oh!... contente como se nenhum

remorso tivesse a pesar-lhe no estômago!

--Que espécie de gente costuma receber?

--Gente?... em casa dele!

--Sim.

--Receber?... o sr. Germinal!... Essa é melhor! Se ele nem um gato

conhece no mundo inteiro!

--E... os vizinhos?

--Sabe lá sequer quem são! Uma figura nova produz-lhe um ataque de nervos.

--Com a breca! murmurou André despeitado; é com efeito um ente bem

misterioso, e parece-me assaz difícil domesticá-lo!

--Pois se eu lhe digo que é um urso! Não há exemplo de que tenha

dirigido uma palavra, seja a quem for, excepto a mim e à filha. E pelo

que toca a sair do seu buraco, era mais fácil deixar-se fazer pedaços...

Uma pancada, discretamente batida na porta do _atelier_, interrompeu a

senhora Poussignol.

--Entre! exclamou o pintor, deixando-se ficar empoleirado onde estava.

A porta entreabriu-se, e um homem comprido e esguio passou pela

abertura.

--Senhor... disse ele dirigindo-se a Sauvain.

Neste ponto estacou, exalou um suspiro, esfregou as mãos, o que produziu

ruído semelhante ao de um raspador, olhou em volta de si com ar

assustado, e pareceu querer fugir. Reconsiderou porém, e continuou,

articulando as palavras como se cada silaba lhe fosse arrancada da

laringe por um saca-rolhas invisível:

--Senhor... chamo-me Germinal... moro aqui defronte... e venho... na

qualidade de vizinho... fazer-lhe uma pequena visita...

André desabou da sua caranguejola com grande estrondo; o senhor

Germinal, aterrado, lívido de susto, cingiu-se rapidamente com a parede.

--E esta! rosnou a senhora Poussignol no auge do espanto...

V

Se a ferrugem, esse peróxido de ferro hidratado, pudesse tomar forma

humana, escolheria, para encarnar, o individuo que André Sauvain tinha

diante de si.

O senhor Germinal assemelhava-se a um prego colossal, esquecido durante

seis meses em sitio húmido.

Tudo nele estava enferrujado, desde a cadeia donde pendia o seu relógio

de caixas de prata, até aos botões do colete. Cor de ferrugem era o seu

fato cheio de cerziduras e lustroso, à força de gasto, nos cotovelos,

nos joelhos e nas coxas; cor de ferrugem eram as suas suíças

sarapintadas, os cabelos raros deixando a descoberto um pedaço de crânio

amarelado, a pele salpicada de manchas ruivas, os olhos inquietos

orlados de um círculo desbotado como os dos peixes cozidos, os

lábios que deixavam entrever as suas gengivas arruinadas, os dentes que

nelas encaixavam... e tudo enfim! Enferrujada era também a sua voz, e

até se exalava da sua individualidade um tal ou qual cheiro ferruginoso.

Todavia, a despeito da afirmativa da senhora Poussignol, o senhor

Germinal não tinha de modo algum a aparência de um ex-bandido. Era um

homem tímido, humilde, vítima de um contínuo mal-estar e de uma

trepidação nervosa inexplicável, sempre com o ouvido à escuta, e a

atenção alerta. Naquele mesmo momento, em que arriscava um passo

verdadeiramente fenomenal para o seu carácter, parecia obrar sob a

pressão de uma vontade mais forte do que a sua, como um sonâmbulo

recalcitrante, que o magnetizador dirige.

E contudo nunca mortal algum, mesmo o mais sedutor, foi acolhido,

lisonjeado, afagado por um sorriso semelhante ao que André Sauvain

dispensou ao pai da sua... quimera loura.

--Tenha a bondade de sentar-se, senhor Germinal, faça favor!... Que

amável surpresa!... Que excelente ideia teve!... Não sei como

agradecer-lhe...

Pouco faltou para que André ajoelhasse.

O senhor Germinal suspirou, assentou-se com certas precauções, que davam

a entender precisarem de untura de azeite os seus pontiagudos joelhos,

esfregou lentamente os dedos nodosos, uns contra os outros, e disse:

--É hoje dia de Natal, senhor Sauvain! Ouvindo aquela incontestável

verdade, André entendeu dever manifestar alguns sinais de alegria.

--Com efeito é dia de Natal... Uma grande festa!

--Muito grande.

--Felizmente o tempo está bom.

--Muito bom.

--Ainda que bastante frio.

--Muito frio.

Neste período da conversação houve uma pausa de cinco minutos. André

contemplou o senhor Germinal com ar animador, e apoderou-se-lhe de uma

das mãos, que estreitou nas suas de um modo inteiramente filial. O

senhor Germinal baixou pudicamente os olhos, retirou a mão, e com ela

esfregou a outra.

--Parece-me, prosseguiu este, que por ocasião de tal solenidade,

poderíamos permitir-nos... um leve extraordinário...

--É tão curta a vida... respondeu Sauvain, procurando adivinhar a

conclusão a que queria chegar o seu interlocutor.

--Permitir-mo-hei pois, continuou o velho, e como o senhor é meu

vizinho...

O coração de André cessou de bater.

--Tomo a liberdade; articulou o senhor Germinal com incrível esforço,

sim... tomo a liberdade... de o convidar...

--Ora essa! bradou a senhora Poussignol, dando um salto.

--Senhor! exclamou o pintor, meu caro senhor, semelhante honra, um

tal... Ah! senhor, disponha de mim... pertenço-lhe em corpo e alma!...

--Não exijo tanto, disse o senhor Germinal, tirando do bolso um lenço

cor de ferrugem, com o qual enxugou a sua calva amarelada. Peço-lhe

unicamente... o favor de vir esta noite a minha casa... das oito horas

às oito e dez minutos... para passar o serão... modestamente... em família.

--Em família! repetiu André extasiado.

--Então... aceita?

--Se aceito! querido e venerado senhor... com entusiasmo!... com delírio!

O senhor Germinal levantou-se como se fora feito de uma só peça. Parecia

consternado.

--Nesse caso, disse ele em tom lúgubre, até à noite.

--Até à noite, meu respeitável vizinho! modulou André, que interrompeu o

ruído de raspador, apertando nas suas ambas as mãos do senhor Germinal.

Este último encaminhou-se para a porta.

--Haverá, acrescentou com voz abafada... sim... haverá talvez... uma

garrafa de cidra.

--Adoro a cidra!

O senhor Germinal abriu a porta.

--E... sim... creio poder afirmar que haverá também... castanhas.

--Sou doido por castanhas!

A porta fechou-se.

André Sauvain ficou um momento como esmagado pela enorme ventura, que a

Providencia lhe enviava; depois saltou para o meio do _atelier_,

executando a capricho uma sarabanda furiosa, delirante, como de outra

igual não há memoria!

Pelo que respeita à senhora Poussignol, apenas teve forças para repetir:

«Ora essa!»

Paralisada pelo excesso de espanto, deixou-se cair com todo o seu peso

sobre a caixa das tintas, derramando algumas.

VI

Que fada haveria tocado o senhor Germinal com a sua magica varinha? Por

que prodígio aquele misantropo, que durante onze anos não se aventurara

fora de casa, com medo de encontrar o oval de qualquer dos seus

semelhantes, vinha agora convidar um desconhecido para festejar com ele

o aniversario do Natal!

O pintor não se inquietou com esse enigma. Contentou-se com ser feliz.

Às oito horas em ponto, agitou, não sem sobressalto, o fio de ferro que

correspondia à campainha do seu amável vizinho.

André tinha tido o cuidado de aformosear-se. Escovara o fato e vestira

roupa lavada; contudo sentia-se pouco à vontade. Quando Rosa olhou para

ele, fez-se tão branco como a própria camisa, e pela primeira vez

deplorou o comprimento dos seus braços e pernas, das quais não sabia o

que fizesse.

Pelo que toca à jovem, ignoro em que ela pensou, mas o seu lindo rosto

tornou-se da cor do seu nome.

O arranjo de casa do senhor Germinal, não só era totalmente desprovido

de magnificência, mas até deixava adivinhar a presença de um mau

hóspede, a quem chamam pobreza; contudo a ordem, harmonia e limpeza, que

ali reinava, fazia alegrar o coração: cada móvel fora conquistado à

custa de laboriosas vitorias, e ostentava-se no seu lugar, polido,

espanado e lustroso, como convém a um troféu doméstico.

A noite correu deliciosamente. Houve cidra... e houve castanhas!... Para

André houve também certos regalos pouco apreciados pelo vulgo, mas que o

pintor saboreou como artista e como poeta: o prazer dos olhos, a

embriaguez da alma, o delírio da imaginação... são esses a que me refiro.

Porque... ela estava ali, Rosa, a travessa e meiga criança. Para

certificar-se de que não sonhava, Sauvain beliscava os braços de vez em

quando; ora, como apesar disso continuava a absorver por todos os poros

a suave música da sua voz, as escalas argentinas do seu riso e o

_fru-fru_ do seu vestido azul; como a via voejar, qual ave encantadora,

ruborizar-se por ser admirada, e sorrir de prazer corando; como,

enfim, quando ela inclinava a cabeça, o candeeiro iluminava de reflexos

doirados os anéis do seu cabelo, punha em relevo o seu gracioso perfil,

sombreado por pestanas de seda; ou lhe transformava o colo em uma lamina

de puríssimo marfim, André viu-se obrigado a reconhecer que não dormia.

O senhor Germinal ganhou dezassete partidas de _écarté_ ao seu jovem

vizinho... que nem deu por isso!

O pintor não notou também as singulares contracções nervosas do seu

parceiro, que estremecia ao menor ruído exterior, empalidecendo ao

fechar longínquo do portão do pátio, e saltando na cadeira quando a

escada rangia sob a pressão de passos humanos. Bem podia cair um raio

sobre a mesa, que André não repararia em tal!

Às onze horas retirou-se este, cambaleando como um ébrio, posto só

tivesse aceitado um cálice de cidra; e quando Rosa, à despedida, lhe

tocou levemente nas pontas dos dedos, pareceu-lhe que o peito se lhe

dilatava até ao infinito, e que dentro dele se abrigava o céu inteiro,

límpido, azulado, transparente e todo povoado de pombas de cândida

plumagem.

Enquanto a Rosa, depois de André partir, fazendo um colar dos seus

braços nevados ao papá Germinal, cobriu-lhe de beijos as faces

enferrujadas, e gorjeou-lhe ternamente ao ouvido:

«Muito obrigada, meu bom, meu querido, meu adorado papázinho!»

E, feito isto, voou para o ninho.

O senhor Germinal, vendo-se só, esfregou as mãos por tal forma, que

ter-se-ia jurado estar ali um batalhão de marçanos raspando cones de

açúcar. Depois suspirou, bateu na testa e deu algumas voltas pelo

quarto, até que aferrolhou a porta, tapando o buraco da fechadura,

fechou a janela e correu as cortinas. Tomadas estas precauções, arredou

o leito, ajoelhou no sobrado, no mesmo lugar que ocupara a cama,

levantou uma tábua, deixando a descoberto uma profunda escavação, meteu

por ela o braço e exumou um volumoso rolo de papeis.

Aqueles papeis amarelentos, ensebados, velhos e cheios de nódoas, tinham

o selo do banco de França. Eram notas de mil francos.

O senhor Germinal contou-os, recontou-os, espalhou-os, beijou-os, e

depois, acamando-os num maço, contou-os ainda outra vez.

Eram noventa e dois.

O senhor Germinal não devia conservar dúvida alguma sobre o seu numero e

valor, porquanto os verificava trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.

E quando as notas foram de novo recolhidas no esconderijo, e o leito

restituído ao seu lugar, o senhor Germinal consultou o almanaque, e

disse em voz baixa:

«Onze anos, sete meses e dezassete dias... Daqui a quatro meses e meio,

a minha Rosinha será feliz! E eu?... acrescentou ele estremecendo.»

VII

Voltou a primavera. Na da rua dos Mártires havia um jardim, separado do

pátio por uma sebe de buxo; e esse jardim era dividido em vários

talhões, de modo que cada locatário, mediante um pequeno aumento na

renda, gozava de uma pequeníssima nesga de terreno, que podia cultivar a

seu bel-prazer.

André Sauvain não participava dessa regalia.

Mas, quando as folhas, ainda franzidas, começavam a romper do seio dos

rebentos, quando as aves ensaiavam já os seus gorjeios, e o ar

amornecendo espalhava as nuvens sobre um fundo de pálido azul, o moço

pintor visitou quotidianamente o jardim do seu vizinho Germinal.

Havia quatro meses que, por uma série não interrompida de milagres,

André se tornara indispensável ao misterioso velhote; contava-se com

ele, agora, como com um génio do lar.

O pintor não se saciava de admirar Rosa; enlevava-se na contemplação

daquela flor animada, que também ia desabrochando ao calor da primavera.

Uma manhã estavam eles sós no seu paraíso de doze pés quadrados; um raio

de sol, escorregando à beira do telhado, cujas ardósias coloria de azul,

deixara-se cair nos laços que lhe armavam os ramos das árvores e as

novas vergônteas; debatia-se, o imprudente raio, no meio de um folhedo

de verdura; e a brisa, segredando, mofava do seu desatino. Ouvia-se já o

zumbido das abelhas, e delicados perfumes se exalavam das flores, que

tinham aberto as suas corolas durante a noite.

«Eu também, dizia André, possuo um jardim, um velho jardim, que povoam

copadas árvores!... Rodeia a casa onde nasci; muitas vezes ali

passeio... em sonhos. Se lá voltasse, parece-me que cada tronco

estremeceria sob o seu invólucro de musgo, que o lagarto viria alegre

mostrar-se à fenda do muro, que a aranha desceria da sua teia rendilhada

para acorrer jubilosa, que a água do tanque se agitaria de contente, que

a parreira enlaçaria os seus esteios carunchosos, e tudo ali me bradaria

com voz comovida: «Bons dias, André! Sê bem vindo!... Pobre André! já

não és a criança que nós encantávamos; já não tens as faces rosadas, a

fronte límpida, a franca alegria, a gargalhada espontânea de então!

Agora... és um homem! cresceste, lutaste, sofreste; os companheiros dos

teus brinquedos já se esqueceram do teu nome; o camponês, que te trouxe

às costas, passa e não te conhece. Mas nós, amigos humildes como somos,

conhecemos-te ainda, André; deixaste entre nós a melhor parte das tuas

recordações, e irás encontra-las lá em baixo, naquele banco carunchoso,

onde tua mãe te embalava cantando.»

Rosa escutava-o comovida, entrançando um ramo de pervincas.

--Oh! continue, murmurou ela. Amo essa casinha e esse velho jardim.

Quando me fala deles, os seus olhos impregnam-se de infinita doçura;

dir-se-ia que reflectem, como a água límpida de um regato, a imagem

daqueles companheiros da sua infância.

--É porque, junto de si, querida menina, respondeu Sauvain, tudo o que

na minha alma há de sagrado, me sobe aos lábios e aos olhos. Ah! se a

esperança transparece neles tão claramente como as mágoas, dar-se-á

acaso que não descobrisse ainda?...

Não concluiu. Nunca tinha dito tanto!

Rosa, sentindo bater o coração e com as faces em rubor, curvou a cabeça

e esperou. Mas André não teve ânimo para continuar. O silencio apenas

foi perturbado pelos trilos de uma toutinegra, que esvoaçava por

cima dos dois jovens.

--Fale-me do seu jardim? lhe tornou Rosa; conte-me o que ele lhe

confiou, a última vez que o viu.

O sorriso de André extinguiu-se, e a voz tornou-se-lhe mais triste.

--Nesse dia, disse ele; o meu velho jardim estremecia sacudido por

áspera brisa, e quando transpus a porta, as árvores desfolhadas e as

folhas em redemoinho, só me enviaram um gemido, que acolhi com lágrimas...

Rosa ficou pensativa e fitou no rosto de Sauvain as suas pupilas negras

e inquietas.

--Há doze anos que isto sucedeu, prosseguiu o pintor. Tinha eu então

treze, e era aprendiz em casa de um escultor. Recebera da Normandia uma

carta, que beijei; continha apenas estas palavras: «Estou muito doente,

meu querido filho, e queria abraçar-te». Um quarto de hora depois,

partia eu... a pé, por falta de dinheiro. Andei noite e dia, comendo o

meu pão enquanto caminhava, matando a sede na água lodosa dos fossos da

estrada, repelindo o sono, que me fechava as pálpebras... Cheguei enfim!

A porta estava aberta... entrei chamando minha mãe... vi-a imóvel,

branca como a cera, estendida sobre o leito em que eu nasci; ao lado

dela, ardia uma tocha... Caí de joelhos no meio do quarto... sem

gritos, sem lágrimas, sem ideias... Minha mãe estava morta!

O pintor proferiu estas últimas palavras com a voz entrecortada pela

comoção. Rosa pousou-lhe timidamente a mão sobre o ombro.

--Enterraram-na, ao cair da noite, continuou ele... Quando tudo

terminou, retomei o caminho de Paris, trazendo a chave de minha

casa deserta... menos deserta que a minha alma!

Rosa deixara cair o ramo; os anéis louros do seu cabelo escondiam-lhe os

olhos.

--Parece-se com sua mãe, André?

--Não, Rosa; pareço-me com meu pai, um ousado marinheiro que pereceu num

naufrágio, e que eu não cheguei a conhecer... A pobre viúva nada mais

possuía, neste mundo, além do meu afecto: a sua existência decorrera

triste e solitária; éramos pobres; foram-lhe necessários prodígios de

dedicação para educar-me; chamava-me a sua alegria, o seu orgulho, a sua

consolação... E eu tinha por ela um culto apaixonado; por ela jurara ser

rico, respeitado, celebre... Minha mãe morreu!

Rosa estava de pé, um pouco inclinada para o pintor. Este sentiu uma

pérola líquida cair-lhe sobre a fronte.

--Como eu a teria amado! suspirou a jovem.

André pegou-lhe nas mãos, atraindo-a brandamente para si.

--Minha mãe morreu! repetiu ele, e pensei por muito tempo que nada

preencheria o horrível vácuo, que em mim causou a sua falta. Porém,

Rosa, acredita-lo-á?... A par dessa indelével saudade insinuou-se,

pouco a pouco, uma ternura não menos forte, ainda que de outra natureza.

Ao princípio, era apenas um gérmen, um grão dourado que o acaso lançara

no meu caminho, mas... o gérmen cresceu, o grão desenvolveu-se em

planta, e a planta em frondosa floresta, cheia de canções, de murmúrios

e de perfumes!...

André sentiu tremer, entre as suas, as mãos de Rosa. Contudo... ela

sorria através das lágrimas.

--E, se as almas pudessem falar, sabe Rosa o que lhe diria a alma de

minha mãe? Dir-lhe-ia: «Rosinha, também te amo muito... a ti, que me

terias amado! Amo-te, porque és boa, inocente e piedosa; porque o teu

espírito encantador tem mil delicadezas; porque me substituíste nos

sonhos de meu filho; porque és a luz dos seus olhos, a flor da sua

esperança, o enlevo da sua vida! Ama-o, Rosinha... peço-to eu! ama meu

filho, que te ama tanto!»

Rosa volveu para o pintor o seu olhar, radiante e cândido.

--Mas, disse ela com simplicidade, eu amo-o!... Pois não o sabia, André?

Sauvain empalideceu, e estreitou nos braços a donzela, cujas faces

se encenderam em pudico rubor.

Neste momento ouviu-se aquele, já mui conhecido, som de raspador, e à

porta do jardim apareceu o senhor Germinal, mais frio, mais compassado,

mais ferrugento do que nunca.

--Muito bem! disse ele em tom levemente irónico, então quando é o

casamento?

VIII

Os dois namorados ficaram confusos, como colegiais surpreendidos a

furtar maçãs.

--Senhor, balbuciou André, não pense que... Juro-lhe, pela minha honra,

que é a primeira vez que...

--Meu caro vizinho, permita-me que lhe diga que é um parvo! interrompeu

o senhor Germinal, que se assentou sossegadamente, e puxou para junto de

si, ameaçando-a com o dedo, a linda Rosa, um tanto enleada.

Quem, então, ficou de todo embatocado foi o pintor...

Pois supõe, continuou o senhor Germinal, que iria eu próprio meter o

lobo no aprisco, se não tivesse... cá o meu plano?

--Será possível!... exclamou Sauvain

--Tudo é possível, meu caro. E possível que, à força de deitar o nariz

fora da janela, esta criança reparasse em certo vizinho; é possível que

o pai, vendo-a pensativa, procurasse descobrir o que a preocupava; é

possível que, adivinhando ele o que de ordinário atormenta uma rapariga

de dezassete anos, a seguisse à dita janela e aventurasse um olhar por

cima do ombro da filha; é possível enfim, que, por entender que ao longe

se vê mal, aproximasse os dois curiosos para se verem de perto.

André lançara-se de joelhos na areia do jardim: com uma das suas mãos

apertava a dextra escabrosa do senhor Germinal, com a outra levava aos

lábios a alva mão da donzela.

--Rosa!... minha Rosinha! anjo querido! sonho dourado da minha vida!

repita diante de seu pai aquelas palavras, que há pouco me iluminaram o

coração!

--Amo-o; André! disse ela ingenuamente e sem hesitar.

--Não se morre de alegria!... exclamou o enamorado moço.

--E o senhor... meu bom amigo... meu pai... dá-ma?

--Ela ama-o, André! respondeu o senhor Germinal, arremedando Rosa. Mas

levante-se daí, vizinho! há mais janelas e mais inquilinos, no prédio!

André obedeceu: nos seus olhos ardiam fogos de artifício, o coração

tocava-lhe a rebate, e no cérebro sentia ressoar uma banda regimental.

--Escute-me, disse o velho.

--Sou todo ouvidos!...

--Não se vive só de ar: não lhe parece?

--É verdade, infelizmente!...

--Bem. E que trará o senhor para a comunidade conjugal?

André mordeu o bigode, e consultou as nuvens, como se elas estivessem

encarregadas de trazer-lhe barras de oiro e se houvessem demorado no

caminho.

--Trarei, respondeu enfim, o meu amor, a minha coragem, a minha

perseverança e... a minha fé no futuro.

--Muito bem, disse o senhor Germinal. E tu Rosa, que levarás em dote a

teu marido?

--A felicidade, respondeu ela simplesmente, mas com profunda convicção.

--Muito bem, repetiu o velho. Pois, meus filhos, possuís exactamente o

mesmo capital, que eu possuía quando casei.

--E foi feliz, afirmou Rosa.

--Feliz!... redarguiu ele com amargura; feliz, como o ladrão, que se

apressa a dissipar o que roubou, pensando incessantemente nas galés que

o esperam!... feliz, como o condenado à morte, que afoga a razão numa

orgia efémera, e que despertará no cadafalso!... Não sabe, André, quanto

custa ver a mulher que adoramos, uma criatura delicada a quem

desejaríamos entretecer um ninho com todas as maravilhas do universo,

estragando a vista num trabalho ingrato para poder comprar um miserável

vestido de chita!... sorrir forçadamente para nos esconder as pálpebras

avermelhadas pela vigília!... definhar-se; a fogo lento, à mingua de um

pouco de supérfluo!... E tu ignoras também, minha pobre Rosa, o que é

ver entrar à noite um homem desanimado, abatido, prostrado pelo excesso

de um trabalho mecânico, humilhado por superiores insolentes,

escarnecido por subalternos mais bem trajados do que ele, consentindo,

para poder ganhar um salário irrisório, em calcar aos pés a sua

inteligência e a sua dignidade!... Tu não sabes, repito, o que é

sentir-se uma pessoa esmagada por esta luta com a pobreza, prever

próxima a morte, e inclinar-se de noite sobre um berço, murmurando: «Que

será desta criança, quando eu lhe faltar?»

Rosa e André achegaram-se um ao outro, trocando olhares altivos, que

desafiavam a adversidade.

--Ignoram tudo isto, prosseguiu o senhor Germinal; porém eu, que o sei

por experiência própria, jurei sobre o túmulo de minha mulher, morta de

miséria, vítima de privações de toda a espécie!... que nunca daria minha

filha a um homem pobre.

André levantou-se, pálido e com as feições transtornadas.

--A não ser que ela tenha um dote razoável... concluiu o velho.

Os dois jovens ficaram aterrados.

--Oh, meu pai!... meu pai!... exclamou Rosa, quase irrompendo em pranto.

--Senhor! bradou André, trémulo de indignação, se o que diz é um

gracejo... é bem cruel!

Papá Germinal esfregou as mãos, produzindo desta vez o ruído de um

raspador colossal.

--Senhor Sauvain, a quantos estamos do mês?

--Oh!... o senhor está abusando...

--Responda-me por favor: quantos são hoje?

--Não sei!... 8 de maio, creio eu.

--Pois bem, senhor Sauvain; hoje mesmo, 8 de maio de 1854, minha filha

possui um dote.

--Um dote?... eu! exclamou Rosa, incrédula.

--Isso pouco me importa, disse André, o essencial para mim...

--Pelo contrario, deve importar-lhe muito; sem dote, não consentiria eu

que casasse com minha filha. Dou-lha... com noventa e dois mil francos.

Desta feita, o susto sufocou Rosa e André. Pareceu-lhes palpável que o

senhor Germinal trilhava o caminho que conduz a Charenton[2].

Mas o velho, sempre sério, tirou convulsivamente do bolso um grande maço

de notas de banco, folheou-o perante os olhares atónitos dos dois

namorados, e repetiu, acentuando cada silaba: «Noventa e dois mil

francos!» Tome lá, meu genro!

IX

Sauvain abriu desmesuradamente os olhos. Tantos valores nas mãos do

senhor Germinal, cuja miséria igualava a de Job!... O caso era de

natureza a inspirar suposições extravagantes: até Rosa se inquietou.

--Como assim, meu pai! disse ela, tudo isso lhe pertence?

--Pertence-te a ti; pois que to dou.

--E de onde lhe veio tanta riqueza?

A fronte do velho enrugou-se; até aquele momento desenvolvera insólito

desembaraço, mas a esta pergunta de sua filha, reapareceram o seu

constrangimento anterior, o seu balbuciar e timidez habituais.

--De onde me veio este dinheiro!... retorquiu ele; queres sabe-lo?

--Certamente!...

--Das minhas economias.

--Economias!... quando cem vezes nos tem faltado o necessário!... quando

não era raro ignorarmos na véspera se jantaríamos no dia seguinte!

--Minha filha, é bom sofrer no presente para assegurar o futuro.

--Economias!... quando o pai, estando doente, ia morrendo por falta de

remédios e de dinheiro para os comprar!

--Sou avarento!... balbuciou o senhor Germinal, evidentemente constrangido.

--Talvez... Mas explique-me por favor, meu pai, como pôde poupar perto

de cem mil francos, dos seus seiscentos francos de ordenado?

--Há muito tempo que comecei, disse o velho enxugando o crânio; os

pequenos regatos tornam-se em rios, os soldos transformam-se em francos,

e os francos em notas do banco.

--Para isso mesmo era necessário recorrer ao cambista, e há doze anos

que meu pai não põe os pés fora de casa!

--Estás importuna!... articulou o senhor Germinal, que, de amarelo cor

de palha, passou ao amarelo do enxofre; além de que... há mais de doze

anos que tive uma herança...

--Agora diz que o herdou!...

--Foi ainda em vida de sua mulher? perguntou André secamente.

--Ao que parece...

--Entretanto, senhor, acaba de confiar-nos que a mãe de Rosa morreu à

míngua do necessário!...

--Vão para o diabo! bradou o senhor Germinal. Dar-se-á acaso que me

tomem por um ladrão?

--Meu pai!...

--Vizinho!...

--Minha filha... Meu amigo... Não querem o meu dinheiro, não é assim?

julgam-no de origem impura? Pois não o queiram. Reembolso-o, e... basta

de amor... nada de casamento! Voltemos para nossas casas, e não falemos

mais em tal!

--Senhor, exclamou André, afiance-nos ao menos que existe um motivo

grave que o obriga a ocultar a origem da sua riqueza!...

--Nada mais desejam?... Pois bem; é verdade, com a breca! Tenho um

motivo grave... gravíssimo! tenho dez... tenho cem... tenho mil!

O senhor Germinal estava extremamente agitado.

--Porém, continuou André, como o consideramos um dos homens mais

honrados deste mundo...

--Não carecemos saber mais nada, concluiu Rosa.

--Ora... ainda bem! Graças a Deus! exclamou o velho, respirando mais

livremente.

E, enlaçando Rosa nos seus braços, envolveu-a num olhar cheio de

ternura, e beijou-a na testa.

--Criança má!... murmurou ele, estás com muita pressa de abandonar o

teu velho pai?... Porque não esperas cinco ou seis anos?

--E quinze, porque não? resmoneou André.

--Nós não te deixaremos, papá!

O senhor Germinal abanou a cabeça.

Nas Cinzas · 第 1 / 7 段