soccorrel-o com notavel dedicação. Umas vezes a repellia elle com
ingratidão brutal, quando a accentuação franceza lhe coava ás entranhas
estremecimentos de raiva, outras fitava na vivandeira o olhar
amortecido como a dizer-lhe que a prostração seria passageira. Na
vespera do dia em que estamos, teve Graça Strech uma idéa que para logo
reputou auxilio providencial. Lembrou-se de que só por intervenção de
Rosina poderia evadir-se do hospital de sangue. Tratou pois de
corresponder á solicitude com que ella o distinguia, de se mostrar
reconhecido, de occultar o seu pensamento de vingança sob a mascara de
ternura. Immediatamente o dominou este proposito, e a si mesmo prometteu
nunca mais receber Rosina com intermittencias de rancor ou azedume.
Difficil era o cumprimento d'esta promessa. Não se mascára facilmente o
coração.
Relia elle, como dissémos, as cartas de sua irmã. Umas eram queixumes de
rôla solitaria confrangida da tristeza alpestre das Chãs; outras eram
hymnos de esperança, votos de felicidade commum, vagas alegrias dos
sonhos dos quinze annos... N'umas denunciava-se a mulher; n'outras a
creança. Umas eram a lagrima; outras o sorriso. Aquellas tinham a
tristeza d'uma nuvem em céo d'abril; estas eram um raio de sol doirado
pela primavera... Ou antes, como o leitor poderá classifical-as, as
primeiras eram o presentimento da desgraça imminente, as ultimas eram o
cantico do anjo que punha os olhos no céo, sua patria.
Vejamos:
«_30 de novembro de 1807._--Meu irmão.--Não sabes como soffro
horrivelmente, receiosa dos perigos que virão. A avosinha tambem está
muito afflicta depois que os francezes entraram em Abrantes. Já cá
sabemos da partida da familia real, apezar de tu, grande dissimulado,
m'o não haveres dito! O padre capellão anda sempre a contar dinheiro e a
ralhar com os abegões. Isto é uma tristeza! Quem nos vale a ambas, a mim
e a avósinha, para nos tranquilisar, é o Teixeira. Eu, por mim, peço
todos os dias a Deus que não aconteça mal algum aos portuguezes...»
«_18 de setembro de 1808._--Meu José--Graças a Deus, que se dignou ouvir
as minhas continuas orações! O Teixeira esteve hontem á noite a
contar-me tudo. Até que emfim está a patria livre outra vez, sem haver
acontecido desgraça de maior á nossa familia. Queira Deus que continue a
paz para que tu possas vir vêr-me brevemente. A noticia do
Teixeira deu-me grande alegria, meu José. Reconquisto de novo a
felicidade! Eu creio que não tenho coragem para soffrer... Dá um beijo
muito demorado á mamã e um abraço muito apertado ao papá. A avósinha diz
que venhas logo que possas. Vem, sim? Olha lá... logo que possas. O
beijo á mamã que seja muito longo, muito longo... Não te esqueças.
Tua--_Augusta_.»
Graça Strech sentiu os olhos marejados de lagrimas ao lêr estas cartas,
especialmente a ultima. Estava alli todo o coração de sua irmã, a
alegria da avesinha, ainda tremula, que se sente desopprimida dos seus
negros receios, phantasticos uns, justificados outros.
Abeirou-se brandamente do catre, como quem teme ser importuno, Rosina
Regnau, e com encantadora timidez perguntou:
--Chorava?
--Um soldado portuguez não chora nunca, respondeu Graça Strech com
doçura meiada de altivez e fingimento.
--São menos felizes as vivandeiras francezas, contestou ella com sincera
simplicidade.
--Por quê?
--Porque choram ás vezes.
--Ainda a não vi chorar!--E, como se instantaneamente deixasse
resfolegar o rancor latente no coração, acrescentou:--A polvora queima
os olhos e o coração, e Rosina é quasi um soldado... francez.
--Olhe que se contradiz! observou ella maviosamente.--Esquece-se de que
tambem é soldado e chora...
Graça Strech caiu em si e deu-se pressa em attenuar o mau effeito das
suas palavras:
--Tem razão. A desgraça dá esta incoherencia aos pensamentos...
--Julga-se então muito desgraçado?
--Pungente ironia que só pode vir... d'ahi! retrucou sobremodo exaltado
o convalescente. Pois pergunta-se a um prisioneiro, a um ferido, a um
homem mil vezes deshonrado, se é infeliz? Onde aprendeu esse cynismo de
vivandeira? Onde havia de ser! Na taberna e no quartel. Só lá é que se
fala assim...
E, como ella chorasse á beira do catre:
--Sabe que eu ainda não estou inteiramente curado, Rosina?
Parece-me que deliro ás vezes! Agora delirei eu. Não... não delirei.
Conheci que era mais piedosa do que as outras mulheres... Quiz ver até
onde chegava a sua sensibilidade... Perdõe-me a experiencia... Vejo que
ainda tem lagrimas... sim... tem lagrimas... não posso duvidar... está
chorando!
--Não seja mau para mim, soluçou Rosina Regnau. Eu tive pena de vêr o
senhor a lêr e a chorar... De mais a mais fui eu que lhe dei as cartas
para a mão no dia em que o senhor veiu e parecia pedir-m'as... Pois não
se lembra?
--Não. E viu-as alguem? leu-as alguem?
--Ninguem as leu, senhor. Eu pensei que se lembrava, porque o senhor,
quando lh'as dei adivinhando de certo o seu pensamento, olhou para mim...
--Sim, talvez olhasse... eu queria as cartas...
--Isso comprehendi eu. A gente ás vezes estima qualquer cousa que não
tem valor... Eu tambem tenho um d'esses thesouros que nada valem...
É...--E calou-se, receiosa de proseguir.
--É?
--A madeixasinha de meu pae, que era capitão do exercito.
--Capitão? perguntou Graça Strech.
--Era capitão, senhor. Para me não deixar desamparada, entregou-me ao
velho Regnau com esta madeixa que era o seu unico legado... Nada mais
tinha que me deixar...--E tirou do seio a sua reliquia, sobre a qual
foram cair duas lagrimas ardentes.
Graça Strech, subitamente commovido, attentou na vivandeira que tinha
baixado os olhos, como se quizesse esconder o pranto.
--Ás vezes, proseguiu ella, fico-me a contemplar este thesouro,
sobretudo se estou triste. Que mais tenho eu no mundo? Nada. Esta
madeixasinha da minha riqueza, o meu talisman, creio eu. Beijo-a e
choro. Fico melhor. É tambem a minha companhia. Estas mulheres--e
indicou as demais vivandeiras--nem sequer se lembram de que tiveram pae!
Até lhes convém pensar que o não tiveram para não sentir atormentada de
remorsos a consciencia.--Ellas querem-me mal, bem o sei. Que me importa?
Eu tenho o meu coração tranquillo. Devo a Deus o haver-me protegido com
a sua misericordia. Sou a filha do regimento, e ninguem offende uma
filha. Estima-me; estimo-os. Da guerra que ellas me fazem nem me
lembro. Pobresinhas, que não são capazes d'uma ação boa! Vivo só,
completamente só, senhor. Sou digna da compaixão de todos, acredite,
porque sou infeliz; criminosa não. Meu pae, que decerto me está ouvindo
n'esta hora, bem o sabe. É porque sou infeliz, que comprehendo as
desventuras alheias. Pareceu-me que o senhor tinha maguas secretas.
Inspirou-me sympathia. Bem sei que a minha presença lhe não deve ser
agradavel, porque emfim eu sou franceza e o senhor é portuguez. Mas que
culpa tenho eu de haver nascido longe? Foi nas Ardennas... bonita terra
d'uma vez! Ainda não vi arvores como lá! O imperador é quem manda; nós
não temos culpa nenhuma: obedecemos. Elle quer o mundo; conquiste-se o
mundo. E depois eu não tenho odio nenhum aos portuguezes. Até se o
senhor algum dia precisar do meu prestimo... Eu não valho nada... mas
verá que ha de encontrar sempre a mesma Rosina Regnau... O que eu queria
é que me tratasse bem. Não faço mal a ninguem, porque não se tira
proveito nenhum de fazer mal... O senhor foi ferido, é verdade; mas fui
eu quem o feriu?...
--Não, Rosina, não! atalhou Graça Strech enternecido a lagrimas. Mas
feriram-me na alma, bem fundo, muito fundo... Sou um grande desgraçado.
Se lesse estes papeis, que são tambem a minha unica riqueza, veria que o
sou. Eu tenho apenas de meu estas cartas; Rosina tem apenas a sua
madeixasinha. Somos irmãos na desgraça. Eu sou filho d'um capitão
portuguez, talvez morto a esta hora; Rosina é filha de um capitão
francez, que tambem não existe. Ainda n'isto irmãos! Bem sei que não tem
culpa de haver nascido franceza. Perdoe-me, se a offendi... Offendi, que
o sei eu. Deite tudo á conta da minha arrebatada mocidade e dos meus
soffrimentos. Mas é que este abysmo cavado por Napoleão entre as duas
nações é incommensuravel, acredite. O abysmo chama o abysmo... Jámais
correu sangue impunemente... A guerra faz dos homens leões... E que
guerra esta, santo Deus!... Zomba-se de tudo--da virgindade, da honra,
da innocencia! Oh! que os seus irmãos tremam das represalias... Medonhas
devem ser... Não se opprime assim um paiz inteiro... A estrada por onde
fugiu Junot está atravancada de cadaveres, mas ainda cabe por ella
o exercito de Soult. A hora do resgate será tremenda, Rosina. Fuja, fuja
emquanto é tempo, pomba que vive entre milhafres. Fuja com a sua
innocencia. Eu comprehendo, eu acredito que é boa, e casta. Mas não
encontrará em Portugal coração que possa acceitar o seu amor, alma que
prese os thesouros da sua. E sabe por que? Porque entre um portuguez e
uma franceza medeia n'esta hora uma barreira invencivel... E essa
barreira está em pouco, mas não haverá ahi exercitos que a transponham.
É um maço de cartas, um annel, uma madeixasinha talvez. Supponha que um
homem havia ferido mortalmente seu pae... Que esse homem viesse agora
dizer-lhe, Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que
matára em nome da patria; que seu pae era primeiro que tudo um soldado,
e que um soldado era para elle o inimigo... Chora, Rosina! As suas
lagrimas são ainda mais eloquentes que o seu silencio... Pois supponha
que mataram meu pae, supponha que me retalharam a alma, que eu tenho
noite e dia nos ouvidos o clamor da vingança, que eu sou um homem que já
não vivo para mim, mas para os que morreram...
E, exhausto de forças, caira sobre o travesseiro, pedindo soccorro com o
olhar, em que subitamente se apagaram os fogos da exaltação.
Fez-se em torno do catre o lugubre silencio dos hospitaes, apenas
interrompido de espaço a espaço pelos gemidos de alguns portuguezes que
anhelavam a morte, porque só n'ella encontrariam o supremo resgate.
Rosina, curvada para o doente, julgava amparar nos seus braços um homem
que desejava viver para vingar a morte da mulher amada. A excitação
febril do prisioneiro fazia-lh'o crer. Estava longe de suppôr que essa
mulher fosse apenas irmã, ou antes que a desgraça d'esse homem fosse
tamanha que tivesse de vingar a morte de uma familia inteira.
Como, porém, Graça Strech lentamente parecesse recobrar alento,
inclinou-se-lhe ao ouvido e maviosamente repetiu:
--Se algum dia precisar do auxilio da pobre vivandeira, acredite que
Rosina Regnau será sempre a mesma...
* * * * *
VIII
O anjo da liberdade
Foi-se restabelecendo o doente.
Meiado abril, Craça Strech julgava-se robustecido sufficientemente para
encetar a sua obra de vingança. Toda a sua attenção se concentrava na
idéa fixa da fuga. Rosina continuava a ser para elle a dedicada, a
solicita, a meiga enfermeira dos primeiros dias. Se em tão carinhosa
dedicação estava occulto o germen do amor, se era aquella a mascara da
alma apaixonada que tinha de respeitar conveniencias e circumstancias,
não tardará que o saibamos. Todavia os seus sorrisos, posto que doces,
revelavam tristeza. O coração a attraíl-a para aquelle homem, e o
destino a distancial-a! Que elle soffria, era evidente. Mas por que
soffria? Porque esse homem--suppunha-o ella--amára doidamente, com o
fogo dos primeiros amores, com a loucura dos primeiros annos, e vira
talvez correr, na hora da invasão, o sangue innocente da mulher amada.
Porque esse sangue clamava vingança, e elle esperava apenas pela hora
tremenda da represalia. Porque essas cartas que relia a toda a hora eram
outros tantos protestos contra a tyrannia dos que venceram. Fossem dizer
ao coração d'esse homem pungido pelo que ha ahi de mais excruciante na
terra: «Despe o teu luto; enflora-te. Os que te mataram eram meus
irmãos, mas quem te resuscitará serei eu. Com o sangue do cadaver, que
desceu á tumba commum, regaremos as flôres da tua felicidade futura.»
Não podia ser. Elle tivera razão quando disse: «Supponha que um homem
havia ferido mortalmente seu pae. Que esse homem viesse agora dizer-lhe,
Rosina, que lançasse ao fogo essa reliquia sagrada; que matára em nome
da patria...» Referia-se a uma barreira insupperavel, e falava do maço
de cartas, de um annel, de uma madeixasinha talvez. E as cartas
relia-as elle, e annel tinha um na mão esquerda, tinto de sangue, que
era talvez da pessoa cuja morte anhelava vingar. Que esperança podia,
pois, ter Rosina no seu louco amor? Mas, por outro lado, quem ha de
dizer ao coração que é loucura amar? Como havia ella, allucinada pela
paixão, de raciocinar comsigo mesma: «Tu és a pobre Regnau, a vivandeira
franceza, que acompanhas o exercito vencedor; elle é o soldado do
exercito vencido, e vencido elle mesmo. Não se póde transpôr um abysmo,
muito menos dois. Tantos são os que nos separam n'esta hora: o da
vingança e o da nacionalidade!» Isto ninguem o diz; ella não o podia
dizer. Amava, sim, mas amava sem esperança, e, o que é mais, amava com
medo. Agrestemente a tratava elle a principio. Desde o dia em que ella
lhe perguntou se chorava, e em que timidamente se abeirára do catre
antes como enfermeira do que como amante, pareceu todavia abrandar um
pouco mais o seu odio inspirado pelo nome francez. Conheceu decerto que
ella não estava ainda pervertida, e condoeu-se. Mas condoer-se não é
amar. E depois que desgraçado aquelle! Que pensaria elle fazer? Talvez
matar-se. Prefiriria morrer a combater contra a sua patria, contra o seu
nome de portuguez, contra as suas recordações. Como ella quizera
sondar-lhe a alma e arrancar-lhe o seu segredo! O que importava,
primeiro que tudo, era affastal-o da morte. Por isso o espionava Rosina,
e cada vez era maior a sua solicitude. Não tardou porém a hora em que
Graça Strech ia levantar uma ponta do véo mysterioso que occultava os
seus designios.
Era ao entardecer. Havia na sala a penumbra crepuscular. Elle escolhera
decerto essa hora para que a physionomia lhe não traisse os sentimentos
reconditos.
--Lembra-se, Rosina, do offerecimento que me fez?
--Lembro, e repito-o, respondeu ella estremecendo de golpe.
--Pois bem; é chegada a occasião de aproveital-o. Cumpre porém que
primeiro lhe diga que a minha vida fica pendente d'esta revelação. Se
ámanhã quizer denunciar-me aos meus algozes, póde fazel-o, e então
completará a vingança dos meus desabrimentos. Completará, disse
eu, porque compassivamente me tem tratado, e a compaixão é a vingança
das almas nobres. Quer-me parecer, não obstante a posse do meu segredo,
que continuará a vingar-se nobremente... O seu coração é bom, Rosina; o
meu é que não é assim. Eu sou vil, rancoroso, sanguinario. Mas, ainda
assim, em alguma hora da minha vida me é dado ouvir a voz do meu anjo da
guarda. Depois a celeuma dos maus instinctos suffoca-a. É porém esta uma
das horas em que o meu coração não é inteiramente perverso. Portanto lhe
falarei com a maxima franqueza. Eu quero sair d'aqui, Rosina, livre,
completamente livre, entenda-me bem. Só por sua intervenção o poderei
conseguir. Mas, se me presta esse serviço, quem lhe não dirá, Rosina,
que soprou no meu peito as labaredas que eu sinto escaldarem-me o sangue
quando volvo os olhos a um passado proximo, muito proximo?... Sabe que é
quasi um fratricidio que vae praticar? A voz da consciencia será a
primeira a dizer-lh'o. Não irá combater contra os seus pessoalmente, mas
irá dar mais um soldado ao exercito portuguez cerceado pela derrota...
Pense em tudo isto. Vae trair a confiança dos seus irmãos para
conquistar apenas a gratidão d'um só homem...
A esta palavra, os olhos de Rosina, até ahi brilhantes de copiosas
lagrimas, illuminaram-se d'um clarão d'alegria.
--Gratidão! disse?--soluçou ella. É a primeira vez que eu oiço dos seus
labios tão doce palavra... Acredite-me, sim? Eu já pensava em
auxiliar-lhe a fuga, mesmo quando ainda não era meu amigo. Tinha pena,
muita pena do senhor, e receiava que se quizesse matar para não ficar
prisioneiro. Faria por lhe dar a liberdade, ainda que m'o não
agradecesse, porque algum dia, ahi por esses acampamentos fóra, bem
podia ser que o senhor encontrasse, prostrada por uma bala perdida, a
vivandeira Rosina, e dissesse, lançando-lhe um olhar de piedade: «Bem te
reconheço! Eras a pobre Regnau. Deste-me a liberdade. Estás morta. Que
te hei de dar agora? Dar-te hei uma oração». Isto me bastaria, senhor,
que eu bem sei que não mereço mais. Mas agora o caso muda muito do que
eu havia pensado na minha tristeza. O senhor promette-me gratidão. Que
mais posso eu invejar? A memoria de meu pae me perdoará, porque
elle--disse ella com irreflectida candura--tambem amou muito, segundo
contava o velho Regnau. Gratidão é o que o ceguinho das Ardennas tem ao
seu fiel molosso. O pobresinho do Hubert anda sempre a dizer,
referindo-se ao seu cão: Não ha pessoa a quem eu seja mais grato!» Veja
o senhor como elle lhe quer, que até chama pessoa ao cão! Pois eu serei
para o senhor como o molosso para o Hubert. Ter-me-ha gratidão; viverei
feliz... E sabe o senhor que o cão do ceguinho das Ardennas o segue
sempre? Sabe o que isto quer dizer?...
E calou-se de subito, ruborisada de pudor.
--Não sei! observou Graça Strech sobremodo admirado da sinceridade
d'aquella confidencia.
--Não sabe? É que eu tambem queria seguil-o ao senhor...
--Como?! perguntou o moço aprumando-se como galvanisado por um choque
electrico. Seguir-me! Sabe bem o que diz, Rosina? Sabe que atraz de mim
caminhará sempre a morte, e atraz de si o odio francez? Sabe que isso é
renegar a sua patria, o nome de seu pae?
--Esquece-se de que meu pae não me deixou nome? Se no céo se sabe tudo,
elle saberá que o meu coração é puro. O mais que me importa a mim? Nem
por seguir o senhor deixarei de querer cada vez mais á minha
madeixasinha. Crime era o esquecer-me d'ella, o desprezal-a, o não a
trazer commigo. Mas é que eu seguirei o senhor, e ella seguir-me-ha a
mim. E depois o senhor não me comprehendeu bem... Eu não queria deixar
de ser vivandeira... Não se quesile, não? O senhor vae combater. Eu
seguirei o exercito como até aqui, mas estarei sempre em sitio onde lhe
possa acudir, e em vez de soccorrer um soldado francez soccorrerei o
senhor se as balas o não respeitarem. O crime está só n'isso, e Deus m'o
perdoará... Eu, depois que morreu o velho Regnau, o meu segundo pae,
tenho vivido tão sósinha, tão sósinha!... O exercito é muito grande e
por isso mesmo não faz companhia. Não lhe perderei o rasto, senhor,
esteja certo. As vivandeiras estão costumadas á guerra de emboscada.
Surprehendel-o-hei quando menos o esperar. Que seja preciso affrontar
perigos, pouco importa. Rosina, a «gentil vivandeira», como por
favor me chamam, é destemida. Toda a brigada Arnaud lh'o podia
dizer...
A admiração, o pasmo, o alheamento de Graça Strech eram cada vez
maiores. Espantava-o aquelle conjuncto de candura e coragem, aquelle
receiar e querer da vivandeira. Achava extraordinaria a creança, que
tinha innocencias d'anjo e impetos de mulher. Não sabia se mais havia de
admirar a originalidade do temperamento se a originalidade da revelação.
Começava a lêr na alma da vivandeira que o amava. Comprehendeu que ella
sabia respeitar-lhe a dôr, impondo-lhe suavemente o dever de
respeitar-lhe a sua. E tudo o que ella soffria era por ser franceza...
Tambem elle se não lembrava n'esse lance de que a mariposa procura a
chamma!
E Rosina era a mariposa do acampamento.
Não obstante, desconfiando ainda da clareza da sua percepção, quiz oppôr
obstaculos á resolução da vivandeira:
--Mas não sabe que isso é impossivel, Rosina? Não sabe que se não póde
seguir ninguem através dos azares da guerra? Quem póde luctar com as
ondas sem naufragar? Não lucte, Rosina, não lucte com o que é
invencivel. Guarde essa coragem do seu bello coração para as batalhas do
mundo, que toda lhe será precisa. Deixe-me ir até onde chegam todos os
infelizes. Não sabe que ámanhã posso encontrar a bala que me mate?...
Não será ámanhã, não, porque eu ámanhã não haveria completado a minha
obra. Preciso de viver, mas a guerra é tão caprichosa! Completa a minha
obra, desejo morrer livre, quite com o mundo. Não quero que ninguem me
chore--morrerei feliz.
--Outro tanto poderei eu dizer, atalhou com doçura a vivandeira. Mas
deixe-me ir... tambem até onde vão os infelizes. Já agora, eu, que lhe
vou abrir o seu futuro, quero saber ao menos o sitio em que o senhor
estiver. Bem pouco lhe peço, como vê. Caprichos de mulher! especialmente
caprichos de franceza...
E, como que arrependida de haver soltado esta palavra:
--Fui indiscreta, bem sei; perdôe-me. O seu coração precisa de esquecer
a minha nacionalidade para me não odiar...
Era impossivel luctar por mais tempo com tão energica e ao mesmo passo
tão meiga natureza.
Como se aproximasse gente, Graça Strech apertou-lhe silenciosamente a
mão e escondeu no lençol a face involuntariamente orvalhada de lagrimas.
Chegára a noite triste que ao nascer das estrellas invade os hospitaes e
as prisões com o seu silencio e a sua tremula claridade.
Graça Strech não pôde conciliar o somno. Tantos e tão extraordinarios
eram os pensamentos que se lhe baralhavam no espirito, que ora sentia
subir-lhe ao cerebro a frialdade glacial dos tumulos, ora a chamma
abrazadora da congestão. Assim esteve, sem dar tino do tempo que
passava, com os olhos fitos na sombra oscillante que uma lanterna
projectava na parede fronteira ao seu catre.
Os gemidos d'alguns feridos compassavam-se a intervallos mais ou menos
longos, segundo a gravidade do ferimento. Duas vivandeiras, encarregadas
de ficar de véla n'aquella noite, deixaram-se adormecer com a
tranquillidade de quem está bem e não se importa de que os outros
estejam mal.
Na rua tropeavam com interrupções os cavallos das rondas. Uma ou outra
vez ouvia-se trocar palavras entre as patrulhas que passavam e a
sentinella do hospital. Não se percebia, porém, o que diziam...
E assim decorria a longa noite das enfermarias e dos carceres com o
lutuoso aspecto que faz d'umas e outros--cemiterios de vivos.
A mais de meio iria a noite, quando a Graça Strech pareceu vêr entrar
cautelosamente na sala um soldado francez, que foi caminhando, cada vez
mais receioso, até se avisinhar do seu catre.
Se obedecesse ao primeiro impeto, haveria falado, porque lhe passou no
espirito a suspeita de que Rosina o denunciára, e de que esse soldado,
que tanto se arreceiava de ser surprehendido, era um assassino
galardoado talvez pela devassidão da vivandeira.
E bastou esse momento para a suppôr mobil d'uma infamia inaudita, a
ella, que momentos antes lhe pedia unicamente, a troco da liberdade
promettida, que a deixasse seguil-o como o fiel molosso seguia o cego
das Ardennas.
Era, porém, corajoso de mais para succumbir aos perigos d'uma traição.
Para logo se lhe accendeu o coração em labaredas do inferno, e se lhe
requeimou a garganta como a do tigre dos palmares quando tem sêde de
sangue.
Era, porventura, um soldado francez que o vinha apunhalar, de noite,
suppondo-o a dormir, talvez por ciume da barregã com quem passára a
noite, ou para vingar o odio que aquelle prisioneiro nutria contra os
francezes.
Não tinha armas, nem carecia d'ellas. Infamia por infamia. Luctaria
braço a braço, encarniçadamente, silenciosamente, até que um d'elles
ficasse prostrado.
Sentou-se no catre, com o joelho direito levantado, em posição de melhor
se poder erguer para responder á aggressão.
E com tão sinistro brilho lhe coriscavam os olhos, que o supposto
soldado francez, conhecendo de certo o que lhe ia na alma, impuzera
silencio com um gesto e dissera a alguns passos de distancia:
--Sou eu.
Graça Strech reconhecera Rosina.
O vulto que elle suppuzera um assassino transformára-se no anjo da
liberdade. Não lhe vinha trazer a morte; vinha restituir-lhe a vida.
Como poderia elle receiar a aggressão d'aquelle soldado franzino,
gentil, cujos olhos, por meigos e luminosos, trahiriam o segredo do seu
disfarce, cujos cabellos, ennovelados a um e outro lado, denunciavam as
tranças da mulher enroladas em cachos?
Visualidades d'imaginação doente, chimeras que o habito do soffrimento
cria, e a noite avulta.
--Sou eu, repetiu ella cada vez mais baixinho, e aproximando-se.