official d'artilharia, muito lastimado por seus companheiros d'armas,
incluido o general Silveira, que lhe abraçou o cadaver.
O tio do official, e a mãe, que era viuva, vestiram-se de gala, dizendo
esta nobre mulher aos dois filhos que lhe restavam, e estavam pranteando
o irmão:
--Não choreis, filhos. Vosso irmão não morreu. Vós é que morrereis da
morte da vergonha se vos não mostrardes dignos da sua memoria.
Este exemplo d'animo varonil em peito feminino prova que não anda
phantasia popular na lenda d'aquella Deosadeu, de Monsão, de Celinda, a
heroina de Certã, de Filippa de Vilhena, e doutras celebradas matronas
portuguezas, que deram á patria uma geração de meninas que fazem _crochet_.
É egualmente abundante de heroismos a chronica da primeira invasão, á
parte pequenas manchas, como aquellas que dos copos dos officiaes
francezes cairam sobre o tablado do theatro de S. Carlos.
Deixem-me citar um facto na mesma linguagem em que o historiador o
descreveu.
«O juiz de fóra de Algozo, Jacintho d'Oliveira Castello Branco, fez-se
digno de honrosa memoria, pela sua repugnancia ás ordens do governador
intruso; por continuar debaixo d'elle a uzar do nome de S. A. R.[9] em
alguns processos; por conservar as armas reaes no pelourinho e na casa
da camara d'aquella villa; e por outras acções, egualmente sublimes e
arriscadas. Jantando em sua casa varias auctoridades portuguezas, que o
increpáram de não cumprir as ordens reiativas á contribuição de guerra,
respondeu-lhes, lançando mão a um copo, e fazendo uma saude a S. A. R. o
principe regente.»
Não é menos avantajado em heroicidade o procedimento do juiz de fóra de
Marvão, Joaquim José de Magalhães Mexia, que, intimado para se render ao
jugo estrangeiro, fez desistencia publica perante os seus escrivães, e
foi prostrar-se diante da imagem do Senhor dos Passos da sua villa,
encostando a vara á imagem por fórma que parecia haver-lh'a depositado
nas mãos, e recolhendo-se depois a casa para vestir-se de luto.
É pois digna de que a reproduzam na tela os melhores pintores, os
melhores poetas e os melhores historiographos--esta ingente lucta d'um
pequeno paiz, apenas soccorrido por outro, contra o gigante tresvariado
pela gloria, que firmava os pés nas planicies da Italia, e alguns annos
depois fôra visto á luz, para elle sinistra, dos incendios de Moscow,
enchendo, de sul a norte, a Europa inteira.
Alguns talentos verdadeiramente robustos teem lançado o colorido do seu
pincel sobre esta enorme tela, nunca esgotada. Que me lembre n'este
momento, Rebello da Silva, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas e
Arnaldo Gama trataram brilhantemente tão fecundo assumpto. Eu chego com
pequeno viatico, embora não venha tarde, unicamente para mostrar que
tenho seguido reverentemente o sulco que todos quatro abriram no vasto
campo da guerra peninsular.
Reatando a narrativa.
Graça Strech foi um dos soldados portuguezes que mais se distinguiram
nos ultimos dias da defeza da ponte d'Amarante.
O general Silveira estimou-o desde que elle, apresentando-se, lhe disse:
«Venho bater-me como leão porque venho vingar-me»; e começou a admiral-o
horas depois da apresentação.
Ao anoitecer do mesmo dia, fizeram reparo alguns soldados n'uma
camponeza, que parecia muda, e se bandeava com o sequito do exercito.
--D'onde viria? perguntavam elles.
--É minha... irmã, atalhou commovido Graça Strech. Não podia
convencel-a a que me não seguisse, porque a infeliz nem ouve nem fala.
Veiu vindo atraz de mim, receiosa de que eu morresse sem ver-me.
Pobresinha!--acrescentou com os olhos marejados de lagrimas--não faz mal
a ninguem, e é muito minha amiga.
--Que pena a sua desgraça, que tão formosa é! observou piedosamente um
portuguez.
--Nem se diria portugueza! exclamou outro com a affouteza que lhe dava o
não estar na presença de portuguezas.
Graça Strech replicou:
--Ha com effeito ali alguma coisa allemã no rosto como no nome. Os
nossos antepassados tinham sangue teutonico. Ainda nos corre nas veias o
sangue d'elles. A pobresinha estremece-me. Como não tem ouvidos nem voz,
quer estar ao pé de mim sempre que póde, como para falar pela minha
bocca e ouvir pelas minhas orelhas. Eu sou quasi a sua moleta... Tambem
a infeliz não tem ninguem mais n'este mundo, e ella de si pouco tem...
--Infeliz! ponderaram os soldados enternecidos.
Rosina Regnau interpretou magistralmente o seu papel. Passavam por ella
e diziam: _A muda allemã!_ e ella, apesar de entender a phrase á força
de repetida, nem sequer voltava o rosto para agradecer aquella esmola de
compaixão.
Se não ouvia! se não falava!
Sentava-se entre as bagagens a entrançar folhas verdes ou a desfolhar
flôres.
Algumas vezes mettia-se por entre as arvores para se inteirar da posição
das tropas.
Depois d'um combate, aproximava-se dos soldados, quando Graça Strech se
demorava ainda, e pousando a face na mão e fechando os olhos, perguntava
por gestos se «o irmão» estava ferido ou morrera. Os soldados, que já a
comprehendiam, acenavam-lhe negativamente.
Assim decorriam os dias, sem que a alma da vivandeira saisse para fóra
de si mesma.
Quem adivinhava ali que de receios, de maguas, de pensamentos, de
esperanças muito vagas... agitavam aquelle formoso cadaver que só tinha
vida nos olhos?
Ninguem.
E todavia ella estava pensando sempre...
A sua ambição, o seu sonho, o seu ideial era possuir inteiramente a alma
de Graça Strech, porque ella desde o momento da fuga para ninguem mais
vivia.
--Achou decerto--suspeitava ella--que eu não era digna de receber a
confissão do seu segredo. Quem és tu, disse elle lá comsigo, pobre
vivandeira, para comprehenderes a enormidade d'um amor que vive na
morte? Se aquelle annel fosse realmente de sua irmã, curvar-me-ia a seus
pés e beijar-lh'o-ia. Mas se elle cingiu o dedo d'outra mulher, que o
amava muito menos do que eu, arrancar-lh'o-ia da mão ainda mesmo com a
certeza de morrer esmagada pela sua colera. Cumpre pois que, por
sacrificio sobre sacrificio, eu chegue a nobilitar-me a seus olhos o
bastante para elle me convencer. N'esse dia serei sua amante; por
emquanto sou apenas o seu cão. Vamos, solitario molosso, affaga o teu
dono...
Graça Strech passava, atirava-lhe uma flôr, e sorria...
Ella sorria tambem.
Guarnecidos todos os pontos do Douro, desde a retirada d'Amarante até a
acção d'Ovelha, tiveram as tropas algum descanço apenas interrompido por
escaramuças e reconhecimentos.
Foi n'esse intervallo que Graça Strech começou a aprender a tocar
guitarra com um soldado, filho da Regua, e muito conhecido ali por
excellente musico.
A natural aptidão de Graça Strech fez que dentro em pouco se avantajasse
ao mestre. Assim era que não desaproveitava occasião de estar
guitarreando ao lado de Rosina, que conservava na physionomia a habitual
immobilidade de linhas, como se a musica, que se lhe coava á alma, não
lhe desse nenhuma sensação, por não poder ouvil-a.
Ás vezes, de noite, Rosina podia murmurar muito a medo, aos ouvidos de
Strech, através dos sons da guitarra:
--José!
Ella sabia pronunciar este nome como se de pequenina o aprendera.
Depois olhava em redor, como para adquirir a certeza de não ser
escutada, e repetia maviosamente:
--José!
Elle apertava-lhe convulsamente a mão e respondia:
--Rosina!
E aquelle immenso amor da vivandeira, que renunciára á patria, á
liberdade e á voz, contentava-se com exhalar-se n'uma palavra, e ser
correspondido por outra.
Ella tambem não pedia mais. Era o cão do soldado: seguia-o.
Quando a tristeza lhe descia ao coração, a indefinida tristeza de quem
ama, consolava-se a si propria imaginando-se ainda vivandeira, porque
ouvia troar o canhão e sentia no ar o cheiro da polvora.
Era apenas a memoria o que lhe restava do que fôra; o fato da sua
infancia sepultára-o ella no fundo das aguas...
Entretanto proseguiam com actividade as operações d'um e outro exercito.
A 22 d'abril entrava em Lisboa Wellesley, commandante em chefe das
forças britannicas, que desembarcaram no Porto, na Figueira, etc. As
tropas inglezas, de combinação com as portuguezas, começaram a tomar
differentes posições. Em Coimbra passaram algumas divisões nos dias 1 e
2 de maio, sendo recebidas com festas que chegaram a tocar o maximo
enthusiasmo.
Era aquelle o hymno de esperança da patria, anciosa de liberdade.
Avançaram as tropas alliadas até Agueda, e lograram repellir os
francezes desde as Albergarias até Oliveira d'Azemeis, onde Wellesley,
depois lord Wellington, estabelecera o quartel general.
No dia 11, a guarda avançada do exercito anglo-luzo destroçou em Grijó
os postos avançados francezes que recuaram até Gaya e passaram o Douro,
cortando immediatamente a ponte de barcas.
Na vespera d'esse dia atravessára Beresford o Douro na Regua com as suas
tropas, repellindo Loison para Amarante, e de Amarante para o Porto;
Loison perdera na retirada muitas peças, alguns obuzes, e cento e
dezenove carros com bagagens.
Estava pois o flanco esquerdo do exercito francez torneado por
Beresford, o direito por Hill em Ovar, e o centro alcançado pelas
divisões Trant e Paget.
Durante toda a noite de 11 para 12 marchou o exercito alliado sobre
Villa Nova de Gaya.
De manhã, e impossibilitado de passar o rio, soube o coronel Watters que
um barbeiro portuense, salvo da vigilancia das patrulhas francezas,
havia atravessado n'um barco; aproveitando a conjunctura providencial, e
o barco não menos providencial que a conjunctura, passou á margem
direita, voltando á esquerda com trez grandes barcos, que pudera obter.
Avisado Wellesley do achado miraculoso, voltou-se jubiloso para o
coronel e disse:
--Passem as tropas que couberem nos barcos.
Não faltaram valentes que se expuzessem aos azares da façanha,
surprehendendo os francezes que contavam repellir vantajosamente o
inimigo quando tentasse a travessia a descoberto.
Foi, pois, o coronel Watters o Martim Moniz da reconquista do Porto.
Percebidos os francezes da audacia heroica do exercito alliado, para
logo se desviaram em movimentos confusos, como o redemoinhar das areias
no deserto revolvidas pelo simoun. E assim como as areias tomam,
erguidas no ar, á luz do sol, irradiações prismaticas que deslumbram,
assim resplandeciam, á luz do meio dia, as armas dos francezes
baralhando-se tumultuariamente nas ondulações do terreno que medeia
entre o caes da Ribeira e o Prado do Bispo.
E então marinhavam as tropas luzo-britannicas pelos alcantis do
Seminario, como outr'ora os cruzados pelos despenhadeiros da torre do
norte, na tomada de Lisboa, e, para que se complete o parallelo, o que
lá era Guilherme, duque de Normandia, era cá Wellesley, lord Wellington.
E já para anciedade dos portuenses se abria manhã d'esperança, á medida
que os nossos ganhavam terreno, e mais revoluteavam as hostes francezas
nas eminencias sobranceiras ao Douro.
Por um momento se julgou perdido o triumpho, quando a artilharia
franceza começou a varejar o Seminario.
Mas não tardou que ao canhão da margem direita respondesse o canhão da
margem esquerda, que das alturas do Pilar vomitava torrentes de fumo
negro sobre o valle cavado pelo Douro.
Reanimados os portuenses, entraram de preparar barcaças, que conseguiram
pôr a salvo do outro lado do rio, e que transportaram as tropas do
general Sherbrooke.
Simultaneamente estrondeava no Porto, rolando até ao caes como o rumor
longinquo d'uma cathedral em festa, o concerto das vozes, que pregoavam
victoria, á mistura com os sons festivos dos campanarios.
Nas janellas da cidade baixa agitavam-se lenços brancos em vertiginoso
tumultuar.
Tambem assim accordou Lisboa, cento e sessenta e nove annos antes, na
manhã de 1 de dezembro de 1640, quando um punhado de fidalgos
portuguezes subjugava nas praças publicas, sem correr uma gotta de
sangue, o famelico leão das Hespanhas.
Era o grito de liberdade longos dias reprimido na garganta d'um povo
inteiro.
Era o jubilo d'uma nação, que parece apenas occupar alguns palmos de
terra no mappa da Europa, á hora em que despedaçava as gramalheiras que
por sobre os Pyreneus lhe lançára o César da França, e dizia ao vencedor
de Austerlitz: «Tu prostraste a Prussia em Iena, a Russia em Friedland;
tu levantaste sobre as baionetas dos teus exercitos os thronos de
Napoles, da Hollanda, da Westphalia, e da Hespanha, mas nós fizemos
estremecer na tua mão, ó demolidor victorioso, a alavanca com que
procuravas revolver nos alicerces o solio portuguez. Que o amigo
leopardo da Inglaterra te contrariasse, vá, porque a Inglaterra é muito
poderosa. Mas nós, pequenos como somos, fazemos suster o vôo da tua
aguia e, audazes como ella, gritamos-lhe para a amplidão que avassalla:
Basta! Pára!»
[9] Sua Alteza Real.
* * * * *
XI
O que a vivandeira pensava
Retiraram os francezes pelo norte de Portugal, acossados pelo exercito
anglo luso.
No dia 17 ganharam Montalegre, no dia 18 passaram a Alhariz, e no dia 19
entraram em Orense, depois de marchas tão violentas como trabalhosas, de
perdas consideraveis, e de perseguida vivamente a sua rectaguarda pelas
tropas alliadas.
Na passagem pelas povoações que medeiam entre o Porto e a fronteira,
deixaram os invasores um rasto de sangue e fogo de que falam com
assombro os documentos officiaes.
Á medida que fugiam foram espalhando a morte nas ultimas terras de
Portugal, como se quizessem atulhar de cadaveres o abysmo cavado na
gloria de Napoleão.
N'uma carta dirigida por lord Wellington ao secretario de guerra,
escripta no quartel general de Montalegre, no dia 18, lê-se que: «O
inimigo começou a retirada, como já informei a v. s.ª, destruindo uma
grande porção dos seus canhões, e munições. Ao depois destruiu o resto
d'ambos, e grande parte da sua bagagem, sem conservar mais do que quanto
pudessem levar os soldados, e poucas mulas. Deixou ficar os doentes e
feridos; e o caminho até Montalegre está juncado de cadaveres de
cavallos, e mulas, e soldados francezes, que foram mortos pelos
camponezes, antes que a nossa guarda avançada os pudesse salvar. Esta
circumstancia é o effeito natural da maneira por que o inimigo faz a
guerra n'este paiz. Os soldados teem saqueado e morto a paizanagem, a
seu arbitrio; e eu tenho visto muitas pessoas pendentes enforcadas nas
arvores ao longo das estradas, executadas por nenhuma outra razão, que
eu possa saber, senão porque não eram amigas da invasão franceza,
nem da usurpação do seu paiz; e podia traçar-se a rota da sua retirada,
pelo fumo das aldeias a que elles lançavam fogo. Temos tomado cousa de
quinhentos prisioneiros. Em tudo, o inimigo não tem perdido menos de um
quarto do seu exercito, e toda a sua artilharia e equipagem, desde que
nós o atacámos junto ao Vouga.»
O marechal Beresford afina pelo mesmo tom:
«Não é possivel pintar a cruel e infame conducta do inimigo; ella póde
ser facilmente traçada pelos lamentos dos infelizes paizanos, das
mulheres e das crianças, e pelo fumo das villas, aldeias e casas
incendiadas: elle a nada perdôa: esta villa (Amarante) está inteiramente
destruida: a de Mezão Frio o está em proporção do tempo que tiveram...»
Passavam, pois, os francezes, devastando, incendiando, matando.
Quiz o duque de Dalmacia que o occaso da sua invasão fosse allumiado
pelas labaredas do incendio.
Eram os ultimos lampejos d'uma victoria ephemera. Mas a voz da patria, á
hora do resgate, erguia-se mais alto que o crepitar das chammas no
pendor das serras, que os lamentos dos velhos e das crianças que
succumbiam á ultima carnificina da segunda invasão franceza.
No Porto, governado militarmente pelo coronel Trant, grande era o
jubilo, se bem que não tão cego que sir Arthur Wellesley não houvesse
proclamado aos habitantes que os feridos e prisioneiros estavam debaixo
da sua protecção, e que seria considerado criminoso quem os offendesse.
Em Lisboa, mal que no dia 17 se teve noticia official da restauração do
Porto, salvou o castello de S. Jorge, sendo correspondido pelos navios
de guerra inglezes surtos no Tejo; saiu bando para que a cidade se
illuminasse por trez dias, no ultimo dos quaes mandou o governo cantar
um _Te-Deum_ na Basilica de Santa Maria Maior.
Internado o inimigo no territorio da Galliza, as operações do marechal
Victor na Extremadura hespanhola, ameaçando nova invasão de Portugal
pelo Alemtejo, obrigaram sir Wellesley e o marechal Beresford,
solicitado tambem o primeiro pela junta central de Hespanha residente em
Sevilha, a marchar com seus respectivos exercitos para o sul do reino.
Retirou, pois, sir Wellesley, posto que a despeito do governo portuguez,
para a cidade do Porto, d'onde passou a Coimbra, Thomar, Constancia, e
Abrantes, acampando na margem direita do Tejo. O exercito portuguez
acompanhou o movimento retrogrado do exercito inglez, marchando para
Abrantes, no intuito de atacarem em commum o marechal Victor, que
estanceava nas visinhanças do Guadiana. Não se demorou, porém, o
marechal Victor n'esta posição. Avançou, com os seus 90:000 homens, para
a margem esquerda do Tejo, no intuito de o passar na ponte d'Alcantara.
Reportemo-nos ao dia 14, dia assignalado pela brilhante defeza d'esta
ponte durante mais de seis horas.
Eram oito da manhã quando o inimigo, em trez columnas, rompeu o ataque
por differentes pontos.
D'uma e outra parte foi terrivel o fogo da artilharia até que, cerca do
meio dia, vendo o regimento de milicias de Idanha-a-Nova
consideravelmente dizimadas as suas fileiras, retirou em debandada,
deixando ficar no campo apenas a legião lusitana.
Em tão desesperada conjunctiva, o coronel Mayne mandou incendiar as
minas da ponte, rompendo a explosão apenas por um lado, e ao major Grant
confiou o commando das baterias para proteger a retirada dos nossos, que
se realisou pelas trez horas da tarde.
A cavallaria franceza vivamente perseguira então a nossa pequena
divisão, sem que todavia pudesse impedir que se acautelassem os feridos
e juntassem os dispersos.
Ora um dos feridos na defeza da ponte d'Alcantara chamava-se José Maria
da Graça Strech.
Quando, em logar seguro, o tiraram d'um carro, onde lhe eram
companheiros outros valentes portuguezes, a _muda alemã_, como
geralmente chamavam a Rosina Regnau, esteve a ponto de trair o segredo
do seu disfarce, vibrando um doloroso grito, o qual se apagou n'um rouco
murmurio, que é, em lances afflictivos, o supremo esforço dos que não
teem voz.
E logo correu a encostar ao peito a cabeça do ferido, a examinar a
ferida, e a perguntar por gestos se poderia resultar perigo.
Os soldados, condoídos de tão carinhosa dedicação, responderam logo,
desde muito costumados a prognosticar sobre ferimentos, gesticulando
negativamente.
E a muda poz as mãos, levantando os olhos ao céo e entrou de affastar os
cabellos de Graça Strech, banhados de suor frio, para contemplar-lhe a
physionomia levemente alterada.
Elle sorria-lhe com os olhos marejados de lagrimas e serenava-a
acenando-lhe meigamente com a mão.
Um dos soldados, abeirando-se de Graça Strech, disse curvando-se para elle:
--O que tu tens de valente tem ella de boa! Sois dois irmãos dignos um
do outro.
Graça Strech encarou n'elle e meneou a cabeça; a muda ficou indifferente
a curar as feridas do irmão.
E só depois que não podia ser vista nem ouvida de estranhos, começou,
alternando palavras com beijos, a falar-lhe tão baixinho, tão baixinho,
como se até dos ouvidos d'elle guardasse o seu segredo, e só quizesse
que a escutasse a alma...
--Não é nada, José, meu José. Elles disseram e eu agora bem vi. Sabes
que fui vivandeira e que tambem entendo o meu pouco de feridas. Não! A
morte não te rouba d'esta vez á tua vingança e ao meu amor.
--Rosina, minha adorada Rosina! Alma pura! Coração nobilissimo!
Obrigado. Curva-te sobre a minha bocca; queiro beijar a tua face...
--É o primeiro beijo! murmurou ella circumvagando um olhar cauteloso.--É
o primeiro beijo que de ti recebo... Obrigada, meu Deus!
--Sim, tu és muito melhor do que eu... Tens-me dado tantos, tantos..
Mas--e perdoa-me, Rosina, perdoa-me--a minha alma só agora te póde
beijar livremente...
--Ó felicidade!... Praza a Deus que se este beijo me abre a tua alma eu
a chegue a possuir inteiramente, porque o amor, meu José, é tão egoista,
tão egoista...
--E não crês possuil-a ainda?
--Não. Todavia tenho esperança... Virá um dia. Cala-te, que te faz
mal falar... Já não foram pequena felicidade estas palavras, por que, tu
bem sabes, eu só tenho palavras para ti e para... Deus.
Foi longo e reparador o primeiro somno do ferido.
Rosina Regnau velou á cabeceira da tarimba, absorta nos seus pensamentos
pela primeira vez illuminados por um raio de sol. Estava folheando o
roseo poema do primeiro beijo, decompondo em estrophes maviosas a
harmonia que da alma subira aos labios. Era a primeira gotta de orvalho
na aridez do seu destino, uma parcella de ternura em recompensa dos
thesouros que ella por tanta vez prodigalisára sobre as faces de Graça
Strech.
O primeiro beijo! A santa loucura das almas que se amam, como diz a trova:
Foi aqui mesmo, á tremula
Sombra do olmeiro,
--Dizia o pastor Lícidas--
Aqui, aqui,
Que eu hontem n'estes labios
Tive o primeiro
Beijo da minha Flérida,
E endoideci![10]
E baralhavam-se-lhe os pensamentos com a precipitação da ephemera
demencia que a felicidade dá.