--Sim... eu começo a ser feliz. Diz-me o coração que o serei... Mais

provas! mais provas, senhor meu coração! Mostre-se digno d'aquella

enorme alma, inspire-lhe confiança para lhe recolher os segredos, e

possua-a, e juntem-se, e prendam-se, e identifiquem-se, tão unidos, tão

unidos, que nem a morte os possa separar... Sem isso não ha felicidade

completa... Sim, bem vês, pobre coração, meu pobre coração que tanto

tens soffrido, que se aquelle annel fecha ainda a saudade de um amor

redivivo, não pódes por emquanto conquistar a fortaleza que se não

renderá. Tu sabes lá como a saudade se bate entrincheirada detraz de um

tumulo! Então terás ainda muito que soffrer e que luctar, pobre doente

para quem hoje raiou o primeiro symptoma da cura, meu triste

coração tão soffredor! Mas forceja, vá, porfia, esforça-te por

arrancar-lhe o segredo... Se aquella é a ultima memoria de uma irmã

querida, alegra-te, pobre louco, porque nem a amante desluzirá a irmã,

nem a irmã desluzirá a amante. A alma d'elle é tamanha que chega para

mim e para ella. Para o que não chega é para duas amantes, que se

disputam palmo a palmo o terreno, que luctam, que combatem, que oppõem

ciume a ciume, despeito a despeito, embora uma esteja morta e outra

viva... Não, «a gentil vivandeira» não soffre competencias. Já se fez

amar d'um exercito; é preciso que se faça amar d'um homem. Pois então

perde-se tudo, a patria, a liberdade, o socego, as florestas das

Ardennas, as minhas queridas florestas das Ardennas, que talvez não mais

torne a ver, e as montanhas do Hainaut e do Luxembourg, que eu conheço

desde pequenina, e o Semoy e o Lesse e o Ourthe e o Eure, tudo, n'uma

palavra, perde-se uma vida inteira de dezoito annos, para amar um homem,

para ser a sua sombra, o seu cão, e não se ha de possuir ao menos todo o

seu coração, todos os seus pensamentos, os seus segredos todos? Quem me

diz porém que não hei de vencer? Não vi eu porventura tantas batalhas,

não as vejo ainda, e não posso tirar da incerteza da victoria um bom

agouro para o meu futuro? Dize-te, pobre Rosina, diz a ti mesma o que

são os combates que tantas vezes tens visto. Pinta um quadro para ti.

Anima-te! Olha... São duas as montanhas alcantiladas, sombrias,

enormes... Uma defronte da outra... No meio um rio sereno, e crystalino

a principio... depois vermelho de sangue. Sobre o rio uma ponte, e sobre

a ponte, como a desabarem para ella, as montanhas. E n'uma e outra os

exercitos, os uniformes variados, os kepis multicôres, as espadas

reluzentes, os cavallos pendurados das fragas, os cavalleiros pendurados

dos cavallos, as carretas suspensas na ladeira, as peças que abrem a sua

bocca de fogo para vomitar o fumo e a morte, a voz dos clarins e a voz

dos commandantes, pragas, juras, maldições, gemidos, blasphemias,

sacrilegios, e a turba ora a estreitecer, a apertar-se, a juntar-se em

pinha, ora a crescer, a alargar-se, a fazer-se onda, a trasbordar, ora a

rolar como avalanche pelo monte abaixo, ora a marinhar por elle, a

trepar, a agarrar-se, tão espessa, tão escura, tão confusa como se

fosse uma nuvem que saísse do rio, e o sol a doiral-a agora e logo

o fumo a envolvel-a, e já se desencadeiam d'um e d'outro lado ameaçando

chocar-se sobre a ponte, que corta o valle, e que afundará com elles, e

baralham-se, enovelam-se, redemoinham, e apparecem uns, e desapparecem

outros, e tombam cadaveres ao rio, e estruge no ar a grita, e corre

ensanguentada a agua, e são aquelles os que vencem, os que estão em

maior numero, e vão esmagar os outros, e arvorar a bandeira... mas rolam

de novo, precipitam-se, confundem-se, e são estes agora os que

triumpham, lá se embrenham por entre o inimigo, passam como corisco, e

assombram-n'o, fulminam-n'o, e a victoria é sua! Bem, Rosina Regnau,

assim foi em Amarante e ainda agora em Alcantara; assim póde ser para

ti. Quem te diria no hospital de sangue, quando o estavas contemplando

adormecido, tão pallido, tão mergulhado no somno, e tu te lembravas de

que eras franceza e elle portuguez, quando tu já o amavas e elle dormia,

quem te diria, ó vivandeira ignorada, que dias depois havias de seguil-o

por toda a parte, e perder a tua voz para que te não conhecessem, e

encostar ao teu peito a cabeça d'elle, que caira ferido, e recber-lhe o

primeiro beijo? Ninguem! Nem aquelle endemoninhado do Beauvier, que era

o bruxo do exercito, e andava sempre a olhar para os astros, e

adivinhava quando chovia, e a lua havia de ser cheia, aquella bonita lua

cheia da França!... Ninguem, Rosina, ninguem! Pois tambem não ha magico

na terra que saiba dizer se tu chegarás a vencer o seu coração de modo

que te julgues tão poderosa, tão senhora do mundo como o imperador, e

por feitio que sejas tão ambiciosa como elle, que não deixa palmo de

terra a ninguem!...

Interrompeu-lhe este intimo monologo uma contração do ferido, que

balbuciou monosyllabos.

--Sonha!--pensou ella--e quem sabe o que sonha? Estou aqui tão perto

d'elle, a vel-o, feição por feição, linha por linha, a examinal-o tanto,

que dir-se-ia querer contar-lhe um por um os seus cabellos, e sinto-lhe

o halito na minha face, e fala, e só eu o oiço, e todavia não sei de

quem são os seus pensamentos, nem o que querem dizer, o que está

recordando, o que está sonhando, finalmente! Tenho diante de mim, como

livro aberto, a sua physionomia e não posso lêr na sua alma! Sei que ha

ali um mar mysterioso, e não posso sondal-o. D'uma vez--recordou

ella--lia o meu pae Regnau os jornaes, e disse: «Fulano e sicrano foram

á pesca das ostras.» E acrescentou: «E o imperador que as tem bem boas

na Corsega!» E eu perguntei ao pae Regnau para que iam elles pescar as

ostras, tão longe, se podiam pescar outros peixes no Sena.

«Tontinha!--respondeu elle--porque das ostras é que se tiram as perolas,

e é preciso metter-se uma pessoa ao mar para pescal-as!» Bem me

ensinaste tu, pae Regnau! O mar esconde tanta coisa... que até esconde

as perolas. Aqui estou eu á beira do oceano e não as vejo... As que eu

procuro, vivem escondidas ali...

E apontou para o coração do ferido.

Os labios de Graça Strech pareceram descerrar um sorriso. Rosina, que,

apesar dos seus pensamentos, estava attenta ao menor movimento, ao mais

subtil perpassar d'uma sombra, estremeceu ao rebramir da tempestade

interior:

--Sorri! pensou ella.--Havia n'este seu sorriso a melancolia de quem

está recordando a felicidade perdida... Lembra-se talvez d'uma hora em

que, rosto a rosto, juntas as mãos, sorrindo, falando, sonhando, lhes

fugia o tempo mais rapido que o pensamento... E ella, a mulher que elle

amava, era decerto formosa, muito formosa, e dizia-lhe que jámais

haveria no mundo quem viesse a amal-o como ella... E elle acreditou-a, e

por isso a ama ainda no tumulo, e jurou que, viva ou morta, lhe seria

eternamente leal, porque o coração lh'o havia dado para todo o sempre...

Ah! mas quem sabe, durante o combate, a quem ha de pertencer a victoria?

O teu quadro, Rosina Regnau, é verdadeiro. Lucta até o fim, vivandeira,

faze como os soldados que foram teus irmãos. Combate a saudade com a

esperança. Soffre, porque o soffrer é de quem lucta. Mas porfia,

conquista resignadamente esse coração onde desejas reinar, porque todo

elle é preciso para o throno da tua felicidade.

Abriu Graça Strech os olhos e relanceou a Rosina um olhar suavemente

triste.

--Sempre aqui!--segredou elle.

--Aqui é o meu posto de enfermeira voluntaria.

--Eu dormi, Rosina: dormi e sonhei... com minha irmã. Estava-a

vendo aos cinco annos, vestidinha de branco, quando a fomos levar ás

Chãs, e quando eu tinha seis... Nunca isto me esqueceu! Trepámos a uma

cadeira para descer as maçãs que o padre capellão tinha a amadurecer no

friso da sala. Augusta subiu denodadamente, mas faltou-lhe a coragem

para saltar ao chão... E começou a gritar, a gritar, de sorte que o

padre capellão a veiu surpreender com as maçãs escondidas na abada do

seu pequenino vestido...

Sentiram-se passos.

--Cala-te! apostrophou Rosina. Cala-te! Rosina Regnau já aqui não está.

Fica apenas a _muda allemã_.

[10] A _invenção dos jardins_ por Gessner; tradução do sr.

Visconde de Castilho (Antonio Feliciano).

* * * * *

XII

Amor e ciume

Foram proseguindo as operações da trabalhosa campanha de 1809 contra os

francezes.

Depois de segundo combate na ponte d'Alcantara, a 10 de junho,

poderemos, por nos furtar a minudencias fastidiosas em romance, ir

direitos á decisiva batalha pelejada nas proximidades de Talavera de la

Reyna, em Hespanha, dirigida pessoalmente d'um lado pelo rei José, e por

lord Wellington do outro.

Pela retirada dos imperiaes á vista do inimigo terminou esta importante

batalha, sendo todavia numerosas as perdas dos alliados, mórmente dos

inglezes.

Meiado agosto, começou o exercito portuguez a retirar para Zara,

entrando em Portugal por Salvaterra do Extremo, dirigindo-se a Castello

Branco, d'onde os differentes corpos foram enviados a disciplinar-se,

durante o resto do anno, em determinados acantonamentos.

Não podemos, porém, encerrar esta ligeira chronica dos feitos militares

de 1809 sem retroceder ao segundo combate da ponte d'Alcantara, a que

José Maria da Graça Strech não assistiu por estar ainda mal convalescido

do ferimento que no primeiro ataque recebera.

Entre os feridos francezes, que ficaram prisioneiros, requeria prompto

curativo um que denunciava claros indicios de perigo.

Rosina, mal que o viu, reconheceu-o.

Era Bénard, por alcunha _La goutte_.

Então lhe acudiram de tropel pungentes recordações da sua vida de

vivandeira, quando, sentada no acampamento, via _La goutte_ puxar da sua

garrafinha de vidro branco e offerecer aguardente por esta formula

inalteravel:

--_Voulez-vous lá goutte?_

Esta phrase motivou aquelle cognomento, que valia tanto como dizer em

portuguez: _O pinga._

Bénard era um excentrico, que tinha intermittencias soturnas e

luminosas. Umas vezes lhe dava a embriaguez para se deixar cair n'uma

tristeza insociavel, outras era causa d'uma garrulice chistosa e alegre.

Mal que se levantava, enchia a sua garrafinha de aguardente. Bebia até

ao meio, erguendo o frasco para venficar á luz se a medida era exacta,

e, certificado, acabava d'enchel-o com agua fria.

Convém, porém, saber que Bénard classificava os seus companheiros

d'armas do seguinte modo:

1.º--Amigos capazes de emprestar.

2.º--Amigos capazes de não pedir.

3.º--Amigos capazes de não emprestar.

4.º--Amigos capazes de pedir.

5.°--Conhecidos.

Mettida a garrafinha entre a fardeta, começava o processo

inalteravelmente observado todos os dias.

Encontrando um amigo da primeira classificação, abeirava-se d'elle e,

pondo a mão no peito, perguntava:

--_Voulez-vous la goutte?_

O amigo bebia até ao meio, porque elle não consentia que fosse mais

longe. Depois, segunda dynamisação, outra vez a garrafa cheia; e,

succedendo-se as dynamisações aos amigos, pela ordem por que os tinha

classificado, acontecia que os simplesmente conhecidos bebiam agua

commum passada por uma vasilha que tivera aguardente.

--Não merecem mais! dizia Bénard. Estes só teem pela gente um cheiro de

interesse.

Era pois _La goutte_ uma personagem lendaria no exercito francez, e já

passava em proverbio dizer-se, quando se era mal servido:

--Eu _sou conhecido_ do Bénard.

Rosina Regnau, ao vel-o ferido, sentiu-se propellida a dolorosa piedade.

Estava alli _La goutte_, que ella tantas vezes vira desde a sua

infancia, e de quem tantas vezes se rira na edade em que toda a

excentricidade nos parece ridicula.

E todavia o Bénard era um philosopho profundamente conhecedor da alma

humana. D'uma vez perguntaram-lhe:

--Se encontrasses o imperador, como o consideravas?

--Dava-lhe da ultima lagarada, como elle dizia. Bem se importa o

imperador commigo! Não me empresta dinheiro, porque o ganho eu; não m'o

pede, porque bem sabe como é mesquinho o _pret_ das tropas.

Bénard trazia pendurada do pescoço a sua garrafinha. N'esse dia, como a

refrega lhe não désse tempo para offerecer _a gotta_, bebera-a elle

toda, por excepção. O resultado foi expôr-se á morte com um denodo que,

sommado, daria a embriaguez de quatro amigos. Avançou imprudentemente e

ficou prisioneiro com uma bala no peito.

Rosina, que sempre evitava ser vista dos prisioneiros francezes, não

pôde todavia resistir a soccorrel-o, quando o seu coração por um momento

retrocedeu ao passado. Quasi involuntariamente o fez.

O ferido, sentindo que alguem o estava curando, abriu os olhos e demorou

em Rosina um longo olhar. Foi então que ella mediu o alcance da sua

imprudencia.

--Oh! rouquejou o ferido, sim, és tu! Eu tenho a vista embaciada, mas

ainda te conheço! Rosina Reg...

Ella tregeitou afflictivamente implorando silencio.

O ferido, desvairado pela embriaguez ou pela febre, não a comprehendeu.

Graça Strech havia-se aproximado e assistia entre respeitoso e ciumento

áquelle lance.

O ferido continuou com difficuldade.

--Fugiste, Rosina... Pobre rapariga!.. Como lá todos te querem mal!...

Se te vissem... matavam-te... Sim, eu sou Bénard... Tinha hoje a minha

garrafinha cheia... Bebi-a toda... Tomei calor... Boa gotta!...

Aguardente de Hespanha! Vão estes perros, que não teem um palmo de

terra, e mettem-me uma bala no costellame... Irra! Boa aguardente... E

tu aqui! Entre elles!... Maldita sejas... O pobre Regnau ha de dar pulo

de cobra no outro mundo...

Graça Strech, se bem que exhaurido de forças, estremecia em convulsões

repetidas, e tinha as faces esbraseadas por um colorido doentio. Todavia

parecia detel-o um braço invisivel; pesado como se fosse de ferro, que

lhe offegava a respiração.

Rosina chorava abundantes lagrimas, que lhe deslisavam pelas faces

mortalmente pallidas.

Postoque não estivesse presente, por felicidade, ninguem que pudesse

ouvir a revelação do segredo, além de Graça Strech, ella não ousava

falar. N'aquella hora, em que algumas mulheres e os convalescentes

soccorriam os feridos, a todos parecia natural que os dois irmãos,

segundo toda a gente dizia, se dedicassem ao curativo d'um soldado que

se affigurava moribundo.

Graça Strech aproximára-se desde o principio por lhe causar estranheza

que Rosina Regnau se dispuzesse a soccorrer o prisioneiro.

Primeiro se apiedou por conhecer n'esse acto o impulso natural de

coração de Rosina voluntariamente opprimido no captiveiro de um amor

impetuoso. Sobreviera porém o ciume quando se lembrou de que a

vivandeira habitualmente se esquivava a cuidar de feridos francezes, e

de que extremado devia ser o interesse para affoital-a á temeridade de

se deixar reconhecer.

É bem certo que o ciume completa o amor: porque o ciume é a desconfiança

que leva o coração a sondar a profundeza do amor. Então se investiga, se

espiona, se perscruta. E se o amor é verdadeiro, é puro, é santo, assim

como se lhe mede o alcance, e se reconhece infinito, vem a convicção de

que todos os sacrificios são poucos para galardoal-o, chega o

arrependimento de se haver sido injusto, e accorda o estimulo da

consciencia para o não tornar a ser. N'essa hora é que Rosina Regnau

começou, sem o saber, a ser verdadeiramente amada. Bastou o ciume de um

momento, que as subsequentes palavras do ferido vieram serenar, para

arreigar o amor no coração do soldado portuguez. E foi á luz d'esse

relampago de ciume que elle comprehendeu a enormidade do sacrificio de

Rosina; foram as palavras do prisioneiro francez que lhe mostraram

claramente quão grande abnegação era precisa para cair, amaldiçoada pela

patria, nos braços d'um homem estranho.

O ferido, apesar de cada vez mais se lhe embargar a voz na garganta,

proseguiu com longas pausas:

--Tu eras muito estimada, Rosina... Todos te queriam... Quem havia de

dizer que tu... renegarias... a tua França! Eu não morro pelo

imperador... que não pede nem empresta... que paga mal... eu

morro pela... França!... Já não posso... beber... A ultima gotta queria

bebel-a pela patria...

E, cada vez mais offegante e desvariado pela febre, acrescentou:

--Vae buscar aguardente... Anda depressa.. que já tenho a morte aqui...

E indicava o coração.

--Sim... amaldiçoados... os que não morrem francezes... como tu...

Jacques Regnau! lá n'esse quartel que ninguem sabe onde fica... eu te

contarei a verdade... Vamos para a reserva... temos tempo de falar...

E, como a cabeça do francez parecesse já desequilibrar-se, Rosina Regnau

procurou encostal-a ao peito carinhosamente.

--Não!--apostrophou com extrema difficuldade Bénard--não! Um francez...

só morre... encostado... a outro... francez... Eh! eh!--rouquejou.

E, procurando aprumar-se, disse com esforço grande de mais para o lance

do passamento:

--_Vive.. lá... Fran..._

Não pôde concluir. A ultima syllaba embargára-lh'a a morte.

Graça Strech estava como que fulminado pelas palavras do soldado

francez, que morrera amaldiçoando Rosina. Parecera-lhe que a voz da

providencia falava n'elle. Pela primeira vez um terror supersticioso

subjugou a coragem d'aquelle homem que tinha jurado guerra de morte á

França. E todavia expirava ali, ao pé d'elle, um francez saudando a

patria nas ultimas palavras que lhe foi dado pronunciar.

Rosina Regnau estava tambem paralysada n'essa especie de imbecilidade

que nas grandes commoções se nos affigura ser idiotismo.

O aço de que em parte era feita a sua alma de vivandeira vergára ao som

d'aquellas palavras horriveis; restava apenas, muito a dentro do peito,

a vibração dolorida das cordas maviosas.

No semblante, como se a distancia e o cansaço fossem amortecendo a

maguada vibração da alma, apenas se desenhava o espasmo das supremas

afflicções que parecem suspender a vida.

Quizera Graça Strech poder cingir nos seus braços Rosina, e despertal-a,

para a realidade do seu amor, d'aquelle excruciante alheamento.

Vedava-lh'o a presença das pessoas que, como já dissemos, estavam

cuidando dos feridos.

Ficaram ambos silenciosos, porventura á espera de opportunidade para

trocarem algumas fugitivas palavras.

Ella, acordando pouco a pouco d'aquelle infernal pesadello, sentia o

doer da realidade muitas vezes peior que os sonhos maus. E a si mesma

perguntava o que ficaria pensando Graça Strech: se julgaria criminosa a

sua compaixão pelo ferido; se a presumiria demudada pela maldição do

moribundo; se acaso o effeito d'aquella imprevista scena lhe haveria

levado ao coração o aborrecimento ou o desprezo?

Tudo suppunha, menos que o verdadeiro amor nascera n'aquella hora com o

ciume.

Como ella desejava poder cingir Graça Strech nos seus braços, cobril-o

com os seus beijos, embora elle a repellisse com enfado ou desabrimento!

Não valeriam ameaças.

Ella dir-lhe-ia com a affouteza que a innocencia dá:

--Eu bem sei que fiz mal. Mas aquelle era o Bénard, _La goutte_, que eu

conhecia, desde pequena, de o ouvir discorrer sobre o egoismo dos homens

e de o ver puxar pela sua garrafinha d'aguardente. O pae Regnau, apesar

do vicio, estimava-o muito, e até lhe chamava... philosopho. É que o pae

Regnau era dos primeiros amigos. Uma vez vendeu a ração do almoço para

que o Bénard não deixasse d'encher a sua garrafinha. O pae Regnau disse

então, bem me lembro: «Elle sem aquillo não é philosopho; e eu sem

almoço posso ser soldado.» O que valeu foi que o meu almoço chegou para

dois. Não me julgues arrependida do que fiz pelo que elle disse... Tudo

quanto elle disse bem o sabia eu... Lembrar-me da minha patria não quer

dizer que me esqueça de ti... Não. Amaldiçoam-me? Que me importa a mim

que me amaldiçoem! Abençoa-me tu, e não quero outra felicidade. Abre-me

a tua alma, de modo que eu saiba bem o que ella pensa, o que ella sente,

e não terei pena de que se me fechem as fronteiras da patria. Não me

aborreças nem me despreses... O teu primeiro beijo foi uma promessa, uma

esperança; eu acreditei-o, creei vida nova, sinto-me forte para a lucta.

_La goutte_, se me disse aquellas palavras, é porque me estimava;

estima-me, ama-me tu quanto eu desejo, que saberei esquecer as palavras

de _La goutte_.

Graça Strech, sem attingir o que se passava na alma de Rosina, estava

ancioso de dizer-lhe:

--Tudo quanto aquelle homem disse era verdade. Por mim perdeste tudo,

Rosina, por mim preferiste a solidão, em que ora vives, á tua immensa

familia--o exercito francez. Eu comecei por odiar-te, porque eras irmã

dos assassinos de minha irmã. Depois, ao odio, que procurava o caminho

da vingança, succedeu a gratidão, porque tu me restituias a liberdade.

Mas a realisação do meu sonho de sangue importava um enorme sacrificio

teu. Fizeste-o sem trepidar. E não contente com isso, que já era muito,

quizeste vincular a tua vida á minha, e tu, que havias renunciado á

patria, renunciaste tambem á voz com que recordavas as canções do teu

paiz natal. Começou a nascer em mim o amor misturado d'assombro. Nunca

me lançaste em rosto a minha crueza para os teus. Era a minha vingança,

e tu querias o que eu queria. Ao pé da imagem de minha irmã, que no

somno e na vigilia me apparecia, começaste tu a tomar vulto, a crescer,

de modo que eu fiquei preso entre vós ambas, porque se o sangue d'uma

clamava vingança, o sacrificio d'outra me proporcionava vingar-me. E uma

noite, no breve repousar do acampamento, sonhei que minha irmã me viera

falar e me dissera que tu eras boa, e leal, e pura. Então beijei-te. Mas

hoje, ao ouvir aquellas palavras, completei os meus pensamentos pela

certeza de que tu eras pura, e leal, e boa. Dize: Que queres de mim?

Sacrificio por sacrificio, amor por amor, dedicação por dedicação. Serei

teu, porque tu és minha. Ouve, Rosina, ouve-me bem. Tu tens sido o meu

anjo da guarda, o meu enfermeiro, e--porque não hei de dizel-o?--tens

sido para mim como o cão amigo para o cego das Ardennas. Pois bem.

D'hoje em diante as nossas almas fundir-se-hão n'uma só, viverão dos

mesmos pensamentos, e tu chorarás minha irmã como eu a choro, porque o

teu coração sentirá a saudade que eu sinto.

Ao anoitecer veiu a carroça dos cadaveres, acompanhada pelo capellão

militar, buscar o morto.

Rosina Regnau deteve-se a contemplal-o, esquecida de que aquelle homem

morrera amaldiçoando-a.

Era-lhe defeso o falar. Se não fosse, haveria pedido uma oração pela

alma do soldado Bénard, de alcunha--_La goutte._

Graça Strech assistiu á cerimonia commovido. Um dos soldados

encarregados d'aquella triste commissão, como lhe visse carregadas as

linhas do rosto, apostrophou:

--Pois tu, que te bates como leão contra os francezes, não assistes

impassivel aos funeraes d'um francez!

--A morte quebra todos os odios, respondeu Graça Strech.

Outro soldado, ao dar tino da garrafinha entalada entre a farda e a

camisa, exclamou facetamente:

--Pena tenho eu de o não matar emquanto a garrafa estava cheia!

--Este diabo não fazia senão beber! acrescentou outro.

--Tambem me consta que fazia outra coisa, replicou Graça Strech.

--O que era?

--Enterrava os nossos mortos com mais piedade do que tu.

--Prégas hoje de cadeira!

--Lembro-me de que elle, pelas ultimas palavras que lhe ouvi, era tão

francez como eu sou portuguez...

--Era? perguntou ingenuamente um dos soldados.

--E a mim, concluiu Graça Strech, pesa-me sempre a morte d'um bom soldado.

Quando a carroça rodou lugubremente, caminho da valla commum, onde

portuguezes e francezes iam dormir sem odios nem malquerenças o somno

eterno, Graça Strech acercou-se de Rosina, que parecia duvidar ainda do

que tinha ouvido, e segredou:

--Devo á memoria de Bénard uma felicidade que não merecia a Deus. De

hoje em deante não haverá entre nós barreira que possa separar-nos. As

nossas almas serão uma; os nossos pensamentos um só...

--Promettes? murmurou ella doida d'alegria.

--Prometto.

--Então dir-me-has tudo o que pensas, tudo o que sentes?

--Tudo o que penso e sinto te direi.

E o segundo beijo sellou esta promessa.

* * * * *

XIII

Como acaba a tragedia de Goethe

Não morrem os gigantes ao segundo golpe.

Napoleão ergueu-se no senado francez, a 4 de dezembro de 1809, e

sobrepujando com a sua voz a voz da Historia, como se lhe não andasse já

descontada a gloria com dois consecutivos revezes na peninsula iberica,

disse: «Tanto que eu appareça alem dos Pyreneus, o leopardo

recolher-se-ha amedrontado ao oceano para fugir á ignominia, á derrota e

á morte. A victoria das minhas armas será a do genio do bem sobre o do

mal: a victoria da moderação, da ordem e da moral sobre a guerra civil,

sobre a anarchia e as paixões destruidoras.»

E, concluida a campanha de Austria pela paz de Vienna, a aguia franceza

deixou de pairar sobre o norte da Europa, e do alto do palacio imperial

de Schoenbrunn fitou o olhar ardente e profundo na orla do occidente

banhada pelo Atlantico.

E pela terceira vez se equipava o exercito invasor, superior a oitenta

mil homens; e pela terceira vez fôra chamado um general distincto a

tomar o commando em chefe das tropas para obter melhor exito que os seus

dois antecessores.

A eleição recaiu no marechal Massena, principe de Essling, duque de

Rivoli, cuja valentia e sciencia Napoleão conhecia desde as campanhas

d'Italia.

Não precipitemos, porém, os acontecimentos que o anno de 1810 havia de

desdobrar sobre a Europa. Justo é reverter ao que é assumpto principal

d'este livro, mais biographia do que chronica.

Já anteriormente dissémos que o exercito portuguez recolhera ao quartel

general de Castello Branco, e d'ahi fôra mandado, nos ultimos dias

d'agosto de 1809, para diversos acantonamentos.

Em Castello Branco, o marechal Beresford permittiu aos soldados,

que mais se haviam distinguido, a escolha de corpo e quartel, não só

para lhes galardoar d'algum modo os serviços prestados, como para

incitar os outros a medirem-se na terceira campanha com os premiados na

segunda. José Maria da Graça Strech escolheu o regimento d'infantaria

18, que, com o 6 e 9 da mesma arma, foi mandado para Coimbra.

Então se levantava detraz do tumulo da irmã querida, para o desgraçado

moço, a aurora do amor, que desabrochára no primeiro beijo, e que o

ciume aclarára definitivamente á beira do catre do moribundo Bénard.

Havia-se batido como leão, açulado pelo cheiro do sangue. Mil vezes se

atirára á morte, e a morte parecia respeitar no sorriso de Rosina Regnau

a heroicidade do soldado. Dir-se-ia que a vivandeira tinha duas azas,

que, desdobradas, o abrigavam. Graça Strech acabou, como era natural,

por amar o seu anjo da guarda, quando inteiramente comprehendeu que ella

lhe dizia na triste eloquencia do silencio a que se condemnára: «Eu

tenho de guardar a tua alma; para guardal-a preciso possuil-a.»

No seu coração calcinado pela saudade choveu pouco o orvalho

refrigerante companheiro da aurora; o amor cauterisou a ferida que

sangrava odios; ficára apenas a cicatriz, como fica voltada n'um livro a

pagina que se leu, e cuja impressão jámais se desluz na mente do leitor.

Aconteceu a Graça Strech como ao commum da humanidade.

O Annel Mysterioso, Scenas da Guerra Peninsular · 第 7 / 14 段