Pouco antes de chegar a Pariz viu passar uma carruagem seguida por uma

ordenança.

Perguntou quem era. Responderam-lhe:

--É o duque de Richelieu, ministro de Luiz XVIII.

Elle contestou serenamente:

--Se fosse no tempo de Napoleão, ia um esquadrão de cavallaria atraz da

carruagem. Napoleão mandava exercitos atraz de toda a gente.

Dizia isto como um homem que se entre-lembra vagamente das coisas do

mundo. Passou a carruagem do duque de Richelieu, e elle logo se esqueceu

da França para se recordar da missão em que ia consumindo baldadamente a

vida.

--Vamos com Deus, e com a pobre guitarra! E seguiu para Pariz.

* * * * *

XIX

A terra da promissão

Graça Strech chegou a Pariz no inverno de 1816.

Estavam n'essa occasião agglomeradas na capital da França as andorinhas

errantes da musica das ruas, que todos os annos saem do vasto ninho da

Italia, a percorrer a Europa inteira. De todos os _virtuosi_ que n'essa

occasião poisavam em Pariz, apenas cinco ou seis seriam francezes, e um

só era portuguez, Graça Strech.

A guitarra, melancolicamente tangida por elle, cuja dolorosa physionomia

não era menos melancolica do que a sua guitarra, despertava geral

attenção. Acrescia a circumstancia de que esse instrumento não era dos

mais conhecidos na orchestra dos musicos ambulantes. Tudo isso concorreu

para o éxito. Graça Strech tinha sombrios alheamentos emquanto estava

tocando. Caíam-lhe em desalinho os cabellos a esconder a fronte pallida

e cadaverica. Era uma bella cabeça d'artista em que muitos pintores

fizeram reparo. Um estudante d'esculptura chegou a convidal-o para

modelar-lhe o busto.

Graça Strech respondeu:

--Agradeço a sua amabilidade, senhor. Mas eu sinto-me de tal modo

cançado, que não póde ser longa a minha vida. O senhor é muito moço

ainda; póde esperar. Se eu morrer em Pariz, aproveite a minha mascara.

A imprevista sobranceria d'esta resposta causou sensação. Passou de

bocca em bocca, e os homens d'espirito começaram a olhar com certo

interesse respeitoso para o guitarrista estrangeiro. Uma noite, no café

_Evezard_, á esquina do Palais National, estavam sobremodo animadas as

mesas quando Graça Strech entrou. Encostou-se á ombreira da porta e

começou tangendo a guitarra. Como não pedia esmola, interrompia-se a

miudo para receber os óbolos que lhe davam os _habitués_ que entravam e

saíam.

Na primeira mesa á entrada estavam oito francezes, todos rapazes mais ou

menos artistas, que se calaram a ouvir attentamente o guitarrista, tanto

mais que já o conheciam de nome. Como fixassem a vista em Graça Strech,

e falassem visivelmente a seu respeito, procurou elle ouvir, dando-se o

maximo disfarce, tudo quanto diziam.

--É assombroso! exclamava um, cuja pallidez denunciava uma cabeça

febrilmente enthusiasta.

--Depois da pequena da harpa que esteve o anno passado em Pariz com o

velho das barbas brancas, ainda não vi maior prodigio! acrescentou um

cuja physionomia denunciava um caracter franco e compassivo.

--Que pequena era essa? perguntou no grupo um _commis-voyageur_.

--Era uma pequenita que parecia um passarinho encostado a uma harpa.

Acompanhava-a um velho de cabellos brancos, a quem chamava avô, e que

lhe transportava a harpa. Impressionava o contraste. Seria difficil

dizer qual d'elles poderia melhor com a harpa, se o avô ou a neta. Elle

tinha tanto de velho como ella de pequenina. E depois que tristeza dava

o vêl-a vestidinha de preto! Perguntava-se-lhe por quem andava de

luto:--Por meu pae e por minha mãe--respondia ella com certa vivacidade

triste, que enternecia a lagrimas. Tu copiaste o grupo, pois não

copiaste, ó Maubert?

--Copiei, respondeu o pallido rapaz que primeiro falava, e que parecia

absorto na contemplação do guitarrista.

--Sabes então mais alguma coisa a respeito da pequena e do velho?

--Pouco mais sei. O avô parecia empenhado em não contar nada. Nem o

encanto do mysterio lhes faltava, a elles, áquelle soberbo inverno

coberto de neves e áquella infantil primavera que parecia vegetar no

gelo do avô! Quando lhes perguntei os nomes para intitular os bustos,

respondeu-me o velho:--Queira pôr--_Pietro, sonatóre di arpa; Augusta,

sonatrice, lá piccola, nipotina mia._--Fiquei triste com a mysteriosa

singelesa da resposta. Previ um romance. Que querem? A doida da minha

phantasia! Apertei com o velho, fiz-lhe promessas para que me

contasse a sua. Não consegui nada. Lá partiram ambos para Inglaterra.

--Olha para o guitarrista! exclamou o de mais compassiva physionomia.

Olharam todos. Graça Strech estava sendo inconscientemente o alvo de

todas as attenções. Havia-lhe descaido o braço; subitamente a guitarra

emmudecera; os cabellos do guitarrista, longos e annelados,

acompanhavam, pendidos a um lado, a inclinação da fronte, e os olhos

brilhavam através dos cabellos com anciosa vivacidade. Era inutil

dissimular: Graça Strech estava ouvindo o que diziam na mesa proxima.

--Escuta o que nós dizemos! ponderou o que estivera contando a historia

do velho e da criança.

--É verdade!

--Não se póde duvidar!

--Lá começa a dedilhar de novo... Deu tino de que fisemos reparo. Toca

_pianissimo_ para ouvir o mais que dissermos.

--É certo! _Che dolcemente!_

--Que terá elle comnosco?

--Talvez não seja comnosco; talvez seja com o velho e a creança,

apostrophou o _habitué_-artista.

--Ora, essa cabeça! Tu encontras romances em toda a parte.

--Espera! tornou observando o esculptor. Ia jurar que os olhos d'este

homem são os da pequenita! Que semelhança!

--Oh! oh! continua o romance! Esse molde de novellas é velho, Maubert!

D'esta vez o pae, que era julgado morto, não volta da Terra Santa. Corre

atraz da filha, que ao partir para o combate entregára ao avô. Tem-n'a

procurado e não sabe onde pára. És tu, Maubert, que vaes desfazer o

mysterio. A Providencia encarregou-te de dizeres: _Pára!_ ao Ashaverus

do nosso seculo! Oh! oh!

E os outros gargalharam em côro:

--Oh! oh!

--És tu que vaes mostrar ao Moyses da guitarra a Terra da Promissão!

disse um.

--Que elle nos está ouvindo é certo, porque todos repararam! exclamou o

de mais dôce semblante. E talvez seja algum desgraçado. Este mundo dos

_virtuosi_ das ruas tem tantos mysterios! Atravessam Paris no

inverno e a gente ouve-lhes a musica sem lhes vêr a alma. Alguns d'elles

parecem conversar com a harpa e com o violino: é porque teem que lhes

dizer. Decerto que não são alegrias. Póde ser alegre quem atravessa os

Alpes a pé, e dorme para ahi em qualquer canto, e vae correr a Europa

inteira unicamente fiado na agilidade dos seus dedos e na obediencia das

cordas? Creio que não. Parecem despreoccupados, parecem, porque emfim

elles teem das aves alguma coisa: as azas pelo menos. Rouba o filho a um

passarinho, que elle, com o coração despedaçado, tambem esvoaça em redor

do ninho vasio. Pensam vocês que nem ao menos lhes ha de doêr a

ausencia? _La rimembránza_, meus amigos, _la rimembránza_ chora muita

vez nas harpas d'elles. Oh! eu creio-o! E nós, apesar de nos deliciarem

os ouvidos, olhamol-os indifferentemente. No inverno dizemos: _Cá

estão!_ Quando chega a primavera exclamamos: _Lá fôram!_

--Tu pendes mais para o sentimentalismo, Guillibaud. Maubert prefere a

phantasia e o maravilhoso.

--Olha! lá está ouvindo o guitarrista outra vez!

--É notavel! Que curiosidade!

De repente interromperam-se os commentarios. Graça Strech aproximou-se

de Maubert pedindo-lhe o obsequio de lhe dispensar dois minutos

d'attenção em particular. Havia no seu olhar, nos gestos, na voz, tão

claros indicios de grande agitação, que Maubert immediatamente se

levantou. Os outros, enquanto os dois sahiam a porta do botequim,

ficáram dizendo:

--Este Maubert é um bibliotheca viva d'aventuras.

--Deixa lá, observára condoídamente Guillibaud. A julgar pelo aspecto do

guitarrista, o caso afigura-se-me grave d'esta vez. Talvez seja um

romance triste...

--Se tu não havias de vir com o teu sentimentalismo!

--És melancholico como uma lagrima!

--Que não seja de vinho...

--Tens razão: as lagrimas de vinho alegram.

--São ellas de certo que vos dão essa continada alegria! disse com

enfado Guillibaud.

O leitor está porém impaciente de seguir Graça Strech e Maubert.

Vamos-lhes pois na piugada.

Mal sahiram a porta, o guitarrista dirigiu-se immediatamente ao

esculptor em correcto francez:

--Peço-lhe vivamente perdão, senhor, de o haver privado da companhia dos

seus amigos, mas o que o senhor estava dizendo era tão extraordinario

para mim...

--Ouvia-nos então? perguntou Maubert.

--Ouvi tudo, e incommodei-o unicamente para lhe pedir, não que me mostre

a Terra da Promissão, como jovialmente disseram os seus amigos, mas,

quasi o mesmo para mim, que me mostre os bustos do avô e da neta...

--Oh! isso é muito facil. Estamos a dois passos do meu _atelier_. Vamos

lá--respondeu o enthusiasta Maubert.

Foram. Graça Strech ia concentrado, e cada vez estugava mais o passo;

Maubert observava-o de esguelha e começava a achar summamente

extraordinario aquelle homem, de quem se principiava a falar.

Era perto o _atelier_. Entraram. Graça Strech precedia Maubert, tamanha

era a sua impaciencia.

--Aqui estão! disse o esculptor.

Graça Strech, relanceando aos dois bustos um olhar rapido e incisivo,

vibrou um grito, ao mesmo tempo doloroso e alegre, e, apontando para o

do velho, exclamou:

--É elle, é Pietro!

Depois, demorando os olhos no busto da pequenita, deixou escapar outro

grito que parecia o magoado estalar de todas as cordas da alma:

--É minha filha! Não póde deixar de ser! Ca está: _Augusta, sonatrice,

la piccola!_ Chama-se Augusta! Comprehendo tudo. Rosina morreu, sim, já

me não póde restar duvida alguma. É horrivel! Morreu! E pôde morrer sem

esperar por mim! Pobresinha! Poz á filha o nome de minha irmã. Era uma

surpreza que me queria fazer, e fez, realmente, mas que triste surpreza,

sr. Maubert, que desgraça esta! Olhe, aquella pequena é minha filha. O

senhor é artista... Veja que bonito perfil aquelle... Por isso foi que o

senhor a modelou, pois não foi? Sim, é muito bonita! Disse então que

andava vestidinha de preto? É pela mãe! Pobre Rosina! Oh! eu não

creio ainda que tu morresses, tu, que tinhas tanta coragem, tanta! Onde

está minha filha, senhor? Aquella não fala! Eu quero ver minha filha,

abraçal-a, beijal-a. Deixe-me beijal-a, sim, deixe-me enganar. Bem póde

ser que tambem a morte já m'a tenha levado, e por isso deixe saciar-se

de beijos este pobre coração ha tanto tempo opprimido. Olhe que gentil

cabeça! Que semelhança com minha irmã! É estar a vel-a, quando

brincavamos ambos e faziamos endoidecer o capelão das Chãs. Sim, o

senhor já me restituiu minha filha, mas Rosina, a minha vida, o meu

amor, que é d'ella, por que não a modelou o senhor para que eu a pudesse

beijar agora!

E, com o busto da pequenita apertado contra o coração, pareceu oscillar.

Maubert, que escutava commovido da enormidade d'aquella dôr, e perplexo,

porque não possuia todo o segredo d'esse homem, acudiu a amparal-o.

--Ah! não me roube a sua obra! exclamou Graça Strech apertando o busto

cada vez mais contra o coração, que pulsava vertiginosamente. Não m'a

roube. Dou-lhe tudo, a minha guitarra, a minha vida, mas não me arranque

a felicidade que me deu. Isto não é um pedaço de gesso inanimado, que o

senhor modelou. Não, isto é minha filha, a minha querida filha, a Terra

Prometida...

E, fazendo esforço para tirar a voz que lhe faltava, acrescentou:

--Disse o senhor que o avô e a neta foram para Inglaterra, pois não

disse? Bem, vou atras d'elles. Por França não tornaram a passar, ninguem

mais os viu? De Inglaterra só poderiam saír embarcados. Não é provavel.

Estamos no inverno. É a estação dos musicos. Hei de encontrál-os lá. Hei

de ver minha filha, beijal-a doidamente, percebe? doidamente, e

perguntar-lhe onde é a sepultura de sua mãe. Quero ir lá com ella, e com

Pietro. Parece-me que ainda posso dar vida a Rosina! Pois ella ha de

deixar-se ficar fria e calada, sabendo que eu estou ali, apenas separado

por uma camada de terra?! Está morta? Que me importa a mim! Isso não

póde ser obstaculo para o meu amor, para este longo amor de sete annos,

que não póde acabar assim, que deve durar mais do que a vida...

Maubert começava a receiar pelo guitarrista, que ficou sopitado em

demorada prostração. Piedosamente o soccorreu, e quando Graça Strech

tornou em si viu o esculptor curvado carinhosamente para elle.

--Muito obrigado! disse com voz flebil Strech. Muito obrigado! Ah! aqui

está o busto de minha filha!...

--Que é seu, observou Maubert.

--Sim, o senhor, que é bom, que é nobre, que tem coração e talento, não

podia negar esta felicidade a um pae!

--Agora, tornou Maubert, é partir para Londres. Para isso basta

atravessar o canal. Está prevenido? A minha bolsa d'artista tem ainda

para estas larguezas. Está á sua disposição o preciso para tão pequena

viagem.

--Muito obrigado, senhor, e acceito. Aqui está o que eu tenho de meu:

deu-m'o, como o senhor viu, quem entrava e sahia do _Evezard_. Eu não

pedia, porque não era mendigo: era simplesmente um pae que ha dois annos

procurava por toda a parte a sua familia. Conheciam a minha pobreza:

davam-me alguma coisa, eu acceitava, porque em verdade era pobre. Agora

não, agora não sou, porque finalmente achei o rasto de minha filha! Não

encontro Rosina, porque a sepultura m'a roubou, mas ainda me parece que

a hei de resuscitar, porque o meu amor, este amor que ainda me conserva

a vida, deve realisar todos os prodigios.

O mais que se passou entre o guitarrista e Maubert não nos importa saber.

Graça Strech embarcou ao outro dia para Londres. O que se passaria na

sua alma é facil de adivinhar: era o que ahi ha de mais pungente doer da

saudade á mistura com o mais avido phrenesi da anciedade; era o

supplicio atroz da alma que lucta com o irreparavel no ante-gosto d'uma

felicidade orvalhada de lagrimas.

É preciso que um coração esteja muito retemperado pelo soffrimento para

luctar, sem succumbir, com tão violentos contrastes, tão oppostos

extremos, tão desencadeadas tormentas. Elle resistiu, porque havia sete

annos que soffria o mais que podem soffrer homens.

Chegou a Londres.

Era, como sabemos, o inverno.

Fluctuava pelas ruas e pelos _cafés_ uma colonia de _virtuosi_. Gastou

um dia, gastou dois, sem encontrar quem procurava. Ao terceiro, viu

muita gente reunida n'uma praça. Estavam ouvindo uma harpa.

Logo um presentimento lhe alvoroçou o coração. Parou de subito, antes de

romper o circulo, porque uma dôr, cruciante como o queimar de um ferro

em braza, lhe atravessára o peito. Receiou morrer. Fez porém um esforço,

que devia tel-o prostrado a não ser ainda aquella a hora de avistar a

Terra da Promissão. Apartou febrilmente o grupo, relanceou por sobre as

cabeças um olhar d'aguia, e com um só grito fez emmudecer a harpa e

affastar a gente que rodeiava a harpista.

Um homem de meia edade, que não era decerto Pietro segurava a harpa,

tangida por uma pequenita vestidinha de preto.

Era o mesmo perfil do busto;--assim devera ser Augusta aos seis annos.

Faltava, para completar o grupo de Maubert, o original do outro busto:

faltava apenas Pietro.

Graça Strech arrebatou nos braços a criança. Beijou-a, abraçou-a,

acariciou-a delirantemente, soffregamente, doidamente.

E por entre beijos e abraços repetia, sorrindo e chorando:

--Sou teu pae! Eu sou teu pae! Acredita-me, Augusta; bem sei que te

chamas Augusta.

A criança tremia-lhe nos braços como um passarinho que se sente

comprimido, e procurava furtar as faces aos beijos ardentes do

desconhecido.

--Pietro, filha, onde está Pietro?

A pequenita, ouvindo pronunciar este nome, olhou attenta no guitarrista,

e respondeu com os olhos subitamente marejados de lagrimas, dando uma

suave expressão de magua ao dialecto napolitano;

--Morreu! Elle morreu. Tu é que talvez sejas meu pae, porque dizia o avô...

--Que dizia o avô, filha? perguntou anciosamente Graça Strech.

--Que meu pae tinha dado a minha mãe, _mia madre poverella_, um presente

para mim, e que se elle não tivesse morrido, como nós julgavamos, tu me

conhecerias por esse presente. Se sabes o que é, então és meu

pae; dá-me muitos beijos que eu consinto.

É o annel, filha! Ah! é o annel que eu dei a tua mãe.

Isso mesmo! disse a criança sorrindo d'alegria. Elle aqui está...

E tirou do seio uma saquinha, pendente do pescoço, onde guardava o annel.

Trago-o aqui. Sou ainda muito pequinina, _padre mio_, para o trazer no

dedo.

O povo, que tinha seguido todo este episodio, olhou-se admirado quando

viu a pequenita tirar do seio a saquinha, e mostrar o annel.

Era que para o publico, como para Rosina, aquelle annel tinha mysterio.

Graça Strech de novo colheu a filha nos braços, de novo a beijou com os

olhos razos de lagrimas, mas a pequenita, soltando-se com vivacidade,

disse para o homem que segurava a harpa:

Vamos lá, Giovanni, vamos com meu pae, que não morreu!

* * * * *

XX

O manuscripto de Pietro

Pietro morrera um anno antes, em Londres, logo depois que de Pariz

passára a Inglaterra. Acamou, no miseravel albergue em que se hospedára

com a pequenita, victima d'uma febre aguda. Ás primeiras horas de leito

conhecera que era chegado o termo da sua vida. Antes que estivesse

impossibilitado de raciocinar e falar, mandou chamar Giovanni, um antigo

conhecido, em quem depositava confiança e, não sem difficuldade, porque

já a cabeça começava a pesar para a sepultura e o cerebro a

escurentar-se com as trevas da morte, lhe disse:

--Giovanni, tu és um homem de bem e, diga-se a verdade, inimigo de

trabalhar. Tens vivido sempre em companhia de musicos que te dão alguma

coisa porque tu lhes carregas com as harpas e os realejos. Ora, meu

amigo, é chegada a occasião de fazermos um negocio e, nota bem, o ultimo.

--Ora deixa-te de tolices!

--Não são tolices, Giovanni; bem vês que já me custa falar. Não posso

perder tempo. Portanto, ouve-me com attenção. A minha hora chegou e

pouco me importaria morrer se não tivesse uma neta...

--Uma neta! Tu! Só te conheci um filho, que morreu pequeno em Portugal.

--Isso é um segredo que te não deve importar. Essa criança que ahi está

fóra é mais minha neta do que se fosse filha de meu filho. Comprehendes

que morrendo tu, vae ella, coitadinha! ficar para ahi desamparada. Isso

é justamente o que eu não quero. Sabes que a pequena tem talento...

--Isso tem! respondeu Giovanni.

--Aprendeu tudo quanto eu lhe ensinei--acrescentou pausadamente

Pietro--e já sabe mais do que aprendeu. Deus nunca desampara os

desgraçados! O talento foi o patrimonio com que Deus dotou a

minha neta. Mas olha que é um capital cujo rendimento chegava bem para

nós dois! A pequenita bastava-lhe roçar com as azas pelas cordas: logo

sahia musica. Ora a nossa sociedade artistica vae dissolver-se. Da morte

não se appella. Um dos socios, o gerente, retira-se para a...

eternidade. Fica o outro, que por ser de menor edade não tem ainda

credito na praça. É preciso que tu, homem de bem, substituas o socio que

se retira, e entres apenas com a tua edade e com a tua experiencia. A

tua missão cifra-se em acompanhar a avesinha, e defendel-a das ciladas

do mundo. Nota, porém, que te corre obrigação de não traíres a confiança

que um amigo moribundo deposita em ti. Jura-me pela tua honra que serás

exacto como tens sido até hoje...

--Juro, disse com firmeza e commoção Giovanni.

--Muito bem. Logo que eu morra, olha tu pela pequena, que fica sendo

agora tua neta. Mas ouve ainda, Giovanni, mas ouve-me bem. Eu supponho e

e com boas razões, que o pae d'essa infeliz menina, morreu. Tudo me leva

a crêl-o. Se algum dia, porém, e Deus o permitta! o pae d'ella

apparecer, dize-lhe que te nomeie o objecto pelo qual elle ha de

reconhecer a filha: é um annel que ella traz n'uma saquinha ao pescoço.

De mim não quero que lhe digas nada, porque n'este papel, que lhe

entregarás, caso o pae da menina não tenha morrido, deixo explicado o

mais que tinha a dizer. Se elle não surgir do tumulo a reclamar a filha,

o que é provavel, entrega esse papel a Augusta, para que ella, em edade

de o entender, saiba com que amor eu a amei. Dá tempo ao tempo. Espera

que ella cresça e pense. Tens entendido, Giovanni? Agora dá-me a tua

mão. Palavra de homem de bem?

--Palavra e juramento, disse Giovanni com profunda commoção, e muitas

lagrimas.

E acrescentou:

--Vae descançado, Pietro. Tua neta, pois que assim lhe chamas, não ha de

soffrer mal algum. Eu tenho sido até hoje escravo da minha fidelidade.

Tenho andado pelo mundo atraz d'esses musicos, que afinal me não pagam.

Nasci preguiçoso, é verdade, Deus me perdôe, mas tu bem sabes que me não

pegou ainda ponta de vicio. Nem bebo nem jógo. Fumar, fumo eu,

mas isso é apenas um mau habito. Tendo pão e tabaco, estou contente.

Isso, é de sobra, dar-m'o-ha a harpa de tua neta. Agradeço a esmola, e

toda a vida serei agradecido a ti e a ella. O dinheiro que juntar eu

lh'o guardarei. Comprará uns vestidinhos, concertará a harpa, comprará

outra melhor...

--Isso não! isso nunca! interrompeu Pietro com febril exaltação. A minha

harpa nunca ella a deixará; já lh'o disse, e ella prometteu-m'o.

--Desculpa, Pietro, eu não pensei o que disse. Emfim comprará o que

quizer, porque todo o capital será d'ella; eu serei unicamente depositario.

--Bem! disse Pietro prostrado de commoção. Estamos tratados para a vida

e para a morte. Agora sae por algum tempo, e manda-me cá a pequena.

Saíu Giovanni e entrou Augusta.

O doente esteve olhando para ella mui attentamente, e exclamou:

--Que linda és!

A pequetita respondeu com beijos.

--Olha lá, Augusta,--tornou Pietro--não te esqueças da recommendação do

annel. Oh! que se tu encontrasses ainda teu pae! E d'ahi póde ser. Deus

é misericordioso. Se elle escapou á guerra, bem póde acontecer que ainda

algum dia o encontres. Deus o queira, Augusta, anjo, filha. És tão

pequenina, tão pequenina, que cada vez me pareces mais um passarinho!

Emfim eu não havia de ser eterno; muito me tem deixado Deus viver para

teu amparo. Que linda, filha, que linda! Olha... chama Giovanni, e vae

ali para fóra um momento... Tu és muito minha amiga, pois não és?... Vae

filha, vae, e chama Giovanni.

Saiu a pequenita a cumprir a ordem.

Giovanni abeirou-se do catre e recebeu da mão do doente os papeis em que

lhe falára.

--Não posso mais! disse Pietro. Pesa-me tanto a cabeça! Sabe Deus

com que difficuldade tenho feito tudo isto! E--acrescentou

placidamente--para o enterro já sabes que basta avisar o consul. Nós em

toda a parte somos italianos.

Giovanni tregeitou, e o doente deixou caír contra o travesseiro o craneo

que parecia de chumbo. Nos trez dias que se seguiram não mais tornou a

falar. Entrou em estado comatoso. Teve sempre os olhos fechados até que

a morte lh'os sellou para a eternidade.

O consulado italiano fez o enterro: só os summamente grandes e os

summamente pequenos são enterrados á custa das nações.

Quem soube, na colonia fluctuante dos musicos das ruas, que havia de

menos uma andorinha viajeira?

Os outros não souberam, porque, tendo por missão voar de terra em terra,

não lhes sobra tempo para se demorarem á beira d'um tumulo.

Soube-o o consul, e sentiam-n'o Augusta e Giovanni; ninguem mais.

A pequenita chorou muito, muito. Giovanni confortou-a como pôde. O sol,

que é a alegria de todos os passarinhos, fez o mais.

Começaram ambos a sua peregrinação.

A pequenita, pobresinha! só tocava n'esses dias de pungente saudade

musicas tão tristes como a alma d'ella. Ainda assim ouviam-n'a,

achavam-lhe graça, e davam-lhe dinheiro.

O publico, em geral, reputa felizes os que convidam á felicidade.

E, em geral, engana-se sempre.

Augusta sonhava quasi todas as noites com o avô. Pela manhã dizia a

Giovanni:

--Esta noite vi-o. Lá me tornou a repetir que não perdesse o annel.

Outras vezes:

--O avô, Giovanni, disse-me esta noite que te recommendasse que fosses

sempre muito meu amigo.

As recommendações de Pietro, que a pequenina ouvia em sonhos, não eram

precisas. Nem Augusta perdia o annel mysterioso, nem Giovanni se

esquecia das promessas que tinha feito.

Elle guardava a sua palavra; ella o seu annel.

E com esses dois thesouros se propunham correr mundo.

Giovanni pertencia ao numero dos homens-machinas que só obedecem ao

impulso do coração; ora o coração era bom, e as obras boas sahiam,

portanto.

O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular · 第 12 / 14 段