O amor, que é luz, que é fogo, que é sol, vae se decompondo em

irradiações parciaes na nossa alma, á medida que a vae desenregelando,

como o verdadeiro sol n'um prisma de crystal. Verdade é, ser preciso que

tenha a alma a pureza do vidro para que lentamente se vão revezando as

côres, alternando as _nuances_, e embriagando-se ella a pequenos haustos

no banquete da felicidade. O amor que rebenta como erupção, não é amor,

é desatino. Nasceu cego: não vê. Irrompe como a lava, passa, queima,

desapparece.

Este é o amor das almas versateis, que não se vergam ao sacrificio, e

que por isso mesmo são incapazes de metter hombros á cruz cujo peso

devera ser repartido pelos dois. Os que amam sem previamente

haver soffrido, amam apenas emquanto o amor não é soffrimento. E quem

póde desfolhar a rosa sem ferir-se no espinho? Esses amam pouco. As

lagrimas são a agua que baptisa na religião dos attribulados. A mocidade

de Graça Strech recebera esse primordial sacramento. Dera a sua vida em

holocausto á saudade. Soffrera muito, e alma que soffre assim tem de

certo a pureza dos grandes sentimentos. Por isso a luz da aurora, que

lhe alvorecia sobre o tumulo da irmã, se foi decompondo em gradações

prismasticas por feitio que elle, muito alma a dentro, pôde conhecer a

nitidez das côres, o brilho das tintas casado á transparencia do cristal.

Desde então começou a amar como os que teem soffrido. «Tudo o que penso

e sinto te direi,» segredára elle em Alcantara.

Estas palavras não eram apenas a promessa d'uma revelação;--eram a

promessa da felicidade.

Os acontecimentos não permittiram que, antes de Coimbra, Rosina Regnau

pudesse affastar de si a nuvem do ciume que de ha muito lhe opprimia o

coração.

Muito primeiro o amára ella, porque o ciume nascera parelho do amor.

Parece que o destino porfiára em depôl-os no eden viridente de Portugal

para mandar depois a serpente a tental-os. N'aquelle jardim de Coimbra

ha sombras fadadas para o amor. Já o disse um poeta:

Quem nunca viu Coimbra

Pela brisa embalada

Do Mondego,

Que de amorosa timbra

Na margem reclinada

Com socego,

Não sabe o que é belleza,

Ai! não conhece a filha

Dos amores,

Mais nobre que Veneza,

Mais linda que Sevilha

Sobre flôres.[11]

Ali rememora ainda a celebrada fonte, que suspira n'uma das extremas do

campo de Santa Clara, o poema das lagrimas da formosa Castro--o

maior poema d'amor que se tem sentido em Portugal. Que phantasias que

não tem o amor em Coimbra! É velha a doidice que se respira n'aquelles

ares, porque já Faria e Sousa conta que Pedro, o principe amoroso,

confiava á agua da fonte, que n'esse tempo ia jorrar nos jardins do paço

real, os bilhetinhos namorados que a loura Ignez muito em segredo

recolhia e, em maior segredo ainda, relia. E perora Faria e Sousa:

«Tales son las astucias de los amantes». Com perdão de Faria e Sousa,

astuciosos são os escriptores que nos pintam amores fabulados de tão

acertadas contingencias, como era a da agua, sem embargo dos seixos e

hervagens, ser fiel correio do principe e da aia.

Eu contarei singelamente o meu caso, tal como aconteceu na hora em que o

ciume de Rosina Regnau, como se já não fosse preciso para atiçar as

labaredas do amor, se acalmava na mutua confiança das almas que se possuem.

Foi ahi por alguma copada sombra das margens do Mondego, onde, como

disse Gabriel Pereira de Castro, o rio

... nas voltas se mostra arrependido

De levar agua doce ao mar salgado,

que Rosina Regnau e Graça Strech descançavam n'uma das ultimas tardes

d'agosto.

Aproveitavam sempre as horas feriadas do serviço militar para essas

excursões, reguladas pelo toque das cornetas no quartel, porque só onde

a sombra os escondesse poderiam dialogar, os dois, sem que ouvido

estranho traísse o segredo da mudez de Rosina.

Ahi se indemnisava ella dos longos silencios a que era constrangida, e

assim se foram estreitando os laços, que já tão cingida tinham a imagem

da felicidade n'um e n'outro coração.

N'essa tarde Rosina Regnau intencionalmente encaminhou o dialogo para o

episodio da morte de Bérnard, e a ponto veiu recordar as palavra de

Graça Strech: «Tudo que penso e sinto te direi».

--Ah! não sabes, disse ella subitamente exaltada pelo ardor da

vivandeira, que do cumprimento da tua promessa depende a

realisação da minha felicidade!...

--Pois duvidas?...

--E não duvidaste tu de mim, quando em Alcantara soccorri o pobre _La

goutte_?

--Perdôa-me...

--Sim, perdôo, não a ti, ao ciume, pois que para o ciume tambem peço

perdão n'este momento. Ouve-me, portanto.

--Fala!... exclamou Graça Strech.

--Ha uma duvida horrivel no meu espirito, que é preciso dissipar; um

obstaculo no meu caminho, que é preciso vencer. O meu amor, que começou

por dar-te a liberdade, não póde viver escravisado. Desde o primeiro

momento te amei perdidamente. Emquanto tu dormias, veláva eu, para que

as tuas palavras de soldado não fossem desmentidas pela tua physionomia

de ferido sem eu perceber a verdade. Já então--mal o pensavas!--a minha

vida dependia da tua. E vigiava-te, e estudava as mais ligeiras

alterações do teu semblante, como a mãe que observa, de noite, na

solidão silenciosa do seu quarto, o filho doente que dorme. Tu não

suspeitavas que pudesse entrar tamanha dedicação na alma d'uma

vivandeira, e razão de sobra tinhas. As mulheres com quem eu vivia eram

tão vis, que se riam do meu carinho para comtigo. E eu arrostava-lhes os

chascos, os insultos, porque bem sabia que a culpa não era d'ellas, mas

do destino que as tornou tão desgraçadas. Aspereza, injustiça, só me

doía a tua. Não bastava amar sem esperança: o meu amor era recompensado

com despreso. Tu eras nosso prisioneiro; não podias, portanto, soffrer

que a minha pronuncia te estivesse recordando a cada hora a tua

infelicidade. Quiz, porém, Deus que me ouvisses um dia com menos

indifferença, quando conheceste que eu valia um pouco mais do que as

outras. Viste que eu era boa, e quizeste-me para instrumento da tua

vingança. O que tu não suppunhas era que o teu sonho fosse a esse tempo

o meu--dar-te liberdade! que eu contasse os instantes da tua vida pelas

horas da minha! que eu quizesse ser para ti o que era o fiel molosso

para o cego da minha terra... Pois queria, juro-te, queria. Se não

pudesse restituir-te a liberdade, teria a coragem de envenenar um

remedio para que o mesmo veneno nos matasse a ambos. Acredita;

tinha. Mas sempre na tua bocca a palavra vingança! Sempre essa palavra

horrivel! Eu bem sei que todo o homem, que vê a sua patria invadida,

precisa vingar-se a si, e a ella. Mas esse annel que não mais te deixou

não era da patria... Falavas de tua irmã, tens-me falado sempre d'ella.

Comprehendo como se possa amar uma irmã, que era boa, que era pura, e

que foi morta injustamente. Todavia comprehendo tambem que se as cartas

as escreveu tua irmã, o annel póde deixar de ser d'esse anjo...

Nos labios de Graça Strech havia o tranquillo sorriso de quem sabe com

que ardor é amado.

Quiz falar; ella interrompeu-o.

--Oh! por piedade, não sorrias, sem que esta duvida atroz se desfaça!

Tenho tido a coragem de saber esperar este momento solemne e para mim

decisivo. Tu sempre a pensar no teu annel, eu sempre a pensar em ti! Tão

calada, que nem voz posso ter deante d'estranhos. E que tivesse! Havia

de perguntar a alguem pela vida do homem que eu chamava irmão? Tu

sonhavas de noite, como quando ficaste ferido em Alcantara, e sorrias.

Acordavas, vias-me ao pé de ti, e acudias logo a falar de tua irmã...

Oh! se eu soubesse que tu me enganavas!... Se tu estivesses sonhando com

outra mulher que não fosse tua irmã, quando eu estava ali, sósinha,

calada, sem patria, sem amigos, amaldiçoada, a velar pelo teu somno...

Sabes o que eu faria? Vestiria o teu uniforme, José, e iria bater-me,

avançando tão imprudentemente como o infeliz Bénard, até que as balas

dos soldados da França se me cravassem no peito. Morreria pelo ingrato

como os soldados morrem pela patria, e morreria contente por morrer

amortalhada no teu uniforme... Vê, pois, bem a minha alma. Unicamente te

peço que sejas sincero, ainda que a tua sinceridade tenha de ser cruel.

Estamos a dois passos do Mondego. É-me facil procurar n'elle a maior

altura da agua, se o coração me disser que me estás enganando... Mas não

has de, mas não me deves enganar, porque pela memoria sagrada de tua

irmã te peço que sejas verdadeiro...

E ficou anciosa, com os olhos fitos, os labios entreabertos, o seio

offegante...

--Pela memoria de minha irmã te juro que mais uma vez te

repetirei a verdade--disse Graça Strech, cuja physionomia parecia

irradiar a luz clara e pura dos que estão fazendo uma confissão

sincera.--Tambem eu te amo doidamente, Deus o sabe! Tambem eu tive

ciumes, Rosina! Tambem eu estou costumado a soffrer. Se aquelle

moribundo d'Alcantara houvesse denunciado, por um gesto sequer, que

tinha outros direitos á tua dedicação, além dos de estar ferido e ser

francez, eu, impossibilitado de aggredir um homem meio morto,

haver-te-ia fugido para me expôr á morte que encontraria em qualquer

parte. Juro-te, pela memoria de minha irmã te juro, que isto o senti eu

ao pé do pobre Bénard, quando te vi soccorrel-o. N'esse momento forjou o

ciume as cadeias que nos teem agora aqui presos. Comecei por

aborrecer-te, é certo. Sobre este annel, que tirei do dedo de minha

pobre irmã morta, jurei vingal-a, Rosina, porque primeiro me derrubaram

a mim para que eu não pudesse defendel-a, e depois a assassinaram a

ella, a minha mãe, e a minha avó. Meu pae, que já sei ter morrido no

mesmo dia, porque houve participação official de ser reconhecido, foi

vencido pelo azar do combate, não foi assassinado. E depois era um

soldado, e um soldado em campanha ou mata ou morre. Mas as pobresinhas

que mal faziam á França? Eu accordei do deliquio motivado pelo ferimento

que recebi, sem saber o que se tinha passado. Estendi o braço e senti um

corpo; apalpei e conheci roupas de mulher. Achei uma cabeça. Tacteei-lhe

os contornos, e não me enganou a mão quando me pareceu ser aquelle o

perfil de minha irmã. Era noite, bem sabes: dentro a escuridão; a

tempestade fóra. Eu sentia vibrar a espinha dorsal como se fôra d'aço,

fria como elle. Procurei luz, quasi louco. Mal me podia suster nas

pernas. No cerebro ardia-me um vulcão; em derredor do craneo sentia a

friura do gelo. E a luz mostrou-m'as, a ellas, minha irmã, minha mãe,

minha avó, mortas, desgrenhadas, deitadas no soalho, e rodeadas das

sombras que a interposição dos moveis projectava na parede, parecendo

moverem-se, bracejar, escancarar a bocca, casquinar gargalhadas que o

vento, lá fóra, parecia rir diabolicamente por ellas. Eram horrores da

minha imaginação, eram visões da febre, porque eu n'essas horas

incomparavelmente angustiadas delirei, enlouqueci, morri em mim

mesmo para renascer n'um cadaver. E o sangue, Rosina, o sangue

d'ellas, empoçado no soalho, tão vermelho que parecia incendiar-se ao

reflexo da luz! Foi então que a Providencia me soccorreu e me permittiu

um esforço sobrehumano. Beijei minha irmã, abracei minha mãe, acariciei

minha avó, falei-lhes, não sei o que lhes disse, não me lembra, e

estremecendo do contacto das mãos de minha irmã, que pareciam de

marmore, e que do marmore tinham os veios roxos e azues, tirei-lhe

delicadamente do dedo, como se ella pudesse molestar-se,--ella, que era

tão franzina!--este annel querido, sobre o qual proferi o meu juramento

de vingança, que até hoje tenho cumprido, e que cumprirei até que

Portugal succumba ou triumphe d'uma vez.

E como se a arrebatada eloquencia o repuzesse ainda em meio das

desgraças que historiava, pendeu ao peito de Rosina, extenuado,

descóradas as faces, revoltos os cabellos, flammejante o olhar.

Rosina ameigou-lhe a fronte banhada de suor frio, e docemente lhe pediu

perdão de o ter compellido a avivar tão recentes e profundas dôres.

Graça Strech estava preoccupado, como se procurasse um pensamento que

lhe entre lembrava; como se quizesse suster uma visão que se mostrava e

fugia.

--Ah! exclamou de repente. Não, Rosina, não basta ainda. O teu amor

reanimou o meu cadaver, eu devo-te a vida; quero abrir-te a minha alma

para que a vejas bem, para que a sondes, e leias n'ella. A tua luminosa

intelligencia já te permitte comprehender muitas palavras do idioma

portuguez. Pois bem, aqui tens uma prova irrecusavel que não póde deixar

a minima duvida no teu espirito...

E, desabotoando o uniforme, tirou o maço das cartas d'Augusta.

--É esta--continuou, procurando--é esta, lê aqui lê bem. Foi ha dois

annos, no seu dia natalicio, que lhe mandei este annel. Vê o que o anjo

me respondia. Lê, esta é a prova, lê: «O teu annel, José, o teu annel,

que me pareceu acompanhar a tua alma, porque a tive todo o dia ao pé de

mim, não me deixará até á hora em que a amortalhadeira m'o tire do dedo.

Pedes desculpa de que seja liso, de que só tenha uma pedra!... Tontinho!

O teu coração pésa mais do que o annel, e a avósinha diz que os

anneis de muito feitio apenas são proprios das camponezas.» Vê, Rosina,

olha para este nome--Augusta--o unico de mulher que pronunciei antes do

teu...

--José! exclamára Rosina divinisada por uma aureola de condoída doçura,

que parecia esbater-lhe o semblante no azul do céo.

A natureza dascaía na deliciosa morbidez do anoitecer. As labaredas que

a ambos afogueavam o coração foram bastantes a seccar as lagrimas d'um e

outro. Se eu quizesse passar por um escriptor tão casto como os que uzam

adoçar o acre das situações violentas, diria que se ouvia rumorejar as

folhas, sendo os labios que rumorejavam. Essas ultimas revelações tanto

contraíram os elos da cadeia, que já não era possivel medir a distancia

interposta ás duas almas embevecidas.

Se ali, n'aquellas paragens onde o grave Faria e Sousa achou que era

torrão azado para localisar astucias de namorados; se áquella hora, como

na tragedia de Goethe, estivesse ali Mephistopheles, bradaria com

alegria satanica: _Perdida!_

Bem podia ser porém que alguma voz do alto respondesse: _Salva!_ Só se

perde a mulher que não tem coração para comprehender o que é ser mãe.

[11] Do sr. Antonio de Serpa.

* * * * *

XIV

Quanto custa ser mãe

Em fevereiro de 1810 estacionava no valle do Mondego o exercito

commandado pelo general Wellington, repousando das passadas lides, se

bem que já apercebido para resistir aos movimentos dos francezes que de

novo ameaçavam invadir Portugal.

Beresford activamente se dedicava a exercitar e disciplinar as tropas, e

a providenciar pelo que tocava a provisoes que se tornavam

indispensaveis para a campanha que a todo momento se esperava, e cuja

duração era imprevista.

O rei José havia entrado em Sevilha, no primeiro dia d'esse mez, á

frente das suas tropas, e a nuvem que obscurecia o céo da Hespanha

alongava-se já para Portugal, deixando ouvir os rumores da tempestade

que lhe refervia no bojo caliginoso.

N'esse tempo vamos nós encontrar Graça Strech na escóla militar do valle

do Mondego, se bem que muito demudado o encontremos, e mereça especial

attenção a tristeza que parece salteal-o nas horas em que o soldado se

permitte ser homem. Procuramos á roda de si, e não encontramos a «muda»,

sua irmã. Inquieta-nos tão inesperada ausencia. Depois que

comprehendemos o coração da Rosina Regnau, depois que passo a passo a

acompanhámos nos lances angustiosos de sua attribulada mocidade,

habituamo-nos a estimal-a, e já agora nos é magua o deixar de vêl-a.

Morreria acaso?

Algumas vezes se lembrára ella, quando vivandeira do exercito francez,

de que uma bala perdida a mataria. É uma tradição de Vivandeiras, a do

pelouro esgarrado que as ha de prostrar, porque, companheiras dos

soldados, esperam do soldado a sorte. Todavia nem sempre se realisam as

contas que a phantasia lança, e não é de presumir que dos

soldados que manobram exercitando-se no valle do Mondego partisse a bala

destinada a roubar-lhe a vida. Tambem nas faces de Graça Strech não ha a

tristeza sombria das perdas irreparaveis, mas um novo reflexo de

melancolia que, a despeito de a querer concentrar, dá á physionomia um

toque de soffrimento. Procuremos tirar-nos de tão saudosa incerteza, e

saber o que se passára nos mezes que decorreram desde agosto de 1809 até

fevereiro de 1810. Pelo que vamos ouvir a Graça Strech, n'um rapido

dialogo com um companheiro d'armas, não poderemos fazer juizo seguro,

mas esse será o fio de Ariadna que depois nos guiará no labyrintho de

nossas pesquisas.

--Tens tido noticias de tua irmã? perguntou o soldado.

--Não tenho; nada sei da pobresinha! respondeu dolorosamente Graça Strech.

--Deve-te custar a ausencia! Se a nós, que não eramos irmãos, tambem nos

custa! Estavamos habituados aos seus tregeitos, e o caso é que já os

entendiamos como se fossem palavras! Que pena que não falasse! Bonita

era! e tão meiga como bonita! Sempre aquelle sorriso doce para todos e

para tudo! Mas, ó Strech, se a conversa te magôa, não continúo...

--Continúa, sim. Ás primeiras palavras rebenta a saudade; depois Deus

manda a resignação, e é o que vale.

--Eu tambem tenho familia, Strech, tambem sei o que isso é. E depois tu

sempre deves estar com teu cuidado, porque tua irmã ia doente.

--Começou a soffrer Trabalhos da guerra, commoções fortes, talvez

receios da nova campanha... Não sei. O que é certo é que a não julguei

com forças de andar commigo em correrias atraz dos francezes, que é

preciso enxotar pela ultima vez. Temos uma tia nossa na Allemanha. Veiu

a Portugal ha annos, e affeiçoou-se muito a minha irmã. Deu-se a

coincidencia de estar no porto da Figueira um brigue italiano, e ir a

bordo um passageiro allemão, que me pareceu homem compassivo, e que me

prometteu acompanhar a pobre muda até ao seu destino. Que havia eu de

fazer, quando a demora de minha irmã em Portugal seria a morte, e todas

as circumstancias pareciam favorecer visivelmente o meu designio

de a mandar para a Allemanha? Deixei-a ir, mais entregue a Deus do que

ao compassivo allemão.

--E que tencionas fazer agora?

--Agora! Quem sabe quando chegará a hora de pertencermos a nós mesmos!

Se eu morrer, ficará minha irmã entregue a sua tia; se eu sobreviver a

victoria das nossas armas--porque nós não podemos succumbir depois de

havermos triumphado duas vezes--irei buscal-a á Allemanha, e viveremos

juntos até que um de nós deixe d'existir.

--Desculpa-me, Strech,--tornou o soldado condoído.--Mas eu também

estimava tua irmã, e por isso te perguntei por ella. Como já partiu em

dezembro, e eu tenho conhecido que andas triste, pensei que tivesses

recebido noticia de que a pobresinha ia a peior. Como felizmente não se

realisou a hypothese, desculpa-me. Olha... Estou em dizer que Deus traga

a guerra depressa para nos distrairmos. A guerra embriaga como o vinho,

e a embriaguez é bom remedio para saudades. Eu e tu, pelo que vejo,

soffremos ambos da mesma doença. Adeus, Strech.

Este dialogo, como anteriormente disse, não é explicação cabal, nem...

verdadeira. Graça Strech via-se obrigado a enganar as pessoas que lhe

perguntavam por sua «irmã», se bem que o engano apenas se limitasse aos

motivos da partida e ao destino de Rosina. Elucidemos.

Em dezembro de 1809 começaram a manifestar-se os symptomas da

maternidade. Esta desgraça, cujas funestas consequencias não previram na

loucura do seu amor, obrigou-os a pensar reflectidamente no futuro,

subitamente entenebrecido no horizonte que o poetico sol de Coimbra

azulejava nas tardes em que as margens do Mondego lhes enfloravam os

ardentes idyllios. O peor que ha no Paraiso é o ter porta: porque não se

abre, quando a ancia da felicidade a impelle, e porque se fecha sobre as

mais doces illusões, movida por qualquer viração que mais branda e mais

embalsamada parecia. Eu, pouco sabido em philosophias, acho a porta do

Paraiso muito peior que a serpente: uma tenta, a outra fecha. Ora a

gente poderia fugir da tentação, se encontrasse a porta aberta.

Deixamo-nos seduzir pela cascavel. Ouvimol-a. Embriagamo-nos com

as paizagens do éden, com as melodias eolias do arvoredo, com o maná que

o céo deixa cahir sobre o coração. Entretanto a serpente adianta-se.

Cinge-nos, enleia-nos. Olhamos para a porta: é-nos defesa a saída.

Estamos encarcerados. A serpente triumpha.

Por duas ponderosas razões não podia ficar Rosina Regnau em Portugal.

Era a primeira que, inculcando-se irmã de Graça Strech, a sua deshonra

seria desaire para o irmão. A segunda estava em que o conservar-se

occulta no reino, em estado de não poder acompanhar o exercito, seria

imperdoavel n'uma epoca em que tudo que cheirasse a francez inspirava

odio, e em circumstancias em que o deixar de falar seria quasi impossivel.

Avultou aos olhos d'um e outro, como pesadello horrivel, a necessidade

da separação. O mesmo foi verem-se inesperadamente sepultos nas ruinas

dos castellos encantados que ambos haviam architectado. E a felicidade é

como todos os edificios: leva muito tempo a construir e basta um

instante para desabar.

Estava effectivamente a esse tempo, nas aguas da Figueira, um brigue

italiano. Concordaram ambos em aproveitar a commodidade do transporte.

Rosina energicamente rejeitou a ideia de voltar a França, duas vezes

deshonrada. Convieram, pois, em que ella esperaria em Italia, com o

filho nos braços, o termo da guerra peninsular. Depois, para sempre se

reuniriam, e viveriam enlevados na infancia da criança, que ambos

phantasiavam formosa.

Mas, por que espesso véo de lagrimas se não filtrava este raio de

longinqua felicidade, illuminando-o e iriando-o como um reflexo de sol

moribundo através de neblina humida em tarde de tempestade!

Era esse o arco-iris da esperança, gravado em traços multi-côres, d'um

abysmo a outro, sobre um céo plumbeo.

--O pae Regnau,--dizia Rosina--costumava dizer que a felicidade era uma

bola de sabão. Agora vejo que é. Tudo desfeito, n'um momento! Eu

desterrada para um paiz desconhecido, sósinha com a minha desgraça e o

nosso filho! Tu, a muitas leguas de distancia, exposto á sorte dos que

combatem, mais incerta que qualquer outra! Viverei entre a esperança da

tua chegada e o receio d'uma noticia funesta. Oh! esta idéa é

horrivel! Então Deus ha de permittir que, meu filho entre no mundo

vestidinho de luto! Não não póde ser. Não te exponhas loucamente á

morte, meu amigo, não? A tua vingança já deve estar satisfeita, e depois

um soldado que é pae deve ter duas cadeias a ligal-o ao mundo: a patria

e a familia. Ora eu bem sei que tua irmã é a patria; mas lembra-te, sim,

lembra-te! de que teu filho é a tua familia...

Acudia a serenal-a, com o coração despedaçado nas garras de desconhecido

abutre, Graça Strech. Queria ser forte, e as lagrimas a trahirem nos

olhos o esforço! Tentava enganar, e estava desilludido. Ainda não houve

maior desgraça, mais amargo calix de amargura esperado nos labios com um

sorriso...

--Não, Rosina, não imagines desgraças que Deus não permittirá. Bem sabes

que a Providencia me tem guardado até hoje... Verdade é que tu eras o

meu anjo da guarda, e tu vaes fugir-me. Isto é, em verdade, maior que a

coragem humana! Não me arriscarei imprudentemente á morte, está certa...

Mas ás vezes, na refrega, a gente não tem tempo de evitar uma bala...

Não chores, Rosina, não chores. Foi uma loucura que eu disse. Eu não hei

de morrer. Acaso morri eu para a memoria de minha irmã? Tambem não hei

de morrer para o futuro de meu filho, para o teu amor. É forçoso

separarmo-nos; separemo-nos. Ficaremos, porém, um ao pé do outro, sempre

juntos, que já não ha distancias que nos separem, braços que nos

desunam. Tu ver-me-has pelos olhos da saudade; eu, que já estou

costumado a ver assim, ver-te-hei tambem. Conversarei no meu coração

comtigo, acompanharei meu filho desde o primeiro vagido e a primeira

lagrima... Ó Rosina, triste coisa é a vida! Nascemos soffrendo, como

devemos viver, e morremos como vivemos. E olha que a minha loucura deu

mais uma alma á desgraça... Mas eu amava-te tanto, tanto! Pobresinha de

ti, que dizias parecer-te ouvir a maldição de Bénard... Por amor de mim

te deshonraste uma vez; o meu amor duas vezes te deshonrou... Não

chores... Já estão desbotadas as rosas das tuas faces, não as desmereças

mais... Lembra-te do céo da Italia, que todos dizem ser formoso, e de

que nosso filho nascerá sob o céo d'esse bello paiz Deus ha de

protegel-o. Lá viveremos todos n'uma só felicidade... Mas não

chores, Rosina, que eu sinto despedaçar-se-me o coração...

Foi chegado o momento da partida.

Rosina subiu a escada de portaló amparada nos braços de Graça Strech.

Dir-se-ia um cadaver que se destinava a uma sepultura distante.

Os passageiros que estavam no convés pareceram commovidos de tão

doloroso espectaculo. Um d'elles, que era musico napolitano, escondia

contra a harpa o rosto brilhante de lagrimas.

O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular · 第 8 / 14 段