--Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com

effeito, salvo o respeito que se deve á casa illustre dos Barbedos, é um

mostrengo! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem não

tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse,

por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos

nutritivos.

--Tu o disseste: espinafre!

--Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa é bonita... Mas, menino, que

horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca

leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o

tom com que se falla em D. Maria, em peças de sentimento. Tu tambem

nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas

pavorosas. «V. Ex.^a. Snr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me

disse esta, a indecente!

--E tu?

--Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma

excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas

de João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro

e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas.

Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que é uma belleza. Oh! uma creatura

esplendida! Mas, emfim, é a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos

deveres da Civilisação... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida

nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem

mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a

Mello Rebello, de Sandofim, muito engraçada, com cabello lindo... Borda

na perfeição, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia

tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro

mais. Mas falta a flôr da Serra, que é a minha prima Joanninha, da Flôr

da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.

--E tu, primo Zé, como tens tu resistido?

--Somos como irmãos, creados de pequeninos, mais acostumados e

familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe d'ella

era a unica irmã da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha,

quasi desde o berço que se creou em nossa casa, em Guiães. O pae é bom

homem, o tio Adrião. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona

toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes,

fivellas... Tem uma collecção curiosa. Elle ha muito que deseja vir a

Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, não póde

montar a cavallo. E a estrada da Flôr da Malva aqui é impossivel para

carruagens...

O meu Principe espreguiçára longamente os braços:

--Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia...

Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora

ando todo occupado com o meu povo.

E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e

grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para

o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras

mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa

commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de

pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.

Na taberna do Pedro, á entrada da freguezia, ia um desusado movimento,

de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;--e o Pedro, com

as mangas arregaçadas, por traz do balcão, não cessava de encher os

decilitros com uma vasta enfusa.

Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhãs cedo percorria

as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper

no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisação! O

plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado.

Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume

da serra, decidira pôr vidraças, apezar do mestre d'obras lhe dizer

honradamente, que depois d'habitadas um mez, não haveria casa com um só

vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;--e

eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do

Bom-senso, para não dotar cada casa com campainhas electricas. Nem

sequer me espantei, quando elle uma manhã me declarou que a porcaria da

gente do campo provinha de elles não terem onde commodamente se lavar,

pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos

n'esse momento, com os cavallos á redea, por uma azinhaga precipitada e

escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava

ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei--mas realmente me

pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam

alegremente do meu Principe. E além d'estes confortos, a que o João,

mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava «as

grandezas», Jacintho meditava o bem das almas. Já encommendára ao seu

architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria

erguer, n'aquelle campo da Carriça, junto á capellinha que abrigava «os

ossos». Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros

d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era

possivel ensinar a lêr. Eu vergava os hombros, pensando:--«Ahi vem a

terrivel accumulação das Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» Mas

outras idéas de Jacintho eram tocantes,--e eu mesmo me enthusiasmei, e

excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde

elle esperava ter manhãs muito divertidas vendo as creancinhas a

gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso

boticario de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena

pharmacia em Tormes, sob a direcção do seu praticante, um afilhado da

tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do

Douro no _Almanach de Lembranças_. E já fôra offerecido o partido medico

de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.

--Não te falta senão um Theatro! dizia eu, rindo.

--Um theatro não. Mas tenho a idéa d'uma sala, com projecções de

lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse

mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.

E tambem me ensoberbeci com esta innovação!--E quando a contei ao tio

Adrião, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada

tremenda na côxa. «Sim, senhor! Bella idéa! Assim se podia ensinar

áquella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a

Historia Romana, até a Historia de Portugal!...» E voltado para a prima

Joanninha, o tio Adrião declarou Jacintho um «homem de coração!»

E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe.

N'aquelle, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o

saudavam, se voltavam para o vêr ainda, havia uma seriedade d'oração, o

bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanças a quem

elle distribuia tostões, farejavam de longe a sua passagem,--e era em

torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com

grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham

medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapára, ao desembocar da

alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao

outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por

dedicação ensaibrar e alisar aquelle pedaço perigoso de caminho,

aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se

espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais edosos da freguezia não o

encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos

desdentados:--_Este é o nosso bemfeitor_! Por vezes, alguma velha corria

do fundo do eido, ou vinha á porta do casebre, ao avistal-o no caminho,

para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra

de bençãos! Que Deus o cubra de bençãos!»

Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande caçador) vinha

de Sandofim, na sua egoa ruça, a Tormes, para celebrar a missa na

Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os

Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o não suppuzessem

estranho a Deus. Quasi sempre então elle recebia presentes, que as

filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe á

varanda, e eram vasos de manjaricão, ou um grosso ramalhete de cravos, e

por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e

merengues de Guiães, ás raparigas e ás creanças,--e, no pateo, para os

homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio já sustentava

com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve

disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alypio. E eu proprio me

impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho

singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario,

vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no

alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D.

Sebastião, que voltára!

XII

Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um

Domingo. Toda essa semana a passára eu em Guiães, nos preparos da

vindima,--e de manhã cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruçar da

varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde

devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Zé

Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela

cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe «o

pessoal» da serra, convidára para jantar algumas familias amigas, dos

arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas

estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre,

no pateo, já enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo

ás dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flôr da Malva,

uma carta da prima Joanninha, em que dizia «a pena de não poder vir

porque o Papá estava desde a vespera com um leicenço, e ella não o

queria abandonar.» Corri indignado á cosinha, onde a tia Vicencia

presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa

terrina.

--A Joanninha não vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leicenço...

Aquelle tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou

para ter a pontada...

A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.

--Coitado! será em sitio que não se pudesse sentar na carruagem!

Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho

de folhas d'alecrim. É com que teu tio se dava bem.

Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pateo:

--Dize á Snr.^a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu lá

appareça ámanhã.

E voltei á janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito

atrazado, já cantára a meia hora depois das dez e o Principe tardava

para o almoço. Mas, mal eu me chegára á varanda, appareceu justamente na

volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo,

seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um

immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da velha egoa do

Melchior. Atraz, um moço com uma maleta á cabeça. E eu, na alegria de

avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia

dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em

Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós

bebemos tristemente _ad manes_, aos nossos mortos!

--_Salvè_! gritei da varanda. _Salvè, domine Jacinthi_!

E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!

--Isto por aqui tambem é lindo!--gritou elle de baixo. E o teu palacio

tem um soberbo ar... Por onde é a porta?

Mas eu já me precipitava para o pateo--onde Jacintho, apeando, contou

alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montára a cavallo, e não

cessára de berrar ante os perigos d'aquella aventura.

E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor

da sua negrura, exclamava, apontando com a mão tremula para a pobre

egoa, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas

mais immoveis que marcos:

--Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre

para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me

sacudir! Só para me sacudir!

E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa

contra a egoa, sobre o albardão.

Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua

janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente

a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas

feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da

tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a

commoda, e adornára a cama com uma das nossas colxas da India mais

ricas, côr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido.

Então estreitamos os ossos n'um grande abraço, pelo natalicio... «Trinta

e oito, hein, Zé Fernandes?»--«Trinta e quatro, animal!» E o meu

Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os

«nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulysses na

Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de

aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte,

e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a

prodigalidade.

--É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem á noite. E tomei a

liberdade de trazer esta lembrança á tua tia Vicencia. Não vale nada...

É só por ter pertencido á princeza de Lamballe.

Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e

quasi galante.

--A tia Vicencia não sabe quem é a princeza de Lamballe, mas ficará

encantada! E é uma garantia, por que ella suspeita da tua religião, como

homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao

almoço!

A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu

camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado

e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado

pedido «para se lembrar d'elle nas suas orações», duas largas rosas,

mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces

redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com

tão linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo

appetite de Jacintho, a enthusiasmada convicção com que elle,

accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de

forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha,

jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ella resplandecia:

--Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas

recheadas...

--Com certesa, minha senhora! até duas! As minhas rações, em mesas

d'estas, tão perfeitas, são sempre as de Gargantua.

--Não cites Rabelais, que a tia Vicencia não conhece os auctores

profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco cá da

nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.

E o almoço foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as

obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia

Vicencia, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joanninha, que

tinha o papá doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o

enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o creado poz ao lado

de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado

pau de canella. Não o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho

de canella!--Queria que elle, em Guiães, continuasse os seus habitos

como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopção do

meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.

Ella em breve recolheu á cosinha, aos preparativos do banquete. Nós

fumamos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a

recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario,

mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada

minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um pé

de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empallidecer, de

cançaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um

vago--«muito bonito! bella terra!»--é que voltei os passos para casa,

tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma

plantação d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro

romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o

empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe

mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. João I por Fernão

Lopes, a primeira edição do _Imperador Clarimundo_, uma _Henriada_, com

a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras

maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o

arrastei á adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em

relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram

quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando

n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a

ferocidade, declarei «que iriamos agora vêr a tulha.» Mas então, com as

mãos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creança:

--Não se me dava de me sentar um poucochinho!

Tive então piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz

de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se

atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando n'um

abatimento profundo:--«Bella propriedade!»

Consenti generosamente que elle adormecesse,--e eu mesmo desci a

verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda,

no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos,

escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no

pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha ruça. Espreitando

da janella descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob

o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da

tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava á pressa as suas

pulseiras ricas de topazios.

--Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... Não

se demore, os outros não tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de

gravata bem teza!... Vamos a vêr como corre a festa!

XIII

Ai de mim! a festa no meu anniversario não se passou com brilho, nem com

alegria!

Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti

as malas de Paris, abertas na vespera)--uma rosa branca no jaquetão

preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sêda

branca, tufando, e presa por uma perola negra,--já todos os convidados

estavam na sala,--o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o

gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta

da Loja--; todos de pé, n'um pellotão cerrado. Em torno do sophá onde a

tia Vicencia se installára, um magotesinho de cadeiras reunira as

senhoras,--a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sèda, que a tornava

mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riçado; as duas

Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoezas, ambas de

branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus

Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe,

d'esses paizes do Norte onde os Principes são magnificos, muito

distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto

de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram

contra o meu desgraçado Jacintho, como n'uma caçada hindú, quando á orla

da floresta surge o Tigre Real. Debalde,--nas confusas, apressadas

apresentações, com que eu o levava atravez da sala,--os seus apertos de

mão, os sorrisos, o vago murmurio, «da sua honra, do seu prazer» foram

repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros

permaneciam reservados, observando o Principe, que subira á serra: e as

senhoras mais se aconchegavam á sombra da tia Vicencia, como ovelhas á

volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei

o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros.

--O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae

da sua linda casa da Abrujeira.

O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de

velho brigadeiro:

--V. Ex.^a chegou directamente de Vienna?

Não! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D.

Theotonio insistiu:

--Mas certamente visita muitas vezes Vienna...

Jacintho sorria surprehendido:

--Vienna, porque?... Não. Ha mais de quinze annos que não vou a Vienna.

O fidalgo murmurou um lento _ah_! e ficou calado, de palpebras baixas,

como revolvendo analyses profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da

longa sobrecasaca azul.

Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alypio:

--O nosso Doutor, meu caro Jacintho, é o mais poderoso influente de todo

o districto.

O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um bello cabello preto,

admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do

sofá, chamava o meu Principe, porque o Manoel annunciára o jantar,

mudamente, mostrando apenas, á porta da sala, a sua corpulenta

pessoa,--inteiriçado e vermelho.

Á mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos

da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado,

fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou

entre a tia Vicencia e uma das Rojões, a Luizinha, sua afilhada, que,

por costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se collocava á

sombra da sua bôa madrinha. E a sôpa, que era de gallinha com macarrão,

foi comida n'um tão largo e pesado silencio que eu, na ancia de o

quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois

de tanto tempo e em minha própria casa:

--Deliciosa, esta sopa!

Jacintho echoou:

--Divina!!

Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a

excessiva admiração de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia,

mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu

bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida

portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei

que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e

gritei:

--Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris,

privado dos piteus lusitanos...

E como, ditosamente, me lembrára o prato de arroz doce preparado na

occasião do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a

historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce

continha _foie gras_, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a

bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz

doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessára

ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando

eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora,

insistindo, exclamando:--Extraordinario, hein?

D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o «cosinheiro sabia para

quem cosinhava.» E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando:

--Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!

A Cidade e as Serras · 第 14 / 17 段