Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir

conversação, ataquei com desabrida alegria a Snr.^a D. Luiza, por ella

assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre

de mim! tão excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que

ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro

silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia,

providencial, se desculpou para com Jacintho de não ter peixe! Mas quê!

ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a não ser a

pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojão, com aquelle seu

modo, tão suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia

lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma

larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho

não sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio não se

admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro,

ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D.

Theotonio, não valiam dois mil réis. Se já não ha saveis!... E a

proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa,

entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as

senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio

cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sôpa até os frangos

guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem

alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a

interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia

encalhado no ascensor.

--Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O

Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandára o Grão-Duque

Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Grão-Duque... o Grão-Duque

Casimiro, o irmão do Imperador...

Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de

ervilhas:--e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado

ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu

contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol

feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo

quasi no poço do elevador... Mas não se produziu um unico riso, e a

attenção mesma era dada com esforço, por cortezia. Debalde eu

arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas,

misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados

comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poço

negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos.

E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais

regelada pela exclamação innocente da tia Vicencia:

--Oh! filho, que cousas!

Mas, como Jacintho se enfronhára de repente n'uma larga conversa com a

Luizinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora,--todos, como

libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas

conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava

mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que

definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o

jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questão

social d'esse tempo em Guiães, o casamento da D. Amelia Noronha com o

feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se

alargou um silencio,--e era Jacintho, que se debruçava, de copo na mão.

--Velho amigo Zé Fernandes, á tua! Muitos e bons, e sempre em companhia

de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.

Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se

ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhança. Eu acenei ao

Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de pé, atirando

para traz a sobrecasaca:

--Meus senhores, peço uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho,

que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela

primeira vez honra com a sua presença a sua querida patria! E que por cá

fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. Á tua, meu velho!

Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa

oratoria, positivamente, não incendiára as imaginações! A tia Vicencia

fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no

copo da sua visinha, a Luizinha Rojão, toda resplandecente, e mais

vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os

copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio

Adrião, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia

Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepára o erguer, o arrastar de

cadeiras,--quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto,

com a outra mão apoiada á mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma

voz respeitosa, quasi cava:

--Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!

Esvasiou o copo, como em religião, pontificando. Jacintho bebeu

assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,--eu dei o braço á

tia Albergaria.

E só comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de

café e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares

finos, que lhe valiam a alcunha de _Dr. Agudo_:--«Espero que ao menos,

cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...» E o mesmo fino olhar me

indicava o D. Theotonio, que arrastára Jacintho para entre as cortinas

d'uma janella, e discorria, com um ar de fé e de mysterio. Era o

miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um

hereditario, ferrenho, miguelista,--e na sua inesperada vinda ao seu

solar de Tormes, entrevia uma missão politica, o começo d'uma propaganda

energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na

reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti então a

suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleições

proximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas

n'aquelle moço, tão rico, de civilisação tão superior. Quasi entornei o

café, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello,

que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o

_Dr. Agudo_.

--Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes

trabalhar no miguelismo?

Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode á minha orelha:

--Até corre, como certo, que o Principe D. Miguel está com elle em

Tormes!

E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio--tão agudo!--confirmou:

--É o que corre... Disfarçado em creado!

Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso

veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom

Rebello logo invocou o seu testemunho.--Pois não corria, que o filho de

D. Miguel estava em Tormes, escondido?...

--Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello.

Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas

meditativas:

--Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o vêr.

Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas emfim, meu tio João Vaz

Rebello foi partido ás postas, a machado, nas prisões d'Almeida... E se

recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...

Emmudeceu. Jacintho, que se libertára do velho D. Theotonio, e ainda

conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim,

desabafar:

--Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma

ruga, as velhas e boas ideias...

Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu:

--É conforme o que V. Ex.^a chama _boas ideas_.

E eu agora, furioso com aquella disparatada invenção, que cercava

d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite

d'annos, intervim, vivamente:

--Tu jogas o voltarete, Jacintho? Não jogas... Então vamos arranjar duas

mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas.

E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam á sombra

da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se callavam,

parecia encolherem-se ante a apparição do meu Principe, como pombas

avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando á mulher do Dr.

Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera

grande prazer aquella occasião de conhecer as suas visinhas de Tormes...

Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho

admirára na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes.

Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para

substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarára

«affrontado», e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles

cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas

que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava,

bufando, como opprimido:

--Está abafado... Ainda temos trovoada!

E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada até casa, e

uma das egoas da caleche era escabriada, correu á janella, espreitar o

ceu, que ennegrecera, morno e pesado.

--Com effeito, vae cahir agoa.

As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as

cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as

senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria

appareceu, avisando o mano Jorge.

Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alypio,

puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse

a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado,

alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas,

annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente.

Voltando á sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que

se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua

chegada a Tormes, sem malas, sem creados, tão desprovido que dormira com

a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava,

desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada

com a volta á Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando

lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda

havia a remissa. E a tia Vicencia apressára o chá, que o Manoel seguido

pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir ás

senhoras. Jacintho, de pé, offerecendo chavenas, gracejava:

--Então tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha?

Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu

Principe:

--Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas...

--Sempre o queriamos vêr... se fosse agora para Tormes, com esta noite

cerrada!

O voltarete findára nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das

janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens

esperavam atreladas:

--Desce a cabeça da victoria, ó Diogo!

--Accende o lampeão, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.

A creada Quiteria chegava á porta com os braços carregados de chales, de

mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na

victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se

abrigar se a chuva viesse. E só o D. Theotonio, que tinha até casa

apenas meia legoa de estrada boa, se não apressava, filado outra vez no

meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas

profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas

a tia Albergaria gritou que já chovia;--e então foi uma pressa das

senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens,

na ante-camara, enfiavam açodadamente os paletós.

Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,--e

uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a

velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os

nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calçou as luvas

pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho:

--Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais

que se passar, algum bem resulte a esta terra!

Subindo a escada, o meu Principe desabafou:

--Este Theotonio é extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que

me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a

restauração de D. Miguel?!

--E tu?

--Eu fiquei tão espantado, que nem o desilludi!

--Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão

desconfiados, e receiam vêr de novo erguidas as fôrcas em Guiães! E

corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado

em creado. E sabes quem elle é? o Baptista!

--Isso é sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos.

Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes,

que ardiam ainda no silencio e paz do serão debandado:

--Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de

gelea, um calice de vinho do Porto!

--Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu

tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado...

Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero:

Não! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E tão simples...

Todas estas raparigas me pareceram optimas. E tão frescas, tão alegres!

Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista.

Então contamos á tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel

escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria...

--Mas o Snr. Jacintho, não é?

--Eu, minha senhora, sou socialista...

Acudi, explicando á tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A

doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:

--O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e até

amigo do Duque da Terceira...

Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:--e uma batega d'agoa

cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.

--Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... Até

estou com cuidado... As Rojões, que vão na victoria!

E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas

costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o

terço, com a Gertrudes.

XIV

Ao outro dia, depois d'almoço, eu e Jacintho montamos a cavallo para um

grande passeio até á Flôr da Malva, a saber de meu tio Adrião, e do seu

furunculo. E sentia uma curiosidade interessada, e até inquieta, de

testemunhar a impressão que daria ao meu Principe aquella nossa prima

Joanninha, que era o orgulho da nossa casa. Já n'essa manhã, andando

todos no jardim a escolher uma bella rosa chá para a botoeira do meu

Principe, a tia Vicencia celebrára com tanto fervor a belleza, a graça,

a caridade, e a doçura da sua sobrinha toda-amada, que eu protestei:

--Oh! tia Vicencia, olhe que esses elogios todos competem apenas á

Virgem Maria! A tia Vicencia está a cahir em peccado de idolatria! O

Jacintho depois vae encontrar uma creatura apenas humana, e tem um

desapontamento tremendo!

E agora, trotando pela facil estrada de Sandofim, lembrava-me aquella

manhã, no 202, em que Jacintho encontrára o retrato d'ella no meu

quarto, e lhe chamára uma _lavradeirôna_. Com effeito, era grande e

forte a Joanninha. Mas a photographia datava do seu tempo de viço

rustico, quando ella era apenas uma bella forte e sã planta da serra.

Agora entrava nos vinte e cinco, e já pensava, e sentia,--e a alma que

n'ella se formára, afinára, amaciára, e espiritualisava o seu esplendor

rubicundo.

A manhã, com o ceu todo purificado pela trovoada da vespera, e as terras

reverdecidas e lavadas pelos chuviscos ligeiros, offerecia uma doçura

luminosa, fina, fresca, que tornava doce, como diz o velho Euripedes ou

o velho Sophocles, mover o corpo, e deixar a alma preguiçar, sem pressa

nem cuidados. A estrada não tinha sombra, mas o sol batia muito de leve,

e roçava-nos com uma caricia quasi alada. O valle parecia a Jacintho,

que nunca ali passára, uma pintura da Escola Franceza do seculo XVIII,

tão graciosamente n'elle ondulavam as terras verdes, e com tanta paz e

frescura corria o risonho Serpão, e tão affaveis e promettedores de

fartura e contentamento alvejavam os casaes nas verduras tenras! Os

nossos cavallos caminhavam n'um passo pensativo, gosando tambem a paz da

manhã adoravel. E não sei, nunca soube, que plantasinhas silvestres e

escondidas espalhavam um delicado aroma, que eu tantas vezes sentira,

n'aquelle caminho, ao começar o outomno.

--Que delicioso dia! murmurou Jacintho. Este caminho para a Flôr da

Malva é o caminho do ceu... Oh Zé Fernandes, de que é este cheirinho tão

doce, tão bom?

Eu sorri, com certo pensamento:

--Não sei... É talvez já o cheiro do ceu!

Depois, parando o cavallo, apontei com o chicote para o valle:

--Olha, acolá, onde está aquella fila d'olmos, e ha o riacho, já são

terras do tio Adrião. Tem alli um pomar, que dá os pêcegos mais

deliciosos de Portugal... Hei de pedir á prima Joanninha que te mande um

cesto d'elles. E o dôce que ella faz com esses pêcegos, menino, é alguma

cousa de celeste. Tambem lhe hei de pedir que te mande o dôce.

Elle ria:

--Será explorar de mais a prima Joanninha. E eu (por que?) recordei e

atirei ao meu Principe estes dous versos d'uma ballada cavalheiresca,

composta em Coimbra pelo meu pobre amigo Procopio:

--Manda-lhe um servo querido,

Bem hajas dona formosa!

E que lhe entregue um annel

E com um annel uma rosa.

Jacintho rio alegremente:

--Zé Fernandes, seria excessivo, só por causa de meia duzia de pêcegos,

e d'um boião de dôce.

Assim riamos, quando appareceu, á volta da estrada, o longo muro da

quinta dos Vellosos, e depois a capellinha de S. José de Sandofim. E

immediatamente piquei para o largo, para a taverna do Tôrto, por causa

d'aquelle vinhinho branco, que sempre, quando por ali a levo, a minha

alma me pede. O meu Principe reprovou, indignado:

--Oh! Zé Fernandes, pois tu, a esta hora, depois d'almoço, vaes beber

vinho branco?

--É um costumesinho antigo... Aqui á taverninha do Tôrto... um

decilitrosinho... A almasinha assim m'o pede.

E paramos; eu gritei pelo Manoel, que appareceu, rebolando a sua grossa

pansa, sobre as pernas tortas, com a infusa verde, e um copo.

--Dous copos, Tôrto amigo. Que aqui este cavalheiro tambem aprecia.

Depois d'um pallido protesto, o meu Principe tambem quiz, mirou o

limpido e dourado vinho ao sol, provou, e esvasiou o copo, com delicia,

e um estalinho de alto apreço.

--Delicioso vinho!... Hei de querer d'este vinho em Tormes... É

perfeito.

--Hein? Fresquinho, leve, aromatico, alegrador, todo alma!... Encha lá

outra vez os copos, amigo Tôrto. Este cavalheiro aqui é o Snr. D.

Jacintho, o fidalgo de Tormes.

Então, de traz da umbreira da taverna, uma grande voz bradou, cavamente,

solemnemente:

--Bemdito seja o pae dos Pobres!

E um extranho velho, de longos cabellos brancos, barbas brancas, que lhe

comiam a face côr de tijolo, assomou no vão da porta, apoiado a um

bordão, com uma caixa de lata a tiracolo, e cravou em Jacintho dous

olhinhos d'um brilho negro, que faiscavam. Era o tio João Torrado, o

propheta da Serra... Logo lhe estendi a mão, que elle apertou, sem

despegar de Jacintho os olhos, que se dilatavam mais negros. Mandei vir

outro copo, apresentei Jacintho, que córára, embaraçado.

--Pois aqui o tem, o senhor de Tormes, que fez por ahi todo esse bem á

pobreza.

O velho atirou para elle bruscamente o braço, que sahia cabelludo e

quasi negro, d'uma manga muito curta.

--A mão!

E quando Jacintho lh'a deu, depois de arrancar vivamente a luva, João

Torrado longamente lh'a reteve com um sacudir lento e pensativo,

murmurando:

--Mão real, mão de dar, mão que vem de cima, mão já rara!

Depois tomou o copo, que lhe offerecia o Tôrto, bebeu com immensa

lentidão, limpou as barbas, deu um geito á correia que lhe prendia a

caixa de lata, e batendo com a ponta do cajado no chão:

--Pois louvado seja nosso Senhor Jesus Christo, que por aqui me trouxe,

que não o meu dia, e vi um homem!

Eu então debrucei-me para elle, mais em confidencia:

--Mas, ó tio João, ouça cá! Sempre é certo você dizer por ahi, pelos

sitios, que El-Rei D. Sebastião voltára?

O pittoresco velho apoiou as duas mãos sobre o cajado, o queixo

d'espalhada barba sobre as mãos, e murmurava, sem nos olhar, como

seguindo a percussão dos seus pensamentos:

--Talvez voltasse, talvez não voltasse... Não se sabe quem vae, nem quem

vem. A gente vê os corpos, mas não vê as almas que estão dentro. Ha

corpos d'agora com almas d'outr'ora. Corpo é vestido, alma é pessoa...

Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa,

quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros... Em ruim corpo se

esconde bom senhor!

E como elle findára n'um murmurio, eu, atirando um olhar a Jacintho, e

para gosarmos aquelles estranhos, pittorescos modos de vidente, insisti:

--Mas, ó tio João, você realmente, em sua consciencia, pensa que El-Rei

D. Sebastião não morreu na batalha?

O velho ergueu para mim a face, que se enrugára n'uma desconfiança:

--Essas cousas são muito antigas. E não calham bem aqui á porta do

Tôrto. O vinho era bom, e V. S.^a tem pressa, meu menino! A flôr da Flôr

da Malva lá tem o paesinho doente... Mas o mal já vae pela serra abaixo

com a inchação ás costas. Dá gosto vêr quem dá gosto aos tristes. Por

cima de Tormes ha uma estrella clara. E é trotar, trotar, que o dia está

lindo!

Com a magra mão lançou um gesto para que seguissemos. E já passavamos o

cruzeiro quando o seu brado ardente, de novo revoou, com solemnidade

cava:

--Bemdito seja o Pae dos Pobres.

Direito, no meio da estrada, erguia o cajado como dirigindo as

acclamações d'um povo. E Jacintho pasmava de que ainda houvesse no reino

um Sebastianista.

--Todos o somos ainda em Portugal, Jacintho! Na serra ou na cidade cada

um espera o seu D. Sebastião. Até a loteria da Misericordia é uma forma

do Sebastianismo. Eu todas as manhãs, mesmo sem ser de nevoeiro,

espreito, a vêr se chega o meu. Ou antes a minha, por que eu espero uma

D. Sebastiana... E tu, felizardo?

--Eu? Uma D. Sebastiana? Estou muito velho, Zé Fernandes... Sou o ultimo

Jacintho; Jacintho ponto final... Que casa é aquella com os dous

torreões?

--A Flôr da Malva.

Jacintho tirou o relogio:

--São tres horas. Gastamos hora e meia... Mas foi um bello passeio, e

instructivo. É lindo este sitio.

Sobre um outeirinho, afastada da estrada por arvoredo, que um muro

cerrava, e dominando, a Flôr da Malva voltava para Oriente e para o Sol

a sua longa fachada com os dous torreões quadrados, onde as janellas, de

varanda, eram emolduradas em azulejos. O grande portão de ferro, ladeado

por dous bancos de pedra, ficava ao fundo do terreirinho, onde um

immenso castanheiro derramava verdura e sombra. Sentado sobre as fortes

raizes descarnadas da grande arvore, um pequeno esperava segurando um

burro pela arreata.

--Está por ahi o Manoel da Porta?

--Ainda agora subio pela alameda.

--Bem: empurra lá o portão.

E subimos, por uma curta avenida de velhas arvores, até outro terreiro,

com um alpendre, uma casa de moços, toda coberta d'heras, e uma casota

de cão, d'onde saltou, com um rumor de corrente arrastada, um molosso, o

Tritão, que eu logo soceguei fazendo-lhe reconhecer o seu velho amigo Zé

Fernandes. E o Manoel da Porta correu da fonte, onde enchia um grande

balde, para nos segurar os cavallos.

--Como está o tio Adrião?

Surdo, o excellente Manoel sorrio, deleitado:

--E então vossa excellencia, bem? A Snr.^a D. Joanninha ainda agora

andava no laranjal com o pequeno da Josepha.

Seguimos por ruasinhas bem areadas, orladas d'alfazema e buxo alto, em

quanto eu contava ao meu Principe que aquelle pequenito da Josepha era

um afilhadinho da prima Joanna, e agora o seu encanto e o seu cuidado

todo.

--Esta minha santa prima, apesar de solteira, tem ahi pela freguezia uma

verdadeira filharada. E não é só dar-lhes roupas e presentes, e ajudar

as mães. Mas até os lava, e os penteia, e lhes trata as tosses. Nunca a

encontro sem alguma creancita ao collo... Agora anda na paixão d'este

Josésinho.

Mas quando chegamos ao laranjal, á beira da larga rua da quinta que

levava ao tanque, debalde procurei, e me embrenhei, e até gritei:--Eh,

prima Joanninha!...

--Talvez esteja lá para baixo, para o tanque...

Descemos a rua, entre arvores, que a cobriam com as densas ramas

encruzadas. Uma fresca, limpida agoa de rega corria e luzia n'um caneiro

de pedra. Entre os troncos, as roseiras bravas ainda tinham uma frescura

de verão. E o pequeno campo, que se avistava para além, rebrilhava com

doçura, todo amarello e branco, dos malmequeres e botões d'ouro.

O tanque, redondo, fôra esvasiado para se lavar, e agora de novo o

repuxo o ia enchendo d'uma agoa muito clara, ainda baixa, onde os peixes

vermelhos se agitavam na alegria de recuperarem o seu pequeno oceano.

Sobre um dos bancos de pedra que circumdavam o tanque pousava um cesto

cheio de dhalias cortadas. E um moço, que sobre uma escada podava as

camelias, vira a Snr.^a D. Joanna seguir para o lado da parreira.

Marchamos para a parreira, ainda toda carregada de uva preta. Duas

mulheres, longe, ensaboavam n'um lavadoiro, na sombra de grandes

nogueiras. Gritei:--Eh lá? Vocês viram por ahi a Snr.^a D. Joanna? Uma

das moças esganiçou a voz, que se perdeu no vasto ar luminoso e doce.

--Bem: vamos a casa! Não podemos farejar assim, toda a tarde.

--É uma bella quinta, murmurava o meu Principe encantado.

--Magnifica! E bem tratada... O tio Adrião tem um feitor excellente...

Não é o teu Melchior. Observa, aprende, lavrador! Olha aquelle

cebolinho!

A Cidade e as Serras · 第 15 / 17 段