esfregada, muito caiada, com um rodapé bezuntado d'azul estridente onde
logo adivinhei a obra do meu Principe. Uma toalha de linho de Guimarães
cobria a mesa, com as franjas roçando o soalho. No fundo dos pratos de
louça forte reluzia um gallo amarello. Era o mesmo gallo e a mesma louça
em que na nossa casa, em Guiães, se servem os feijões dos cavadores...
Mas no páteo os cães latiram. E Jacintho correu á varanda, com uma
ligeireza curiosa que me deleitou. Ah, bem definitivamente se
esfrangalhára aquella rede de malha que se não percebia e que outr'ora o
travava!--N'esse momento appareceu o Grillo, de quinzena de linho,
segurando em cada mão uma garrafa de vinho branco. Todo se alegrou «em
vêr na quinta o siô Fernandes». Mas a sua veneranda face já não
resplandecia, como em Paris, com um tão sereno e ditoso brilho de ebano.
Até me pareceu que corcovava... Quando o interroguei sobre aquella
mudança, estendeu duvidosamente o beiço grosso:
--O menino gosta, eu então tambem gósto... Que o ar aqui é muito bom,
siô Fernandes, o ar é muito bom!
Depois, mais baixo, envolvendo n'um gesto desolado a louça de Barcellos,
as facas de cabo d'osso, as prateleiras de pinho como n'um refeitorio de
Franciscanos:
--Mas muita magreza, siô Fernandes, muita magreza!
Jacintho voltava com um maço de jornaes cintados:
--Era o carteiro. Já vês que não amuei inteiramente com a Civilisação.
Eis a Imprensa!... Mas nada de _Figaro_, ou da horrenda _Dois-Mundos_!
Jornaes de Agricultura! Para aprender como se produzem as risonhas
messes, e sob que signo se casa a vinha ao olmo, e que cuidados
necessita a abelha provida... _Quid faciat laetas segetes_... De resto
para esta nobre educação, já me bastavam as _Georgicas_, que tu ignoras!
Eu ri:
--Alto lá! _Nos quoque gens sumus et nostrum Virgilium sabemus_!
Mas o meu novissimo amigo, debruçado da janella, batia as palmas--como
Catão para chamar os servos, na Roma simples. E gritava:
--Anna Vaqueira! Um copo d'agoa, bem lavado, da fonte velha!
Pulei, immensamente divertido:
--Oh Jacintho! E as aguas carbonatadas? e as phosphatadas? e as
esterilisadas? e as sodicas?...
O meu Principe atirou os hombros com um desdem soberbo. E acclamou a
apparição d'um grande copo, todo embaciado pela frescura nevada da agoa
refulgente, que uma bella moça trazia n'um prato. Eu admirei sobretudo a
moça... Que olhos, d'um negro tão liquido e serio! No andar, no quebrar
da cinta, que harmonia e que graça de Nympha latina!
E apenas pela porta desapparecera a explendida apparição:
--Oh Jacintho, eu d'aqui a um instante tambem quero agua! E se compete a
esta rapariga trazer as cousas, eu, de cinco em cinco minutos, quero uma
cousa!... Que olhos, que corpo... Caramba, menino! Eis a poesia, toda
viva, da serra...
O meu Principe sorria, com sinceridade:
--Não! não nos illudamos, Zé Fernandes, nem façamos Arcadia. É uma bella
moça, mas uma bruta... Não ha alli mais poesia, nem mais sensibilidade,
nem mesmo mais belleza do que n'uma linda vacca tourina. Merece o seu
nome de Anna Vaqueira. Trabalha bem, digere bem, concebe bem. Para isso
a fez a Natureza, assim sã e rija; e ella cumpre. O marido todavia não
parece contente, porque a desanca. Tambem é um bello bruto... Não, meu
filho, a serra é maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a
fêmea em toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoismo... São
porém verdadeiros, genuinamente verdadeiros! E esta verdade, Zé
Fernandes, é para mim um repouso.
Lentamente, gozando a frescura, o silencio, a liberdade do vasto
casarão, retrocedemos á sala que Jacintho já denominára a _Livraria_. E,
de repente, ao avistar n'um canto uma caixa com a tampa meio despregada,
quasi me engasguei, na furiosa curiosidade que me assaltou:
--E os caixotes? Oh Jacintho?... Toda aquella immensa caixotaria que nós
mandamos, abarrotada de Civilisação? Soubeste? Appareceram?
O meu Principe parou, bateu alegremente na côxa:
--Sublime! Tu ainda te lembras d'aquelle homemsinho, de sacco a
tiracollo, que nós admiramos tanto pela sua sagacidade, o seu saber
geographico?... Lembras? Apenas fallei em Tormes, gritou que conhecia,
rabiscou uma nota... Nem era necessario mais! «Oh! Tormes,
perfeitamente, muito antigo, muito curioso!» Pois mandou tudo para
Alba-de-Tormes, em Hespanha! Está tudo em Hespanha!
Cocei o queixo, desconsolado:
--Ora, ora... Um homem tão esperto, tão expedito, que fazia tanta honra
ao Progresso! Tudo para Hespanha!... E mandaste vir?
--Não! Talvez mais tarde... Agora, Zé Fernandes, estou saboreando esta
delicia de me erguer pela manhã, e de ter só uma escova para alisar o
cabello.
Considerei, cheio de recordações, o meu amigo:
--Tinhas umas nove...
--Nove? Tinha vinte! Talvez trinta! E era uma atrapalhação, não me
bastavam!... Nunca em Paris andei bem penteado. Assim com os meus
setenta mil volumes: eram tantos que nunca li nenhum. Assim com as
minhas occupações: tanto me sobrecarregavam, que nunca fui util!
* * * * *
De tarde, depois da calma, fomos vaguear pelos caminhos colleantes
d'aquella quinta rica, que, através de duas legoas, ondula por valle e
monte. Não m'encontrára mais com Jacintho em meio da Natureza, desde o
remoto dia d'entremez em que elle tanto soffrera no sociavel e policiado
bosque de Montmorency. Ah, mas agora, com que segurança e idyllico amor
elle se movia através d'essa Natureza, d'onde andára tantos annos
desviado por theoria e por habito! Já não arreceiava a humidade mortal
das relvas; nem repellia como impertinente o roçar das ramagens; nem o
silencio dos altos o inquietava como um despovoamento do Universo. Era
com delicias, com um consolado sentimento de estabilidade recuperada,
que enterrava os grossos sapatos nas terras molles, como no seu elemento
natural e paterno: sem razão, deixava os trilhos faceis, para se
embrenhar através de arbustos emaranhados, e receber na face a caricia
das folhas tenras; sobre os outeiros, parava, immovel, retendo os meus
gestos e quasi o meu halito, para se embeber de silencio e de paz: e
duas vezes o surprehendi attento e sorrindo á beira d'um regatinho
palreiro, como se lhe escutasse a confidencia...
Depois philosophava, sem descontinuar, com o enthusiasmo d'um
convertido, avido de converter:
--Como a intelligencia aqui se liberta, hein? E como tudo é animado
d'uma vida forte e profunda!... Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não ha
aqui pensamento...
--Eu?! Eu não digo nada, Jacintho...
--Pois é uma maneira de reflectir muito estreita e muito grosseira...
--Ora essa! Mas eu...
--Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro doutor...
--Que não sou!
--A vida é essencialmente Vontade e Movimento: e n'aquelle pedaço de
terra, plantado de milho, vae todo um mundo de impulsos, de forças que
se revelam, e que attingem a sua expressão suprema, que é a Fórma. Não,
essa tua philosophia está ainda extremamente grosseira...
--Irra! mas eu não...
--E depois, menino, que inesgotavel, que miraculosa diversidade de
fórmas... E todas bellas!
Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com reverencia. Na
Natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou repetido! Nunca duas
folhas d'hera, que, na verdura ou recorte, se assemelhassem! Na Cidade,
pelo contrario, cada casa repete servilmente a outra casa; todas as
faces reproduzem a mesma indifferença ou a mesma inquietação; as idéas
teem todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma fórma, como as libras;
e até o que ha mais pessoal e intimo, a Illusão, é em todos identica, e
todos a respiram, e todos se perdem n'ella como no mesmo nevoeiro... A
_mesmice_--eis o horror das Cidades!
--Mas aqui! Olha para aquelle castanheiro. Ha tres semanas que cada
manhã o vejo, e sempre me parece outro... A sombra, o sol, o vento, as
nuvens, a chuva, incessantemente lhe compõem uma expressão diversa e
nova, sempre interessante. Nunca a sua frequentação me poderia fartar...
Eu murmurei:
--É pena que não converse!
O meu Principe recuou, com olhares chammejantes, d'Apostolo:
--Como que não converse? Mas é justamente um conversador sublime! Está
claro, não tem ditos, nem parola theorias, _ore rotundo_. Mas nunca eu
passo junto d'elle que não me suggira um pensamento ou me não desvende
uma verdade... Ainda hoje quando eu voltava de pescar as trutas...
Parei: e logo elle me fez sentir como toda a sua vida de vegetal é
isenta de trabalho, da anciedade, do esforço que a vida humana impõe;
não tem de se preoccupar com o sustento, nem com o vestido, nem com o
abrigo; filho querido de Deus, Deus o nutre, sem que elle se mova ou se
inquiete... E é esta segurança que lhe dá tanta graça e tanta magestade.
Pois não achas?
Eu sorria, concordava. Tudo isto era de certo rebuscado e especioso. Mas
que importavam as requintadas metaphoras, e essa metaphysica mal madura,
colhida á pressa nos ramos d'um castanheiro? Sob toda aquella ideologia
transparecia uma excellente realidade--a reconciliação do meu Principe
com a Vida. Segura estava a sua Resurreição depois de tantos annos de
cova, da cova molle em que jazera, enfaixado como uma mumia nas faixas
do Pessimismo!
E o que esse Principe, n'esta tarde me esfalfou! Farejava, com uma
curiosidade insaciavel, todos os recantos da serra! Galgava os cabeços
correndo, como na esperança de descobrir lá do alto os esplendores nunca
contemplados d'um Mundo inedito. E o seu tormento era não conhecer os
nomes das arvores, da mais rasteira planta brotando das fendas d'um
socalco... Constantemente me folheava como a um Diccionario Botanico.
--Fiz toda a sorte de cursos, passei pelos professores mais illustres da
Europa, tenho trinta mil volumes, e não sei se aquelle senhor além é um
amieiro ou um sobreiro...
--É um azinheiro, Jacintho.
Já a tarde cahia quando recolhemos muito lentamente. E toda essa
adoravel paz do céo, realmente celestial, e dos campos, onde cada
folhinha conservava uma quietação contemplativa, na luz docemente
desmaiada, pousando sobre as cousas com um liso e leve affago, penetrava
tão profundamente Jacintho, que eu o senti, no silencio em que
cahiramos, suspirar de puro allivio.
Depois, muito gravemente:
--Tu dizes que na natureza não ha pensamento...
--Outra vez! Olha que massada! Eu...
--Mas é por estar n'ella supprimido o pensamento que lhe está poupado o
soffrimento! Nós, desgraçados, não podemos supprimir o pensamento, mas
certamente o podemos disciplinar e impedir que elle se estonteie e se
esfalfe, como na fornalha das cidades, ideando gozos que nunca se
realisam, aspirando a certezas que nunca se attingem!... E é o que
aconselham estas collinas e estas arvores á nossa alma, que vela e se
agita:--que viva na paz d'um sonho vago e nada appeteça, nada tema,
contra nada se insurja, e deixe o Mundo rolar, não esperando d'elle
senão um rumor de harmonia, que a emballe e lhe favoreça o dormir dentro
da mão de Deus. Hein, não te parece, Zé Fernandes?
--Talvez. Mas é necessario então viver n'um mosteiro, com o temperamento
de S. Bruno, ou ter cento e quarenta contos de renda e o desplante de
certos Jacinthos... E tambem me parece que andamos leguas. Estou
derreado. E que fome!
--Tanto melhor, para as trutas, e para o cabrito assado que nos
espera...
--Bravo! Quem te cosinha?
--Uma afilhada do Melchior. Mulher sublime! Has de ver a canja! Has de
ver a cabidella! Ella é horrenda, quasi anã, com os olhos tortos, um
verde e outro preto. Mas que paladar! Que genio!
Com effeito! Horacio dedicaria uma ode áquelle cabrito assado n'um
espeto de cerejeira. E com as trutas, e o vinho Melchior, e a cabidella,
em que a sublime anã de olhos tortos puzera inspirações que não são da
terra, e aquella doçura da noite de Junho, que pelas janellas abertas
nos envolveu no seu velludo negro, tão molle e tão consolado fiquei,
que, na sala onde nos esperava o café, cahi n'uma cadeira de verga, na
mais larga, e de melhores almofadas, e atirei um berro de pura delicia.
Depois, com uma recordação, limpando o café do pello dos bigodes:
--Ó Jacintho, e quando nós andavamos por Paris com o Pessimismo ás
costas, a gemer que tudo era illusão e dôr?
O meu Principe, que o cabrito tornára ainda mais alegre, trilhava a
grandes passadas o soalho, enrolando o cigarro:
--Oh! que engenhosa besta, esse Schopenhauer! E maior besta eu, que o
sorvia, e que me desolava com sinceridade! E todavia,--continuava elle,
remexendo a chavena--o Pessimismo é uma theoria bem consoladora para os
que soffrem, porque desindividualisa o soffrimento, alarga-o até o
tornar uma lei universal, a lei propria da Vida; portanto lhe tira o
caracter pungente d'uma injustiça especial, commettida contra o
soffredor por um Destino inimigo e faccioso! Realmente o nosso mal
sobretudo nos amarga quando contemplamos ou imaginamos o bem do nosso
visinho:--porque nos sentimos escolhidos e destacados para a
infelicidade, podendo, como elle, ter nascido para a Fortuna. Quem se
queixaria de ser côxo--se toda a humanidade coxeasse? E quaes não seriam
os urros, e a furiosa revolta do homem envolto na neve e friagem e
borrasca d'um inverno especial, organisado nos ceus para o envolver a
elle unicamente--em quanto em redor, toda a Humanidade se movesse na
luminosa benignidade d'uma Primavera?
--Com effeito, murmurei eu, esse sujeito teria immensa razão para
urrar...
--E depois, clamava ainda o meu amigo, o Pessimismo é excellente para os
Inertes, por que lhes attenua o desgracioso delicto da Inercia. Se toda
a meta é um monte de Dor, onde a alma vae esbarrar, para que marchar
para a meta, atravez dos embaraços do mundo? E de resto todos os Lyricos
e Theoricos do Pessimismo, desde Salomão até o maligno Schopenhauer,
lançam o seu cantico ou a sua doutrina para disfarçar a humilhação das
suas miserias, subordinando-as todas a uma vasta lei de Vida, uma lei
Cosmica, e ornando assim com a aureola de uma origem quasi divina as
suas miudas desgraçazinhas de temperamento ou de Sorte. O bom
Schopenhauer formúla todo o seu schopenhauerismo, quando é um philosopho
sem editor, e um professor sem discipulos; e soffre horrendamente de
terrores e manias; e esconde o seu dinheiro debaixo do sobrado; e redige
as suas contas em grego nos perpetuos lamentos da desconfiança; e vive
nas adegas com o medo de incendios; e viaja com um copo de lata na
algibeira para não beber em vidro que beiços de leproso tivessem
contaminado!... Então Schopenhauer é sombriamente Schopenhauerista. Mas
apenas penetra na celebridade, e os seus miseraveis nervos se acalmam, e
o cerca uma paz amavel, não ha então, em todo Francfort, burguez mais
optimista, de face mais jocunda, e gozando mais regradamente os bens da
intelligencia e da Vida!... E o outro, o Israelita, o muito pedantesco
rei de Jerusalem! quando descobre esse sublime Rhetorico que o mundo é
Illusão e Vaidade? Aos setenta e cinco annos, quando o Poder lhe escapa
das mãos tremulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se lhe torna
ridiculamente superfluo. Então rompem os pomposos queixumes! Tudo é
vaidade e afflicção de espirito! nada existe estavel sob o sol! Com
effeito, meu bom Salomão, tudo passa--principalmente o poder de usar
trezentas concubinas! Mas que se restitua a esse velho sultão asiatico,
besuntado de Litteratura, a sua virilidade,--e onde se sumirá o lamento
do Ecclesiastes? Então voltará, em segunda e triumphal edição, o extase
do _Livro dos Cantares_!...
Assim discursava o meu amigo no nocturno silencio de Tormes. Creio que
ainda estabeleceu sobre o Pessimismo outras coisas joviaes, profundas ou
elegantes;--mas eu adormecera, beatificamente envolto em Optimismo e
doçura.
Em breve porém, me fez pular, escancarar as palpebras molles, uma rija,
larga, sadia e genuina risada. Era Jacintho, estirado n'uma cadeira, que
lia o D. Quixote... Oh bem aventurado Principe! Conservára elle o agudo
poder de arrancar theorias a uma espiga de milho ainda verde, e por uma
clemencia de Deus, que fizera reflorir o tronco secco, recuperára o dom
divino de rir, com as facecias de Sancho!
Aproveitando a minha companhia, as duas semanas de bucolica occiosidade
que eu lhe concedera, o meu Jacintho preparou então a ceremonia tão
falada, tão meditada, a trasladação dos ossos dos velhos Jacinthos--dos
«respeitaveis ossos» como murmurava, cumprimentando, o bom Silverio, o
procurador, n'essa manhã de sexta feira, em que almoçava comnosco,
mettido n'um espantoso jaquetão de velludilho amarello debruado de seda
azul! A ceremonia, de resto, reclamava muita singeleza por serem tão
incertos, quasi impessoaes, aquelles restos, que nós estabeleceriamos na
Capellinha do valle da Carriça, na Capellinha toda nova, toda nua e toda
fria, ainda sem alma e sem calor de Deus.
--Por que emfim v. ex.^a comprehende,--explicava o Silverio passando o
guardanapo por sobre a larga face suada e por sobre as immensas barbas
negras, como as d'um turco--, n'aquella mixordia... Oh! peço desculpa a
v. ex.^a! N'aquella confusão, quando tudo desabou, não pudémos mais
conhecer a quem pertenciam os ossos. Nem sequer, fallando verdade, nós
sabiamos bem que dignos avós de v. ex.^a jaziam na capella velha, assim
tão antigos, com os letreiros apagados, senhores de todo o nosso
respeito, certamente, mas, se v. ex.^a me permitte, senhores já muito
desfeitos... Depois veio o desastre, a mixordia. E aqui está o que
decidi, depois de pensar. Mandei arranjar tantos caixões de chumbo,
quantas as caveiras que se apanharam lá em baixo na Carriça, entre o
lixo e o pedregulho. Havia sete caveiras e meia. Quero dizer, sete
caveiras e uma caveirinha pequenina. Mettemos cada caveira em seu
caixão. Depois... Que quer v. ex.^a? Não havia outro meio! E aqui o Snr.
Fernandes dirá se não acha que procedemos com habilidade. A cada caveira
juntamos uma certa porção d'ossos, uma porção rasoavel... Não havia
outro meio... Nem todos os ossos se acharam. Canellas, por exemplo,
faltavam! E é bem possivel que as costellas d'um d'aquelles senhores
ficasse com a cabeça d'outro... Mas quem podia saber? Só Deus. Emfim
fizemos o que a prudência mandava... Depois, no dia de Juizo, cada um
d'estes fidalgos apresentará os ossos que lhe pertencerem.
Lançava estas cousas macabras e tremendas, penetrado de respeito, quasi
com magestade, espetando, ora em mim, ora no meu Principe, os olhinhos
agudos e relusentes como vidrilhos.
Eu approvei o pittoresco homem:
--Perfeitamente! Andou perfeitamente, amigo Silverio. São tão vagos, tão
anonymos, todos esses avós! Só faz pena, grande pena, que se
tresmalhassem os restos do avô Galião.
--Não estava cá! accudiu Jacintho. Vim a Tormes expressamente por causa
do avô Galião, e por fim o seu jazigo nunca foi aqui, na Capellinha da
Carriça... Felizmente!
O Silverio saccudia gravemente a calva trigueira:
--Nunca tivemos o ex.^{mo} sr. Galião. Ha cem annos, Snr. Fernandes, ha
cem annos que se não depositava na capella velha corpo de cavalheiro cá
da casa.
--Onde estará então?...
O meu Principe encolheu os hombros. Por esse Reino... Na egrejinha, no
cemiterio d'alguma das freguezias numerosas, onde elle possuia terras.
Casa tão espalhada!
--Bem! conclui. Então, como se trata d'ossadas vagas, sem nome, sem
data, convem uma ceremoniasinha muito simples, muito sobria.
--Quietinha, quietinha! murmurou o Silverio, dando um forte sorvo
assobiado ao café.
E foi quietinha, d'uma rustica e doce singeleza, a ceremonia d'aquelles
altos senhores. Cedo, por uma manhã, levemente enevoada, os oito caixões
pequeninos, cobertos d'um velludo vermelho mais de festa que de funeral,
com molhos de rosas espalhados, contendo cada um o seu montesinho
d'ossos incertos, sahiram aos hombros dos coveiros de Tormes e dos moços
da quinta, da Egreja de S. José, cujo sino leve tangia, na enevoada
doçura da manhã,--quanto fina e levemente!--como pia um passarinho
triste. Adiante, um airoso moço de sobrepelis, erguia com zelo a velha
cruz prateada; abrigando o pescoço sob um immenso lenço de rapé, de
quadrados azues, o velho e corcovado sacristão segurava pensativamente a
caldeirinha d'agoa benta; e o bom abbade de S. José, com os dedos entre
o breviario fechado, movia os labios, n'uma lenta, murmurosa resa, que
ia, pelo doce ar, espalhando mais doçura. Logo atraz do ultimo cofre, o
mais pequenino, o da caveirinha pequena, Jacintho caminhava; e eu, a
estalar dentro d'um fato preto de Jacintho, tirado á pressa d'uma das
malas de Paris quando, de manhã, já tarde para mandar a Guiães, me
lembrei que toda a minha roupa era de cores festivaes e pastoris.
Depois marchava o Silverio, solemnissimo, com um immenso peitilho, onde
as barbas immensas se alastravam, negrissimas. De casaca, com o grosso
beiço descahido, descahido todo elle por aquella melancolia de enterro
que se juntava á melancolia da serra, o Grillo enfiava no braço a sua
coroa, enorme, de rosas e d'heras. Por fim seguia o Melchior, entre um
rancho de mulheres, que, sumidas na sombra dos lenços pretos, desfiando
longos rosarios, rosnavam surdas avè-marias, atravez d'espaçados
suspiros, tão doridos como se inconsoladamente lhes doesse a perda
d'aquelles Jacinthos. Assim, pelas varzeas entrecorridas de regueiros,
lenta nos recostos dos mattos, escorregando mais rapida, pelos corregos
pedregosos, seguia a procissão, sempre com a cruz adiante, alta e
prateada, rebrilhando por vezes n'um breve raiosinho de sol que,
vagarosamente, surdia da nevoa desfeita. Ramos baixos de lodão ou de
salgueiro passavam uma derradeira caricia sobre o velludo dos caixões.
Um regato por vezes nos acompanhava, com discreto fulgir entre as
relvas, sussurrando e como resando tambem, alegremente: e nos
quintalinhos umbrosos, á nossa passagem, os gallos, de cima das pilhas
de matto, faziam soar o seu clarim festivo. Depois, adiante da fonte da
Lira, como o caminho se alongava, e desejassemos poupar o nosso velho
abbade, cortamos atravez d'uma seara, já alta, quasi madura, toda
entremeada de papoulas, O sol radiou: sob a brisa larga, que levára a
nevoa, toda a messe ondulou n'uma lenta vaga dourada, em que se
balouçavam os esquifes; e, como enorme papoula, a mais vermelha,
rutilava o guarda sol de panninho logo aberto pelo sacristão para
abrigar o abbade.
Jacintho tocou no meu cotovello:
--Que lindos vamos! Ora vê tu a Natureza... N'um simples enterrar
d'ossos, quanta graça e quanta belleza!
Na Capellinha, nova, dominando o valle da Carriça, solitaria e muito
nua, no meio d'um adro, ainda mal alisado, sem uma verdura de relva, uma
frescura d'arbusto, dous moços seguravam á porta molhos de tochas, que o
Silverio distribuiu, a passos graves, com cortezias, solemnissimo.
Dentro as curtas chammas, mal luziam, mal derramavam a sua amarellidão
triste, esbatidas na relusente brancura dos muros estucados, na jovial
claridade que cahia das altas vidraças bem polidas. Em torno dos
esquifes, pousados sobre bancos, que pesados velludilhos recobriam, o
abbade murmurava um suave latim, emquanto ao fundo as mulheres, sumidas
na sombra dos seus negros lenços, gemiam _amens_ agudos, abafavam um
respeitoso soluço. Depois, tomando levemente o hyssope, ainda o bom
abbade aspergiu, para uma derradeira purificação, os incertos ossos dos
incertos Jacinthos. E todos desfilamos por diante do meu Principe,
timidamente encostado á umbreira, com o Silverio ao lado esmagando
contra o peitilho as barbas immensas, a face descahida, cerradas as
palpebras como contendo lagrimas.
No adro, o meu Principe accendeu regaladamente um cigarro pedido ao
Melchior:
--E então, Zé Fernandes, que te pareceu a ceremoniasinha?
--Muito campestre, muito suave, muito risonha... Uma delicia.
Mas o Abbade, que se desvestira na Sachristia, appareceu, já com o seu
grande casaco de lustrina, e seu velho chapeu desabado, trazidos pelo
moço da Residencia, n'um sacco de chita. Jacintho, immediatamente lhe
agradeceu tantos cuidados, a affavel hospitalidade que offerecera aos
ossos, durante a construcção da Capellinha nova. E o suave velho, todo
branquinho, de faces ainda menineiras e coradas, com um claro sorriso de
dentes sadios, louvava Jacintho, que assim viera de tão longe, em tão
longa jornada, para cumprir aquelle dever de bom neto.
--São avós muito remotos, e agora tão confusos! murmurava Jacintho
sorrindo.
--Pois mais merito ainda o de v. ex.^a. Respeitar um avô morto, bem é
corrente... Mas respeitar os ossos d'um quinto avô, d'um setimo avô!