quinta, era fiel.
Durante o anno que acompanhou Augusta nunca deslisou um passo do caminho
do dever.
Ella ia adiante com o seu annel no seio; elle seguia-a com a
harpa ás costas, avisando-a sempre da aproximação dos trens e dos
cavalleiros.
Ao cabo d'um anno surgiu do tumulo Graça Strech, para nos servirmos da
phrase de Pietro. Feito o reconhecimento, Giovanni entregou-lhe a filha
e os papeis que recebera, e diziam assim:
MANUSCRIPTO DE PIETRO
Estas são as minhas memorias. Dito-as para serem lidas por Augusta ou
seu pae, se é que não morreu, para esclarecimento d'algum d'elles, ou de
ambos, se Deus o permittir.
Felizmente aprendi a escrever, e fui nos primeiros annos da minha vida
empregado n'um escriptorio. Depois morreu-me meu pae: faltou-me o leme.
Desnorteei. Troquei a penna pela harpa. Ha muitos annos que o meu
abecedario é o _do-ré-mi-fá-sol-lá-si_. Ainda assim, apesar do muito que
se soffre n'esta vida errante, agradeço a Deus o inspirar-me que fosse
musico, porque tive occasião de fazer bem.
Finou-se de saudades em viagem a _signora_ Rosina. Era um soffrer que
fazia horror! Não havia palavras que a consolassem, musica que pudesse
distraíl-a! Viajou chorando e suspirando; os olhos nunca ninguem lh'os
viu. Quasi não comeu. Acceitava, depois de muitas instancias, uma agua
de caldo apenas. Diziamos-lhe que era um crime deixar-se morrer; então
bebia. Chegámos a Napoles, e logo a _signora_ me pediu que tratasse de
arranjar albergue, porque se sentia muito doente. Em verdade estava
muito falta de forças. Quiz escrever para Portugal, e não pôde. Mal
pegava na penna descórava muito, e entrava de sentir-se agoniada. Eu,
vendo que semelhantes esforços a estavam debilitando cada vez mais,
pedia-lhe que deixasse isso para quando estivesse melhor. Comecei a
dizer-lhe que não tinha geito metter-se em casa. Depois de repetidas
instancias, annuiu em ir commigo ao anoitecer até á beira mar. Umas
vezes voltava melhor; outras vinha mais doente. No primeiro caso,
principiava a escrever. Escrevia algumas linhas, e já estava fatigada.
No segundo, passava a noite em convulsões, e era preciso não a
desamparar até pela manhã, que só então cahia em somno. Eu ia porém
instando sempre pelos passeios. Ah! mas ver a _signora_ um mez
depois que chegámos a Napoles! Que differença! Emagreceu, descórou,
fez-se velha. Não parecia a mesma! A primeira carta que recebemos de
Portugal causou-lhe tamanha impressão, que eu julguei que morresse. Tive
realmente medo. Chorou, riu, delirou. A carta não dizia porém que o
_signor_ Strech tivesse recebido as nossas. A _signora_ inquietou-se
muito com isto.
--Está lá sem saber nada de nós! disse-me ella. E a mim que me custa
tanto escrever!
--Escrevo eu.
--Nada, não quero, respondeu a _signora_. Hei de eu escrever sempre; bem
póde ser que alguma carta lhe chegue ás mãos...
--É que o exercito é muito grande, e depois anda d'um lado para outro...
disse eu prevenindo novas commoções.
Os soffrimentos da _signora_ havel-a-iam prostrado antes de ser mãe, se
não fosse essa carta que recebeu de Portugal. Beijava-a, relia-a,
apertava-a contra o coração; só n'aquillo achava allivio.
Desde principios de maio de 1810 que a hora da maternidade se annunciava
para breve. Quiz--porque ella tinha o presentimento da morte--escrever
uma longa carta, que devia ter chegado a Portugal em junho, e que com
certeza não foi recebida. Essa carta, cujo conteudo ignoro, era de certo
uma despedida, o ultimo adeus da _signora_. Deixou o papel ainda sobre a
mesa, e caíu contra o leito em grandes gritos. Acudi-lhe, e disse-lhe
que não a tornaria a deixar escrever mais.
--Não me é precisa a sua licença, meu bom Pietro! respondeu ella.
Eu estremeci.
Logo que serenou, fechei a carta, sem lhe poisar a vista, e fui eu mesmo
deital-a ao correio.
No dia 22 de maio, pela manhã, chamei a locandeira, que era piedosa,
porque a _signora_ me disse que n'esse dia seria mãe.
Soffreu doze horas. A final deu á luz uma menina. Quiz ver a filha;
mostrei-lh'a.
--Que se chame Argusta, Pietro, que se chame Augusta, recommendou a
_signora_.
Certifiquei-a de que esse seria o nome de sua filha.
Cobriu o rosto com o lençol, e começou a chorar e a gemer. Por mais que
lhe dissessemos, a locandeira e eu, que procurasse socegar, não o
conseguimos. De noite delirou. Falava do _signor_, Strech, d'Augusta, de
Coimbra, do mar, do annel. A febre era muita. Estáva córada como se as
faces fossem duas rosas: Eu tinha a menina nos braços; a locandeira
amparava a _signora_.
Pela manhã adormeceu. Acordou muito fria. Estava peior. Chamou-se o
doutor, que receitou, e disse que a _signora_ corria grande perigo.
Apesar dos remedios, não aqueceu em todo o dia. Ao fim da tarde, quando
eu estava acalentando a menina para adormecel-a, a _signora_ deu de
repente um grito, sentou-se na cama, disse que não via, tornou a dar
outro grito, e cahiu morta.
N'essa occasião chorava a criança como se adivinhasse que estava orphã.
Fiz um enterro decente á _signora_ Rosina, adquiri, com o auxilio do
consul, o direito de a sepultar n'uma campa perpetua e mandei-lhe pôr um
singelo epitaphio que diz: «Aqui jaz Rosina Regnau.»
Escrevi para Portugal a dar parte do triste acontecimento, que me custou
talvez mais--Deus me perdôe!--do que a morte de meu filho.
Não recebi resposta, nem tornei a receber mais cartas. Quiz partir para
Portugal. Informei-me. A guerra continuava cada vez mais renhida. Que
havia eu de ir fazer a Portugal com uma harpa ás costas e uma criança ao
collo? Demorei-me ainda um anno em Napoles para dar tempo a crear-se a
menina. Foi uma ama dos arrabaldes quem a amamentou.
Eu ia todos os dias vêl-a, e saber da ama se era preciso alguma coisa.
Durante esse tempo não recebi carta do _signor_ Strech. Não obstante,
continuei escrevendo sempre. Sabia-se que continuava a guerra. Não tinha
certeza de que as minhas cartas fossem entregues, e de que o _signor_
vivesse ainda. Maguava-me tão longo silencio, porque emfim eu cada vez
ia envelhecendo mais. Ao cabo d'um anno peguei na menina e na harpa e
comecei a minha peregrinação, porque estava exhausto de recursos. Em
Napoles ha sempre muitos musicos, e a concorrencia prejudicava-me.
Alguns eram velhos, e estavam tão pobres como eu. Além d'isso, fallecera
a dona do albergue, repentinamente, e quando eu sahia entravam os
crédores. Tive pena d'aquella boa mulher que tão caridosamente tratára
da _signora_ Rosina. Como ella sabia do nosso segredo, habituei-me a
consideral-a pessoa de familia. Nunca essa honrada creatura revelára a
ninguem as máguas da mãe d'Augusta. Eu tinha a certeza. O segredo descia
com ella á sepultura. Senti os olhos rasos de lagrimas quando a vi sahir
para o cemiterio e me encontrei com os crédores que entravam. Era
preciso ganhar vida, porque eramos duas pessoas a alimentar, melhor
direi pessoa e meia. Fui andando e tocando harpa. As noites, dormia-as
com a menina ao collo. Se eu era avô! Ás vezes apertava commigo a
tristeza. Lembro-me de que uma noite em Piombino, n'um albergue onde me
recolhi, me deixei entristecer tanto, contemplando a menina adormecida
nos meus braços, lembrando-me ao mesmo tempo da _signora_ e do _signor_,
ambos mortos para ella, que, francamente o confesso, n'essa noite
envelheci dez annos. Todavia, logo que nascia o sol, nascia com elle o
grande lenitivo dos desgraçados: o trabalho. Ia tocando na minha harpa,
e vivia. Uns davam-me esmola por me ouvirem; outros por me vêr com a
menina: muita vez o conheci.
Corri a Italia toda: vi bem a minha patria. Entretanto a menina ia
crescendo. Que espertesa que revelou desde os primeiros annos! O seu
gosto era estar a bulir nas cordas da harpa. E o caso é que ás vezes,
acaso ou não, combinava sons. Lembrei-me de que a menina podia aprender
musica. Seria o seu dote. Bem precisava ella d'algum. Tinha nascido tão
pobre, que me considerava seu avô, a mim, um musico ambulante! Com oito
mezes d'aprendizagem era um gosto ouvil-a! Parecia impossivel!
Dispensei-me de tocar, porque as mãosinhas da menina eram um prodigio!
Bastavam ellas para fazer a colheita que era sempre abundante. Comprei
roupa á menina; trazia-a uma princesasinha. Verdade é que sempre de
luto. Todo o meu fim era obrigal-a a perguntar-me porque vestia de
preto. Queria gravar-lhe bem na memoria os soffrimentos de seus paes,
que extraordinarios foram em verdade. E se fores tu, Augusta, que leias
este papel, e não teu pae, como muitas vezes acredito que serás, mais
uma vez te peço que conserves sempre viva em teu coração a memoria
d'esses dois grandes desgraçados, que mais o foram por tua causa.
Mas que talento o d'essa criança! Ainda outro dia, em Pariz, um rapaz
esculptor pediu o meu consentimento para nos modelar a ambos em gesso.
Não foi por minha causa, não. Eu não tenho orgulho senão de ser avô da
menina... Avô! Sim, pelo coração não posso deixar de o ser. O verdadeiro
avô não lhe quereria mais. Mas o tal esculptor encantou-se com a menina.
Quem se não ha de encantar? Modelou-a. Foi a primeira estatua levantada
em honra da pequenina harpista. A mim modelou-me de certo pelo
contraste. Deu-lhe graça vêr a cabeça d'um velho ao pé do rosto d'uma
criança. E que formoso rosto, _sangue di Christo_! Como eu gostei de ver
a menina assim retratada! Mal diria eu que um mez depois havia de soar a
hora de me separar d'ella. Não me custa deixar o mundo, onde se soffre
tanto; custa-me deixal-a a ella, porque a amo muito. Não quero, porém,
ser ingrato para com Deus. Grande mercê me fez em me não levar quando a
menina era mais pequenina. Egora sinto-me sem forças. Ha muitos dias que
estou doente. Não tenho querido acamar para não entristecer a menina.
Mas hoje, a tal ponto receio por mim, que vou mandar chamar o meu velho
conhecido Giovanni para lhe fazer as minhas ultimas disposições.
Dizem todas respeito á menina.
Giovanni ficará depositario d'ella, que é o meu thesouro. Giovanni é
preguiçoso, mas um verdadeiro homem de bem. Muitas vezes tive occasião
de o reconhecer. Eu não podia fazer melhor eleição. A minha harpa, que
lego á menina, ganhará para os dois, e Giovanni será incapaz de guardar
para si o que pertencer á menina.
Morro n'esta certeza. Giovanni é mais fiel do que um cão.
Estão, pois, saldadas as minhas contas com o mundo, com a _signora_ e o
_signor_. Fiz quanto pude, e me mandava o coração. Da justica de Deus
não me arreceio. Deus bem vê a minha alma.
Torno a repetir que escrevo este documento para que Augusta melhor
comprehenda um dia como eu a amei, ou para que seu pae, se Deus o
resuscitar, porque em verdade o supponho morto, veja que não trahi a
confiança que depositou n'um desconhecido. Se eu morresse em Napoles,
quereria ser enterrado ao pé da _signora_. Não fui o seu guarda
em vida? Continuaria a sel-o depois de morto. Como de certo morro aqui,
porque a minha doença é grave, apenas tenho a pedir que rezem um _Padre
Nosso_ pela minha alma, quando abrirem este documento, que fica em poder
de Giovanni.
_Fechado em Londres aos 25 de novembro de 1815:_
PIETRO.
* * * * *
XXI
Epilogo
Estava escripto no livro dos destinos que não houvesse felicidade
completa para Graça Strech. Encontrava o coração da filha como
verdejante oasis no immenso deserto que a morte de Rosina lhe estendia
deante dos olhos. Era uma gota d'agua para matar uma sêde d'amor que o
requeimou durante sete annos; um só raio de sol que se coava á negridão
em que o destino o havia enclausurado; uma unica flôr a alegrar o
caminho interposto á velhice precoce e á valla que o esperava algures.
Entre lagrimas e sorrisos apertou contra o coração esphacelado o
corpinho flexivel da criança; tinha a filha nos braços e sentia nas mãos
a friagem da terra que cobria a campa da mãe; irradiava-lhe uma aurora
contra o rosto, e os clarões cambiantes espelhavam-se no pranto que lhe
sulcava as faces.
Devia remoçar, e sentia-se velho.
Parecia abrir-se-lhe a porta do paraizo e, em vez de transpôl-a, pedia á
criança que o acompanhasse ao cemiterio de Napoles, onde Rosina jazia.
Giovanni julgou importuna a sua presença, e balbuciou soluçando umas
palavras de despedida.
Graça Strech travou-lhe da mão e disse:
--Giovanni, tu eras o guarda de minha filha; sê agora o companheiro da
filha e do pae.
Giovanni correu a beijar a menina com lagrimas d'alegria nos olhos; era
quasi o cão a festejar o dono.
Partiram.
Ao passar em Pariz, Graça Strech foi com a criança procurar o esculptor
Maubert. Entrou no _atelier_ e disse ao artista:
--Aqui tem o original do seu busto, senhor: é minha filha. Falta o nobre
Pietro: roubou-o a morte. Eu não quiz atravessar a França sem lhe vir
agradecer o serviço que me prestou. Não encontraria minha filha,
se o senhor me não ensinasse o caminho. Que Deus lhe torne em alegrias o
que a mim me deu em consolação. O senhor receberá o premio da sua
benevolencia para commigo lá onde os bons e os desgraçados são
remunerados condignamente.
Seguiram para Italia. Graça Strech estava ancioso de chegar a Napoles,
onde se demoraram oito dias, visitando de manhã e de tarde o _Campo
Santo_. O que elle confidenciou junto á lousa de Rosina Regnau ninguem o
ouviu, nem é dado avental-o, porque ha dôres que só se comprehendem
quando se experimentam. Os labios do pae, ajoelhado á beira da campa,
ciciavam de todas as vezes palavras inintelligiveis; a filha, ajoelhada
ao pé do pae, tinha as mãos postas, e denotava doloroso recolhimento.
Não rezava, porque ninguem a tinha ensinado a rezar. A falta das mães é
tamanha que até Deus a sente! Giovanni completava o grupo, posto o
joelho em terra, e alternando olhares respeitosos entre o pae, a filha e
a campa.
Ao cabo d'oito dias a menina mostrava-se doente. Graça Strech tremeu da
tristeza da criança, e perguntou-lhe o que tinha.
--Faz-me medo estar no cemiterio! respondeu Augusta chorando.
--Tens razão, filha, disse Graça Strech. Mas o que havemos nós de fazer
agora no mundo todos trez?
--Eu toco a minha harpa, tornou com vivacidade a pequenita. O papá toque
a sua guitarra. Giovanni vae comnosco.
Graça Strech não teve animo de recusar.
--Voltemos então a França, alvitrou elle. Eu vi a sepultura de tua mãe;
quero agora vêr o seu berço. Iremos ás Ardennas.
--Mas as Ardennas não são tão tristes como o cemiterio, pois não?
perguntou ingenuamente Augusta.
--Não são, filha, não são. Para tua mãe eram o paraizo d'onde eu a
expulsei.
Foram musicando. Notavam-se entre todos os _virtuosi_, além da maguada
sympathia que filha e pae inspiravam, pela melancolia do seu repertorio.
A guitarra d'elle e a harpa d'ella falavam a linguagem da saudade. Se o
publico as ouvisse no _Campo Santo_ de Napoles, á beira d'um cómoro,
devia comprehendel-as. Estiveram nas Ardennas, onde os camponezes
sahiam em ranchos a ouvil-os. Alguns d'elles, vendo o guitarrista
esquecido a olhar para o cimo das montanhas, com o braço paralysado,
diziam entre si:
--Aquelle homem não tem a razão clara!
Passando-se depois a Pariz, encetaram o viver errante dos passaros.
Graça Strech tirava do amor com que idolatrava a filha as forças com que
vivia, e tinha desvairamentos nervosos se se demorava a contemplar-lhe
as faces pallidas, da meiga pallidez da irmã, e os olhos fundos e
brilhantes.
Quedava-se a olhar n'ella com a fronte banhada de suor frio.
--O papá gosta tanto de me vêr! exclamava a menina ao mesmo passo
carinhosa e amedrontada da sombria physionomia do pae.
--Gosto, filha. É que eu sou pae e desgraçado! Se tu morresses,
enlouquecia.
--Eu não morro. O papá não diga isso, que me faz medo. Deixe-se de estar
a pensar, papá! atalhava a menina. Ó Giovanni, traz a harpa; não estou
contente senão quando a tenho ao pé de mim! O papá não ralhe, porque eu
sou muito sua amiga tambem.
Decorreram os annos. O botão de rosa fez-se flôr. Flôr melancolica como
as que pendem aos sarcophagos.
Graça Strech procurava suavisar quanto lhe era possivel a sua continua
peregrinação. A menina, tomada de febril impaciencia, dizia ao pae que
havia de morrer no caminho tocando harpa. E acrescentava:
--Bem diz o papá: nós somos como os passaros. Elles tambem só parecem
alegres quando voam!
No inverno de 1824--tinha Augusta quatorze annos--começou a soffrer do
peito.
Estavam de novo em Londres.
Augusta queixava-se de dôres vagas; e tossia.
--Fujamos de Londres! disse Graça Strech fitando a filha com atormentado
semblante.
Em França os soffrimentos continuaram, se bem que a menina, para não
desalentar o pae, procurasse animar-se d'uma alegria que por bastante
transparente deixava entrever o disfarce.
Seguiram para Italia. Enflorava-se a formosa do Mediterraneo com as
galas da primavera de 1825.
Caminho de Florença nos ultimos dias de março, colhera-os ao entardecer
a tempestade no caminho. Tiveram de estugar o passo para recolher-se no
albergue de Pistoja. A menina chegou anciada, e afogueada das faces.
Deitou-se logo. O pae, atordoado como ebrio, não a desamparou em toda a
noite. Pela manhã, Giovanni foi poisar a harpa ao pé do catre. Augusta
reprehendeu-o. Disse que no dia seguinte tocaria. Veiu o outro dia,
vieram muitos, e a menina nem queria erguer-se nem ver a sua harpa.
--Então já não és como os passaros? perguntou o pae com voz que mal
podia romper através das lagrimas.
Augusta viu chorar o pae, e disse para Giovanni:
--Os passaros tambem cantam no ninho: vai buscar a harpa.
Tirou alguns sons, e não pôde continuar.
D'ahi a trez dias chamou de novo Giovanni e disse-lhe:
--Hoje estou boa; vae buscar a harpa.
O pae quiz illudir-se ainda: sorriu.
A menina vibrou as primeiras modulações e deixou pender os braços.
Acudiu o pae a chamal-a. Não respondeu. Giovanni agitou-a docemente e
conheceu que estava morta.
A avesinha não pôde completar o seu cantico de despedida.
Desde essa hora Graça Strech affigurava-se idiota. Unicamente pareceu
illuminar-se-lhe por instantes a razão quando disse a Giovanni:
--Meu bom amigo, meu fiel amigo, não tenho mais que te dar: péga n'essa
harpa e deixa-me viver em paz. Adeus, até á hora do resgate.
Giovanni quiz falar. Elle não consentiu; afastou-o com um gesto.
E deixou-se ficar dois dias com a cabeça apoiada nas mãos.
Levavam-lhe de comer: recusava.
O dono do albergue entrou a inquietar-se e acabou por ir a Florença
avisar o consul portuguez. Chamado Graça Strech ao consulado, muito
laconicamente respondeu ás perguntas que lhe fizeram. O consul reputou a
sua tristeza nostalgia, aggravada pela impossibilidade de se transportar
á patria. Deu-lhe um passaporte para Portugal. Graça Strech nem
agradeceu nem rejeitou. Ao outro dia foi o consul a bordo para o
recommendar ao capitão. Faltava Graça Strech. Mandou procural-o ao
albergue. Encontraram-n'o sentado com a cabeça firmada nas mãos.
Deixou-se conduzir ao navio. Subiu á coberta, e sentou-se n'um banco, na
mesma posição. O navio largou; elle não ergueu os olhos.
Passados mezes via-se nas ruas do Porto um estranho homem; andava
arrimado a um bordão, porque coxeava. Alguem, por caridade, o vestira:
trazia sobrecasaca abotoada e chapeu alto amolgado. Realçava sobre esta
pobreza a medalha de prata da guerra peninsular em competencia com um
annel de ouro que brilhava na mão esquerda. Como o vissem apanhar do
chão pontas de cigarros, e manipular um longo rolo de tabaco,
perguntavam-lhe por que não vendia o annel.
Respondia sempre:
--Porque este annel tem mysterio.
E, surdo a outras perguntas, começava tangendo maviosamente a guitarra
que trazia sobraçada. Se alguem lhe dava esmola, recebia-a; jámais a
implorou. Decorridos mais alguns mezes appareceu acompanhado por um cão,
e de tal modo se estimavam, cão e homem, que o cão parecia escutar
attento o guitarrista, e o guitarrista defendia energicamente o seu
companheiro quando era açulado pelo rapazio.
Onde encontrára o guitarrista o cão?
É que o primeiro tivera de pedir hospitalidade ao segundo.
N'um quintal da rua das Fontainhas, logo á entrada, descendo do Jardim
de S. Lazaro, ha ainda hoje um casebre, que n'esse tempo pertencia a
duas pobres mulheres, donas do cão. Ali piedosamente receberam o
guitarrista, que na primeira noite de hospedagem fôra mordido pelo
animal, que dava pelo nome de _Janota_, e se rebellara contra todos os
affagos do hospede. Indignou-se o guitarrista da feresa do seu
companheiro, e lembrou-se d'um facto semelhante que em Portugal
occorrera durante a primeira invasão franceza. Em Abrantes, em 1807, um
official portuguez poupou a vida de Junot; sem embargo, fôra, dias
depois, fuzilado, não sei a que pretexto, por ordem do mesmo Junot.
O guitarrista, applicando ao caso esta recordação da sua
mocidade, começou a dar ao cão o nome do general francez.
Ao cabo d'algum tempo de convivencia, o nome não tinha razão de ser,
porque homem e cão viviam em boa camaradagem; todavia subsistiu. As
proprias donas do casebre se habituaram a dizer _Junot_ em vez de
_Janota_. Em tamanha pobresa permaneceu o guitarrista até novembro de
1857, epoca em que o meu amigo, o sr. Antonio Martins Leorne, teve
casualmente occasião de falar-lhe.
Passava na Batalha quando o guitarrista, sentado nas escadas da egreja
de Santo Ildefonso, estava sendo chasqueado por trez estudantes do
seminario episcopal. Movido de indignação, subiu as escadas, e ameaçou
os seminaristas com denuncial-os ao prelado. Os rapazes debandaram
amedrontados, e o guitarrista levantou-se para agradecer ao sr. Leorne.
Pelas breves palavras que trocaram, conheceu este cavalheiro que estava
ali um lucido espirito e um nobre coração esmagados pela desgraça. Tanto
bastou para começar a protejel-o, até que no mez de novembro d'esse anno
conseguiu que fosse admittido no hospital dos Entrevados de Cima de
Villa. O guitarrista acceitou reconhecido. Mas, quando lhe foi imposta a
condição de usar o vestuario dos asylados, reagiu tenazmente. Só puderam
convencel-o a transigir repetidas instancias do sr. Leorne.
Durante a sua estada no hospital de Cima de Villa, grato á protecção
recebida, abriu-se em frequentes confidencias com o seu protector.
Algumas vezes lhe escreveu, assignando-se Graça Strech, se bem que os
registos de admissão e obito o nomeiem Conceição Graça.
Bem póde ser que o infeliz, talvez por melindre que nos não é dado
perscrutar, negasse ao escripturario o verdadeiro appellido de sua
familia, e facilmente se comprehende que o registo de obito foi modelado
pelo registo de entrada no hospital.
O leitor, antes de eu ter denunciado o nome do estranho guitarrista, já
o havia conhecido de certo, confrontando-o com a personagem que apparece
nas primeiras paginas d'este livro, e achando-os em tudo semelhantes.
Graça Strech falleceu no hospital dos Entrevados de Cima de Villa a 20
de maio de 1850. Antes de expirar, entregou ao seu protector, que
lhe assistiu aos ultimos momentos, a medalha da guerra peninsular, com
que fôra condecorado, e que o sr. Leorne ainda hoje possue[15].
O annel mysterioso, por expressa recommendação do moribundo,
desceu com o cadaver á sepultura. Outra piedosa pessoa, a quem o sr.
Leorne revelára as qualidades e soffrimentos de Graça Strech, se
encarregou de fazer-lhe os funeraes na capella do Prado do Repouso,
reservando para si a guitarra que elle por tão longos annos dedilhára.
Aqui podia terminar a biographia de José Maria da Graça Strech, mas,
para que fique mais completa, concluiremos copiando textualmenle as
unicas palavras que até hoje falavam d'elle:
_João José Duarte Machado, capellão director do cemiterio do Prado do
Repouso, n'esta cidade do Porto:_
«Certifico que no livro quarto do registo dos obitos e enterramentos dos
adultos, a folhas trezentas setenta e sete, verso, se acha o assento
seguinte: