Passamos pela horta, uma horta ajardinada, como a sonhára o meu

Principe, com os seus talhões debruados d'alfazema, e madresilva

enroscada nos pilares de pedra, que faziam ruasinhas frescas toldadas de

parra densa. E démos volta á capella, onde crescia aos dous lados da

porta uma roseira chá, com uma rosa unica, muito aberta, e uma moita de

baunilha, onde Jacintho apanhou um raminho para cheirar. Depois entramos

no terraço em frente da casa, com a sua balaustrada de pedra, toda

enrodilhada de jasmineiros amarellos. A porta envidraçada estava aberta:

e subimos pela escadaria de pedra, no immenso silencio em que toda a

Flôr da Malva repousava, até á ante-camara, d'altos tectos apainelados,

com longos bancos de pau, onde desmaiavam na sua velha pintura as

complicadas armas dos Cerqueiras. Empurrei a porta d'uma outra sala, que

tinha as janellas da varanda abertas, cada uma com a gaiola d'um

canario.

--É curioso!--exclamou Jacintho. Parece o meu Presepio... E as minhas

cadeiras.

E com effeito. Sobre uma commoda antiga, com bronzes antigos, pousava um

presepio semelhante ao da livraria de Jacintho. E as cadeiras de couro

lavrado tinham, como as que elle descobrira no sotão, umas armas sob um

chapéo de Cardeal.

--Oh senhores! exclamei. Não haverá um creado?

Bati as mãos, fortemente. E o mesmo doce silencio permaneceu, muito

largo, todo luminoso e arejado pelo macio ar da quinta, apenas cortado

pelo saltitar dos canarios nos poleiros das gaiolas.

--É o Palacio da Bella adormecida no bosque! murmurou Jacintho, quasi

indignado. Dá um berro!

--Não, caramba! Vou lá dentro!

Mas, á porta, que de repente se abrio, appareceu minha prima Joanninha,

córada do passeio e do vivo ar, com um vestido claro um pouco aberto no

pescoço, que fundia mais docemente, n'uma larga claridade, o explendor

branco da sua pelle, e o louro ondeado dos seus bellos

cabellos,--lindamente risonha, na surpreza que alargava os seus largos,

luminosos olhos negros, e trazendo ao collo uma creancinha, gorda e côr

de rosa, apenas coberta com uma camisinha, de grandes laços azues.

E foi assim que Jacintho, n'essa tarde de Septembro, na Flôr da Malva,

vio aquella com quem casou em Maio, na capellinha d'azulejos, quando o

grande pé de roseira se cobrira todo de rosas.

XV

E agora, entre roseiras que rebentam, e vinhas que se vindimam, já cinco

annos passaram sobre Tormes e a Serra. O meu Principe já não é o ultimo

Jacintho, Jacintho ponto final--por que n'aquelle solar que decahira,

correm agora, com soberba vida, uma gorda e vermelha Theresinha, minha

afilhada, e um Jacinthinho, senhor muito da minha amisade. E, pae de

familia, principiára a fazer-se monotono, pela perfeição da belleza

moral, aquelle homem tão pittoresco pela inquietação philosophica, e

pelos variados tormentos da phantasia insaciada. Quando elle agora, bom

sabedor das cousas da lavoura, percorria comigo a quinta, em solidas

palestras agricolas, prudentes e sem chimeras--eu quasi lamentava esse

outro Jacintho que colhia uma theoria em cada ramo d'arvore, e riscando

o ar com a bengala, planeava queijeiras de cristal e porcellana, para

fabricar queijinhos que custariam duzentos mil réis cada um!

Tambem a paternidade lhe despertára a responsabilidade. Jacintho possuia

agora um caderno de contas, ainda pequeno, rabiscado a lapis, com

falhas, e papeluchos soltos entremeados, mas onde as suas despezas, as

suas rendas se alinhavam, como duas hostes disciplinadas. Visitára já as

suas propriedades de Montemór, da Beira; e concertava, mobilava as

velhas casas d'essas propriedades para que os seus filhos, mais tarde,

crescidos, encontrassem «ninhos feitos». Mas onde eu reconheci que

definitivamente um perfeito e ditoso equilibrio se estabelecera na alma

do meu Principe, foi quando elle, já sabido d'aquelle primeiro e ardente

fanatismo da Simplicidade--entreabrio a porta de Tormes á Civilisação.

Dous mezes antes de nascer a Theresinha, uma tarde, entrou pela avenida

de platanos uma chiante e longa fila de carros, requisitados por toda a

freguesia, e acuculados de caixotes. Eram os famosos caixotes, por tanto

tempo encalhados em Alba de Tormes, e que chegavam, para despejar a

Cidade sobre a Serra. Eu pensei:--Mau! o meu pobre Jacintho teve uma

recahida! Mas os confortos mais complicados, que continha aquella

caixotaria temerosa, foram, com surpreza minha, desviados para os sotãos

immensos, para o pó da inutilidade: e o velho solar apenas se regalou

com alguns tapetes sobre os seus soalhos, cortinas pelas janellas

desabrigadas, e fundas poltronas, fundos sofás, para que os repousos,

por que elle suspirára, fossem mais lentos e suaves. Attribui esta

moderação a minha prima Joanninha, que amava Tormes na sua nudez rude.

Ella jurou que assim o ordenára o seu Jacintho. Mas, decorridas semanas,

tremi. Apparecera, vindo de Lisboa, um contra-mestre, com operarios, e

mais caixotes, para installar um telephone!

--Um telephone, em Tormes, Jacintho?

O meu Principe explicou, com humildade:

--Para casa de meu sogro!... Bem vês.

--Era rasoavel e carinhoso. O telephone porém, subtilmente, mudamente,

estendeu outro longo fio, para Valverde. E Jacintho, alargando os

braços, quasi supplicante:

--Para casa do medico. Comprehendes...

Era prudente. Mas, certa manhã, em Guiães, accordei aos berros da tia

Vicencia! Um homem chegára, mysterioso, com outros homens, trazendo

arame, para installar na nossa casa o novo invento. Soceguei a tia

Vicencia, jurando que essa machina nem fazia barulho, nem trazia

doenças, nem attrahia as trovoadas. Mas corri a Tormes. Jacintho sorrio,

encolhendo os hombros:

--Que queres? Em Guiães está o boticario, está o carniceiro... E,

depois, estás tu!

Era fraternal. Todavia pensei: Estamos perdidos! Dentro d'um mez temos a

pobre Joanna a apertar o vestido por meio d'uma machina! Pois não! o

Progresso, que, á intimação de Jacintho, subira a Tormes a estabelecer

aquella sua maravilha, pensando talvez que conquistára mais um reino

para desfear, desceu, silenciosamente, desilludido, e não avistamos mais

sobre a serra a sua hirta sombra côr de ferro e de fuligem. Então

comprehendi que, verdadeiramente, na alma de Jacintho se estabelecera o

equilibrio da vida, e com elle a Gran-Ventura, de que tanto tempo elle

fôra o principe sem Principado. E uma tarde, no pomar, encontrando o

nosso velho Grillo, agora reconciliado com a serra, desde que a serra

lhe dera meninos para trazer ás cavalleiras, observei ao digno preto,

que lia o seu _Figaro_, armado de immensos oculos redondos:

--Pois, Grillo, agora realmente bem podemos dizer que o Snr. D. Jacintho

está firme.

O Grillo arredou os oculos para a testa, e levantando para o ar os cinco

dedos em curva como petalas d'uma tulipa:

--S. ex.^a brotou!

Profundo sempre o digno preto! Sim! Aquelle resequido galho de Cidade,

plantado na serra, pegára, chupára o humus do torrão herdado, creára

seiva, afundára raizes, engrossára de tronco, atirára ramos, rebentára

em flôres, forte, sereno, ditoso, benefico, nobre, dando fructos,

derramando sombra. E abrigados pela grande arvore, e por ella nutridos,

cem casaes em redor a bemdiziam.

XVI

Muitas vezes Jacintho, durante esses annos, fallára com prazer n'um

regresso de dous, tres mezes, ao 202, para mostrar Paris á prima

Joanninha. E eu seria o companheiro fiel, para archivar os espantos da

minha serrana ante a Cidade! Depois conveio em esperar que o Jacinthinho

completasse dous annos, para poder jornadear sem desconforto, e

apontando já com o seu dedo para as cousas da Civilisação. Mas, quando

elle, em Outubro, fez esses dous annos desejados, a prima Joanninha

sentiu uma preguiça immensa, quasi aterrada, do comboio, do estridor da

Cidade, do 202, e dos seus esplendores. «Estamos aqui tão bem! está um

tempo tão lindo!» murmurava, deitando os braços, sempre deslumbrada, ao

rijo pescoço do seu Jacintho. Elle desistia logo de Paris, encantado.

«Vamos para Abril, quando os castanheiros dos Campos-Elyseos estiverem

em flôr!» Mas em Abril vieram aquelles cansaços que immobilisavam a

prima Joanninha no divan, ditosa, risonha, com umas pintas na pelle, e o

roupão mais solto. Por todo um longo anno estava desfeita a alegre

aventura. Eu andava então soffrendo de desoccupação. As chuvas de Março

promettiam uma farta colheita. Uma certa Anna Vaqueira, córada e bem

feita, viuva, que surtia as necessidades do meu coração, partira com o

irmão para o Brazil, onde elle dirigia uma venda. Desde o inverno,

sentia tambem no corpo como um começo de ferrugem, que o emperrava, e,

certamente, algures, na minha alma, nascera uma pontinha de bolor.

Depois a minha egoa morreu... Parti eu para Paris.

Logo em Hendaya, apenas pisei a doce terra de França, o meu pensamento,

como pombo a um velho pombal, voou ao 202,--talvez por eu vêr um enorme

cartaz em que uma mulher nua, com flôres bacchanticas nas tranças, se

estorcia, segurando n'uma das mãos uma garrafa espumante, e brandindo na

outra, para o annunciar ao Mundo, um novo modelo de saca-rolhas. E oh

surpresa! eis que, logo adeante, na estação quieta e clara de Saint

Jean-de-Luz, um moço esbelto, de perfeita elegancia, entra vivamente no

meu compartimento, e, depois de me encarar, grita:

--Eh, Fernandes!

Marizac! O duque de Marizac! Era já o 202... Com que reconhecimento lhe

sacudi a mão fina, por elle me ter reconhecido! E, atirando para o canto

do vagon um paletó, um masso de jornaes, que o escudeiro lhe passára, o

bom Marizac exclamava na mesma surpreza alegre:

--E Jacintho?

Contei Tormes, a serra, o seu primeiro amor pela Natureza, o seu outro

grande amor por minha prima, e os dous filhos, que elle trazia

escarranchados no pescoço.

--Ah que canalha! exclamou Marizac com os olhos espetados em mim! É

capaz de ser feliz!

--Espantosamente, loucamente... Qual! não ha adverbios...

--Indecentemente--murmurou Marizac muito serio. Que canalha!

Eu então desejei saber do nosso rancho familiar do 202. Elle encolheu os

hombros, accendendo a cigarette:

--Todo esse mundo circula...

--Madame d'Oriol?

--Continúa.

--Os Trèves? o Ephraim?

--Continuam, todos tres.

Lançou um gesto languido.

--Durante cinco annos, em Paris, tudo continúa... As mulheres com um

pouco mais de pós d'arroz, e a pelle um pouco mais molle, e melada. Os

homens com um tanto mais de dispepsia. E tudo segue. Tivemos os

Anarchistas. A princeza de Carman abalou com um acrobata do Circo de

Inverno... E--e voilà!

--Dornan?

--Continúa... Não o encontrei mais desde o 202. Mas vejo ás vezes o nome

d'elle, no _Boulevard_, com versos preciosos, obscenidades muito

apuradas, muito subtis.

--E o Psychologo?... Ora, como se chamava elle?...

--Continúa tambem. Sempre com as feminices a tres francos e cincoenta...

Duquezas em camisa, almas núas... Cousas que se vendem bem!

Mas quando eu, encantado, ia indagar de Todelle, do Grão-Duque, o

comboio entrou na estação de Biarritz:--e rapidamente, apanhando o

paletot e os jornaes, depois de me apertar a mão, o delicioso Marizac

saltou pela portinhola, que o seu creado abrira, gritando:

--Até Paris!... Sempre rue Cambori.

Então, no compartimento solitario, bocejei, com uma estranha sensação de

monotonia, de saciedade, como cercado já de gentes muito vistas,

murmurando historias muito sabidas, e cousas muito ditas, atravez de

sorrisos estafados. Dos dous lados do comboio era a longa planicie

monotona, sem variedade, muito miudamente cultivada, muito miudamente

retalhada, d'um verde de rezeda, verde cinzento e apagado, onde nenhum

lampejo, nem tom alegre de flôr, nem acidente do solo, desmanchavam a

mediocridade discreta e ordeira. Pallidos choupos, em renques pautados e

finos, bordavam canaesinhos muito direitos e claros. Os casaes, todos da

mesma côr pardacenta, mal se elevavam do solo, mal se destacavam da

verdura desbotada, como encolhidos na sua mediocridade e cautella. E o

ceu, por cima, liso, sem uma nuvem, com um sol descórado, parecia um

vasto espelho muito lavado a grande agoa, até que de todo se lhe safasse

o esmalte e o brilho. Adormeci n'uma doce insipidez.

Com que linda manhã de Maio entrei em Paris! Tão fresca e fina, e já

macia, que, apesar de cansado, mergulhei com repugnancia no profundo,

sombrio leito do Grand-Hotel, todo fechado de espessos velludos, grossos

cordões, pesadas borlas, como um palanque de gala. N'essa profunda cova

de pennas sonhei que em Tormes se construira uma torre Eiffel e que em

volta d'ella as senhoras da Serra, as mais respeitaveis, a propria tia

Albergaria, dançavam, núas, agitando no ar saca-rolhas immensos. Com as

commoções d'este pesadello, e depois o banho, e o desemmalar da mala, já

se acercavam as duas horas quando emfim emergi do grande portão, pisei,

ao cabo de cinco annos, o Boulevard. E immediatamente me pareceu que

todos esses cinco annos eu ali permanecera á porta do Grand-Hotel, tão

estafadamente conhecido me era aquelle estridente rolar da cidade, e as

magras arvores, e as grossas taboletas, e os immensos chapeus emplumados

sobre tranças pintadas d'amarello, e as empertigadas sobrecasacas com

grossas rosetas da legião d'honra, e os garotos, em voz rouca e baixa,

offerecendo baralhos de cartas obscenas, caixas de phosphoros

obscenas... Santo Deus! pensei, ha que annos eu estou em Paris! Comprei

então, n'um kiosque, um jornal, a Voz de Paris, para que elle me

contasse, durante o almoço, as novas da Cidade. A mesa do kiosque

desapparecia, alastrada de jornaes illustrados:--e em todos se repetia a

mesma mulher, sempre núa, ou meia despida, ora mostrando as costellas

magras, de gata faminta, ora voltando para o Leitor duas tremendas

nadegas... Eu outra vez murmurei:--Santo Deus! No café da Paz, o creado

livido, e com um resto de pó de arroz sobre a sua lividez, aconselhou ao

meu appetite, por ser tão tarde, um lingoado frito e uma costelleta.

--E que vinho, snr. Conde?

--Chablis, snr. Duque!

Elle sorrio á minha deliciosa pilheria,--e eu abri, contente, a Voz de

Paris. Na primeira columna, atravez d'uma prosa muito retorcida, toda em

brilhos de joia barata, entrevi uma Princesa núa, e um Capitão de

Dragões, que soluçava. Saltei a outras columnas, onde se contavam feitos

de cocottes de nomes sonoros. Na outra pagina escriptores eloquentes

celebravam vinhos digestivos e tonicos. Depois eram os crimes do

costume.--Não ha nada de novo! Puz de parte a Voz de Paris,--e então

foi, entre mim e o lingoado, uma lucta pavorosa. O miseravel, que se

frigira rancorosamente contra mim, não consentia que eu descollasse da

sua espinha uma febra escassa. Todo elle se ressequira n'uma sola

impenetravel e tostada, onde a faca vergava, impotente e tremula. Gritei

pelo môço livido, o qual, com faca mais rija, fincando no soalho os

sapatos de fivella, arrancou emfim áquelle malvado duas tirinhas, finas

e curtas como palitos, que engoli juntas, e me esfomearam. D'uma garfada

findei a costelleta. E paguei quinze francos com um bom luiz d'ouro. No

trôco, que o moço me deu, com a polidez requintada d'uma civilisação

muito diffundida, havia dous francos falsos. E por aquella dôce tarde de

Maio sahi para tomar no terraço um café côr de chapéo côco, que sabia a

fava.

Com o charuto acceso contemplei o Boulevard, áquella hora em toda a

pressa e estridor da sua grossa sociabilidade. A densa torrente dos

omnibus, calhambeques, carroças, parelhas de luxo, rolava vivamente,

como toda uma escura humanidade formigando entre patas e rodas, n'uma

pressa inquieta. Aquelle movimento continuado e rude bem depressa

entonteceu este espirito, por cinco annos affeito á quietação das serras

immutaveis. Tentava então, puerilmente, repousar n'alguma forma immovel,

omnibus parado, fiacre que estacára, n'um brusco escorregar da pileca:

mas logo algum dorso apressado se encafuava pela portinhola da tipoia,

ou um cacho de figuras escuras trepava sofregamente para o omnibus:--e,

rapido, recomeçava o rolar retumbante. Immoveis, de certo, estavam os

altos predios hirtos, ribas de pedra e cal, que continham,

disciplinavam, aquella torrente offegante. Mas da rua aos telhados, em

cada varanda, por toda a fachada, eram taboletas encimando taboletas,

que outras taboletas apertavam:--e mais me cançava o perceber a tenaz

incessancia do trabalho latente, a devorante canceira do lucro,

arquejante por traz das frontarias decorosas e mudas. Então, emquanto

fumava o meu charuto, extranhamente se apossaram de mim os sentimentos

que Jacintho outr'ora experimentára no meio da Natureza, e que tanto me

divertiam. Ali, á porta do café, entre a indifferença e a pressa da

Cidade, tambem eu senti, como elle no campo, a vaga tristeza da minha

fragilidade e da minha solidão. Bem certamente estava ali como perdido

n'um mundo, que me não era fraternal. Quem me conhecia? Quem se

interessaria por Zé Fernandes? Se eu sentisse fome, e o confessasse,

ninguem me daria metade do seu pão. Por mais afflictamente que a minha

face revelasse uma angustia, ninguem na sua pressa pararia para me

consolar. De que me serviriam tambem as excellencias d'alma, que só na

alma florescem? Se eu fosse um santo, aquella turba não se importaria

com a minha santidade; e se eu abrisse os braços e gritasse, ali no

Boulevard--«ó homens, meus irmãos!» os homens, mais ferozes que o lôbo

ante o Pobresinho d'Assis, ririam e passariam indifferentes. Dous

impulsos unicos, correspondendo a duas funcções unicas, parecia estarem

vivos n'aquella multidão,--o lucro e o gôso. Isolada entre elles, e ao

contagio ambiente da sua influencia, em breve a minha alma se

contrahiria, se tornaria n'um duro calhau de Egoismo. Do ser que eu

trouxera da Serra só restaria em pouco tempo esse calhau, e n'elle,

vivos, os dous appetites da Cidade,--encher a bolsa, saciar a carne! E

pouco a pouco as mesmas exagerações de Jacintho perante a Natureza me

invadiam perante a Cidade. Aquelle Boulevard reçumava para mim um bafo

mortal, extrahido dos seus milhões de microbios. De cada porta me

parecia sahir um ardil para me roubar. Em cada face, avistada á

portinhola d'um fiacre, suspeitava um bandido em manobra. Todas as

mulheres me pareciam caiadas como sepulchros, tendo só podridão por

dentro. E considerava d'uma melancolia funambulesca as fórmas de toda

aquella Multidão, a sua pressa aspera e vã, a affectação das attitudes,

as immensas plumas das chapeletas, as expressões postiças e falsas, a

pompa dos peitos alteados, o dorso redondo dos velhos olhando as imagens

obscenas das vitrines. Ah! tudo isto era pueril, quasi comico da minha

parte, mas é o que eu sentia no Boulevard, pensando na necessidade de

remergulhar na Serra, para que ao seu puro ar se me despegasse a crosta

da Cidade, e eu resurgisse humano, e Zé-Fernandico!

Então, para dissipar aquelle pesadume de solidão, paguei o café e parti,

lentamente, a visitar o 202. Ao passar na Magdalena, deante da estação

dos omnibus, pensei:--Que será feito de Madame Colombe? E, oh miseria!

pelo meu miseravel ser subiu uma curta e quente baforada de desejo bruto

por aquella besta suja e magra! Era o charco onde eu me envenenara, e

que me envolvia nas emanações subtis do seu veneno. Depois, ao dobrar da

rue Royale para a Praça da Concordia, topei com um robusto e possante

homem, que estacou, ergueu o braço, ergueu o vozeirão, n'um modo de

commando:

--Eh, Fernandes!

O Grão-Duque! O bello Grão-Duque, de jaquetão alvadio e chapeu tyrolez

côr de mel! Apertei com gratidão reverente a mão do Principe, que me

reconhecera.

--E Jacintho? Em Paris?...

Contei Tormes, a serra, o rejuvenescimento do nosso amigo entre a

Natureza, a minha dôce prima, e os bravos pequenos, que elle trazia ás

cavalleiras. O Grão-Duque encolheu os hombros, desolado:

--Oh lá, lá, lá!... Peuh! Casado, na aldeia, com filharada... Homem

perdido! Ora não ha!... E um rapaz util! que nos divertia, e tinha

gosto! Aquelle jantar côr de rosa foi uma festa linda... Não se fez, não

se tornou a fazer nada tão brilhante em Paris... E Madame d'Oriol...

Ainda ha dias a vi no Palacio de Gelo... Potavel, mulher ainda muito

potavel... Não é todavia o meu genero... Adocicada, leitosa, pommadada,

neve á la vanille!... Ora esse Jacintho!...

--E Vossa Alteza, em Paris com demora?

O formidavel homem baixou a face, franzida e confidencial:

--Nenhuma. Paris não se aguenta... Está estragado, positivamente

estragado... Nem se come! Agora é o Ernest, da Praça Gaillon, o Ernest,

que era maitre-d'hotel do Maire... Já lá comeu? Um horror. Tudo é o

Ernest, agora! Onde se come? No Ernest. Qual! Ainda esta manhã lá

almocei... Um horror! Uma salada Chambord... palhada, indecentemente

palhada! Não tem, não tem a noção da salada! Paris foi! Theatros, uma

estopada. Mulheres, hui! Lambidas todas. Não ha nada! Ainda assim, n'um

dos theatritos de Montmartre, na Roulotte, está uma revista, que se vê:

_Para cá as mulheres_!--engraçada, bem despida... A Celestine tem uma

cantiga, meia sentimental, meia porca, o _Amor no Water-Closet_, que

diverte, tem topete... Onde está, Fernandes?

--No Grand-Hotel, meu senhor.

--Que barraca!... E o seu Rei sempre bom?

Curvei a cabeça:

--Sua Magestade, bem.

--Estimo! Pois, Fernandes, tive prazer... Esse Jacintho é que me desola!

Vá vêr a Revista... Boas pernas, a Celestine... E tem graça o tal _Amor

no Water-Closet_.

Um rijissimo aperto de mão,--e S. Alteza subiu pesadamente para a

victoria, ainda com um aceno amavel, que me penhorou... Excellente

homem, este Grão-Duque! Mais reconciliado com Paris, atravessei para os

Campos-Elyseos. Em toda a sua nobre e formosa larguesa, toda verde, com

os castanheiros em flôr, corriam, subindo, descendo, velocipedes. Parei

a contemplar aquella fealdade nova, estes innumeraveis espinhaços

arqueados, e gambias magras, agitando-se desesperadamente sobre duas

rodas. Velhos gordos, de cachaço escarlate, pedalavam, gordamente.

Galfarros esguios, de tibias descarnadas, fugiam n'uma linha esfusiada.

E as mulheres, muito pintadas, de bolero curto, calções bufantes,

giravam, mais rapidamente ainda, no prazer equivoco da carreira,

escarranchadas em hastes de ferro. E a cada instante outras medonhas

machinas passavam, victorias e phaetons a vapor, com uma complicação de

tubos e caldeiras, torneiras e chaminés, rolando n'uma trepidação

estridente e pesada, espalhando um grosso fedor de petroleo. Segui para

o 202, pensando no que diria um grego do tempo de Phidias, se visse esta

nova belleza e graça do caminhar humano!...

A Cidade e as Serras · 第 16 / 17 段