no lento curso de cinco annos, estavam costumados ao luto e á saudade
dos que pereceram na catastrophe da ponte, nas linhas de defeza, nos
hospitaes de sangue e dos que posteriormente haviam succumbido na
demorada campanha peninsular contra os francezes?
Não eram estranhos os jubilos d'esse dia a tão funestos acontecimentos.
Esperava-se a brigada de infantaria do Porto, composta dos regimentos 6
e 18, que victoriosa regressava de França depois de haver pelejado com
egual denodo pela restauração d'estes reinos e de toda a peninsula.
Os feitos da brigada de infantaria do Porto haviam soado, com assombro
dos portuguezes, em Portugal inteiro, mórmente os que praticára na
batalha da estrada de Bayona, em França, no dia 13 de dezembro do anno
anterior.
O senado da camara tinha-se reunido nos primeiros dias d'agosto para
assentar nos festejos com que se devia celebrar o regresso das tropas.
Resolveu que se levantassem arcos de triumpho, fazendo-se outras mais
demonstrações de alegria, e encarregou da direcção dos preparativos o
vereador decano José de Sousa e Mello.
Tratou-se, pois, com febril afan, de executar o programma dos festejos.
Construiu-se sobre a ponte do Poço das Patas a _Porta da cidade_[13],
guarnecida com os castellos que lhe são proprios, e com as
insignias concedidas por carta regia de 13 de maio de 1813;
collocando-se na cimalha da porta a imagem de Nossa Senhora, que
entregava a seu Divino Filho uma fita com a legenda _Civitas Virginis_.
O gosto da pintura, imitando velha cantaria, muito deu na vista das
pessoas que percorriam as ruas e estacionavam boqui-abertas em frente do
arco.
Tambem na cimalha foi embutida uma lamina de bronze com este distico:
HINC GENTI HOMEN;
HINC REGNO PLURIES SALUS;
HINC EUROPAE, ORBI
PRIMA LIBERTATIS LUX NOVISSIME AFFULSIT.
No alto da rua nova de Santo Antonio levantou-se um arco de triumpho, de
ordem composita, firmado em quatro columnas; resaltavam dos
intercolumnios arnêzes, grévas, escudos, bandeiras e lanças entrelaçadas
com listões de murta, ramos de oliveira, palmas e louros. Nos dois
grandes pedestaes sobre que descançavam as columnas, lia-se:
Sempre engrandeça a patria lusitana
Vosso nome immortal, claro, e subido;
E a Casa restaurada de Bragança
Tenha em thesouro seu vossa lembrança.
_Condest._
Esta Cidade forte, e populosa,
Colonia antiga do poder Romano,
Cavou a sepultura temerosa
D'um gigante nas obras deshumano.
_Affons. Afric._
Egualmente estavam enfloradas as cornijas, architraves e os frizos.
Sobre o portico erguia-se o escudo das armas da cidade; por cima da
balaustrada que corria ao longo do arco, havia quatro estatuas que
figuravam:
A SAUDADE
Mostrava um livro aberto em que se lia: _1.º e 2.º de Setembro de 1809._
(Dias em que saíram do Porto as tropas.) No pedestal estava escripto:
Deixando a Patria amada, e proprios lares
Se mostraram nas armas singulares.
_Cam._
A ALEGRIA
Indicava em outro livro a data: _15 d'agosto de 1814._ (Dia da entrada
das tropas.) Lia-se no pedestal:
A Deus, ao Rei de quem a paga esperam
Fazer maior serviço não puderam.
_Malac._
A VICTORIA
Desenrolava os annaes das acçoes em que a brigada entrára. Legenda do
pedestal:
Aonde falta o premio a quem milita
Não habita a razão, nem gente habita.
_Dest. d'Esp._
A ETERNIDADE
Tinha, entre o symbolo da serpente enroscada, os nomes dos
regimentos: _Infantaria 6 e 18._ No pedestal:
Ajudados dos céos em mar e em terra,
Tem fechadas na mão a paz, e a guerra.
_Malac._
Sobreposta a uma longa inscripção latina, rematava o grupo do arco uma
esphera armilar, sustentada por Genios que entornavam flôres.
Nos intercolumnios posteriores correspondiam armas, espadas, tambores e
alabardas unidos com feixes de louro, ramos de carvalho e oliveira.
Nos grandes pedestaes havia gravadas epigraphes em verso, correspondendo
os ornatos aos da frente e as estatuas da balaustrada estas quatro:
O PORTO
Offerecia com a mão direita uma corôa de louro e empunhava na esquerda
um ramo de carvalho, tendo no pedestal:
Orno os heroes que a patria eternizaram
E por ella seu sangue derramaram.
_Elp._
O AMOR DA PATRIA
Offerecia com a direita um coração e apontava com a esquerda para o
peito. No pedestal:
Meu valor, minha nobre fortaleza
Será gloria da gloria Portugueza.
_Affons. Afric._
A PAZ
Offertava com a mão direita o ramo de oliveira, e sustentava na esquerda
um feixe de palmas. No pedestal:
Que mais ditoso fim se lhe esperava
Que este agora que merecido estava!
_Affons. African._
A DOCILIDADE
Arremessava com a mão esquerda um montão de cadeias, e com a direita
segurava uma estreita fita. No pedestal:
O Soberano Author da redondeza
Da minha redempção deu-vos a empreza.
_Bocag._
A tarja que, do outro lado, correspondia á inscripção lapidar, tinha
figurados em relevo todos os petrechos de guerra, e os Genios, que
d'esse lado sustentavam a esphera, desenrolavam uma fita em que estava
escripta uma quadra do _Condestabre._[14]
Ahi se agrupava impaciente a multidão, não só attrahida pela
magnificencia do arco, senão tambem pelo variegado espectaculo das
tropas da guarnição, que estavam postadas em alas até ao largo de Santo
Eloy; bem como para ver pegar fogo á bateria collocada no topo da
calçada dos Clerigos e destinada a salvar com vinte e um tiros de peça a
passagem da brigada pelo arco.
Na rua nova do Almada baralhavam-se dois formigueiros de povo: um que,
receoso do tumulto na aproximação das tropas, demandava o Campo de Santo
Ovidio; outro que, tendo visto o obelisco levantado no meio d'este
campo, ia procurar logar, na hypothese de encontral-o, junto ao arco da
rua nova de Santo Antonio.
Era tambem sobremodo esplendoroso o obelisco n'aquelle campo. Rodeava o
pedestal uma espaçosa varanda, adornada com ricas bandeiras portuguezas.
Sobre o pedestal, e em frente da rua nova do Almada, estava o retrato do
principe real, com a seguinte legenda escripta na almofada correspondente:
Diga-o a Augusta Effigie contemplando:
Foi este o forte, o justo,
João, da Patria Pae, que a patria alçando
Deu pasmo a naturaes, e a estranhos susto.
_Elp._
Em frente da rua da Boa Vista, resaltava o retrato da rainha, lendo-se
no pedestal:
O louvor que se ganha pelos meios
Da virtuosa vida, este só dura,
Este de se perder não tem receios.
_Bern._
E em frente da linha dos predios foi disposto o retrato da princeza,
tendo no pedestal:
Que affavel se olharia a tua face,
Se o céo a nossos votos sempre amigo
Na fria estatua espiritos soprasse!
_Filint._
Do lado da Lapa, em frente do quartel, viam-se as armas do reino e da
cidade, unidas por um listão, em que estava escripto o dia da
restauração do governo nacional
18 DE JUNHO DE 1808
lendo-se no pedestal os seguintes versos de Horacio:
HIC DIES VERE NOBIS FASTUS ATRAS
EXIMIT CURAS.
Todos os retratos foram collocados entre tropheus de bandeiras, e eram
cingidos pelos emblemas da paz e do heroismo...
O bom povo portuense, na cegueira do seu jubilo, não reparava que esses
emblemas, á beira dos augustos retratos, deviam ser uma pungente ironia
se a familia real tivesse olhos para os ver atraves de enorme distancia,
e interposto o mar!
No cimo do obelisco assentava a corôa real cingindo um manto de preciosa
bordadura.
Pouco depois das oito horas e meia, um unisono grito de alegria
annunciou a chegada da brigada ao Alto do Senhor do Bomfim.
Então começou o estrondear dos morteiros, o repicar dos sinos e o
alarido dos vivas. Quando as tropas chegaram ao topo da rua nova de
Santo Antonio, o enthusiasmo attingiu as raias do delirio,
tamanho era o alvoroço da multidão que saudava com brados, com os
lenços e os chapeus os dois regimentos portuenses. Durante todo o
percurso até ao Campo de Santo Ovidio as flôres, as grinaldas e os
ramos, que desciam das janellas, figuravam uma chuva iriada e espessa
que ia orvalhar de petalas as fardetas dos soldados.
Se nos fosse dado ouvir os breves dialogos que se perdiam no borborinho
geral, de grupo a grupo iriamos recolhendo vozes, posto que variadas,
todas concernentes á festa d'esse dia.
N'uma das janellas da rua nova do Almada chalravam as visinhas da
familia Strech, as quaes cinco annos antes tivemos occasião de conhecer
em lances que verdadeiramente contrastavam com o espectaculo a que
estamos assistindo.
Passava o regimento de infantaria 18, e diziam ellas.
--Vamos a ver se conhecemos o José Maria!
--Vem tenente e condecorado!
--Já sei. Mandou dizel-o o homem da Victorinha.
--Deve vir muito mudado!
--Será aquelle?
--Aquelle, menina! Aquelle militar tem mais de vinte e cinco annos...
--Vamos a ver se elle olha para a casa onde morou...
--Vês? Não olha! Vae até a olhar para o chão...
Era elle, effectivamente.
No meio da rua dialogavam dois velhos:
--Que pena não assistir o Trant!
--Está doente.
--Bem sei.
--E elle que tanto trabalhou para esta recepção!
No Campo de Santo Ovidio, antes da chegada das tropas: Um velho
perguntando a um sujeito que estaciona junto d'elle:
--Falta-me a vista! Quem são aquelles que estão nas janelas do quartel?
--É o juiz e a camara. Olhe... Não vá mexer-se agora uma cabeça?
--Vejo, mas não distingo.
--Pois é o José de Sousa e Mello.
--Acho que elle tem de falar pelo senado?
--O programma dizia que sim.
--Esperaremos. Sempre não ter vista! Perco metade!
Chegaram as tropas ao Campo de Santo Ovidio e, depois de formar
quadrado, fizeram continencia aos retratos da familia real, que, diga-se
em abono da verdade, não responderam.
Os originaes estavam no Brazil; não viram.
Em seguida o brigadeiro Carlos Ashworth, commandante da brigada,
levantou vivas ao principe regente e á rainha...
Os retratos não se mexeram.
Quando porém se ouviu um enthusiastico viva em honra da cidade do Porto,
a cidade respondeu delirantemente pela bocca das tropas, do povo, e pelo
acenar vertiginoso dos lenços nas janellas.
Dada a voz de descançar armas, desceu o já nomeado vereador decano, José
de Sousa e Mello, que pouco antes viramos a uma das janellas do quartel.
O brigadeiro commandante, tendo-se apeiado, dirigiu-se para elle. Então
o camarista Mello recitou uma allocução que terminava por estas
palavras: «A camara roga a vossa excellencia queira fazer-lhe a honra,
não só de jantar hoje n'este quartel, mas de convidar em seu nome toda a
officialidade d'estes dois regimentos, mandando vossa excellencia que,
além d'isto, se distribua pelos sargentos, cabos e soldados o dinheiro
que ali se acha para lhes supprir o jantar d'hoje.»
O brigadeiro Ashworth agradeceu amavelmente o convite, e asseverou que a
officialidade acceitaria reconhecida.
A immensa multidão que enchia o Campo de Santo Ovidio rompeu n'este
lance em freneticos vivas e, ao som das bandas marciaes, recolheram as
tropas a quarteis, sendo seguidas por grande numero de pessoas,
parentes, amigos, e conhecidos, que esperavam lhes fosse permittido
abraçar soldados e officiaes.
Concedidas duas horas para desafogo de saudades, cinco annos retraídas,
e gastas em ardentes expansões que as volveram momentos, foi o regimento
de infantaria 18 ouvir missa á egreja da lapa e o regimento de
infantaria 6 á egreja da Graça. Em ambos os templos houve _lausperenne_
e _Te-Deum_.
Cumpridos os deveres do coração e da alma, começaram os da cortezia.
O brigadeiro Ashworth foi cumprimentar o senado á sala da
secretaria do quartel de Santo Ovidio, convenientemente preparada para a
solemnidade da recepção, recolhendo-se depois ao quartel general da rua
nova do Almada, onde, pelo meio dia, recebeu a visita dos vereadores.
Cerca da uma hora da tarde, quando o brigadeiro já estava desembaraçado
de felicitações officiaes, annunciou-se no quartel general o tenente
Graça Strech.
O brigadeiro acudiu a recebel-o com a maxima familiaridade, que era
testemunho de maxima consideração.
--Vem tambem cumprimentar-me? galhofou o brigadeiro.--Ora sente-se e fale.
--Venho solicitar um grande obsequio, respondeu o tenente.
Razão tinham as meninas da rua nova do Almada para não reconhecer n'elle
o gentil e vigoroso José Maria dos dezeseis annos. Estava velho aos
vinte e um, velho das geadas do infortunio que requeimam as flores da
alma, e apagam nos olhos o brilho da mocidade. Tinha a magreza viril do
soldado, mas cruzavam-se na sua physionomia umas sombras espessas que á
primeira vista inculcavam que espirito e corpo haviam soffrido por
egual. Como as palreiras meninas da janella disseram, figurava ter mais
de vinte e cinco annos.
Mas, voltando ao dialogo do tenente com o brigadeiro:
--Que grande obsequio é esse? perguntou com affabilidade Carlos Ashworth.
--Venho pedir dispensa de assistir hoje ao jantar.
--Ah! meu amigo, isso não póde ser! O galardão é para todos; cumpre,
pois, que cada um receba o quinhão que lhe cabe.
--Eu creio que já em França tive a honra de lhe dizer, meu brigadeiro,
que precisava descanço porque soffria...
--E de me pedir a sua baixa, bem sei. D'essa vez não pude annuir ao
pedido do meu bravo tenente, porque havia recebido instrucções
particulares do senhor marechal marquez de Campo Maior para não
licenciar soldados nem officiaes. Era justo que o Porto conhecesse todos
os heroes d'esta brilhante campanha. O marechal tinha razão. Agora, meu
bom amigo, tambem não posso ser-lhe agradavel como desejava. O
tenente foi dos militares que mais se distinguiram desde Portugal a
França. As ordens do dia falaram muita vez no seu nome. Conhecem-n'o.
Seria uma affronta para o Porto que estivesse entre os seus muros, e
recuzasse o talher que lhe offerece. Isso--disse o brigadeiro
curvando-se amigavelmente para elle--são saudades, não quero saber de
quem. Tambem eu as tenho... Vamos, assista ao jantar, que eu me
empenharei por obter a sua baixa o mais breve possivel.
E estendeu-lhe cordealmente a mão.
O tenente Graça Strech saiu d'ali com os olhos no chão para não vêr a
casa onde nascera, e atravessou as ruas da cidade absorto na triste
concentração de quem está em terra onde não conhece ninguem.
Ia entregue aos seus pensamentos, e assim andou ao acaso até que outro
tenente do mesmo regimento lhe bateu no hombro e disse:
--São quasi cinco horas e meia. Vamos lá ao jantar, homem. Está marcado
para as seis.
Effectivamente, á hora designada, reunida a officialidade no quartel de
Santo Ovidio, passou com os vereadores á sala do banquete, cuja
ornamentação era brilhante.
A um e outro lado corriam arbustos, d'entre os quaes appareciam as armas
de Portugal e Inglaterra. A um grupo de trophéus de guerra, com
bandeiras d'uma e outra nação, que cobriam a cabeceira da mesa, fazia
_pendant_ um nublado em que se enleiava a serpente, symbolo da
eternidade, tendo escripto no centro--_Ashworth._--Guarneciam o nublado
duas bandeiras com os nomes dos dois regimentos, atadas por uma fita em
que se lia a data de maior gloria para a brigada do Porto--_13 de
dezembro de 1813_.
No fim do banquete, ao som da banda de musica de milicias que tocava á
porta do quartel, levantaram-se enthusiasticos vivas ao principe
regente, á familia real, aos monarchas alliados, aos governadores do
reino, generaes do exercito combinado, ás tropas victoriosas, e a todas
as mais entidades que iam lembrando e mereciam a homenagem d'um calis de
vinho.
Um só conviva correspondeu a esses ruidosos brindes com um movimento de
labios: foi Graça Strech. E á noite, quando toda a cidade se illuminava
festivamente, era profunda a escuridão na sua alma.
[13] É fiel a descripção d'estes festejos; O auctor
encontrou-a n'um opusculo da epoca.
[14] Poema heroico de Francisco Rodrigues Lobo.
* * * * *
XVII
Como madrugam as aves e os noivos!
Obtida a baixa, Graça Strech poucos dias se demorou no Porto.
Sentia-se asphyxiado na atmosphera em que respirára ao nascer.
Punham-lhe medo as sombras; as ruas affiguravam-se-lhe tristes como
avenidas de cemiterio. Duas vezes, alta noite, depois de dolorosissima
lucta comsigo mesmo, estivera, encostado á parede fronteira á casa em
que viveu os primeiros annos da vida, mergulhado em profunda meditação.
A ultima vez fôra a ultima noite que passára no Porto. O céo era d'um
azul setinoso. O branco luar de agosto estendia ao longo da rua a sua
claridade immovel, e parecia desenhar nos muros contornos phantasticos.
Reinava na cidade o silencio imperturbavel das noites profundas. Na
janella da sala onde cinco annos antes, por noite tempestuosa, jaziam
tres cadaveres, luzia um reflexo mortiço como de lamparina que não
tardou a apagar-se. Lembrou-se Graça Strech de que devera ser egualmente
pallido o reverbero da luz que lhe tremia na mão quando contemplava os
corpos inanimados das trez senhoras. Transportou-se áquelle horrivel
espectaculo. Viu tudo. A mãe, a irmã e a avó estavam a seus olhos como
n'essa hora tremenda. Não obstante o seu grande empenho, de pergunta em
pergunta não lográra saber onde repousavam. Queria ir procurar Rosina,
de quem nada sabia tambem, mas desejava despedir-se da familia que
ficava, antes de partir para o seio da familia que o esperava. Não pôde
realisar o seu desejo. Registos parochiaes não os havia. N'aquella
immensa hecatombe da invasão, tambem as sepulturas foram invadidas sem
averiguar-se por quem. Tinha desesperado de conhecer a verdade,
e, já que não podia despedir-se do tumulo da sua familia, fôra
despedir-se do predio que ella habitára. De repente, n'uma casa proxima,
perpassou uma luz. Fez reparo. Quem velaria ainda áquella hora?
Deteve-se a examinar, e certificou se de que ali viviam, no anno de
1809, as duas visinhas que lhe falaram na bateria do Bomfim. Foi isto um
como raio de tardia esperança. Recriminou-se pelo esquecimento de não as
ter procurado logo que chegou. A desgraça havia-o desmemoriado.
Atravessára o Porto como um viajante solitario atravessaria o
Sahará--calado, pensativo, sem ver, por ter medo de olhar. Mas--os
infelizes duvidam sempre--viveriam ainda ali? Tinha razão. Quem poderia
dizer se ellas, na fuga, haveriam chegado ao seu destino, sido
attingidas pelas balas ou cahido em poder dos francezes?
A estas perguntas, que a si proprio fazia, só poderiam responder
indagações. Pesava-lhe todavia o ter de se aproximar de pessoas cuja
conversação iria aggravar a dôr do passado. Se elle soubesse onde
repousavam as cinzas da sua familia, lá iria para falar-lhes, para
contar-lhes os extraordinarios lances da sua vida, para dizer aos frios
restos de sua irmã por que razão não levava comsigo o annel, sobre o
qual jurára vingal-a.
Augusta, de dentro do sepulchro, responderia com o perdão implorado.
Mas o que elle não queria era deixar entrever a sua dôr de modo que lh'a
avivassem piedosamente, porque a sociedade não dá o balsamo da compaixão
sem primeiro rasgar as feridas que a inspiram.
O desejo vehemente venceu, porém, a natural repugnancia. A breve trecho
fez tenção de não desaproveitar as poucas horas que lhe restavam para
colhêr esclarecimentos. Resolveu-se a esperar que amanhecesse e, como a
luz parecesse brilhar com intensidade a través da janella, não se
afastou. Mal começava a raiar a claridade da madrugada, apagou-se a luz,
e cerca das cinco horas da manha viu Graça Strech abrir-se a porta.
Sairam duas mulheres de mantilha, seguidas por uma criada que levava um
açafate á cabeça. Fosse reminiscencia ou phantasia, Graça Strech cuidou
reconhecer as duas visinhas: tia e sobrinha. Tomou alento e acercou-se.
Uma das mulheres, a mais nova, voltou de repente a cabeça como se
esperasse alguem. Havendo-se enganado, achegou-se da outra e soltou
um--ai!--que mais denunciava despeito que medo.
--Não se assuste vossa senhoria, sr.ª D. Izabel! apostrophou Graça
Strech serenando a menina que se denunciava medrosa.
Tia e sobrinha olharam fito no desconhecido, e foi a sobrinha quem
primeiro exclamou:
--Pois não se lembra, minha tia? Olhe bem para elle!
--Quem é?
--É o sr. José Maria! Eu bem dizia outro dia que era o tenente das barbas!
--Póde lá ser o Josésinho!
--Tem razão, minha senhora, replicou Graça Strech. Eu devo parecer-lhes
uma sombra do que fui. Mas, sombra ou realidade, o certo é que me chamo
José Maria da Graça Strech.
--Ora uma coisa assim! Parece um velho!
--E parece! acrescentou a menina.
--Desgostos, minhas senhoras.
--E muitos teve tão novo, sim, porque vêr...
--Peço a vossa senhoria o obsequio de deixar em silencio essas tristes
recordações. Uma só quero eu avivar, e por isso lhes causei esta surpresa.
--Mas não nos ter procurado! exclamou a velha senhora.
--Não tomem á conta d'ingratidão o que é simplesmente embrutecimento.
Bem podia ser tambem que tivessem mudado de casa.
--Ora! Quem tem bocca vae a Roma! exclamou a menina. Já nem queria saber
novidades da sua antiga visinha! Pois saiba que me vou casar...
--Felicito vossa senhoria.
--Cala-te ahi, tagarella! acudiu D. Eulalia, affastando com o braço a
sobrinha. Ha de estar admirado de nos vêr sahir ambas a esta hora. Pois
não se admire. Combinamos com as Cerqueiras e as Brochados, tudo visitas
da sua casa, sr. Strech,--e com o noivo da Izabelinha--juntarmo-nos na
primeira missa que se diz no altar do Senhor dos Passos em S. João Novo
e irmos depois almoçar todos á Fonte das Virtudes.
Cumpre dizer que na primeira década do seculo XIX era ainda a
Fonte das Virtudes o local destinado ás comezainas das familias
burguezas do Porto. Ahi se reuniam em ruidosos convivios, deposta a
mantilha, e irmanados novos e velhos pelo mesmo apetite e pela mesma
alegria.
O camartello das demolições municipaes tem--_avis rara!_--respeitado até
hoje esta legendaria fonte que se compõe d'um alto frontispicio, ornado
de pyramides, e firmado em bancos de pedra, que a rodeiam. Rebenta
abundantemente a agua por duas enormes carrancas em conformidade com a
esculptura de todos os chafarizes antigos. Ladeiam a fonte dois grandes
tanques, durante todo o dia, ainda hoje, frequentados por lavadeiras.
N'esses bons tempos, ficava a fonte extra muros; sahia-se para ella pela
porta a que a fonte deu nome. Ao lado da porta, na eminencia da parte
oriental, havia já então os chamados _Assentos_, actualmente Passeio das
Virtudes.
O padre Agostinho Rebello da Costa, na sua _Descripção topographica e
historica da cidade do Porto_, impressa em 1789, escreve ácerca d'este
local: «Em toda a cidade, não ha sitio nem mais ameno, nem mais
agradavel; porque além da sua bella posição adornada de regulares
edificios, gozam os olhos d'um só golpe, vista de cidade, de mar, rio,
navios, montes, campinas, quintas e palacios. O grande paredão, que
presentemente se está fazendo, para com elle se formar uma praça
correspondente á belleza, e magnificencia d'esta agradavel situação,
será um monumento eterno do patriotico zelo que Rodrigo Antonio de Abreu
e Lima, cavalleiro professo na ordem de S. Thiago, inspector da marinha
do Douro, administrador geral dos portos seccos das trez provincias do
Norte, e actual juiz da alfandega, mostrou em obrigar o senado da camara
a fazer esta obra interessantissima á regia utilidade, e recreio publico.»
Dito o que as historias referem ácerca da Fonte das Virtudes, reatemos o
dialogo.
--Divirtam-se vossas senhorias, respondeu Graça Strech, que eu
perguntarei sem desvios o que desejo saber. Não me foi possivel
averiguar até hoje onde jaz a minha desventurosa familia. Vossas
senhorias sabem?
--Casualmente nos disse o sachristão de S. Martinho de Cedofeita
que tinham ali sido enterradas, se bem que nos não pudesse designar as
sepulturas, pela grande confusão de cadaveres que n'esses tristes dias
houve.
Isto disse D. Eulalia, acrescentando: