Graça Strech viu-o chorar e disse de si para si:

--O mais desgraçado é aquelle, porque já desaprendeu de consolar.

E dirigiu-se a elle:

--Dá-me licença que o interrogue? perguntou.

--Da melhor vontade, respondeu o menestrel.

--Vae só?

--Infelizmente vou... Deixei um filho morto em Portugal. O rapaz era

fraquito, e não pôde aguentar-se. Desde que me elle morreu, fiz voto de

voltar a Italia. Mas quem póde agora ir por Hespanha com estas malditas

guerras, que nem n'este bom paiz de Portugal deixam ganhar a vida?

Juntei tudo o que podia, consegui obter uma reducção na passagem, e aqui

vou eu com a minha harpa, sem o meu filho.

E cada vez luziam mais as lagrimas nos olhos do italiano, que parecia

não ter ainda cincoenta annos, posto lhe alvejassem já os cabellos.

--Sente-se, senhor...

--Pietro, acudiu elle com a celebrada vivacidade napolitana, se bem que

lhe soluçasse a voz commovidamente.

--Estimei saber o seu nome, porque preciso archival-o no coração. Vim

aqui para lhe pedir um grande favor. Tem de ser sua companheira de

viagem aquella desgraçada rapariga franceza que ali vê...

--Franceza! atalhou admirado o italiano.

--Sim, franceza. É um mysterio cuja revelação iria augmentar a sua

maguada compaixão, meu bom Pietro. Olhe por ella, anime-a, que a

pobresinha é muito infeliz, e quem lh'o pede não é menos infeliz do que

ella...

O velho aprumou-se, tirou solemnemente o seu barrete de gomos, e

disse:

--Fique descançado, senhor. Pela memoria de meu filho lhe juro que a

tratarei a ella como se fôra elle mesmo. O meu coração até agradece á

Providencia esta inesperada companhia que me dá. _Corpo di Baccho!_ que

eu estava aqui triste, triste, que já mal podia commigo...

--Obrigado! muito obrigado! exclamou com extraordinaria commoção Graça

Strech.

--Vá buscal-a para aqui, tornou o italiano. A minha harpa está habituada

a chorar; eu a farei chorar mais uma vez. Quando eu vir que a minha nova

filha vae triste, eu a despertarei: _Carina!_ E o _canta-storie_ sempre

ha de saber alguma napolitana para cantar-lhe.

Abeirou-se Graça Strech de Rosina. Ella tinha os olhos postos na

superficie do mar, immoveis e desluzidos, e deixava rolar as lagrimas

livremente pelas faces, como se já não tivesse vida para enxugal-as.

--Rosina! apostrophou elle acordando-a, e com voz que mal se percebia.

Ella estremeceu e fitou-lhe um olhar que se diria inconsciente.

--Rosina! tens ali um companheiro de viagem, que me pareceu tão

desgraçado como qualquer de nós. É musico italiano. Volta a Italia

porque lhe morreu em Portugal o filho que o acompanhava. Já vês que deve

ser infeliz. Levanta-te, anda para ao pé d'elle. Anda, Rosina, minha boa

amiga, minha desgraçada irmã. Tem fé, tem animo, já que eu sinto

perdel-o... Olha... quero dizer-te uma coisa... Vou confiar-te o meu

thesouro, Rosina, o meu thesouro que tão mysterioso te pareceu, e que

tanto te fez soffrer... Guarda este annel de minha irmã... Deus sabe se

eu algum dia fiz tenção de o tirar do dedo! Que m'o tirassem depois de

morto, pouco me importava. A minha tenção era morrer com elle. Mas eu

amo-te tanto, tanto, que quero que tu o guardes. Elle já me não póde

recordar agora a minha vingança... Quando nosso filho crescer mette-lh'o

no dedo, e alguma vez lhe contaremos ambos a historia do annel mysterioso.

Rosina olhava para Graça Strech em dolorosa suspensão. Pareceu accordar,

porém, quando sentiu na mão o contacto do annel.

E entrou de beijal-o anciosamente, delirantemente, como se fosse

para ella uma reliquia mais valiosa do que a madeixasinha de seu pae.

--O que eu soffri por elle, por este annel! disse ella soluçante. Agora

o levo commigo, e com elle a tua alma... Senta-te aqui, José, ao pé de

mim, não me fujas ainda, que o navio não parte por ora... Lembra-te que

esta separação póde ser eterna...

--Eterna! repetiu estremecendo Graça Strech.

--Não, não ha de ser, Deus ha de conservar-nos a vida que nos é mais

precisa do que nunca... Mas bem sabes que eu quero gravar bem na memoria

as tuas feições, uma por uma, todas, porque te quero ter presente a toda

a hora, contemplar a cada instante o teu retrato, tão fiel, tão fiel,

que me pareça estar-te vendo... Bem sabes que é uma illusão de que

preciso, de que depende a minha vida. Pois se eu me desalentar, se

succumbir á saudade,--e baixou timidamente a voz--quem ha de velar por

nosso filho, soccorrel-o, beijal-o, amal-o?...

N'este momento deu a sineta de bordo signal para que descessem as

pessoas que não eram passageiros.

Graça Strech, não tendo já forças nem coragem para levantar Rosina, fez

signal ao italiano para que se aproximasse.

Pietro abeirou-se com a sua harpa, sentou-se ao pé de Rosina, e

relanceou a Graça Strech um olhar que parecia dizer: Póde ir.

Rosina escondia o rosto entre as mãos, e soluçava offegante,

estrangulada a voz na garganta.

Um dos marinheiros veiu, por ordem do capitão, lembrar a Graça Strech

que já tinha dado o signal de bota-fóra.

--Eu vou... respondeu elle machinalmente sem poder desfitar Rosina, e

quasi sem força para mover-se.

E, lançando a mão á corda, desceu oscillando como estonteado por uma

violenta vertigem.

Na Occasião em que o capitão passava por deante de Pietro, o italiano

levantou-se e sorrindo cortezmente lhe disse:

--O capitão dá-me licença que toque na minha harpa o hymno da partida?

O capitão sorriu tambem, e Pietro, inclinando-se para Rosina, exclamou:

--_Carina!_ A minha harpa vae ser de hoje em deante a nossa unica

consolação. É preciso atordoarmo-nos com a musica. Ahi vae a _Capuana_

para não sentir o barulho de levantar ferro. Agora, para Napoles.

E começou a entoar, acompanhando-se, uma canção napolitana que poderia

traduzir-se assim:

Esta tarde na ribeira

Uma hora passeei.

Meu pensamento, occupaste-o

E tanto pensei em ti,

Que o coração lá perdi...

Tu vieste e apanhaste-o.

Ensina-me pois agora

A desfazer a meada.

São parciaes os juizes,

E a justiça demorada.

Bem sei que perdia a causa...

Que meio? Lembra-te algum?

Tu lá tens dois corações,

E eu cá não tenho nenhum.

Para que nos custe menos

A resolver a questão,

Expliquemo-nos. Ha males

Que ás vezes nos trazem bens.

Vamos fazer um ajuste:

Tu dás-me o teu coração.

E guarda o que lá me tens.

............................

O brigue navegava já. E a musica parecia adormentar aquelles dois

desgraçados: um porque levava seu filho; o outro porque o deixava

ficar.

* * * * *

XV

A queda do gigante

A historia da terceira invasão franceza, comquanto prenda com a nossa

narrativa, não lhe é essencial.

Muito de leve passaremos pois pelos acontecimentos que medeiam de julho

de 1810 até agosto de 1814 e que, todavia, não podemos supprimir.

Limitar-nos-hemos, em conformidade com o nosso plano, a um simples

bosquejo não descabido em romance.

O marechal Massena, chegado a Valhadolid, assumiu o commando do exercito

francez, que mandou reunir em Salamanca, e marchou sobre Portugal,

tomando de caminho Ciudad Rodrigo, que se rendeu depois de heroica

resistencia. Quasi volvido um mez, capitulou a praça d'Almeria; havendo

soffrido um longo cerco, e tendo sido o paiol incendiado pelo inimigo.

O exercito alliado, em força de setenta mil homens, esperou os francezes

nas alturas do Bussaco, onde durante os dias 27 e 28 de setembro se

pelejaram duas sangrentas batalhas, sendo grande a victoria para o

exercito anglo-luzo, que galhardamente repelliu o inimigo em grande

parte dizimado. É esta uma das paginas mais brilhantes da historia

portugueza durante o longo periodo das guerras peninsulares.

Os francezes, marchando para oeste, passaram ao Sardão, e d'ahi seguiram

para o sul; os alliados, retirando sobre Lisboa, rebateram-n'os nos

campos de Coimbra, e em Leiria.

Amedrontado Messena á vista das linhas chamadas de Torres Vedras--sobre

as quaes o official inglez John T. Jones deixou uma circumstanciada

_Memoria_, que convém ser consultada pelos que não desdenham saber

historia patria--tomou posições á rectaguarda em Santarem e Leiria,

esperando reforço para atacar as linhas. O exercito francez,

consideravelmente derrotado, estava de mais a mais carecido de viveres.

N'esta conjunctura e já entrado o anno de 1811, passou o marechal

Beresford ao Alemtejo para se oppôr ao inimigo, o que não impediu que

Badajoz capitulasse. Não obstante esta victoria, e um reforço de trinta

mil homens que o exercito francez recebeu, começou a retirar nos

primeiros dias de março d'esse anno, sendo atacado na retirada pelos

alliados, e entrando em territorio hespanhol no mez d'abril. Segunda vez

reforçado, atacou o exercito anglo-luzo em Fuentes d'Honor, não sendo

ahi mais feliz do que no Bussaco. No dia 11 d'esse mez retomaram os

nossos a praça d'Almeida, e pela terceira vez se viu Portugal

desopprimido do jugo francez.

Pareciam empenhados os factos em desmentir a prophecia de Napoleão: era

a aguia da França que fugia amedrontada para o seu ninho

d'além-Pyrineus. O leopardo triumphava á sombra da cruz, que sempre foi

timbre dos guerreiros portuguezes.

Á batalha de Fuentes d'Honor seguiu-se outra não menos cruenta--a de

Albuera, onde a victoria nos foi descontada pela perda de seis mil homens.

A aguia franceza, a dominadora da Europa, irritada por uma série de

desastrosas derrotas, procurou ainda desferir no céo da peninsula o

arrojado vôo das suas passadas glorias. Por um momento lhe sorriu a

victoria. Substituido Messena por Marmont, o exercito francez logrou

tomar-nos a artilharia em Fuente Guinaldo, obrigando os alliados a

retirar sobre a fronteira portugueza, mais assignalados ainda na

retirada que no triumpho, porque, aguentando o peso da cavallaria

inimiga, repelliram todos os ataques, retomando a artilharia. Com a ação

de Arroyo-del-Molinos, pelejada a 18 de outubro, cuja victoria coube aos

alliados, se encerrou o anno de 1811, com muita honra para os

anglo-luzos. Não começou mal auspiciado o anno seguinte, que se

estreiou, para os alliados, com a tomada da praça de Ciudad Rodrigo,

seguindo-se-lhe a rendição de Badajoz, depois de haver soffrido os

apertos de primeiro e segundo sitio. Todavia o maior successo d'esse

anno estava reservado para a batalha de Salamanca, em que os dois

exercitos, commandados de um lado por Wellington e do outro por Marmont,

se equipararam em galhardia e pericia, cabendo a victoria--que se

reputa a mais celebre de toda a guerra peninsular--aos luso-anglos. Á

victoria de Salamanca seguiu-se a tomada de Madrid, e á tomada de Madrid

o assedio ao castello de Burgos pelos alliados, que, por desobediencia

de Ballesteros, tiveram de retirar sobre a fronteira de Portugal com

denodo egual ao que em Fuente Guinaldo os assignalou. Não remata

deshonrosamente o anno de 1812, para o exercito anglo-luso com este

revez que se póde considerar façanha. Refeitas, porém, as tropas

alliadas das perdas soffridas na retirada de Burgos, e já começado o

anno de 1813, avançaram até Victoria, onde, na manhã de 2 de junho, se

travou batalha geral, retirando o inimigo sobre Pamplona, perdendo

artilharia, caixa, bagagens, e salvando-se o rei José, que estivera

presente, em precipitada fuga.

_Alea jacta erat._

A sorte de Napoleão, pelo que respeitava a ambições relativas á

peninsula, havia sido jogada na batalha de Victoria, e a aguia franceza,

em cujos olhos brilhava o olhar coruscante do Corso, pela ultima vez

cruzava, demandando a França, as cumiadas dos Pyreneus.

No dia 1 de julho entrava o inimigo em solo francez. De nada valeu

reforçar-se, e tomar Soult o commando geral. No ultimo dia d'esse mez

ganharam os alliados a batalha chamada dos Pyreneus, rechaçando o

inimigo para dentro das suas fronteiras. Seguem-se, para honra das armas

alliadas, a tomada da praça de S. Sebastião, a batalha de Nivelle, os

combates de Bayonna, as victorias de Nive e Orthez, e, finalmente, a

triumphal entrada do exercito luso anglo em Tolosa, a 12 de abril de 1814.

Começava, como os acontecimentos o demonstram, a empallidecer no céo da

França a estrella de Bonaparte. A lucta, desde muito travada entre a

aguia e o leopardo, lucta de morte, encarniçada, contínua, estava

chegada a ponto em que já era dado suspeitar que o pedestal de Napoleão

não era tão firme como a sua coragem. O contendor, apesar dos revézes,

era o mesmo; a fortuna principiava a falhar. A Inglaterra havia vencido,

a sorte mostrára-se rebelde, mas o conquistador da Europa,--e para o ser

faltava-lhe vencer a Inglaterra--não desesperava de reconquistar

a sua boa fortuna. Não tomou por aviso da Providencia o desastre. No

immenso taboleiro da sua ambição, em que as nações eram outras tantas

tavolas que movia a bel-prazer, pareceu-lhe aquelle um cheque sem

consequencias para o resultado da partida em que se jogavam os destinos

de povos e reis.

Bonaparte ufanava-se de empunhar a balança em cujas conchas pesavam d'um

lado a Europa e do outro uma ambição immensa, indomavel, manifestada

desde os primeiros passos da sua carreira militar. Comtudo havia na

Europa uma nação quasi invencivel, porque o mar lhe servia de muralha,

porque os seus recursos economicos prosperavam largamente, e porque as

instituições d'esse povo, traduzindo a altivez do genio nacional, eram

muralha tanto mais para temer como a que o mar, cingindo as ilhas

britannicas, opporia a qualquer invasão. Era tudo isso, e mórmente o

regimen liberal da Inglaterra, que incommodava Bonaparte, cujo poderio

havia ultrapassado a barreira da tyrannia. O guerreiro feliz

imaginava-se senhor absoluto: era a vertigem da victoria. Havia porém um

meio de egualar a Inglaterra, como diz madame Staël: era imital-a.

Bonaparte, porém, não tinha nascido diplomata. A vista do conquistador é

incisiva, rapida, abrange de uma só vez o exercito todo por mais

espraiado que esteja; o diplomata tem de profundar, estudar, decompôr,

analysar não só os negocios englobados diante de si, mas as suas intimas

relações, as suas consequencias proximas e remotas. N'um requer-se o

olhar ardente da aguia; no outro a vista penetrante do lynce. Toda a

diplomacia de Napoleão se cifrava em preparar os acontecimentos de modo

a provocar um conflicto internacional, que tendesse a prejudicar a

Inglaterra. Haja vista o tratado secreto de Fontainebleau, em que

Portugal e a casa de Bragança eram sacrificados á velha rivalidade dos

dois paizes. Bonaparte visava sempre a vencer, não empregando a

influencia politica da sua posição, mas empregando a influencia armada

do seu exercito. Edificava sobre cadaveres, arriscando a vida dos

soldados francezes ao sabor da sua phantasia. Chegado á suprema

embriaguez da preponderancia, tanto valia para elle o sangue dos

soldados como a corôa dos reis. A sua vontade era lei. Conta-se

que uma vez um dos seus conselheiros d'estado ousou lembrar-lhe

que o codigo napoleonico era contrario á resolução que ia tomar.

Bonaparte respondeu:

--O codigo foi feito para salvação do povo, e, se a salvação do povo

exige outras medidas, é preciso adoptal-as.

Estas palavras são transparentes: deixam ver a tyrannia. O povo francez

não podia ter vontade livre: vivia affrontado pela sombra de Napoleão e

encarcerado na inquisição politica de que o ministro Fouché era

claviculario. O cézar dominava tudo: a vontade do povo e a opinião da

imprensa. Os jornaes eram thuribulos que vaporavam o incenso da adulação

aos pés do throno. Os poetas estavam habituados desde o tempo do

Directorio a cantar heroides em honra do Primeiro Consul. Os

follicularios poisavam a penna, quando tentavam assumpto que esquecesse

a grandeza napoleonica, amedrontados pelo espectro da proscripção. A

visão do desterro bastava a intimidar a maior parte d'elles, senão

todos. Madame de Staël, que não trepidava deante da estatua gigantea do

imperador, teve de procurar refugio em Inglaterra.

E comtudo, na sua origem, a corôa de Napoleão emergira, Venus da

realeza, da onda da liberdade!

É certo, mas a estas palavras respondem cabalmente as seguintes linhas

da auctora das _Considérations sur la revolution française_, cujo

espirito era profundo de mais para se deixar cegar por despeitos.

«Não bastava,--diz a insigne pensadora--que todos os actos de Bonaparte

tivessem o cunho de um despotismo cada vez mais audacioso; devia elle

proprio revelar o segredo do seu governo, pois que despresava a especie

humana o bastante para dizer-lh'o. No _Monitor_ do mez de Julho de 1810

fez publicar as palavras que dirigia ao segundo filho de seu irmão Luiz

Bonaparte criança a quem o grã-ducado de Berg era destinado: _Não

esqueças nunca_, lhe diz elle, _em qualquer posição que te colloquem a

minha politica e o interesse do meu imperio, que os teus primeiros

deveres são para mim, os segundos para a França: todos os outros,

incluindo os relativos aos povos que eu pudesse confiar-te estão

depois_. Não se trata aqui de libellos, de opiniões de partido; é elle

proprio, Bonaparte, que se denunciou mais severamente do que a

posteridade ousaria fazel-o. Luiz XIV foi accusado de ter dito

intimamente: _O Estado sou eu_; e os historiadores esclarecidos

apoiaram-se com razão n'esta linguagem egoista para condemnar o caracter

do rei. Mas se este monarcha, quando collocou seu neto no throno de

Hespanha, lhe houvesse ensinado publicamente a mesma doutrina que

Bonaparte ensinava ao sobrinho, talvez que o proprio Bossuet não ousasse

antepôr os interesses dos reis aos das nações; e é um homem eleito pelo

povo, que quiz encher com o seu _eu_ gigantesco o logar reservado á

especie humana! foi n'elle que os amigos da liberdade momentaneamente

puderam ver o representante da sua causa! Muitos disseram: «É o filho da

Revolução. Sim, é, mas filho parricida: deveriam reconhecel-o?»

Tudo isto é profundamente verdadeiro.

A liberdade franceza ficára esmagada sob a purpura do cézar. Novo

Archimedes, levantaria com a alavanca do seu poder a Europa inteira, se

a Inglaterra consentisse em ser o ponto d'apoio. Era preciso vencer essa

unica difficuldade. Serviu-se pois de todos os meios. Na _Historia

Secreta do Gabinete de Napoleão Bonaparte_, por Lewis Goldsmith, está

manifesto o espirito faccioso do escriptor inglez, mas ainda assim ha

por vezes a eloquencia terrivel dos factos, e esses não os póde calar a

historia. Bonaparte procurou triumphar por mil maneiras differentes,

seduzindo com largas retribuições a lealdade dos jornalistas inglezes;

mandando a Inglaterra espiões, entre os quaes algumas mulheres, como

madame Bonneuil e madame Visconti; procurando sublevar a Irlanda, etc.

Mas estava escripto no livro dos destinos que a Inglaterra fosse o

sepulchro da grandeza de Bonaparte. Lord Wellington, perseguindo a aguia

franceza desde Lisboa até Waterloo, similhante ao adversario de Macbeth,

segundo a expressão de madame de Staël, foi o Josué da historia profana

que ousou suster o curso do sol napoleonico em meio d'um longo dia de

gloria prolongado em dez annos de lucta contra a Inglaterra.

O cartel de desafio, tantas vezes arrojado á face da nação britannica,

volveu-se na hora da decadencia em supplica dirigida ao principe regente

d'aquelle paiz.

Estas palavras de Napoleão, escriptas em Aix, depois de Waterloo, são

claro testemunho da inconstancia das coisas terrenas:

«Alteza real, a braços com as facções que dividem o meu paiz, e com a

inimisade das grandes potencias da Europa, puz termo á minha carreira

politica. Venho, como Themistocles, sentar-me junto ao lar do povo

britannico; abrigo-me á protecção de suas leis, a qual solicito de vossa

alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos

meus inimigos.

«NAPOLEÃO»[12]

Não era porém sincera a humildade do cézar decaído. Themistocles pedia a

hospitalidade d'Artaxerxes, mas não pensava em beber a morte no veneno.

Os tropheos da Inglaterra, como os tropheus de Melciades, perturbavam o

somno do hospede desterrado. No momento de embarcar em a nau ingleza,

Napoleão repellia o general Becker que se abeirava d'elle para

despedir-se, e dizia-lhe:

--Retire-se general. Não se diga que um francez veiu entregar-se nas

mãos do inimigo.

Themistocles não esquecia a gloria de Melciades.

Napoleão preferira morrer na morte lenta de todos os exilados, e

agonisára durante cinco annos n'uma possessão ingleza.

Ahi, na triste solidão da ilha de Santa Helena, devia recordar a cada

momento a epopea da sua gloria e da sua desgraça, pensando ou dictando

as suas memorias ao general Las Cazes. Então, pelo silencio da noite,

apenas interrompido monotonamente pelo ruido do mar, refugiria de si

mesmo ao ver passar deante dos olhos o bando lutuoso das viuvas e dos

orphãos dos seus soldados, e ao adivinhar a pallida e lacrimosa figura

da moribunda de Malmaison, a formosa Josephina Beauharnais.

É sempre no mar que se esconde o sol; Santa Helena illuminou-se com os

ultimos clarões da gloria de Bonaparte no duplo occaso da grandeza e da

vida. Orgulho de soldado: ordenou que lhe fosse mortalha o capote

que trazia na batalha de Marengo. Na sua vaidade de cézar até á morte se

queria impôr.

Mais longe do que desejavamos nos levaram as nossas divagações,

esquecendo-nos de que o protagonista d'esta narrativa não era Bonaparte,

imperador dos francezes, mas um obscuro soldado dos exercitos que o

venceram.

Tempo é de falarmos de Graça Strech, e de dizer que mais duas vezes fôra

ferido no decurso da campanha peninsular: uma em Salamanca, e outra em

Victoria com uma bala n'uma perna, do que lhe resultou ficar coxeando.

Fôra gravissimo este ultimo ferimento. Por mais d'uma vez os soldados

portuguezes suppozeram moribundo o seu valoroso companheiro. Ás

exaltações febris, em que o ferido precipitava palavras que os seus

camaradas não comprehendiam, succediam-se tão profundas prostrações, que

era difficil averiguar se vivia ainda.

D'uma das vezes ouviram-lhe dizer:

--Não! não! Não vêdes a morte?... Não quero morrer... E Rosina?... Meu

filho!... Estou aqui sósinho... Pietro tocava a sua harpa.. A muda

chorava muito... Em Coimbra, n'aquella tarde... Sim, ella era innocente

e pura... Pietro parecia triste de a vêr chorar... Que é?... São os

francezes?... Que venham... Eu vingo a memoria de minha irmã, mas não

quero morrer porque tenho um filho...

--Um filho! exclamaram os dois soldados que piedosamente o soccorriam.

O ferido continuou a delirar:

--Tudo perdeu por mim... Como era grande o seu amor!... Pobresinha...

Para traz, francez; quero ir vel-a. Estás ahi? Sempre ao pé de mim!

Sim... bem me lembro... o ceguinho das Ardennas e o seu cão... Não

ouviste chorar uma creança? É meu filho...

--O nosso tenente treslê! exclamou um dos soldados.

Graça Strech havia, pelos seus actos de valor, chegado áquelle posto,

sendo condecorado com a Torre-Espada, com a cruz de S. Fernando

d'Hespanha, e ao depois com a medalha da guerra peninsular.

--Pena é se morre, acrescentou outro soldado, que não ha mais

destemido militar que o nosso tenente!

--Isso não! Animava-se com a polvora, que tambem não tem de haver no

mundo militar mais triste...

--E mais desgraçado! Não te lembras que já a irmã era muda?

--Muda, sim.

A este tempo havia caído Graça Strech em lethal modorra, e retiravam-se

os dois soldados receiosos de que o tenente não resistisse ao ferimento.

Todavia, como poderemos ver pelo capitulo seguinte, não tinha de ser

aquella a ultima hora da attribulada existencia de Graça Strech.

[12] _Historia de Napoleão Bonaparte_, pelo dr. Caetano

Lopes de Moura, Vol. II.

* * * * *

XVI

Uma festa no Porto ha cincoenta e nove annos

Amanheceu festivo para a cidade do Porto o dia 15 d'agosto de 1814.

Ainda de noite começaram a povoar-se as janellas, e a animar-se as ruas

com enorme multidão.

Ás sete horas da manhã já não havia casa que não estivesse adornada de

ricas tapeçarias, pendentes dos balcões, que competiam com as galas das

damas da cidade e da provincia debrusadas nos peitoris.

Muitas das janellas estavam emmolduradas em grinaldas e arcos de flôres;

outras ladeadas por bandeiras; ao longo das ruas corria um verdejante

tapete de hervas aromaticas.

Em muitos olhos brilhavam lagrimas d'alegre commoção, e em todos os

labios desabrochavam sorrisos que eram espelho do jubilo da alma.

O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular · 第 9 / 14 段