fardamento d'um soldado, igual ao que vestia, acrescentou:
--Não ha tempo a perder. Vista-se e venha.
E retrocedeu a esconder-se á porta, onde as sombras mais se condensavam,
e a levantar do chão o saco d'oleado da ambulancia, que continha o seu
trage de vivandeira.
Não se fez esperar o prisioneiro, que logrou atravessar a sala sem ser
percebido. Nos olhos dos que dormiam havia as nuvens precursoras da
noite eterna, que nada deixam vêr para fóra do corpo. É o
recolher-se da alma que vae partir.
As duas enfermeiras continuavam a dormir tranquillamente.
--Venha, disse-lhe Rosina travando-lhe da mão.
Graça Strech desceu conduzido pela vivandeira.
Quando a sentinella deu tino de que se aproximava alguem, cumpriu a
praxe militar do--_Qui vive?_
Um dos soldados, que levava ao hombro a bolça da ambulancia, respondeu:
_L'empereur_;--e quando já a sentinella podia distinguir os uniformes,
acrescentou com voz firme e sã em francez.
--Soldados da ambulancia com ordens urgentes para o quartel general.
O soldado que respondera era, como calculam, a vivandeira das Ardennas.
Chegados á rua, Rosina Regnau apertou convulsamente o braço de Graça
Strech e segredou-lhe:
--Nunca se esqueça de que n'este dia, e a esta hora, lhe dei a
liberdade, roubando-a a mim mesma.
--Nunca! respondeu elle commovido.
E, como sentissem aproximar-se uma ronda, estugaram o passo, caminhando
sem norte.
Por duas vezes, no aventuroso transito, os surprehenderam patrulhas
francezas.
Era sempre Rosina quem respondia no idioma patrio, não sem que sentisse
palpitar vertiginosamente o coração receioso de ver desabar n'um momento
a felicidade sonhada.
Insensivelmente se foram aproximando do rio Douro, a cuja margem pararam
algum tempo vacillantes no que fariam e, não obstante serem ambos
corajosos, quasi amedrontados. Só então, chamados á realidade, olharam
para dentro de si mesmos, conscientes da arriscada situação em que se
encontravam.
Pareceu-lhes, porém, ouvir o compasso de remos na agua, e tanto bastou
para se illuminar d'um raio d'esperança a alma da vivandeira.
Foi Graça Strech quem se aventurou a chamar o barqueiro.
Nenhuma voz respondeu ao chamamento mas, decorrido algum tempo, viram
avisinhar-se do caes o vulto negro do barco.
N'aquelle tempo eram tão frequentes as fugas nocturnas, dos que
presumiam mais demorada, do que foi, a occupação franceza da
cidade, que alguns barqueiros dos logares convisinhos, inteiramente
privados de recursos, se affoutavam a bordejar no Douro por horas mortas
para receber a esportula dos fugitivos.
Graça Strech e Rosina Regnau saltaram ao barco.
Estremeceu o barqueiro conhecendo o uniforme francez, mas Graça Strech
acudiu a serenal-o com estas palavras:
--Somos portuguezes, amigo. O habito não faz o monge. Salva-nos, e não
te importe o mais. Afasta-nos, o mais depressa possivel, da cidade.
* * * * *
IX
Entre a vingança e o amor
Foi o barco singrando Douro acima lentamente.
Graça Strech lançou mão d'um remo e auxiliou o barqueiro, não sem haver
arrancado de si mesmo, com fogosa violencia, a jaqueta do uniforme francez.
--Que peso que me fazia isto! disse elle sorrindo a Rosina.
E voltando-se para o barqueiro:
--Onde estará agora o resto do nosso pobre exercito, sabes? perguntou
vivamente.
--Anda para Riba-Tamega, senhor. Desde hontem que vae para lá o inferno,
tão certo como ser hoje 19 de abril, e chamar-me eu o Tunante de
Pé-de-Moira.
--Não sabes mais nada?
--Eu, senhor?... tartamudeou o barqueiro relanceando um olhar de medo ao
soldado francez que ia sentado é pôpa.
Graça Strech comprehendeu-o, e acrescentou:
--Pódes falar. Não te disse eu que o habito não faz o monge? Aquelle
soldado francez, que tu vês ali, é uma mulher.
--Uma mulher! repetiu o barqueiro.
--E de mais a mais faze de conta que é... muda, disse sorrindo
maliciosamente Graça Strech.
A esta palavra, se elle houvesse reparado, veria brilhar
extraordinariamente os olhos de Rosina Regnau, que encontrára n'esse
momento, melhor ainda, n'esse vocabulo, a chave d'um enigma que a
preocupava dolorosamente.
--Pois então, lá vae tudo, p-a-pá-Santa Justa, tornou facetamente o
barqueiro. Os francezes pegaram hontem fogo á villa d'Amarante. Hoje de
manhã havia uma procissão de gente que vinha fugida da villa. Em
Pé-de-Moira ficaram dez pessoas. Foram ellas que contaram o que se havia
passado.
--Quem commanda os Portugueses, sabes?
--É o general... Ora que me não lembra agora! Elle tem assim um nome a
modo d'arvore...
--Silveira? perguntou com anciedade Graça Strech.
--Tal qual: Sirveira, deturpou o barqueiro.
Aclarava-se o céo com os primeiros alvores do dia 20 d'abril.
Rosina levava os olhos postos no arvoredo das margens, alanceada,
porventura, de vagas saudades das florestas das Ardennas.
--Agora, á luz d'esta candeia, apostrophou o barqueiro apontando para o
sol nascente--já eu não me enganava com o sordadito...
Rosina sorriu melancolicamente, como se entendesse o barqueiro por uma
fina intuição de mulher apaixonada, e Graça Strech perguntou em francez
pousando o remo:
--Vae triste! É o arrependimento que chega?...
A vivandeira respondeu energicamente com um gesto negativo, como se em
verdade fôra muda.
--O peior--disse o barqueiro improvisamente--é que se virem de terra que
vae aqui um soldado francez, são capazes de fazer fogo contra todos nós.
Os diabos o jurem! Mas se ella não é franceza p'ra que diabo lhe fala o
senhor n'esses latins?
--São coisas... respondeu austeramente Graça Strech.--Tens razão,
tens... no que lembraste.
E, voltando-se para Rosina, traduziu o pensamento do barqueiro.
--Vae ali uma manta, e a cachopa que se embrulhe n'ella, se quizer,
observou o Tunante de Pé-de-Moira, com certo orgulho alegre de tomar
parte n'uma aventura que desde logo presumiu amorosa.
Rosina, aconselhada por Graça Strech, acceitou o offerecimento, e despiu
a fardeta.
O Tunante, orgulhoso de poder fazer concessões, acrescentou:
--Minha mulher tem lá por casa uns trapos, que não valem nada. Assim que
chegarmos, eu irei buscal-os.
Inteirada do offerecimento, Rosina abriu a bolça da ambulancia e tirou
com presteza o seu corpete, saial e _bonnet_ de vivandeira,
arremessando-os ao rio.
--Que faz? perguntou Graça Strech.
A vivandeira encolheu os hombros, como se aquelle movimento quizesse dizer:
--Atiro á agua o passado.
--Porque não fala, Rosina! Ainda não ouvi a sua voz desde que entrámos
n'este barco! Quererá tomar a serio o gracejo da sua mudez, com que eu
procurei ludibriar a curiosidade do barqueiro?
--É que, respondeu ella affectuosamente, me sinto preoccupada ao estudar
o papel que devo representar ámanhã...
--Mas... não percebo!
O barqueiro tinha largado os remos e deixado pender o labio inferior ao
ouvir a pronuncia de Rosina. Para elle, que tinha suas fumaças de rato
da agua, como quem diz _lobo do mar_, era aquelle um mysterio
impenetravel. Podia acaso acreditar que fosse realmente ali, em
companhia d'um portuguez, uma mulher franceza, que lançára ao rio um
fato em que brilhavam as côres sinistras da França, áquella hora em que
o sangue, o incendio, o saque, a tyrannia se erguiam como barreira entre
o povo d'um e outro paiz?
O Tunante de Pé-de-Moira não sabia historia, e ignorava o prodigio
d'estas affinidades individuaes que se escondem entre as correntes
oppostas dos sentimentos nacionaes. São grãos d'areia perdidos no
oceano; é preciso descer ao fundo do mar para encontral-os. Outra
pessoa, que não fosse rude, não se admiraria. A historia diz que, pouco
depois da invasão, o marechal Soult se vira fechado n'um circulo de
cariciosas sympathias, e que eram rasgados os salamaleques dos que já se
presumiam aulicos de D. Nicolau I. A historia refere que semelhantemente
alguns foram os corações que se renderam á prepotencia de Junot, e que
era contra esses que se erguia tremenda a grande voz popular: «Morra
Junot, e mais quem d'elle tiver dó.»[6] Finalmente, ainda
conta a historia que Piton, um sargento do corpo de policia de Lisboa,
fora promovido a alferes, pelos grandes serviços que prestou aos
francezes, com os quaes se retirou para França ao depois.[7]
O Tunante, se soubesse historia, não se admiraria portanto de que o
coração ainda tivesse um élo para ligar portuguezes a francezes, e, se
houvera adquirido maior conhecimento dos homens e das coisas, saberia
que primeiro se verga ao tufão das paixões a palmeira flexivel e
solitaria do deserto, que o roble secular da floresta, duas vezes
forte--porque é robusto e porque não esta só.
A palmeira cede ao primeiro impulso, e deixa-se ir, em doce
voluptuosidade, embalada nos braços vaporosos do vendaval, que são os
primeiros, e por ventura os unicos, que se estendem para ella.
O roble cede apenas quando o tronco está corroido pelos vermes ou
abalado pelas luctas da tempestade.
Os aulicos de Soult e os thuriferarios de Junot tinham as entranhas
comidas pelas serpes da perfidia, e a alma vergastada pelo açoite da
cupidez.
Rosina era a palmeira do deserto, que verga sem saber que vae ser
arrastada para longe do seu torrão natal, e que o simoun a despenhará
n'um abysmo inevitavel.
Era o amor que a dementava a extremos de renunciar a sua patria, se bem
que a cada instante lhe pungisse no coração uma vaga saudade das
Ardennas; era finalmente um sentimento nobre que a impellia a essa
loucura, serena postoque ardente, resignada postoque dolorosa.
A que mobil obedeceriam, porém, as damas portuguezas, que, um anno
antes, se banquetearam e valsaram, no theatro de S. Carlos, em ruidoso
sarau e na presença de Junot, com a officialidade franceza?
Suas excellencias, as beldades da capital, eram recebidas no vestibulo
do theatro por quatro pagens, loiros e provavelmente rosados. Sahia a
esperal-as ao limiar da platéa, d'onde corria um tablado a nivelar-se
com o palco, o general Margaron, que fazia as honras da casa. Ao fundo
da scena havia trez cadeiras de braços, que se conservaram devolutas até
á chegada de Junot, e em frente o busto de Napoleão a resaltar sob
um docel armado com quatro bandeiras em que se liam os nomes de outras
tantas batalhas assignaladas: Marengo, Austerlitz, Iena e Friedland.
Já as damas ouviam requebradas os galanteios dos officiaes de Napoleão,
quando entrou Junot á maneira d'imagem em andor, isto é ladeado por duas
das mais formosas portuguezas. Então começou o delirio da valsa, que
rodou em circulos vertiginosos pela sala, até que a meio do tablado se
abriu uma tenda de campanha, onde se serviu a ceia unicamente ás
senhoras. É de suppor que suas excellencias se volvessem galliciparlas
para melhor poderem acompanhar a eloquencia dos officiaes francezes nos
brindes.
Os convivas do sexo masculino estavam vexados--segundo diz candidamente
o já citado José Accursio das Neves--e espreitavam dos camarotes as
viandas e as esposas, resignando-se ao exiguo prazer de respirar os
perfumes d'umas e outras.
Em redor do edificio do theatro estavam postados quatro mil aguadeiros,
de barril ao hombro, medida preventiva ordenada por Junot, para
acudirem, em caso de maior sinistro, ao duplo incendio da lascivia e da
gula.
Parece porém averiguado que não funccionaram por serem permittidos
dentro os escandalos.
D'esta combustão, que afogueou o interior do theatro de S. Carlos, na
noite de 8 de junho de 1808, tambem não sabia o Tunante de Pé-de-Moira.
Que ignorante aquelle!
Entenda-se todavia que não veiu á tela o facto para avultar a necedade
do barqueiro, senão que para desculpar o coração e a mocidade da pobre
Rosina Regnau. E agora é tempo de reatarmos o interrompido dialogo.
--Reparou, replicou a vivandeira a Graça Strech, que ia calada. Ia a
pensar. Bem vê que é desculpavel a concentração em quem agora renasce
para a existencia. Não creia porém que o não ouvia. Ouvia sim... Quer
uma prova? Acaba de serenar a minha alma com uma unica palavra, de
resolver um problema, como se diz em Pariz, no bairro Latino. O senhor
não precisa de pensar no futuro. Já o escolheu. Vae combater, vae
realisar o seu desejo, tão facil de realisar que lhe basta apenas
encontrar o exercito portuguez. Eu comecei a realisar o meu: era
acompanhal-o. Bem; aqui vou ao pé de si. Mas depois? mas ámanhã? mas
sempre? Procurar o exercito francez era entregar-me á morte. Seguir o
exercito portuguez era denunciar-me no primeiro momento em que me
ouvissem falar. E os resultados d'essa imprudencia facilmente se
imaginam... Seriam tambem a morte... Não, não, eu quero viver, preciso
de viver, com o senhor e como o senhor. Viverá para a sua vingança; eu
viverei para o meu... amor. Sim, pode acreditar na verdade d'esta
palavra, aqui, a esta hora, depois, de eu haver atirado ao rio o meu
fato de vivandeira... O senhor disse ao barqueiro: Faze de conta que é
muda. Pois bem, sel-o-hei d'hoje em diante sempre que tenha á volta de
mim ouvidos estranhos. Reservarei para o senhor as minhas palavras e o
meu coração; para todos os outros serei muda, idiota, louca, se tanto
for preciso. Mas deixe-me vel-o, seguil-o, falar-lhe só a si, percebe,
só a si! Não estranhe a minha fraqueza. A alma da vivandeira é como um
cartuxo de polvora: cheguem-lhe lume, e ella arderá. O senhor bem sabe
que eu sou vivandeira...
Graça Strech queria falar.
Ella atalhou-o:
--Quando se enfastiar de mim, tenha a coragem de m'o dizer. Um soldado
deve ser corajoso. O ceguinho das Ardennas, quando vae a qualquer casa
onde as crianças teem medo do seu cão, manda-o embora, e elle
obedece-lhe. O senhor diga-me tambem: «Rosina Regnau, não te esqueças de
que eu sou para ti o cego das Ardennas, o pobre Hubert». Bem sabe que
quando ha guerra não é difficil a gente encontrar repouso. Ás vezes, no
caminho, sae-nos ao emcontro uma bala perdida. Quando a gente é feliz, a
bala cae-nos aos pés, mas quando só falta calar-se o coração para
morrer, a bala cae no coração.
--Rosina! Rosina! murmurou Graça Strech, profundamente commovido.
Ella atalhou-o de novo:
--Sim, agora ainda sou Rosina, ainda posso sel-o. Ámanhã serei--a muda.
Serei uma sua parenta, uma louca com quem o senhor reparta piedosamente
da sua marmita. Dirão: Ali vae a louca! E eu não poderei voltar-me
sequer, porque a louca será ao mesmo passo surda e muda. Se porém o
calor da lucta não só fizer que se enfastie de mim, mas tambem que me
odeie, como a principio me odiava, então não me mande embora,
denuncie-me, entregue-me. Bastará uma palavra sua para fazer-me
emmudecer para sempre. Bem vê que se o encargo é pesado, o resgate é
facil...
--Offende-me, Rosina, veja bem que me offende! disse elle ardentemente.
Amo-a... sim, tambem eu posso dizer-lhe que a... amo. E quem diria,
Rosina, quem o diria ha tão pouco tempo ainda! Como é feito o coração do
homem! Odeio os seus irmãos e amo-a a si... Pela primeira vez na minha
vida sinto amor por outra mulher que não fosse...
--Cale-se, cale-se! apostrophou ella delirantemente. Não quero saber
quem amou; seja esse o segredo do seu annel.
--Acredite, Rosina, que o amor de que este annel é recordação era o mais
puro amor que ha na terra... A pessoa a quem elle pertencia era minha
irmã, acredite, era minha irmã.
--Sua irmã! repetiu ella incredula e ironica. Bem vê que o sentimento
que esse annel lhe inspira não é a saudade, é o enthusiasmo...
--Oh! que não sabe como eu a amava! São d'ella tambem estas cartas..
Póde vel-as, desenganar-se...
--Não as entenderia.
--É verdade. Não as entenderia.
--E que certeza me dariam as cartas de que eram da mesma pessoa que
possuia o annel? Que sua irmã lhe escrevesse era natural... Não preciso
de provas para acredital-o...
--Rosina! Rosina! Este annel tambem era de minha irmã, que eu vi morta,
fria, hirta, livida... Mataram-n'a, Rosina, mataram-n'a... E ella era
tão formosa, tão innocente, tão timida! Mataram-n'a os francezes, a
ella, que lhes não fazia mal nenhum, a ella, que era meiga como uma
pomba!... E não contentes com um assassinio, commetteram mais dois na
minha familia. Ao pé do cadaver d'Augusta havia outros cadaveres: o de
minha mãe e o de minha avó. Mataram-n'as os francezes, Rosina. Por isso
eu odiava este nome. O annel, cujo segredo não acredita, é um
legado de sangue... Sim, eu amo-a, mas nunca me peça mais do que eu lhe
posso dar. Nunca me peça compaixão, clemencia... Era impossivel! Sobre
este annel jurei vingar-me. Bem vê que é delgado, fino, como o dedo que
cingia. Pois elle é a unica barreira que póde haver entre mim e Rosina,
quero dizer, o unico obstaculo que lhe prohibe a plena posse do meu
coração... Viverei, sim, entre este annel e Rosina; entre a minha
vingança e o meu amor... Eu patenteei-lhe a minha alma antes de acceitar
a liberdade que me deu. Não tem de que me accusar... Comprehendo-a,
Rosina, acredite que a comprehendo. A sua alma é tão extraordinariamente
grande, tão poderosamente forte, que chega a assombrar-me a coragem do
seu amor... Eu conheço que vae raiar para mim uma nova aurora. Quizera
poder-me dar completamente ao seu amor, viver d'elle e só para elle, mas
infelizmente a aurora que vae raiar nasce tinta de sangue, e sangue...
de seus irmãos.
Rosina tinha lagrimas nos olhos e fogo no coração. Parecia-lhe
impossivel que a saudade d'uma irmã despertasse em Graça Strech tão
dolorido enthusiasmo. Se era essa a unica recordação ligada áquelle
annel, que phenomenal, que afflictiva e ao mesmo tempo que energica não
era a alma d'esse homem! Cada vez o amava mais por que cada vez lhe
parecia maior. E todavia, entre elles, tão germanados pela impetuosidade
dos sentimentos e pela virilidade do animo, medeava uma barreira, posto
que delgada, insupperavel--o annel mysterioso. Ella quereria tirar-se
d'aquella duvida cruciante, adquirir, ainda que á custa de sacrificios,
uma convicção, embora funesta; mas que direito tinha ella a interrogal-o
mais, a duvidar, a ter ciumes?
Cerca do meio dia abicou o barco a um reconcavo sombrio, perto de
Pé-de-Moura, onde o barqueiro saltou em terra para ir buscar o fato
promettido. Antes d'elle desembarcar, Graça Strech lançou-lhe a mão ao
braço, e disse austeramente:
--Tens filhos?
--Saiba v. s.ª que tenho quatro. Por elles me exponho á morte todas as
noites no rio...
--Pois bem. Por elles me jurarás que não dirás a ninguem palavra do que
viste e ouviste aqui.
--Juro, senhor...
--Agora recebe todo o dinheiro que resta a um soldado.
Uma hora depois, Graça Strech, saltando á margem, dizia a uma camponeza
que o seguia:
--Para Amarante.
E a camponeza, como se só tivesse sorrisos e não palavras, sorria.
Já dissemos que era aquelle o dia 20 d'abril.
Quizeram os francezes, depois da invasão do Porto, estender a sua
victoria pelo paiz inteiro. Immediatamente se assenhorearam de Valença e
Vianna, tentando simultaneamente passar a Traz-os-Montes, mas foram duas
vezes repellidos n'essa tentativa.
Beliscados na sua vaidade de conquistadores, tinham mandado sobre
Amarante no dia 9 uma força, que recuou perseguida pelo general
Silveira. Appareceu porém, reforçada, no dia 15, travando combate em
Manhufe e Villa Meã durante trez dias para dar tempo a soccorrel-a os
quatro mil homens de Loison e De Laborde, que, partindo de Guimarães,
lograriam colher os portuguezes pela rectaguarda.
A pericia do general Silveira frustrou-lhes o intento com um rapido e
habil movimento sobre Amarante. Os portuguezes occupavam a margem
esquerda do Tamega; os francezes a direita.
O empenho do inimigo era atravessar a ponte. Desesperados pela valorosa
resistencia dos portuguezes, pegaram fogo, na noite de 18, a toda a
villa. A crueza do inimigo mais pareceu atiçar a coragem dos nossos,
cuja resistencia recrudesceu no dia immediato, apesar de reforçados os
francezes pelas brigadas de Sarrut e Marisy.
Estas eram as evoluções das tropas inimigas, em Amarante, á hora em que
deixamos Graça Strech e Rosina Regnau em caminho do acampamento portuguez.
Tempo depois, um poeta conterraneo, mais familiar ás armas d'Apollo que
de Marte, encarecia no seguinte soneto a gloria do general Silveira,
cuja tactica elle provavelmente estivera contemplando de sitio aonde já
não podiam chegar pelouros:
Uma nuvem de fumo o ar povôa,
E do Tamega enluta as margens frias,
O portuguez canhão quatorze dias,
Sem descanço algum ter, fuzila e trôa.
De um lado a outro lado a morte vôa
Por entre essas crueis artilharias,
E perdendo as antigas ousadias,
Curva ao duro francez a altiva prôa.
Amigos hespanhoes, nação brilhante!
Eis como cá seguimos vossa esteira,
Eis nossa Saragoça, eis Amarante.
Os olhos ponha em nós a Europa inteira,
E veja, em amplo quadro flammejante,
O Tamega, Ebro, Palafox, Silveira.
Pena foi que Graça Strech precedesse alguns dias a gestação do soneto
escripto em honra de Silveira, porque, de contrario, se topasse o poeta
a versejar em ociosa inactividade, havel-o ia empurrado, no seu
vivissimo odio contra os francezes, para o meio da infatigavel fuzilaria
que durante quatorze dias sinistramente illuminou as aguas do Tamega.
O que valeu foi que, se houve poetas para incensar metricamente
Silveira[8], houve tambem soldados que denodadamente pelejaram pela
patria.
E o numero dos valentes da ponte d'Amarante ia agora ser augmentado com
um soldado que seria o primeiro a romper fogo contra o inimigo.
Deixar lá o poeta dizer que as margens do Tamega eram _frias_ n'aquelle
tempo. Os poetas dizem tudo, e tudo podem dizer...
[6] «Historia antiga e moderna da sempre leal e antiquissima
villa de Amarante». etc., por P. F. de A. C. de A.--1814, pag. 54.
[7] «Historia geral da invasão dos francezes em Portugal»,
por José Accurcio das Neves. Tomo I, pag. 282.
[8] Veja-se _Elogio de Silveira_, pelo padre mestre dr. fr.
F. de S. T., e _Silveira_, poema por J. S.
* * * * *
X
A hora do resgate
Quatorze dias durou, como dissémos, a heroica defeza da ponte d'Amarante.
Foi aquella uma proeza que requeria desfecho condigno, o que
infelizmente não aconteceu. Reforçado o inimigo ao decimo terceiro dia
de combate, e animado pela presença do marechal Soult, preparou-se para
uma lucta decisiva, que o nevoeiro com que amanheceu o dia seguinte
viera inesperadamente coroar.
Perdidos os nossos na cerração da metralha e da neblina, e atacadas pela
rectaguarda algumas baterias, tiveram de abrir passagem por entre uma
densa floresta d'armas, marchando em retirada para Mezão Frio e Campeã,
a tempo que o general Silveira recuava para Entre-os-Rios.
É realmente assombrosa a historia portugueza nas paginas que dizem
respeito ás guerras peninsulares.
São tão descommunalmente grandes os factos, que, em sua mesma simpleza,
ora se nos affiguram episodios d'Homero, exuberantes d'esforços
titanicos, ora se retingem dos toques sombrios de Dante.
As façanhas da invasão franceza claramente revelam que ha pouco mais de
sessenta annos corria ainda nas veias dos portuguezes o sangue dos
valentes d'Ourique, Aljubarrota e Montijo. Renasciam os heroes das
cinzas dos heroes, como se a gloria fosse herança de paes a filhos.
Podia o animo portuguez desvariar se por momentos, como já anteriormente
fizemos notar, que logo despertava melhor retemperado para a
rehabilitação. Assim é que 1640 faz esquecer 1580, e que o vulto
homerico de João Pinto Ribeiro resgata a perfidia de Miguel de
Vasconcellos.
Hoje, as batalhas que outr'ora eram campaes, volveram-se parlamentares,
isto é, falamos muito e praticamos pouco. A apostrophe «S. Jorge e
ávante!» foi substituida por est'outra: «Senhor presidente, peço a
palavra!» Ha menos soldados e mais deputados, menos regimentos e mais
commissões. Não obstante, alguma faulha resaltaria ainda das cinzas
quentes das nossas conquistas para atiçar o incendio das paixões, na
hora em que perigasse a independencia da patria.
Aconteceria, porém, que muitos deputados, que nas côrtes de S. Bento
discursam calorosamente sobre a nossa autonomia, requereriam, dada a voz
de alarma, inspecção da junta de saude para serem considerados invalidos...
Mas iamos nós falando dos feitos portuguezes durante as guerras
peninsulares. Estupendos foram, é certo.