--No dia seguinte o quartel general mandou ordem a todos os parochos

para que, logo que anoitecesse, fôssem levantar os corpos dentro da

circumscripção das suas freguezias. Não sabemos mais nada, sr. Strech.

Nós recolhemos ao Porto depois que os francezes retiraram. Estivemos em

Gondomar, em casa d'uns parentes nossos, porque tivemos a felicidade de

encontrar livre o caminho. O senhor bem se ha de lembrar de que nos

protegeu na bateria do Bomfim. Prouvera a Deus que a sua familia tivesse

tido a mesma sorte! Muitas vezes lhes pedimos que nos acompanhassem. Não

quizeram. Ainda tenho nos ouvidos as palavras da Augustinha: «Se meu pae

e meu irmão morrerem, deixemo-nos morrer tambem, porque o viver sem

elles seria peior que a morte.» Nunca mais me esqueceram! Vel-a assim

fazia dó, a pobre menina!

Graça Strech estava livido. Já não tinha forças para ouvir mais.

--Muito obrigado, minhas senhoras, disse elle. Já sei o bastante.

Felicito-me de as haver encontrado e faço votos pela ventura da sr.ª D.

Izabel.

--Agradeço do coração, replicou a menina. O sr. Strech ha de dar-me a

honra de assistir ao meu casamento...

--Da melhor vontade assistiria, minha senhora, se não tivesse de partir

hoje mesmo para Italia.

--Partir?!

D. Eulalia repetiu:--Para Italia!

E exclamou virando-se para a sobrinha:

--O casamento anda-te com essa cabeça á roda! Se não sou eu lembrar-me

agora por essa palavra, não dirias nada ao sr. Strech d'aquella carta

d'Italia!

--Uma carta, apostrophou elle, sobremodo perturbado.

--É verdade! affirmou a menina com pesar de se haver esquecido.

D. Eulalia contou:

--Ha quatro annos, foi em...

--Junho, acrescentou Izabel.

--É verdade, foi em junho, proseguiu D. Eulalia; andou o carteiro por

esta rua, para cima e para baixo, a perguntar pela familia Strech. Todos

lhe diziam que essa desgraçada familia estava no cemiterio. Até que a

final o carteiro e alguns visinhos bateram á nossa porta, porque sabiam

das nossas relações com a sua familia. A carta, que trazia o timbre de

Italia, dizia: _Sr. José Maria da Graça Strech, soldado portuguez_ (pela

orthographia conhecia-se que a pessoa que escrevia era estrangeira,

disse em parentesis D. Eulalia) _natural do Porto;--Portugal._

Graça Strech ouvia offegante.

D. Eulalia proseguiu:

--Do senhor ninguem sabia nada, mas como a carta ficaria naturalmente

perdida no correio, encarregamo-nos de mandal-a ao acaso para onde

estivesse o exercito. Era o unico meio de lhe chegar á mão, caso o

senhor estivesse vivo. Nós nada sabiamos. Perguntamos o que haviamos de

fazer. Disseram-nos que a mandassemos para Almeida, que era onde

Wellingtão--ella pronunciou assim,--tinha estabelecido o quartel

general. Para lá a mandamos, pensando que fariamos bem. Visto isso o

senhor não a recebeu?

--Não recebi, minha senhora, respondeu Graça Strech com difficuldade.

Agradeço, porém, a vossas senhorias o cuidado que tiveram e, para não as

demorar por mais tempo, recebo as suas ordens...

--Tambem--atalhou D. Eulalia, vão sendo horas da missa do Senhor dos

Passos. Vamos lá. Se o sr. Strech precisar d'alguma coisa, não tem senão

mandar-nos e dizer onde está, para que não se torne a perder qualquer

carta.

Despediram-se. Ellas seguiram pela rua nova do Almada a baixo, e elle

caminhou em direcção ao Campo de Santo Ovidio.

A menina ia perguntando ingenuamente á tia:

--Não seria mau agouro encontrarmos o Strech na occasião em que eu ía a

pensar no meu casamento?

--O que tu quizeres! respondeu D. Eulalia. Reza um _Credo_ ao Senhor dos

Passos e deixa-te lá d'agouros. Deus é que sabe o que ha de acontecer.

Graça Strech caminhava machinalmente, engolphado em seus pensamentos. A

carta era de Rosina. Conjecturava elle que já devia ser mãe quando a

escrevia. Que diria ella? Coisas tristes, de certo. Os infelizes

vivem das desgraças que sonham e que soffrem. Por muitas vezes escrevera

elle para Napoles. Nunca obtivera resposta. Aquelle horrivel silencio

durava já havia quatro annos. Nem ella nem Pietro escreveram mais! O

que haveria acontecido? Que ancia que elle tinha de chegar a Italia, e,

ao mesmo passo, que receios! Não o esperariam lá novas dôres, maiores

soffrimentos? Que envelhecida mocidade aquella!

Foi andando, andando, até que chegou ao cemiterio de Cedofeita.

Quando viu negrejar cruzes e louzas por entre as verduras dos canteiros,

estremeceu de subito. O pensamento da morte vinha interromper os seus

dolorosos pensamentos. A sua familia estava ali, mas onde? Rosina e seu

filho onde estariam tambem, lá tão longe? O cemiterio era solitario

áquella hora, se não falarmos das aves que faziam alegre matinada nas

arvores.

Só os noivos e as aves saudam jubilosos a manhã.

Por isso madrugára a menina da rua nova do Almada em competencia com os

passarinhos do cemiterio de Cedofeita.

Graça Strech atravessou por entre as campas, confiado em que o coração

adivinharia o sitio em que repousava a sua familia. Andou, percorreu as

ruas todas, e parou á beira d'uns comoros que não tinham cruz nem

lapide. Devia ser ali. As campas dos que não deixam ninguem no mundo

conservam-se abandonadas. Quando muito, porque os despojos mortaes são

da natureza, veste-as a natureza de relva e flôres silvestres. Sobre um

dos comoros floresciam hervagens, que pendiam á terra umas singelas

boninas brancas. Seria a homenagem da natureza á innocencia de sua irmã?

Não sabia. O silencio da morte guarda todos os segredos. Ajoelhou. As

avesinhas das arvores funebres continuavam a cantar, a cantar!...

Áquella hora, n'aquelle sitio, cria-se em Deus.

A eloquencia das campas!

Como tudo aquillo fala suavemente d'além-tumulo!

No ruido das festas a ideia da morte é sempre um pungente contraste. Mas

não sei que amena tristeza dulcifica a certeza do repouso eterno, nos

cemiterios, mórmente se é manhã, e as aves chilriam, e estremecem

nas hervagens as gotas d'orvalho, e um raio de sol nascente doira uma cruz!

Graça Strech sentiu-se subitamente soccorrido por essa triste suavidade

que a vista dos tumulos infiltra aos desgraçados.

Longo tempo esteve ali, ajoelhado, conversando com os trez comoros os

seus segredos de cinco annos. No que estava florescido, curvou-se como

se quizesse falar para dentro. Conjecturava que seria o d'Augusta.

N'essa hypothese lhe contou as suas desventuras, os seus amores, os

sacrificios de Rosina, o destino que dera ao annel, a afflictiva

incerteza em que estava, a ancia que tinha de beijar seu filho, de

encontrar Rosina... Juntou lagrimas de saudade a palavras de perdão,

queixumes de animo attribulado a hymnos de confiança em Deus...

Não lhe havia dado tempo a sua trabalhada e desventurosa mocidade para

erguer o espirito acima das coisas terrenas das preoccupações humanas.

Pela primeira vez subiu até onde os fulgores da divindade enchugam as

lagrimas da oração. Muito acima do mundo deve ser, porque já se não ouve

então o tumultuar da humanidade, e porque já ahi chovem os balsamos da

resignação sobre a alma angustiada.

Ninguem diria que estava ali o soldado, o leão dos combates. Nada ali

falava de vingança, nem mesmo a supposta sepultura d'Augusta. Nada se

sabia do mundo, d'aquella porta de ferro a dentro. Todavia alguma coisa

julgou ouvir a alma de Graça Strech. Eram palavras intradusiveis que as

hervagens ciciavam, brandamente agitadas pela viração matutina. Sem

comprehender as palavras, entrou-lhe ao espirito o pensamento d'ellas.

Era a divina esperança do _post tenebras spero lucem_, de Job, e ao

mesmo tempo o _Non moriar, sed vivam, et narrabo opera Domini_, do

salterio.

Graça Strech interpretou assim esses fugitivos murmurios que soavam

sobre a campa da sua irmã. Trouxe do cemiterio a certeza de que depois

das trevas da vida veria luzir o sol da felicidade perpetua, e de que

não morreria sem ter tempo de narrar as obras do Senhor.

Isto equivalia á resignada esperança de não succumbir á sua desgraça sem

saber o destino de Rosina e seu filho.

Adquirira ali a certeza de que a alma d'Augusta abençoara do ceu a

criança cuja mãe possuia o seu annel. Levantou-se. Arrancou as

parietarias que marinhavam pelo muro proximo, e esparziu-as sobre os

trez comoros.

--Se ahi estaes, minhas doces amigas--pensou elle--recebei o primeiro e

unico testemunho de saudade que ainda vos manda o mundo esquecido de

vós. Pedi por mim, e pela familia que me resta na terra, se Deus m'a

tiver conservado. São tambem vossos pelo coração. Adeus, abençoadas

sejaes no céu pelo conforto que me destes.

E saíu do cemiterio, caminho do rio Douro, onde estava fundeado o navio

que n'essa tarde devia partir para um porto d'Italia.

A essa hora, na Fonte das Virtudes, havia expansiva alegria. Um velho da

familia Cerqueira dizia a um menino da familia Brochado:

--Vá, seu estudante, traduza-me lá a inscripção da fonte: _Fons scalet,

illustri virtutum_, etc. _Rompe aqui esta fonte..._ Vá, diga...

--Pudera romper acolá, estando aqui o chafariz! observou grosseira e

acertadamente o menino.

D. Izabel offerecia ao seu noivo um copinho da agua da fonte, panacea

para muitas molestias, entre as quaes as inflammações dos olhos.

Tinha bons sentimentos: não queria marido cego.

* * * * *

XVIII

A Lenda d'Ashaverus

Comprehende-se com que anciosa impaciencia viajaria Graça Strech. A

Italia era para elle o unico raio de sol que lhe doirava o horisonte

fechado em torno do navio. Ia ver Rosina e seu filho; agradecer a Pietro

a protecção que provavelmente a uma e outro tinha dispensado, porque

Rosina devia ser mãe havia quatro annos. A carta perdida era decerto a

boa nova da maternidade... Mas, logo o animo, vesado a tristes

phantasias, descontava esta esperança com vagos receios. Todavia a

visita ao cemiterio de Cedofeita insinuava-lhe na alma o doce calor da

fé. Queria chegar a Italia, desenganar-se. Levava ao berço do filho a

tranquillidade aprendida á beira do tumulo da irmã. A Italia! a Italia!

a terra promettida do Moyses errante! Quando appareceu em frente do

navio uma nuvem pardacenta, e a voz de _Terra_! alvoroçou a tripulação,

o coração de Graça Strech doidejou desde a alegria expansiva da criança

até á timidez receiosa da mulher.

A Italia! O formoso sol da Italia a enxugar as lagrimas de tão longa

ausencia! A alma de Rosina Regnau a animar no desconforto, a premiar na

alegria! A alma e a voz! A liberdade do coração e da palavra! Um lar

modesto, muito modesto, pobre até, o filho a esvoaçar d'um lado para

outro, a chilriar, os cabellos loiros a brincarem-lhe em derredor da

cabeça; Rosina a viver arroubada entre os sorrisos do pae e do filho;

n'uma palavra, a felicidade que não escurece quando chega a noite; á

porta, de cabellos alvejantes, tranquillo, sentado ao sol, Pietro, o

_canta-storie_, a concertar as cordas da sua harpa, e a entoar, com a

sua voz já cançada, mas ainda sonora, a _Capuana_; fóra, o céu d'Italia,

o azul suavissimo, o sorriso da natureza, a eterna primavera

meridional!

De repente mudava-se o quadro.

Via uma cruz tosca, n'um cemiterio de Pescadores pendurado ao mar.

Rosina, demudada e lutuosa, chorando ao pé da cruz. Pietro, chorando ao

pé de Rosina, com a harpa silenciosa poisada diante de si. E seu filho

morto, sem o haver conhecido, sem o ter beijado sequer!

Outras vezes sonhava com a lividez da fome nas faces de Rosina, da

criança, e de Pietro!

A vivandeira havia levado recursos. Era a sua ração de dois annos, a

migalha do canario. Havia no 18 d'infantaria um quartel-mestre usurario.

Graça Strech fizera com elle uma transacção. O quartel-mestre ficava

recebendo durante dois annos o _prét_ por inteiro, e adiantára-lhe o

_prét_ d'um anno. Essa quantia, administrada com economia, devia durar

os dois annos. Se a campanha acabasse antes d'esse praso, o soldado

devia indemnisar o quartel-mestre, que tinha na sua mão um documento.

Mas haviam-se passado os dois annos, e outros dois. Graça Strech

escrevera muitas vezes para Napoles, como já dissémos, para obter

certeza do paradeiro de Rosina, e poder mandar mais dinheiro. De nenhum

vez obtivera resposta. Haveria acontecido alguma desgraça? Mas tambem

quem conhecia em Napoles Rosina Regnau? Bem se podiam lembrar de ir

saber ao correio. Pietro andava por fóra com a sua harpa; Rosina estava

cuidando do filho: não se lembravam. As mealhas que Pietro recolhia, e

generosamente repartia provavelmente, abastavam a alimentação dos trez.

Em Coimbra, disséra Rosina a Graça Strech, quando elle lhe pedia que não

soffresse privações sem o avisar:

--Se se acabar o dinheiro, eu, que posso ter voz em Italia, irei

cantando de rua em rua. Não receies por mim. Atravessei pura o exercito

francez; mãe, atravessarei destemida o povo italiano. A honra da

vivandeira é um baluarte invencivel; não deixa profanar a bandeira da

sua lealdade.

E logo, antevendo a triste solidão da ausencia, rompeu em afflictivo

chôro. Este era o natural de Rosina: ora vivandeira, ora mulher. Logo em

principio o dissémos.

Apesar da cega confiança que Graça Strech devia ao amor de Rosina, não

era a sua alma, quanto mais se avisinhava da Italia, estranha ao

ciume. No paiz dos amores, o ciume, _la gelosia_, respira-se com o ar.

Ciumes de que lhe ouvissem a dulcissima voz, se tivesse sido obrigada a

acompanhar com o canto os harpejos de Pietro; ciumes de que a

applaudissem, de que a vissem, de que a conhecessem. E, pensava elle,

quem ficaria olhando pela criança emquanto a mãe andasse por fóra?

Alguma mulher estranha, que não a acariciaria se chorasse, que não a

agasalharia quando tivesse frio, que lhe não responderia meigamente

quando perguntasse pela mãe...

Chegado que fôsse a Italia, procuraria, noite e dia, sem descanço, sem

tregua, e encontral-os-ia, e diria a Rosina: «Fica tu ao pé de nosso

filho, que eu vou trabalhar», e a Pietro: «Continua a ser o guarda dos

dois, que eu velarei pela tua velhice.»

E alternava risos com lagrimas, e agora falava e logo emmudecia, com as

mãos firmadas no bordo da amurada e os olhos cravados na nuvem do

horisonte, que se ia aclarando cada vez mais, conhecendo-se já, sobre o

azul do céo, os contornos irregulares da cidade.

O capitão esteve-o medindo com o olhar ao lado d'um passageiro que

durante a viagem tinha conversado algumas vezes com Strech.

--Nunca vi tamanha commoção! disse o capitão ao passageiro. Receio

d'esta alegria em homem costumado aos alvoroços de guerra.

--Elle vinha ancioso de chegar a Italia, retrucou o passageiro. O mais

que me disse foi que, tendo feito a campanha, vinha, doente e cançado,

procurar a Italia uma irmã, de quem, pela invasão de Portugal! fôra

obrigado a separar-se.

--Muito a deve estimar então! ponderou o maritimo.

E, aproximando-se de Graça Strech, disse-lhe affavelmente:

--O sr. Strech morria-se por vêr Italia. Ahi a tem agora.

--É verdade, respondeu exaltado Graça Strech. É verdade... A ancia de

chegar... a incerteza... tudo isto... Eu não estava costumado a estas

sensações... Por que emfim tudo hoje depende para mim de Italia... Ó

senhor capitão, quanto tempo gastaremos ainda?...

O capitão, sem responder, achegou-se do outro passageiro e segredou-lhe:

--Eu não lhe dizia? Nunca vi tamanha commocção! Queira Deus que não vá

louco...

Ah! o capitão entendia do mar; do coração, não. Chamava loucura áquillo!

A desvairada oscillação da alma que pende entre um longo passado de

trevas e a unica esperança que lhe entreluz no céo do porvir! É louco o

naufrago que, baldeado entre os vagalhões do oceano infrene, se abraça

com a prancha que lhe é dado alcançar, e que ou morrerá cuspido contra

os fraguedos ou fluctuará por mercê da Providencia até que surja a véla

branca, que é a bandeira da paz nas luctas com o mar? É louco o

caminheiro que se transviou ao anoitecer e sorri de alegria á estrella

da manhã, ainda que tenha de retrocecer para continuar jornada? É louco

o doente que se felicita de haver acordado d'um pesadello horrivel,

esquecendo-se de que, d'ahi a horas talvez, sobrevirá o sombrio

pesadello de que não se acorda mais--a morte?

O coração tem as tempestades e as calmarias do mar, é certo, os

murmurios e os segredos das aguas, mas o fundo do coração não está ainda

tão estudado como o fundo do oceano. A sondagem mente muitas vezes. Quem

já logrou medir a profundeza de certas dôres?

Tinha soado a hora do desengano ou da felicidade.

Graça Strech estava finalmente em Italia.

Começou desde logo a procurar, a procurar. Correu todo o reino de

Napoles--Napoleão puzera reis em toda a parte--a pedir informações d'um

velho tocador de harpa, que se chamava Pietro, d'uma rapariga franceza

chamada Rosina Regnau e d'uma creança, que devia ter quatro annos, e era

filha da rapariga franceza. Ninguem respondia. Quem em Napoles, o paiz

da musica, havia d'estremar um _sonatóre di arpa_? Acudia

afflictivamente Graça Strech a fazer o retrato do velho Pietro para

auxiliar a memoria dos interrogados. Harpistas velhos havia tantos, uns

que viviam em Napoles, outros que passavam por lá, que por fim de contas

a população lembrava-se de todos e não se lembrava de nenhum. A

declaração de chamar-se Pietro nada aproveitava. Ninguem se importa com

o nome dos menestreis das ruas, mórmente quando todos os musicos

ambulantes parece chamarem-se Pietros. Rapariga franceza ninguem dizia

tel-a visto, e depois acrescentavam que talvez lá houvesse estado, sem

fazerem reparo n'ella, porque os francezes sempre foram tão vulgares em

Italia como os italianos em França, por isso que a natureza pôz entre as

duas nações a ponte granitica dos Alpes.

Graça Strech percorreu vertiginosamente todas as estalagens, todos os

albergues, recolheu informações particulares e officiaes, e não soube nada.

Disseram-lhe que talvez o harpista houvesse passado, como é costume

d'elles, a outras cidades d'Italia, por isso que a concorrencia os

afugenta de Napoles.

Acceitou o alvitre. Visitou em seguida o reino da Etruria, procurou sem

descançar, como um cão que perdeu o faro de seu dono. Uma tarde, em

Piombino um albergueiro pareceu recordar-se d'um harpista velho que ali

pernoitára havia um anno com uma criança que lhe chamava avô. Vira só o

velho e a criança. De mulher franceza que os acompanhasse, não tinha

reminiscencia. Fizera reparo nos dois, pelo contraste. O velho passára a

noite á lareira com a criança adormecida nos braços, afagando-lhe os

cabellos loiros, cobertos pelos seus cabellos brancos, sem dizer uma

palavra. Comeu pouco e bebera menos. Pela manhã saíra com a harpa e a

criança. Aqui está o que o albergueiro de Piombino dissera,

acrescentando unicamente: Quando elle sahia, perguntei-lhe que rumo

levava, porque realmente o harpista me fez pena.

O velho respondeu:

--Vamos correr esse reino d'Italia, á mercê de Deus. Bem vê que é

preciso trabalhar: somos duas boccas, e só temos dois braços--são os

meus que já pouco podem.

A historia do velho e da criança fez profunda impressão no animo

attribulado de Graça Strech. Perdeu-se em conjecturas. Seria Pietro?

Haveria morrido Rosina? O estalajadeiro não soube dizer-lhe o nome do

harpista. Sobretudo, a ideia da morte de Rosina enlouqueceu-o de dôr.

Seria possivel que ella morresse sem o ver, sem o ouvir, sem lhe fallar,

ella, que tinha tanta coragem, que devia resistir energicamente á morte,

porque a morte era a separação eterna? Aquella criança seria

realmente seu filho, e viveria no mundo sem pae nem mãe, apenas confiado

á protecção do pobre harpista napolitano, cuja velhice e trabalhos em

breve o prostrariam, se era que ainda vivia a essa hora? E se elle já

tivesse morrido, que seria da criança na infantil inconsciencia dos seus

quatro annos, que tantos devia ter a ser seu filho? Morreria enregelada

no caminho, morreria de fome entre duas arvores, no meio da serra, ou

então haver-lhe-ia estalado o pequeno coração depois de haver estado a

gritar para que acudissem ao avô, que caíra ao chão e ficára esmagado

pela harpa, sem falar mais, sem responder ao seu afflictivo chamar.

O albergueiro começou a notar extraordinaria agitação na physionomia do

hospede. Viu encovarem-se-lhes os olhos, e estremecerem-lhe os musculos

das faces cadavericas pela magreza e pela lividez. Em breve as

contracções nervosas se estenderam a todo o corpo. O caminheiro começou

a tremer, a tremer. Trouxeram roupa, cobriram-n'o. Pediram-lhe que se

deitasse; recusou. Esteve assim longo tempo, tremendo, frio como o gelo.

Depois, como o peso da roupa fosse muito, começou a córar e a suar.

Dizia palavras que ninguem entendia. Aprumou-se de subito, sacudiu a

roupa. Foi direito á sua maleta, desafivelou-a e tirou de dentro... a

guitarra. Começou a tangel-a febrilmente. A gente da pousada

entreolhava-se com pasmo. E cada vez as notas se precipitavam com maior

rapidez, até que, inesperadamente, a musica foi afrouxando, parecendo

unicamente suspirar. Viram chorar o desconhecido, circumvagar um olhar

alheiado, e arrancar da sua guitarra apenas gemidos e suspiros dolorosos.

Tornaram a dizer-lhe que era melhor descançar. Recusou com pertinacia.

--Peço que me deixem ficar aqui, disse elle pausadamente para que o

comprehendessem.

Não queriam consentir; elle insistiu.

Ouviram ainda por algum tempo suspirar a guitarra, que depois se calou.

Foram espreital-o: viram-n'o com a cabeça poisada sobre ella. Estava

assim, mas não dormia; d'instante a instante viam-n'o estremecer. Ao

romper da manhã saíu. Mal se podia aguentar a pé. Pediram-lhe que

ficasse para se restabelecer; agradeceu e partiu. Continuou, posto que

debilitado, a sua peregrinação indefessa.

--Eu já não viveria, dizia elle ás vezes, se não tivesse ido ao

cemiterio de Cedofeita buscar esta sombra de fé que me ampara ainda!

E lá ia, descançando uma hora, caminhando duas.

Esteve em Turim. Perguntou, investigou, não soube nada. Como para crear

alento, que lhe permittisse seguir jornada, sentava-se nas praças

publicas a tocar na sua guitarra. O povo fazia-lhe circulo. Elle não

levantava os olhos emquanto estava tocando, excepto se ouvia falar

alguma criança. Algumas vezes lhe chamavam louco, porque lhe lançavam

dinheiro ao regaço, e elle não agradecia. Era o idiotismo da desgraça.

Estava pobre, gastára quanto levára comsigo nos primeiros tempos da

peregrinação. Se não fosse a guitarra, morreria de fome. Pouco lhe

importava a vida sem Rosina e seu filho. Se não se matava, era porque

tinha ainda um resto de fé que o amparava.

Foi a Milão. A mesma canceira: perguntar, sempre perguntar. Inquiria

todos os harpistas: nenhum lhe soube dar noticias do velho Pietro.

--Em Italia não estão! dizia elle. Tenho a certeza, não ha recanto que

eu não tenha batido.

Atravessou a Suissa sem melhor resultado.

Uma noite sonhou com as Ardennas: era a patria de Rosina. Lembrou-se de

que viveriam lá na supposição de que elle, se fosse vivo, logo atinaria,

por impulso do coração, com o esconderijo que haviam procurado. Passou a

França: foi direito ás Ardennas. Quasi se sentiu morrer diante d'aquelle

paiz de florestas. Ali havia nascido Rosina. Como ella o devia amar para

se esquecer do seu formoso ninho! Consultou todas as arvores, bateu a

todas as portas. De Rosina Regnau ninguem se lembrava; Pietro, o velho

_sonatóre_, ninguem o vira. Graça Strech esteve ali muito tempo: havia

já tanto que saíra de Portugal! Teve tentaçoes de se deixar morrer nas

Ardennas. Queria respirar ao morrer o ar que Rosina respirára ao nascer.

Chegou a pedir a Deus que lhe désse por tumulo o berço d'ella. Mas,

emquanto orava parecia fortalecer-se a sua fé.

Resignou-se a partir. Recomeçou a caminhar. Ia no fim o anno de 1816.

Disseram-lhe no caminho que no inverno se reuniam em Pariz todos os

musicos ambulantes. Para lá foi com a sua guitarra. Effectivamente o

enxame dos _virtuosi_ enchia os cafés, as praças e as ruas. Á porta dos

theatros havia todas as noites uma nuvem d'elles.

A este tempo reinava em França Luiz XVIII. Napoleão, não podendo

resistir á colligação das potencias alliadas, abdicou o imperio em

Fontainebleau, retirando á ilha d'Elba.

O congresso de Vienna havia regulado os negocios da Europa; sem embargo,

Napoleão sonhava ainda com voltar a França. Em março de 1815 desembarcou

em Cannes e entrou em Pariz. Pôde ainda vencer em Charleroy e Fleurus,

mas a hora solemne de Waterloo bateu no relogio que marca a existencia

de vencedores e vencidos, e Themistocles teve de pedir hospitalidade a

Artaxerxes.

Graça Strech ia caminhando e ouvindo as vozes do povo. Quando soube do

resultado de Waterloo, disse de si para si:

--A Providencia é justa. A minha familia não precisava da minha

vingança, porque a Providencia se encarregou de punir o assassinio de

todas as mulheres, de todos os velhos e de todas as crianças. Ora a

justiça da Providencia não deixará de me aclarar o mysterio que eu

procuro desvendar ha tanto tempo. Deus sabe se tenho forças para mais!

O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular · 第 11 / 14 段